Qual a maior compulsão?
As mulheres sempre tiveram mais de um sapato, uma
porção de pares, para revezar o máximo possível com as
suas roupas. Trata-se de uma variedade incrível para
lidar com cada estilo e ocasião.
É a síndrome mansa de Imelda Marcos dentro de cada
uma delas — Imelda é mãe do presidente das Filipinas,
ex-primeira-dama, que se vangloria de possuir mais de
3.000 pares de sapatos em 95 anos de existência.
Mulher costuma ser uma centopeia. A minha esposa
acumula cerca de 200 pares de calçados. Jamais contei
um por um, porque desejo me manter casado.
Beatriz sofre para se desfazer de um modelo único e
insubstituível, ao qual se afeiçoou ao longo do tempo,
confortável em seus dedos e leal aos obstáculos dos
mais complexos pisos. Assim sendo, só entram peças lá
em casa, dificilmente saem.
Já o homem tem um ou dois pares de sapatos para seus
compromissos sociais. Não mais do que isso. É lacônico
nas suas vestes sisudas.
Só que eu percebi que ele encontrou uma maneira
disfarçada de imitar as mulheres: pelos tênis.
Homem nunca exibe um só par de tênis. Acabou com
seu passado franciscano. Ele deu para colecionar. Não
termina de consumir.
A diferença é que ele não procura os mais baratos.
Quanto mais caros, melhor. Age na contramão da
economia, do custo-benefício. Vem gastando o seu
salário com o fetiche, muito mais do que mulheres
gastam com os sapatos.
Vejo amigos desfilando diariamente com tênis novos.
Não repetem o par na manhã seguinte. De tão comuns e recorrentes que são as estreias, perdeu a graça batizar
com uma pisadinha.
Eles não se contentam, como nas décadas de 1960 e
1970, com um monotemático, para simplesmente andar,
permanecendo com ele de modo insanamente exclusivo
e fiel, até furar a sola, até estrebuchar a língua, até
corroer os cadarços. Atingiram o patamar da compulsão:
querem ostentar.
O homem é hoje a Imelda Marcos dos tênis.
Fabrício Carpinejar - Texto Adaptado
https://www.otempo.com.br/opiniao/fabricio-carpinejar/2025/2/14/qual-a
-maior-compulsao