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O bonde

Não me faltaram assuntos com que atulhar o bojo de uma larga crônica, bem nutrida e bem variada, neste sábado em que escrevo – um sábado alegre e quente, um sol que cobre de tons de ouro e topázio os nossos feios telhados do século atrasado. Mas não quero outro assunto senão este: o bonde, – o bonde amável e modesto, veículo da democracia, igualador de castas, nivelador de fortunas, – o bonde despretensioso, de que, anteontem, festejamos o 35° aniversário natalício.

Natalício sim, – porque, para o Rio de Janeiro, o bonde nasceu há trinta e cinco anos, somente. E a cidade ainda está cheia de gente que se lembra das gôndolas pesadas e oscilantes, que se arrastavam aos trancos, morosas e feias como grandes hipopótamos.

O bonde, assim que nasceu, matou a “gôndola”, e a “diligência”, limitou despoticamente a esfera da ação das caleças e dos couplets, tomou conta de toda da cidade, – e só por generosidade ainda admite a concorrência, aliás bem pouco forte, do tílburi. Em trinta e cinco anos, esse operário da democracia estendeu por todas as zonas da urbs o aranhol dos seus trilhos metálicos, e senhoreou-se de todas as ruas urbanas e suburbanas, povoando bairros afastados, criando bairros novos, alargando de dia em dia o âmbito da capital, estabelecendo comunicações entre todos os alvéolos da nossa imensa colmeia. São dele as ruas, são dele as praças, tudo é dele, atualmente. De dia e de noite, indo e vindo, ao ronrom da corrente elétrica, ou ao rumoroso patear dos muares sobre as pedras, aí passa ele, o triunfador, – o servidor dos ricos, a providência dos pobres, a vida e a animação da cidade.

Haja sol ou chova, labute ou durma a cidade, o trabalho metódico do bonde não cessa: e alta noite, ou alta madrugada, quando já os mais terríveis notívagos se meteram no vale dos lençóis, ainda ele está cumprindo o seu fadário, deslizando sobre os trilhos, abrindo clareiras na treva com as suas lanternas vermelhas ou azuis, acordando os ecos das ruas desertas, velando incansável pela comodidade, pelo conforto, pelo serviço da população. Cheio ou vazio, com passageiros suspensos em pencas das balaustradas ou abrigando apenas dois ou três viajantes sonolentos, – a sua marcha é a mesma, certa e pausada, num ritmo regular que é a expressão perfeita de regularidade da sua missão na terra...

[...] Tu és um grande apóstolo do Socialismo, ó bonde modesto! tu destruíste os preconceitos de raça e de cor, tu baralhaste na mesma expansão de vida o orgulho dos fortes e a humildade dos fracos, as ambições e os desinteresses, a beleza e a fealdade, a saúde e a invalidez...

E, além disso, amo-te porque és, juntamente com o café, o que era nas antigas povoações selvagens o cachimbo da paz, – o veículo da hospitalidade e da sociabilidade.

Na roça, é tomando café que se estabelecem e estreitam as relações; na cidade, é viajando no mesmo bonde que se consegue isso.

O bonde é um criador de relações de amizade ... e de amor. Há amigos inseparáveis, que se viram pela primeira vez no bonde, começaram por olhar-se com desconfiança, passaram a saudar-se com cerimônia, encetaram palestras frias, foram do senhor ao você e do você ao tu, e uniram-se para a vida e para a morte [...].

Ontem, quando te vi simbolicamente apoteosado, junto da estátua de Caxias, numa irradiação ofuscante, – dei-te um longo olhar enternecido e grato. Emblema da simplicidade, imagem do congraçamento, veículo da democracia – tu bem merecias essa homenagem ruidosa!

Agora mesmo, quase ao terminar esta Crônica, toda consagrada à tua glória, estou antegozando a satisfação que me vais dar daqui a pouco ... Por esta linda manhã, tão cheia de sol, vais levar-me por aí a fora, embebido na contemplação das coisas e das gentes, adormecendo com o teu brando movimento a recordação dos aborrecimentos que me oprimem, e oferecendo-me, em cada esquina dobrada, um espetáculo novo e um novo gérmen de sonhos consoladores.

Haverá alguém que te não ame, bonde carioca?

