Entre o bizarro e o extraordinário
Ao se deparar com cientistas fazendo cócegas em ratos, você pode se revoltar com o desperdício de tempo e dinheiro em
algo que à primeira vista não traz retorno para a sociedade. Para muitos, a ciência só tem valor se tiver aplicação imediata e
evidente.
Acontece que existe um valor inerente ao conhecimento que muitas vezes não se revela em uma única pesquisa. A chamada “ciência básica”, que se dedica a investigar os fundamentos de fenômenos naturais, pode viabilizar soluções para problemas complexos.
Pesquisadores que passaram anos fazendo cócegas em ratos, por exemplo, compreenderam melhor as respostas neurológicas à alegria e ao prazer, ao identificar vocalizações ultrassônicas comparáveis às gargalhadas humanas. Uma descoberta
que nos ajuda a desvendar mistérios como: por que sentimos cócegas? Por que algumas partes do corpo são mais sensíveis?
Ao investigar o córtex somatossensorial dos ratos, responsável por receber e processar informações sensoriais, os cientistas identificaram células que respondiam às cócegas e a outros estímulos, como brincadeiras. Se ansiosos, os ratos sentiam
menos cócegas e a atividade dessas células era reduzida. São achados que ajudam a compreender a base neurobiológica das
emoções positivas e abrem caminho para tratamentos contra a ansiedade e a depressão.
Não por acaso, o prêmio IgNobel, uma sátira ao Nobel, homenageia pesquisas aparentemente bizarras que “fazem as
pessoas rirem e depois pensarem”. Entre os premiados estão estudos que avaliaram os fenômenos físicos responsáveis pelos
escorregões em cascas de banana; o motivo pelo qual pica-paus não têm dor de cabeça; por que os cocôs de pequenos marsupiais são cúbicos, entre outros.
Na história da ciência não faltam exemplos de descobertas revolucionárias que nasceram de pesquisas “inúteis”. Depois
de anos investigando uma espécie de água-viva bioluminescente, o químico Osamu Shimomura conseguiu isolar a proteína
fluorescente verde (GPF), feito que provocaria uma revolução na medicina. Com os avanços da engenharia genética, cientistas
passaram a inserir o gene que comanda a produção da GFP em células e em animais de laboratório, permitindo rastrear processos celulares em tempo real. A descoberta rendeu o Nobel de Química ao cientista, tornando-se uma ferramenta fundamental na criação de tratamentos e diagnósticos para seres humanos.
Analisar se o bocejo é contagioso entre tartarugas pode parecer estúpido, mas testar essa hipótese ajuda a entender as
origens evolutivas do comportamento social e da empatia. Pesquisas estranhas que tratam de hábitos humanos também podem
gerar aplicações que vão da psicologia à economia, a exemplo de um estudo holandês que mostrou como a vontade de urinar
influencia a tomada de decisões.
Na próxima vez que você ler a respeito de uma pesquisa aparentemente excêntrica, tente resistir ao impulso de julgá-la:
esteja aberto a se surpreender com a capacidade de transformar o improvável em conhecimento.
(Disponível em: https://www1.folha.uol.com.br. Acesso em: agosto de 2025. Adaptado.)