Leia o texto III para responder a questão.
TEXTO III
BRINQUEDOS INCENDIADOS
Uma noite houve um incêndio em um bazar. E, no fogo total, desapareceram consumidos os seus brinquedos. Nós, crianças, conhecíamos aqueles brinquedos um por um, de tanto 1mirá-los nos 2mostruários - uns, 3pendentes de longos barbantes; outros, apenas entrevistas em suas caixas. Ah! Maravilhosas bonecas louras, de chapéus de seda! Pianos cujos sons cheiravam a metal e verniz! Carneirinhos 4lanudos, de 5guizo ao pescoço! Piões zumbidores! - e uns bondes com algumas letras escritas ao contrário, coisa que muito nos seduzia [ ... ] .
Às vezes, em um aniversário, ou pelo Natal, conseguíamos receber de presente alguns bonequinhos 6de celuloide, modestos cavalinhos de lata, bolas de gude, barquinhos sem possibilidade de navegação ... - pois aquelas admiráveis bonecas de seda e 7filó, aqueles batalhões completos de soldados de chumbo, aquelas casas de madeira com portas e janelas, isso não chegávamos a imaginar sequer para onde iria. Amávamos os brinquedos sem esperança nem inveja, sabendo que jamais chegariam às nossas mãos, possuindo-os apenas em sonho, como se para isso, apenas, tivessem sido feitos.
Assim, o bando que passava, de casa para a escola e da escola para casa, parava longo tempo a contemplar aqueles brinquedos e lia aqueles nítidos preços, com seus cifrões e zeros, sem muita noção do valor - porque nós, crianças, de bolsos vazios, como namorados antigos, éramos só renúncia e amor. Bastava-nos levar na memória aquelas imagens e deixar ªcravadas nelas, como setas, os nossos olhos.
Ora, uma noite, correu a notícia de que o bazar incendiara. E foi uma espécie de festa fantástica. O fogo ia muito alto, o céu ficava todo 9rubro, voavam 10chispas e labaredas pelo bairro todo. As crianças queriam ver o incêndio de perto, não se contentavam com portas e janelas, fugiam para a rua, onde brilhavam bombeiros entre 11jorros d'água. A elas não interessava nada, peças de pano, cetins, 12cretones, cobertores, que os adultos lamentavam. Sofriam pelos cavalinhos e pelas bonecas, os trens e os palhaços, fechados, sufocados em suas grandes caixas. Brinquedos que jamais teriam possuído, sonhos apenas da infância, amor 13platônico.
O incêndio, porém, levou tudo. O bazar ficou sendo um 14fumoso galpão de cinzas.
Felizmente, ninguém tinha morrido - diziam em redor. Como não tinha morrido ninguém?, pensavam as crianças. Tinha morrido o mundo e, dentro dele, os olhos amorosos das crianças, ali deixados.
E começávamos a 15pressentir que viriam outros incêndios. Em outras idades. De outros brinquedos. Até que um dia também desaparecêssemos sem socorro, nós brinquedos que somos, talvez de anjos distantes!
(MEIRELES, Cecília. Janela mágica. 3ª edição. São Paulo: Moderna. 2003. Adaptado.)
GLOSSÁRIO
1mirá-los: observá-los.
2mostruários: vitrines.
3pendentes: pendurados.
4lanudos: cobertos de lã.
5guizo: pequena esfera de metal com bolinhas em seu interior que, quando sacudida, produz um som.
6de celuloide: de plástico.
7filó: tecido fino e transparente, em forma de rede.
8cravadas: fixas.
9rubro: de cor vermelha.
10chispas: partículas de fogo.
11jorros: jatos fortes.
12 cretones: tipos de tecidos.
13platônico: diz-se do que tem um caráter ideal; sem interesses materiais.
14fumoso: fumacento.
15pressentir: suspeitar.