Vê lá agora se, inchado de orgulho com esta declaração de amor, vais ficar pior do que és. Porque, enfim, tu és bom, mas não és perfeito. E nada impede que te aperfeiçoes: podes muito bem livrar-te do sistema dos comboios, podes bem ter uma luz que não prejudique tanto os olhos de quem te frequenta à noite, – e podes, enfim, andar um pouco mais depressa. Nem todos gostam de sonhar como eu: há quem goste de agir, – e, para esses, tu ainda és quase tão moroso como a velha gôndola que destronaste...

(BILAC, Olavo. O bonde. In: DIMAS, Antônio (Org.). Olavo Bilac. Vossa Insolência. São Paulo: Companhia das Letras, 1996. p. 318-28.)

apoteosado: glorificado.

caleça: carruagem de quatro rodas e dois assentos, puxada por uma parelha de cavalos.

couplet: carruagem fechada, de quatro rodas, geralmente para dois passageiros.

notívago: aquele que anda de noite.

patear dos muares: pisada das mulas.

No trecho, “Na roça, é tomando café que se estabelecem e estreitam as relações”, o SE é classificado como:

 

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O bonde

Não me faltaram assuntos com que atulhar o bojo de uma larga crônica, bem nutrida e bem variada, neste sábado em que escrevo – um sábado alegre e quente, um sol que cobre de tons de ouro e topázio os nossos feios telhados do século atrasado. Mas não quero outro assunto senão este: o bonde, – o bonde amável e modesto, veículo da democracia, igualador de castas, nivelador de fortunas, – o bonde despretensioso, de que, anteontem, festejamos o 35° aniversário natalício.

Natalício sim, – porque, para o Rio de Janeiro, o bonde nasceu há trinta e cinco anos, somente. E a cidade ainda está cheia de gente que se lembra das gôndolas pesadas e oscilantes, que se arrastavam aos trancos, morosas e feias como grandes hipopótamos.

O bonde, assim que nasceu, matou a “gôndola”, e a “diligência”, limitou despoticamente a esfera da ação das caleças e dos couplets, tomou conta de toda da cidade, – e só por generosidade ainda admite a concorrência, aliás bem pouco forte, do tílburi. Em trinta e cinco anos, esse operário da democracia estendeu por todas as zonas da urbs o aranhol dos seus trilhos metálicos, e senhoreou-se de todas as ruas urbanas e suburbanas, povoando bairros afastados, criando bairros novos, alargando de dia em dia o âmbito da capital, estabelecendo comunicações entre todos os alvéolos da nossa imensa colmeia. São dele as ruas, são dele as praças, tudo é dele, atualmente. De dia e de noite, indo e vindo, ao ronrom da corrente elétrica, ou ao rumoroso patear dos muares sobre as pedras, aí passa ele, o triunfador, – o servidor dos ricos, a providência dos pobres, a vida e a animação da cidade.

Haja sol ou chova, labute ou durma a cidade, o trabalho metódico do bonde não cessa: e alta noite, ou alta madrugada, quando já os mais terríveis notívagos se meteram no vale dos lençóis, ainda ele está cumprindo o seu fadário, deslizando sobre os trilhos, abrindo clareiras na treva com as suas lanternas vermelhas ou azuis, acordando os ecos das ruas desertas, velando incansável pela comodidade, pelo conforto, pelo serviço da população. Cheio ou vazio, com passageiros suspensos em pencas das balaustradas ou abrigando apenas dois ou três viajantes sonolentos, – a sua marcha é a mesma, certa e pausada, num ritmo regular que é a expressão perfeita de regularidade da sua missão na terra...

[...] Tu és um grande apóstolo do Socialismo, ó bonde modesto! tu destruíste os preconceitos de raça e de cor, tu baralhaste na mesma expansão de vida o orgulho dos fortes e a humildade dos fracos, as ambições e os desinteresses, a beleza e a fealdade, a saúde e a invalidez...

E, além disso, amo-te porque és, juntamente com o café, o que era nas antigas povoações selvagens o cachimbo da paz, – o veículo da hospitalidade e da sociabilidade.

Na roça, é tomando café que se estabelecem e estreitam as relações; na cidade, é viajando no mesmo bonde que se consegue isso.

O bonde é um criador de relações de amizade ... e de amor. Há amigos inseparáveis, que se viram pela primeira vez no bonde, começaram por olhar-se com desconfiança, passaram a saudar-se com cerimônia, encetaram palestras frias, foram do senhor ao você e do você ao tu, e uniram-se para a vida e para a morte [...].

