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4198671 Ano: 2026
Disciplina: Português
Banca: UERJ
Orgão: UERJ
Com base no texto apresentado, responda à questão.

Misoginia disfarçada de autoajuda

Liberdade de expressão é bem diferente do ódio às mulheres, bandeira de grupos adeptos da Supremacia Masculinista

O Fórum Brasileiro de Segurança Pública divulgou a pesquisa Visível e Invisível, que mostrou o

crescimento de todas as formas de violência contra a mulher em 2022. Apenas nesse ano, mais de

18,6 milhões de mulheres de 16 anos ou mais foram agredidas verbal ou fisicamente. Se todas

buscassem o apoio do Estado, estaríamos falando de um estádio de futebol lotado com mais de 50 mil

pessoas diariamente.

A pesquisa também mostrou que 33,4% das mulheres brasileiras já sofreram violência física ou sexual

provocada por um companheiro ou ex-companheiro íntimo ao longo da vida, resultado bastante

superior à média mundial, estimada em 27%, segundo a Organização Mundial da Saúde. Também na

última semana, a atriz e humorista Livia La Gatto foi ameaçada de morte após postar uma paródia que

zombava de perfis masculinistas nas redes sociais. Thiago Schutz, influencer que se autointitula

“coach de masculinidade” e liderança do movimento Redpill, escreveu: “Você tem 24 horas para retirar

seu conteúdo sobre mim. Depois disso é processo ou bala. Você escolhe.” Mas, afinal, o que isso tem

a ver com o crescimento da violência de gênero no Brasil? E o que a difusão desses grupos

extremistas diz sobre o Brasil de hoje?

O termo Redpill faz referência a uma cena do filme de ficção científica Matrix, no qual o protagonista

tem a escolha de tomar uma pílula azul e continuar vivendo na ilusão, ou tomar a pílula vermelha e

descobrir a realidade. Segundo o movimento masculinista, a realidade seria um mundo em que as

mulheres são privilegiadas, interesseiras e aproveitadoras, e os redpills, os homens que se opõem a

esse sistema que favoreceria mulheres. Segundo a pesquisadora Michele Prado, autora do

livro Redpill – radicalização e extremismo, essa é uma metáfora muito utilizada pela extrema direita em

todo o mundo.

De modo geral, o movimento masculinista prega, por meio de discursos de ódio, a submissão feminina

e o resgate da virilidade masculina, valorizando um ideal de comportamento violento e predador dos

homens, que teriam perdido sua posição no topo da cadeia alimentar. As dicas e ensinamentos para

os seguidores, disseminados em vídeos, livros e cursos, variam de pregações sobre os propósitos

masculinos serem superiores aos femininos, não estabelecer relacionamentos amorosos e até como

controlar a libido para não ficar refém das mulheres.

No Brasil, um estudo da ONG Safernet mostrou a expansão de grupos que propagam crimes de ódio

nas redes. Entre 2021 e 2022, as denúncias de misoginia tiveram aumento de 184%, as de

intolerância religiosa, de 522%, e as de xenofobia, de 821%. Considerando os anos eleitorais, a

central brasileira da organização denuncia o crescimento constante dos crimes de ódio desde 2018.

Não parece surpresa, portanto, que estejamos noticiando o crescimento acentuado de diferentes

formas de violência física e sexual contra mulheres. O indicador de desigualdade de gênero do Fórum

Econômico Mundial, o Global Gender Gap Report, colocou o Brasil, em sua edição mais recente, no

94º lugar em uma lista de 146 países. Em 2013, ocupávamos a 62ª posição. O Brasil piorou para nós

mulheres quando a busca pela igualdade de gênero tornou-se um problema para parcela da

população e dos grupos políticos no poder.

Não há, portanto, como dissociar a ascensão da extrema direita no Brasil do momento que vivemos.

Ao mesmo tempo em que o movimento feminista foi galgando conquistas fundamentais para os

direitos e a proteção das mulheres, tal como a Lei Maria da Penha, a reação dos movimentos

ultraconservadores tem sido no sentido de tentar anular essas conquistas. E essa reação não ocorreu

apenas no mundo virtual. Reverberou na política pública, quando um Ministério da Família foi criado e

praticamente zerou os recursos orçamentários voltados às políticas de enfrentamento à violência

contra a mulher. Traduziu-se em um deslocamento da política pública federal, que deixou de olhar

para a mulher como sujeito de direitos e passou a priorizar a família, ainda que esta fosse, muitas

vezes, a fonte da violência (8 em cada 10 feminicídios no Brasil foram praticados pelo parceiro íntimo

da vítima). Materializou-se na vida doméstica, com o crescimento exponencial da violência dentro de

casa.

Disfarçada de autoajuda, a misoginia presente nas falas de influencers de grupos masculinistas tem

resultados práticos nas vidas das mulheres: 7,4 milhões de mulheres foram agredidas fisicamente com

tapas, socos e chutes no ano passado. Isso equivale a catorze agressões físicas por minuto. Outras

3,4 milhões foram espancadas ou sofreram tentativas de estrangulamento, e 3,3 milhões sofreram

ameaças com faca ou arma de fogo. Esse é o resultado de uma sociedade que retrocede em relação

aos direitos das mulheres e não prioriza políticas focadas na equidade de gênero. Uma sociedade

que, pouco a pouco, vai se tornando permissiva ao transformar em liberdade de expressão o ódio às

mulheres.

Samira Bueno. 2023. Disponível em: https://piaui.folha.uol.com.br/misoginia-disfarcada-de-autoajuda/. Acesso em: 21 jan. 2026 (adaptado).

O trecho “passou a priorizar a família, ainda que esta fosse, muitas vezes, a fonte da violência” (l. 45-46) mantém o mesmo significado que tem no texto ao ser reescrito como:

 

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