O cinema nunca foi totalmente mudo. Só não tinha fala. Som, sempre teve. É quase que instintivo, natural, do homem associar som a imagens, e vice-versa. No cinema, só imagem ou só som causava estranhamento, assim como hoje causa-nos desconforto assistir a uma projeção muda, a não ser que seja pelo interesse histórico. (...)
Uma das conquistas do cinema sonoro foi a descoberta do silêncio — o silêncio de quando se espera ou se imagina uma coisa. No tempo do silencioso, ignorava-se o silêncio: havia sempre, nas salas de projeção, o pano de boca da orquestrinha, como hoje o pano de fundo musical. Me ocorre tudo isso ao ver Frenesi, o último filme de mestre Hitchcock, que, Deus o abençoe, não criou mofo com a velhice. Há, neste filme, uma esquina terrivelmente silenciosa, sem ninguém. E uma escada deserta, por onde sente-se que o silêncio vai subindo. Um truque da objetiva, sim, mas pura magia do mestre. Aliás, o silêncio é que torna tão impressionante — tão de outro mundo — uma rua numa tela. Que torna tão encantadoras as crianças daquelas cenas familiares pintadas pelo velho Renoir. E, mesmo lendo-se um romance, ouvindo-se um drama, nós o fazemos em um silêncio de almas desencarnadas, isto é, quando nos vemos livres de nós mesmos. Esse, o milagre da arte. E, diante disto, bem se poderia dizer que toda a arte é feita de silêncio — inclusive a música.
Mário Quintana. Poesia completa. Rio de Janeiro: Aguilar, 2005, p. 558.
Tendo como referência o fragmento de texto apresentado, de Mário Quintana, julgue o próximo item.
Parte da beleza do texto escrito por Mário Quintana reside no vínculo dialético que o autor estabelece entre silêncio e som.