Ontem, quando te vi simbolicamente apoteosado, junto da estátua de Caxias, numa irradiação ofuscante, – dei-te um longo olhar enternecido e grato. Emblema da simplicidade, imagem do congraçamento, veículo da democracia – tu bem merecias essa homenagem ruidosa!

Agora mesmo, quase ao terminar esta Crônica, toda consagrada à tua glória, estou antegozando a satisfação que me vais dar daqui a pouco ... Por esta linda manhã, tão cheia de sol, vais levar-me por aí a fora, embebido na contemplação das coisas e das gentes, adormecendo com o teu brando movimento a recordação dos aborrecimentos que me oprimem, e oferecendo-me, em cada esquina dobrada, um espetáculo novo e um novo gérmen de sonhos consoladores.

Haverá alguém que te não ame, bonde carioca?

Vê lá agora se, inchado de orgulho com esta declaração de amor, vais ficar pior do que és. Porque, enfim, tu és bom, mas não és perfeito. E nada impede que te aperfeiçoes: podes muito bem livrar-te do sistema dos comboios, podes bem ter uma luz que não prejudique tanto os olhos de quem te frequenta à noite, – e podes, enfim, andar um pouco mais depressa. Nem todos gostam de sonhar como eu: há quem goste de agir, – e, para esses, tu ainda és quase tão moroso como a velha gôndola que destronaste...

(BILAC, Olavo. O bonde. In: DIMAS, Antônio (Org.). Olavo Bilac. Vossa Insolência. São Paulo: Companhia das Letras, 1996. p. 318-28.)

apoteosado: glorificado.

caleça: carruagem de quatro rodas e dois assentos, puxada por uma parelha de cavalos.

couplet: carruagem fechada, de quatro rodas, geralmente para dois passageiros.

notívago: aquele que anda de noite.

patear dos muares: pisada das mulas.

A expressão em que a retirada do sinal indicativo de crase altera o sentido da sentença é:

 

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Não me faltaram assuntos com que atulhar o bojo de uma larga crônica, bem nutrida e bem variada, neste sábado em que escrevo – um sábado alegre e quente, um sol que cobre de tons de ouro e topázio os nossos feios telhados do século atrasado. Mas não quero outro assunto senão este: o bonde, – o bonde amável e modesto, veículo da democracia, igualador de castas, nivelador de fortunas, – o bonde despretensioso, de que, anteontem, festejamos o 35° aniversário natalício.

Natalício sim, – porque, para o Rio de Janeiro, o bonde nasceu há trinta e cinco anos, somente. E a cidade ainda está cheia de gente que se lembra das gôndolas pesadas e oscilantes, que se arrastavam aos trancos, morosas e feias como grandes hipopótamos.

O bonde, assim que nasceu, matou a “gôndola”, e a “diligência”, limitou despoticamente a esfera da ação das caleças e dos couplets, tomou conta de toda da cidade, – e só por generosidade ainda admite a concorrência, aliás bem pouco forte, do tílburi. Em trinta e cinco anos, esse operário da democracia estendeu por todas as zonas da urbs o aranhol dos seus trilhos metálicos, e senhoreou-se de todas as ruas urbanas e suburbanas, povoando bairros afastados, criando bairros novos, alargando de dia em dia o âmbito da capital, estabelecendo comunicações entre todos os alvéolos da nossa imensa colmeia. São dele as ruas, são dele as praças, tudo é dele, atualmente. De dia e de noite, indo e vindo, ao ronrom da corrente elétrica, ou ao rumoroso patear dos muares sobre as pedras, aí passa ele, o triunfador, – o servidor dos ricos, a providência dos pobres, a vida e a animação da cidade.

Haja sol ou chova, labute ou durma a cidade, o trabalho metódico do bonde não cessa: e alta noite, ou alta madrugada, quando já os mais terríveis notívagos se meteram no vale dos lençóis, ainda ele está cumprindo o seu fadário, deslizando sobre os trilhos, abrindo clareiras na treva com as suas lanternas vermelhas ou azuis, acordando os ecos das ruas desertas, velando incansável pela comodidade, pelo conforto, pelo serviço da população. Cheio ou vazio, com passageiros suspensos em pencas das balaustradas ou abrigando apenas dois ou três viajantes sonolentos, – a sua marcha é a mesma, certa e pausada, num ritmo regular que é a expressão perfeita de regularidade da sua missão na terra...

[...] Tu és um grande apóstolo do Socialismo, ó bonde modesto! tu destruíste os preconceitos de raça e de cor, tu baralhaste na mesma expansão de vida o orgulho dos fortes e a humildade dos fracos, as ambições e os desinteresses, a beleza e a fealdade, a saúde e a invalidez...

E, além disso, amo-te porque és, juntamente com o café, o que era nas antigas povoações selvagens o cachimbo da paz, – o veículo da hospitalidade e da sociabilidade.

Na roça, é tomando café que se estabelecem e estreitam as relações; na cidade, é viajando no mesmo bonde que se consegue isso.

O bonde é um criador de relações de amizade ... e de amor. Há amigos inseparáveis, que se viram pela primeira vez no bonde, começaram por olhar-se com desconfiança, passaram a saudar-se com cerimônia, encetaram palestras frias, foram do senhor ao você e do você ao tu, e uniram-se para a vida e para a morte [...].

Ontem, quando te vi simbolicamente apoteosado, junto da estátua de Caxias, numa irradiação ofuscante, – dei-te um longo olhar enternecido e grato. Emblema da simplicidade, imagem do congraçamento, veículo da democracia – tu bem merecias essa homenagem ruidosa!

Agora mesmo, quase ao terminar esta Crônica, toda consagrada à tua glória, estou antegozando a satisfação que me vais dar daqui a pouco ... Por esta linda manhã, tão cheia de sol, vais levar-me por aí a fora, embebido na contemplação das coisas e das gentes, adormecendo com o teu brando movimento a recordação dos aborrecimentos que me oprimem, e oferecendo-me, em cada esquina dobrada, um espetáculo novo e um novo gérmen de sonhos consoladores.

Haverá alguém que te não ame, bonde carioca?

Vê lá agora se, inchado de orgulho com esta declaração de amor, vais ficar pior do que és. Porque, enfim, tu és bom, mas não és perfeito. E nada impede que te aperfeiçoes: podes muito bem livrar-te do sistema dos comboios, podes bem ter uma luz que não prejudique tanto os olhos de quem te frequenta à noite, – e podes, enfim, andar um pouco mais depressa. Nem todos gostam de sonhar como eu: há quem goste de agir, – e, para esses, tu ainda és quase tão moroso como a velha gôndola que destronaste...

(BILAC, Olavo. O bonde. In: DIMAS, Antônio (Org.). Olavo Bilac. Vossa Insolência. São Paulo: Companhia das Letras, 1996. p. 318-28.)

apoteosado: glorificado.

caleça: carruagem de quatro rodas e dois assentos, puxada por uma parelha de cavalos.

couplet: carruagem fechada, de quatro rodas, geralmente para dois passageiros.

notívago: aquele que anda de noite.

patear dos muares: pisada das mulas.

Sobre o segmento “Mas não quero outro assunto senão este: o bonde [...]”, analise os itens a seguir.

I. O verbo da oração está flexionado no imperativo negativo.

II. OUTRO é um pronome adjetivo indefinido.

III. O pronome demonstrativo ESTE tem valor catafórico.

Assinale a alternativa que aponta o(s) item(ns) correto(s).

 

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O bonde

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Natalício sim, – porque, para o Rio de Janeiro, o bonde nasceu há trinta e cinco anos, somente. E a cidade ainda está cheia de gente que se lembra das gôndolas pesadas e oscilantes, que se arrastavam aos trancos, morosas e feias como grandes hipopótamos.

O bonde, assim que nasceu, matou a “gôndola”, e a “diligência”, limitou despoticamente a esfera da ação das caleças e dos couplets, tomou conta de toda da cidade, – e só por generosidade ainda admite a concorrência, aliás bem pouco forte, do tílburi. Em trinta e cinco anos, esse operário da democracia estendeu por todas as zonas da urbs o aranhol dos seus trilhos metálicos, e senhoreou-se de todas as ruas urbanas e suburbanas, povoando bairros afastados, criando bairros novos, alargando de dia em dia o âmbito da capital, estabelecendo comunicações entre todos os alvéolos da nossa imensa colmeia. São dele as ruas, são dele as praças, tudo é dele, atualmente. De dia e de noite, indo e vindo, ao ronrom da corrente elétrica, ou ao rumoroso patear dos muares sobre as pedras, aí passa ele, o triunfador, – o servidor dos ricos, a providência dos pobres, a vida e a animação da cidade.

