Leia o texto para responder à questão.
Por 1895, não sei bem como, achei-me estudando Direito na Faculdade de Paris, ou melhor, não estudandob. Vagabundo da minha mocidade, após ter tentado vários fins para a minha vida e de todos igualmente desistido – sedento de Europa, resolvera transportar-me à grande capital. Logo me embrenhei por meios mais ou menos artísticos, e Gervásio Vila-Nova, que eu mal conhecia de Lisboa, volveu-se-me1 o companheiro de todas as horas. Curiosa personalidade essa de grande artista falido, ouantes, predestinado para a falência.c
Perturbava o seu aspecto físico, macerado2 e esguio. Os cabelos compridos, se lhe descobriam a testa ampla e dura, terrível, evocavam cilícios3, abstenções roxas; se lhe escondiam a fronte, ondeadamente, eram só ternura, perturbadora ternura de espasmos dourados e beijos sutisa. Trajava sempre de preto, fatos4 largos, onde havia o seu quê de sacerdotal – nota mais frisantemente5 dada pelo colarinho direto, baixo, fechado. Não era enigmático o seu rosto – muito pelo contrário – se lhe cobriam a testa os cabelos ou o chapéu. Entanto, coisa bizarra, no seu corpo havia mistério – corpo de esfinge, talvez, em noites de luar. Aquela criatura não se nos gravava na memória pelos seus traços fisionômicos, mas sim pelo seu estranho perfil.d Em todas as multidões ele se destacava, era olhado, comentado – embora, em realidade, a sua silhueta à primeira vista parecesse não se dever salientar notavelmente: pois o fato era negro – apenas de um talhe um pouco exagerado –, os cabelos não escandalosos, ainda que longos; e o chapéu, um bonet6 de fazenda – esquisito, era certo –, mas que em todo o caso muitos artistas usavam, quase idêntico.
Porém, a verdade é que em redor da sua figura havia uma auréola. Gervásio Vila-Nova era aquele que nós olhamos na rua, dizendo: ali, deve ir alguém.e
(Mário de Sá-Carneiro. A confissão de Lúcio. 2004. Adaptado)
Vocabulário:
1 transformou-se no meu.
2 sofrido.
3 túnicas, cintos ou cordões de crina, trazidos sobre a pele para mortificação ou penitência.
4 roupas.
5 marcadamente.
6 boné.
Poeta sempre e acima de tudo, inclusive nas obras em prosa, Sá-Carneiro plasmou pela primeira vez em Língua Portuguesa realidades até então insuspeitadas. Para tanto, violentou a ineficaz e espartilhante gramática tradicional e passou a usar uma sintaxe e um vocabulário novos, que lhe permitissem manipular fórmulas expressivas pessoais, plásticas, maleáveis e aptas a surpreender […] as sinestesias mais inusitadas, as associações mais inesperadas.
Com base na análise apresentada, uma passagem do texto que exemplifica “as sinestesias mais inusitadas, as associações mais inesperadas” é: