Leia o texto.
A sociedade
Salvatore Melli alinhou algarismos torcendo a bigodeira. Falou como homem de negócios que enxerga longe. Demonstrou cabalmente as vantagens econômicas de sua proposta.
– O doutor...
– Eu não sou doutor, Senhor Melli.
– Parlo assim para facilitar. Non é para ofender. Primo o doutor pense bem. E poi me dê a sua resposta. Ma pense bem!
Renovou a proposta e repetiu os argumentos pró. O Conselheiro José Bonifácio de Matos e Arruda possuía uns terrenos em São Caetano. Cousas de herança. Não lhe davam renda alguma. Melli tinha a sua fábrica ao lado. 1.200 teares. 36.000 fusos. Constituíam uma sociedade. O conselheiro entrava com os terrenos. Melli com o capital. Arruavam os trinta alqueires e vendiam logo grande parte para os operários da fábrica. Lucro certo, mais que certo, garantidíssimo.
– É. Eu já pensei nisso. Mas sem capital o senhor compreende é impossível...
– Per Bacco, doutor! Mas io tenho o capital. O capital sono io. O senhor entra com o terreno e mais nada. E o lucro se divide no meio.
O capital acendeu um charuto. O conselheiro coçou os joelhos disfarçando a emoção.
– Dopo o doutor me dá a resposta. Io só digo isto: Pense bem.
Nesse texto do período modernista, Alcântara Machado aborda a mescla de línguas decorrente da imigração no Brasil, no final do século XIX, e o processo de integração entre os aristocratas paulistanos e os imigrantes, no caso, os italianos. Designando a personagem Salvatore Melli com a expressão “O capital” (“O capital acendeu um charuto...”), o enunciador se vale de um recurso estilístico cujo efeito de sentido é,