Haja sol ou chova, labute ou durma a cidade, o trabalho metódico do bonde não cessa: e alta noite, ou alta madrugada, quando já os mais terríveis notívagos se meteram no vale dos lençóis, ainda ele está cumprindo o seu fadário, deslizando sobre os trilhos, abrindo clareiras na treva com as suas lanternas vermelhas ou azuis, acordando os ecos das ruas desertas, velando incansável pela comodidade, pelo conforto, pelo serviço da população. Cheio ou vazio, com passageiros suspensos em pencas das balaustradas ou abrigando apenas dois ou três viajantes sonolentos, – a sua marcha é a mesma, certa e pausada, num ritmo regular que é a expressão perfeita de regularidade da sua missão na terra...

[...] Tu és um grande apóstolo do Socialismo, ó bonde modesto! tu destruíste os preconceitos de raça e de cor, tu baralhaste na mesma expansão de vida o orgulho dos fortes e a humildade dos fracos, as ambições e os desinteresses, a beleza e a fealdade, a saúde e a invalidez...

E, além disso, amo-te porque és, juntamente com o café, o que era nas antigas povoações selvagens o cachimbo da paz, – o veículo da hospitalidade e da sociabilidade.

Na roça, é tomando café que se estabelecem e estreitam as relações; na cidade, é viajando no mesmo bonde que se consegue isso.

O bonde é um criador de relações de amizade ... e de amor. Há amigos inseparáveis, que se viram pela primeira vez no bonde, começaram por olhar-se com desconfiança, passaram a saudar-se com cerimônia, encetaram palestras frias, foram do senhor ao você e do você ao tu, e uniram-se para a vida e para a morte [...].

Ontem, quando te vi simbolicamente apoteosado, junto da estátua de Caxias, numa irradiação ofuscante, – dei-te um longo olhar enternecido e grato. Emblema da simplicidade, imagem do congraçamento, veículo da democracia – tu bem merecias essa homenagem ruidosa!

Agora mesmo, quase ao terminar esta Crônica, toda consagrada à tua glória, estou antegozando a satisfação que me vais dar daqui a pouco ... Por esta linda manhã, tão cheia de sol, vais levar-me por aí a fora, embebido na contemplação das coisas e das gentes, adormecendo com o teu brando movimento a recordação dos aborrecimentos que me oprimem, e oferecendo-me, em cada esquina dobrada, um espetáculo novo e um novo gérmen de sonhos consoladores.

Haverá alguém que te não ame, bonde carioca?

Vê lá agora se, inchado de orgulho com esta declaração de amor, vais ficar pior do que és. Porque, enfim, tu és bom, mas não és perfeito. E nada impede que te aperfeiçoes: podes muito bem livrar-te do sistema dos comboios, podes bem ter uma luz que não prejudique tanto os olhos de quem te frequenta à noite, – e podes, enfim, andar um pouco mais depressa. Nem todos gostam de sonhar como eu: há quem goste de agir, – e, para esses, tu ainda és quase tão moroso como a velha gôndola que destronaste...

(BILAC, Olavo. O bonde. In: DIMAS, Antônio (Org.). Olavo Bilac. Vossa Insolência. São Paulo: Companhia das Letras, 1996. p. 318-28.)

apoteosado: glorificado.

caleça: carruagem de quatro rodas e dois assentos, puxada por uma parelha de cavalos.

couplet: carruagem fechada, de quatro rodas, geralmente para dois passageiros.

notívago: aquele que anda de noite.

patear dos muares: pisada das mulas.

Aos trechos abaixo, retirados do texto, foram propostas alterações na colocação do pronome. A alteração proposta está de acordo com a norma-padrão em:

 

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Não me faltaram assuntos com que atulhar o bojo de uma larga crônica, bem nutrida e bem variada, neste sábado em que escrevo – um sábado alegre e quente, um sol que cobre de tons de ouro e topázio os nossos feios telhados do século atrasado. Mas não quero outro assunto senão este: o bonde, – o bonde amável e modesto, veículo da democracia, igualador de castas, nivelador de fortunas, – o bonde despretensioso, de que, anteontem, festejamos o 35° aniversário natalício.

