Texto II
O Natal e o Ano Novo que a mídia vende
Todos os anos, entre novembro e janeiro, o mesmo ritual se repete: vitrines decoradas com neve
artificial em um país tropical, trilhas sonoras natalinas ecoando em shopping centers, seguidas por
contagens regressivas e promessas de recomeço. Uma avalanche de campanhas publicitárias promete
transformar a compra do presente perfeito em prova irrefutável de amor, enquanto o réveillon surge
como palco obrigatório para demonstrar sucesso, alegria e otimismo. A imprensa, entrelaçada a
esse mecanismo, atua simultaneamente como vitrine, termômetro e promotora de um fenômeno que
movimenta bilhões de reais e, paradoxalmente, endivida milhões de famílias. O Natal e o Ano Novo
contemporâneos, tais como nos são apresentados pelos meios de comunicação, revelam menos sobre
a celebração de valores transcendentes ou sobre renovação genuína do que sobre as contradições de
uma sociedade que aprendeu a confundir afeto com capacidade de consumo e esperança com poder
de compra.
A questão não é recente, mas merece ser revisitada a cada ciclo, sobretudo quando se observa
o papel central que a mídia desempenha na construção e manutenção desse modelo. Não se trata
apenas de publicidade explícita, aquela que reconhecemos como tal e da qual podemos, ao menos
teoricamente, manter distância crítica. O incentivo ao consumo nessa temporada opera em planos mais
sutis e, por isso mesmo, mais eficazes: matérias jornalísticas sobre tendências de presentes, pesquisas
que revelam quanto os brasileiros pretendem gastar (criando um parâmetro de normalidade), guias de
compras apresentados como serviço ao leitor, reportagens sobre destinos de réveillon e o que vestir na
virada do ano, coberturas sobre a movimentação do comércio que naturalizam a equação festividades-igual-consumo. A fronteira entre conteúdo editorial e publicitário se dilui estrategicamente, e o resultado
é uma narrativa coesa que transforma o ato de comprar em imperativo moral e social.
Problematizar essa dinâmica não significa demonizar o comércio, condenar quem compra presentes ou vai à praia na virada do ano, ou propor a extinção dessas datas como celebrações coletivas. Significa,
isto sim, criar espaço para que a sociedade possa refletir criticamente sobre os significados e as práticas
que construiu em torno delas. Significa reconhecer que o modelo atual serve a determinados interesses
econômicos, mas não necessariamente ao bem-estar coletivo ou individual. E significa, para a imprensa
em particular, assumir que seu papel não pode se limitar a ser correia de transmissão de uma lógica
econômica que ela mesma, em momentos de autocrítica episódica, reconhece como problemática.
Uma imprensa que naturaliza a mercantilização de todas as dimensões da vida, inclusive as mais
íntimas, afetivas e relacionadas à esperança e ao futuro, contribui para a perpetuação de um modelo
insustentável em múltiplas dimensões.
ALBERTONI, Ramsés. O Natal e o Ano Novo que a mídia vende. In: Observatório da Imprensa, edição 1369, 18 de
dezembro de 2025. Disponível em: https://www.observatoriodaimprensa.com.br/consumo/o-natal-e-o-ano-novo-que-a-midiavende/. Acesso em: 28 dez. 2025. (Fragmento)
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