QUERIDO ÉRICO
Lygia Fagundes Telles
Érico Veríssimo, meu querido:
Tão prontamente aceitei o convite para escrever uma página sobre você, com tanta alegria fui dizendo sim que em seguida nem pude me lamentar pelo que paguei — pelo que tenho pago sempre por essa minha face arrebatada e fácil no sentido de não calcular. Não prever os cipós nos quais acabo me enrolando todas as vezes que saio do meu gênero e faço outra coisa que não seja nitidamente a minha ficção. Fico insegura. Gauche. E então? Medo de ser pedante. Medo de ser sentimental. Aceitam os senhores da Globo um conto com Érico na pele de personagem principal? – tive vontade de perguntar.
Como descobrir a palavra exata, num depoimento tão pessoal, sem tocar nas detestáveis pontas que pareciam me aguardar com a implacabilidade do monstro de duas cabeças desafiando o viajante na encruzilhada? A cabeça da direita — a da razão — soltando fogo e fumo pelas narinas, a cabeça da esquerda — a do coração — soltando a mesma massa espessa de fumaça e chamas, tão perigosas quanto as da sua irmã gêmea. Nem possessa nem lúcida.
Sentei-me diante da folha em branco, tirei do copo de pedra minha caneta Bic e fiquei olhando, através da transparência plástica, a veia estática de tinta vermelha — sangue do pensamento ainda não pensado. E então? — perguntei-me ainda naquele estado de perplexidade que me faz crepúsculo, nem dia nem noite, mas uma coisa ambígua à espera do milagre de uma definição. A caneta plena e eu oca. E essa ideia do conto? Hein? Não serve um conto?...
Nem pedante nem sentimental, que ele não merece isso, repeti e fiquei sorrindo, porque nesse instante senti que você sorriu também. O sorriso foi se transformando num riso lento e descontraído, sem nenhuma ironia, apenas divertido. Rimos juntos enquanto tomei um café e acendi meu cigarro: você tem razão, Érico, por que a palavra exata? Lá sei por onde andará a palavra exata, tão melhor usar nosso habitual diálogo, testemunho de que não só a arte é diálogo, mas principalmente a amizade. E como amizade também é memória, quero me estender à margem do rio do Passado Mais que Perfeito e ficar olhando a correnteza com a mesma antiga voz e a mesma cor, em meio do alarido delirante do presente [...]. Sou raiz que se apega e sou folha que se abandona nessa evocação orientada apenas pela terna vigilância de quem escreve a um amigo com a espontaneidade de poder dizer lá no alto: meu querido.
Érico Veríssimo, meu querido, é manhã e estamos no ano de 1943. [...] Concorri à vaga da Academia de Letras da escola [...] e a primeira coisa que me ocorreu fazer foi convidar você e Cecília Meireles para uma conferência na nossa Academia. [...]
No dia da sua chegada, não pudemos sequer ir buscá-lo no aeroporto. [...] Não, ninguém tinha carro nem nada, os motorizados da Faculdade não liam.
Sugeri que lhe déssemos uma pequena lembrança após a conferência [...] E, terminada a sessão, não seria interessante oferecer um uísque ao romancista? [...] Em que casa seria essa reunião?
Lembrei-me de telefonar a Mário de Andrade: estava viajando. Fomos procurar Oswald de Andrade, que nos recebeu com o maior calor, mas esfriou quando um colega deu sua baixaria: já que o Mário não estava em São Paulo, quem sabe ele, Oswald, poderia?... Uma reuniãozinha simpática, com uma dúzia de pessoas, quem sabe... Não podia, não. Estava fortemente implicado com o gaúcho, que tinha dois defeitos irremovíveis: primeiro, não se definia politicamente, quer dizer, não caíra nos braços do partido quando devidamente sondado. “Mas é possível uma coisa dessas? Num momento como este que atravessamos, um escritor ficar indiferente? Apático?! E bebemos mais um copo de cerveja, “enquanto Oswald passava ao segundo item da sua implicância. Então desatamos a rir, porque era mesmo engraçado, aquilo de ele se invocar com romancista por ser um romancista feliz. “Ele é feliz demais, não pode! Vende os livros, joga tênis e se casou, e continua casado a vida inteira com uma mulher só, é abusar! Ele ainda está casado com a mesma?”, perguntou e, antes mesmo de ouvir a resposta, explodiu: “O dia em que ele comer o pão que o diabo amassou, nesse dia escreverá um grande livro, e eu lhe oferecerei uma festa. Mas antes tem que ficar desesperado, rasgado, preso e corneado até pelo cachorro”.
Artista é todo aquele que bebe fel e querosene — concluí, enquanto assistia a uma aula de Legislação Social, onde sempre me entregava a pensamentos sobre Deus, a arte e a morte, etecetera. Esse e outros preconceitos adquiri e perdi com o tempo: foi na carne que senti, um dia, o julgamento de um crítico, que ficou uma fúria comigo porque eu escrevia coisas mórbidas e em seguida ia fazer ginástica e jogar voleibol na Associação Cristã dos Moços. Mas como é que pode?
“O bom romancista é ao mesmo tempo um anjo e um cavalão, trabalha com as asas (as coisas mais finas, mais espirituais, mais belas) e com as patas, isto é, trabalho braçal, a resistência física e a paciência cavalar. Mas confio acima de tudo no Instinto. Que o anjo trabalhe montado no cavalo. E que no fim desapareça de todo a marca das patas e fique apenas a luz das asas. Bonito, não?”
Você dizia que não gostava nem de tango, nem de gato, nem de cachorro. Mas gostava de Bach, de criança e de cavalo. Eram os primeiros elementos de um gaúcho tranquilo que não dançava tango, mas tinha a cara do próprio. De um gaúcho discreto, de fala baixa, riso breve e fácil comunicação com o público, como ficou provado naquela noite de invierno, quando nos disse que acreditava, acima de tudo, na trilogia tão batida da verdade, da bondade e da beleza. Durante um dos debates que promovemos, um estudante lhe fez uma pergunta, não me lembro da pergunta, mas me lembro da sua resposta: “sou apenas um contador de histórias”.
Fiquei meio chocada: estava no começo da carreira e minha autoconfiança e meu orgulho não aceitavam esse tipo de confissão. Um simples contador de histórias?
A um entrevistador que lhe fazia perguntas agudíssimas William Faulkner respondeu de repente; “Sou fazendeiro, moço”. O entrevistador um crítico formado em Harvard, ficou histérico: “Escritor, diga escritor!” Então ele sorriu e se levantou para ir embora: “Sou fazendeiro”. Mas nessa época eu ainda não tinha lido essa entrevista, que poderia ter me impressionado. Nessa época, eu ainda tateava no ofício: tamanho despojamento não fazia mesmo sentido diante da minha ambição.
É difícil encontrar uma criatura tão coerente no seu comportamento de absoluta fidelidade a si próprio e aos outros, aqueles nos quais você acreditou. Sua gente. Seus amigos. Sua música. Seus livros — ah, com que amor você se devotou ao seu doce mundo. Já naquele distante 1943 você parecia saber que o importante é cuidar da rosa do nosso jardim. Sem, contudo, se ausentar sem se omitir. E em algum momento você ficou indiferente aos problemas do nosso povo? Ao sofrimento desse povo?
Assinale a opção em que o enunciador remete ao título de uma das obras de Érico Veríssimo.