Natalício sim, – porque, para o Rio de Janeiro, o bonde nasceu há trinta e cinco anos, somente. E a cidade ainda está cheia de gente que se lembra das gôndolas pesadas e oscilantes, que se arrastavam aos trancos, morosas e feias como grandes hipopótamos.

O bonde, assim que nasceu, matou a “gôndola”, e a “diligência”, limitou despoticamente a esfera da ação das caleças e dos couplets, tomou conta de toda da cidade, – e só por generosidade ainda admite a concorrência, aliás bem pouco forte, do tílburi. Em trinta e cinco anos, esse operário da democracia estendeu por todas as zonas da urbs o aranhol dos seus trilhos metálicos, e senhoreou-se de todas as ruas urbanas e suburbanas, povoando bairros afastados, criando bairros novos, alargando de dia em dia o âmbito da capital, estabelecendo comunicações entre todos os alvéolos da nossa imensa colmeia. São dele as ruas, são dele as praças, tudo é dele, atualmente. De dia e de noite, indo e vindo, ao ronrom da corrente elétrica, ou ao rumoroso patear dos muares sobre as pedras, aí passa ele, o triunfador, – o servidor dos ricos, a providência dos pobres, a vida e a animação da cidade.

Haja sol ou chova, labute ou durma a cidade, o trabalho metódico do bonde não cessa: e alta noite, ou alta madrugada, quando já os mais terríveis notívagos se meteram no vale dos lençóis, ainda ele está cumprindo o seu fadário, deslizando sobre os trilhos, abrindo clareiras na treva com as suas lanternas vermelhas ou azuis, acordando os ecos das ruas desertas, velando incansável pela comodidade, pelo conforto, pelo serviço da população. Cheio ou vazio, com passageiros suspensos em pencas das balaustradas ou abrigando apenas dois ou três viajantes sonolentos, – a sua marcha é a mesma, certa e pausada, num ritmo regular que é a expressão perfeita de regularidade da sua missão na terra...

[...] Tu és um grande apóstolo do Socialismo, ó bonde modesto! tu destruíste os preconceitos de raça e de cor, tu baralhaste na mesma expansão de vida o orgulho dos fortes e a humildade dos fracos, as ambições e os desinteresses, a beleza e a fealdade, a saúde e a invalidez...

E, além disso, amo-te porque és, juntamente com o café, o que era nas antigas povoações selvagens o cachimbo da paz, – o veículo da hospitalidade e da sociabilidade.

Na roça, é tomando café que se estabelecem e estreitam as relações; na cidade, é viajando no mesmo bonde que se consegue isso.

O bonde é um criador de relações de amizade ... e de amor. Há amigos inseparáveis, que se viram pela primeira vez no bonde, começaram por olhar-se com desconfiança, passaram a saudar-se com cerimônia, encetaram palestras frias, foram do senhor ao você e do você ao tu, e uniram-se para a vida e para a morte [...].

Ontem, quando te vi simbolicamente apoteosado, junto da estátua de Caxias, numa irradiação ofuscante, – dei-te um longo olhar enternecido e grato. Emblema da simplicidade, imagem do congraçamento, veículo da democracia – tu bem merecias essa homenagem ruidosa!

Agora mesmo, quase ao terminar esta Crônica, toda consagrada à tua glória, estou antegozando a satisfação que me vais dar daqui a pouco ... Por esta linda manhã, tão cheia de sol, vais levar-me por aí a fora, embebido na contemplação das coisas e das gentes, adormecendo com o teu brando movimento a recordação dos aborrecimentos que me oprimem, e oferecendo-me, em cada esquina dobrada, um espetáculo novo e um novo gérmen de sonhos consoladores.

Haverá alguém que te não ame, bonde carioca?

Vê lá agora se, inchado de orgulho com esta declaração de amor, vais ficar pior do que és. Porque, enfim, tu és bom, mas não és perfeito. E nada impede que te aperfeiçoes: podes muito bem livrar-te do sistema dos comboios, podes bem ter uma luz que não prejudique tanto os olhos de quem te frequenta à noite, – e podes, enfim, andar um pouco mais depressa. Nem todos gostam de sonhar como eu: há quem goste de agir, – e, para esses, tu ainda és quase tão moroso como a velha gôndola que destronaste...

