Para responder às questões 01 a 10, leia o texto abaixo.
Modo avião
1 A brevidade de todas as coisas me assusta. Há
2 anos falamos sobre a obsolescência programada de
3 produtos que são feitos com prazo de validade,
4 incitando uma recompra, e ultimamente temos insistido
5 veementemente na ideia de que ninguém tem paciência
6 pra nada. Entretanto, mais urgente ainda, parece ser a
7 questão de que hoje tudo é raso e tem uma vida útil tão
8 rápida que mal pode ser chamada de vida. Estamos
9 vivendo em tempos de império absoluto do efêmero.
10 Não faz muito que o conceito de "cancelamento"
11 encontrou o dicionário popular. Fulano comete um
12 erro, beltrano expõe (quase sempre na internet), e uma
13 multidão de cicranos massacram fulano até que haja
14 uma nova pessoa para ser perseguida. Porém, este é
15 um ciclo breve, assim como grande parte do que se
16 experiencia atualmente. Ninguém lembra de quem foi
17 cancelado semana passada porque todo mundo está
18 preocupado em cancelar o assunto do momento. Da
19 mesma forma, ninguém lembra da subcelebridade que
20 entrou para o hall da fama semana retrasada por algo
21 tão trivial que somente o brasileiro é capaz de dar
22 protagonismo. De tempos em tempos, alimentamos
23 fofocas a ponto de inventar pessoas que não fizeram
24 muito para estar onde estão algo que tenho
25 chamado de Celeiro dos Alucinados.
26 A história da passageira que se recusou a oferecer
27 o assento na janela para uma criança e que foi gravada
28 e exposta na internet é um bom exemplo. Prestes a
29 atingir 3 milhões de seguidores nas redes - a metade
30 do que tem Fernanda Montenegro, por exemplo, a
31 anônima que virou famosa de supetão colhe os frutos
32 de uma sociedade que inventa heróis para viverem o
33 que não se tem coragem de viver. "Minha meta é ter a
34 calma dessa mulher", foi um dos comentários mais
35 curtidos no vídeo que viralizou recentemente. Ou seja,
36 ninguém quer procurar as próprias formas de trabalhar
37 a calma. É mais fácil encontrá-la nos outros porque a
38 idealização é um atalho formidável.
39 A comparação de seguidores de uma
40 subcelebridade cuja fama é passageira com uma atriz
41 com 80 anos de carreira como Fernanda Montenegro
42 não é em vão. Até porque, a diferença é justamente
43 essa: 80 anos de construção de história que serão
44 lembrados por muito tempo. Para Fernanda, prazo de
45 validade não existe mesmo após a morte, ficará o
46 legado. E o que vemos, então, é um amontoado de
47 pessoas que ganham visibilidade por dancinhas
48 replicadas em massa, rotinas compartilhadas sem o
49 mínimo de fundamento, vivências sendo vendidas
50 como "criação de conteúdo" sendo que o conteúdo é
51 inexistente. Vivemos um eco que perturba justamente
52 porque reverbera o vazio da maior parte de tudo aquilo
53 que consumimos.
54 Em tempos de carros voadores (ao menos, foi o
55 que imaginamos lá atrás para os dias de hoje),
56 idolatramos atitudes que deveriam ser normais e
57 criamos ídolos que não existem para esquecermos
58 deles logo depois. Abraçamos o instantâneo porque,
59 afinal, quem tem paciência (ou enxerga vantagens e
60 lucro) em criar um legado que é construído lentamente,
61 mas que é sempre continuo?
62 Estamos tão imersos пo modo avião,
63 desconectados das coisas relevantes e mirando
64 holofotes em referências que passam longe de uma
65 solidez, que a cultura do instantâneo parece ser um
66 acalento, quando na verdade é uma armadilha. Basta
67 ver: viralizar por conseguir dizer "não" é simbólico e
68 sintomático, um resumo impecável das faltas que
69 existem dentro da gente.
Autor: Pedro Guerra (GZH).
No texto, o autor utiliza a expressão Celeiro dos Alucinados (l.25) para: