“As plantas viam o jardineiro como as plantas veem. Não
se sentiam agradecidas. Tratavam o seu regador à
semelhança da chuva que caía sobre elas nas noites de
Outono. Florescerem não era o seu meio de meterem conversa
com o jardineiro, mas uma forma de acentuarem a sua
indiferença à declaração de amor que ele cultivava a cada
hora.
Tanto lhes fazia serem cuidadas por um assassino, se
eram sujas as mãos que as amparavam ou o que viera antes
do amor que ele lhes dedicava.
Seguiam-no com seu olhar sem julgamento, alheias a que,
todas as manhãs, Celestino acordava por elas. Vigiavam os
seus passos, pressentiam a sua presença, alegravam-se de o
ver, conheciam as suas rotinas. Sem que por um instante lhe
sentissem a falta, ou se afligissem com as suas ausências
ocasionais.
Por maiores que fossem os cuidados do jardineiro, às
plantas tanto lhes fazia viver ou morrer. Tanto lhes dava que
ele se finasse no sono ou voltasse ao quintal todos os dias.
Tanto lhes dava que tivesse encontrado nelas uma razão de
viver ou as amasse.
Se lhes faltasse a rega, murchariam. Não seria por mal, não
o levavam a mal. Nada esperavam dele.”
Djaimilia Pereira de Almeida, A visão das plantas.