(BILAC, Olavo. O bonde. In: DIMAS, Antônio (Org.). Olavo Bilac. Vossa Insolência. São Paulo: Companhia das Letras, 1996. p. 318-28.)

apoteosado: glorificado.

caleça: carruagem de quatro rodas e dois assentos, puxada por uma parelha de cavalos.

couplet: carruagem fechada, de quatro rodas, geralmente para dois passageiros.

notívago: aquele que anda de noite.

patear dos muares: pisada das mulas.

O primeiro período do segundo parágrafo do texto apresenta as seguintes características:

 

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O bonde

Não me faltaram assuntos com que atulhar o bojo de uma larga crônica, bem nutrida e bem variada, neste sábado em que escrevo – um sábado alegre e quente, um sol que cobre de tons de ouro e topázio os nossos feios telhados do século atrasado. Mas não quero outro assunto senão este: o bonde, – o bonde amável e modesto, veículo da democracia, igualador de castas, nivelador de fortunas, – o bonde despretensioso, de que, anteontem, festejamos o 35° aniversário natalício.

Natalício sim, – porque, para o Rio de Janeiro, o bonde nasceu há trinta e cinco anos, somente. E a cidade ainda está cheia de gente que se lembra das gôndolas pesadas e oscilantes, que se arrastavam aos trancos, morosas e feias como grandes hipopótamos.

O bonde, assim que nasceu, matou a “gôndola”, e a “diligência”, limitou despoticamente a esfera da ação das caleças e dos couplets, tomou conta de toda da cidade, – e só por generosidade ainda admite a concorrência, aliás bem pouco forte, do tílburi. Em trinta e cinco anos, esse operário da democracia estendeu por todas as zonas da urbs o aranhol dos seus trilhos metálicos, e senhoreou-se de todas as ruas urbanas e suburbanas, povoando bairros afastados, criando bairros novos, alargando de dia em dia o âmbito da capital, estabelecendo comunicações entre todos os alvéolos da nossa imensa colmeia. São dele as ruas, são dele as praças, tudo é dele, atualmente. De dia e de noite, indo e vindo, ao ronrom da corrente elétrica, ou ao rumoroso patear dos muares sobre as pedras, aí passa ele, o triunfador, – o servidor dos ricos, a providência dos pobres, a vida e a animação da cidade.

Haja sol ou chova, labute ou durma a cidade, o trabalho metódico do bonde não cessa: e alta noite, ou alta madrugada, quando já os mais terríveis notívagos se meteram no vale dos lençóis, ainda ele está cumprindo o seu fadário, deslizando sobre os trilhos, abrindo clareiras na treva com as suas lanternas vermelhas ou azuis, acordando os ecos das ruas desertas, velando incansável pela comodidade, pelo conforto, pelo serviço da população. Cheio ou vazio, com passageiros suspensos em pencas das balaustradas ou abrigando apenas dois ou três viajantes sonolentos, – a sua marcha é a mesma, certa e pausada, num ritmo regular que é a expressão perfeita de regularidade da sua missão na terra...

[...] Tu és um grande apóstolo do Socialismo, ó bonde modesto! tu destruíste os preconceitos de raça e de cor, tu baralhaste na mesma expansão de vida o orgulho dos fortes e a humildade dos fracos, as ambições e os desinteresses, a beleza e a fealdade, a saúde e a invalidez...

E, além disso, amo-te porque és, juntamente com o café, o que era nas antigas povoações selvagens o cachimbo da paz, – o veículo da hospitalidade e da sociabilidade.

Na roça, é tomando café que se estabelecem e estreitam as relações; na cidade, é viajando no mesmo bonde que se consegue isso.

O bonde é um criador de relações de amizade ... e de amor. Há amigos inseparáveis, que se viram pela primeira vez no bonde, começaram por olhar-se com desconfiança, passaram a saudar-se com cerimônia, encetaram palestras frias, foram do senhor ao você e do você ao tu, e uniram-se para a vida e para a morte [...].

Ontem, quando te vi simbolicamente apoteosado, junto da estátua de Caxias, numa irradiação ofuscante, – dei-te um longo olhar enternecido e grato. Emblema da simplicidade, imagem do congraçamento, veículo da democracia – tu bem merecias essa homenagem ruidosa!

