Cresci brincando no chio entre formigas. De uma
infância livre e sem comparamentos. Eu tinha mais
comunhão com as coisas do que comparação. Porque se a
gente fala a partir de ser criança, a gente faz comunhão de
um orvalho e sua aranha, de uma tarde e suas garças, de um
pássaro e sua árvore. Então eu trago de minhas raízes crianceiras a visão comungante e obliqua das coisas. Eu sei
dizer sem pudor que o escuro me ilumina. É um paradoxo
que ajuda a poesia e que eu falo sem pudor. Eu tenho que
essa visão obliqua vem de eu ter sido criança em algum lugar
perdido onde havia transfusão da natureza e comunhão com
ela. Era o menino e os bichinhos. O menino e o rio. Era o
menino e as arvores.
BARROS, Manoel de. Meu quintal é maior do que o mundo. Rio de Janeiro: Objetiva. 2025
Com base nas ideias e nos aspectos gramaticais do texto apresentado, julgue (C ou E) o item a seguir.
Em “Porque se a gente fala a partir de ser criança”, o “se” exerce função de pronome apassivador da forma verbal “fala”.