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Do sonho e da terra
Por Ailton Krenak
O rio Doce, que nós, os Krenak, chamamos de Watu, nosso avô, é uma pessoa, e não um
recurso, como dizem os economistas. Ele não é algo de que alguém possa se apropriar; é uma
parte da nossa construção como coletivo que habita um lugar específico, onde fomos
gradualmente confinados pelo governo para podermos viver e reproduzir as nossas formas de
organização.
Falar sobre a relação entre o Estado brasileiro e as sociedades indígenas a partir do
exemplo do povo Krenak surgiu como uma inspiração para contar a quem não sabe o que
acontece hoje no Brasil com essas comunidades — estimadas em cerca de 250 povos e
aproximadamente 900 mil pessoas, população menor do que a de grandes cidades brasileiras.
O que está na base da história do nosso país, que continua a ser incapaz de acolher os
seus habitantes originais — sempre recorrendo a práticas desumanas para promover mudanças
em formas de vida que essas populações conseguiram manter por muito tempo, mesmo sob o
ataque feroz das forças de ordem colonial, que até hoje sobrevivem na mentalidade cotidiana de
muitos brasileiros —, é a ideia de que os índios deveriam estar contribuindo para o sucesso de
um projeto de exaustão da natureza.
O Watu, esse rio que sustentou a nossa vida às margens do rio Doce, entre Minas Gerais
e o Espírito Santo, numa extensão de seiscentos quilômetros, está todo coberto por um material
tóxico que desceu de uma barragem de contenção de resíduos, o que nos deixou órfãos e
acompanhando o rio em coma. Faz um ano e meio que esse crime — que não pode ser chamado
de acidente — atingiu as nossas vidas de maneira radical, nos colocando na real condição de um
mundo que acabou.
(Disponível em: Krenak, A. Ideias para adiar o fim do mundo. Companhia das Letras: 2019 – texto adaptado especialmente para essa prova).
I. A oração principal do fragmento é “O rio Doce é uma pessoa”.
II. O fragmento “que nós, os Krenak, chamamos de Watu, nosso avô” é uma oração subordinada adjetiva restritiva.
III. As estruturas “os Krenak” e “nosso avô” são, ambas, apostos explicativos.
Quais estão corretas?