Agora mesmo, quase ao terminar esta Crônica, toda consagrada à tua glória, estou antegozando a satisfação que me vais dar daqui a pouco ... Por esta linda manhã, tão cheia de sol, vais levar-me por aí a fora, embebido na contemplação das coisas e das gentes, adormecendo com o teu brando movimento a recordação dos aborrecimentos que me oprimem, e oferecendo-me, em cada esquina dobrada, um espetáculo novo e um novo gérmen de sonhos consoladores.

Haverá alguém que te não ame, bonde carioca?

Vê lá agora se, inchado de orgulho com esta declaração de amor, vais ficar pior do que és. Porque, enfim, tu és bom, mas não és perfeito. E nada impede que te aperfeiçoes: podes muito bem livrar-te do sistema dos comboios, podes bem ter uma luz que não prejudique tanto os olhos de quem te frequenta à noite, – e podes, enfim, andar um pouco mais depressa. Nem todos gostam de sonhar como eu: há quem goste de agir, – e, para esses, tu ainda és quase tão moroso como a velha gôndola que destronaste...

(BILAC, Olavo. O bonde. In: DIMAS, Antônio (Org.). Olavo Bilac. Vossa Insolência. São Paulo: Companhia das Letras, 1996. p. 318-28.)

apoteosado: glorificado.

caleça: carruagem de quatro rodas e dois assentos, puxada por uma parelha de cavalos.

couplet: carruagem fechada, de quatro rodas, geralmente para dois passageiros.

notívago: aquele que anda de noite.

patear dos muares: pisada das mulas.

Em todos os exemplos abaixo o QUE é pronome relativo, EXCETO:

 

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O bonde

Não me faltaram assuntos com que atulhar o bojo de uma larga crônica, bem nutrida e bem variada, neste sábado em que escrevo – um sábado alegre e quente, um sol que cobre de tons de ouro e topázio os nossos feios telhados do século atrasado. Mas não quero outro assunto senão este: o bonde, – o bonde amável e modesto, veículo da democracia, igualador de castas, nivelador de fortunas, – o bonde despretensioso, de que, anteontem, festejamos o 35° aniversário natalício.

Natalício sim, – porque, para o Rio de Janeiro, o bonde nasceu há trinta e cinco anos, somente. E a cidade ainda está cheia de gente que se lembra das gôndolas pesadas e oscilantes, que se arrastavam aos trancos, morosas e feias como grandes hipopótamos.

O bonde, assim que nasceu, matou a “gôndola”, e a “diligência”, limitou despoticamente a esfera da ação das caleças e dos couplets, tomou conta de toda da cidade, – e só por generosidade ainda admite a concorrência, aliás bem pouco forte, do tílburi. Em trinta e cinco anos, esse operário da democracia estendeu por todas as zonas da urbs o aranhol dos seus trilhos metálicos, e senhoreou-se de todas as ruas urbanas e suburbanas, povoando bairros afastados, criando bairros novos, alargando de dia em dia o âmbito da capital, estabelecendo comunicações entre todos os alvéolos da nossa imensa colmeia. São dele as ruas, são dele as praças, tudo é dele, atualmente. De dia e de noite, indo e vindo, ao ronrom da corrente elétrica, ou ao rumoroso patear dos muares sobre as pedras, aí passa ele, o triunfador, – o servidor dos ricos, a providência dos pobres, a vida e a animação da cidade.

Haja sol ou chova, labute ou durma a cidade, o trabalho metódico do bonde não cessa: e alta noite, ou alta madrugada, quando já os mais terríveis notívagos se meteram no vale dos lençóis, ainda ele está cumprindo o seu fadário, deslizando sobre os trilhos, abrindo clareiras na treva com as suas lanternas vermelhas ou azuis, acordando os ecos das ruas desertas, velando incansável pela comodidade, pelo conforto, pelo serviço da população. Cheio ou vazio, com passageiros suspensos em pencas das balaustradas ou abrigando apenas dois ou três viajantes sonolentos, – a sua marcha é a mesma, certa e pausada, num ritmo regular que é a expressão perfeita de regularidade da sua missão na terra...

[...] Tu és um grande apóstolo do Socialismo, ó bonde modesto! tu destruíste os preconceitos de raça e de cor, tu baralhaste na mesma expansão de vida o orgulho dos fortes e a humildade dos fracos, as ambições e os desinteresses, a beleza e a fealdade, a saúde e a invalidez...

E, além disso, amo-te porque és, juntamente com o café, o que era nas antigas povoações selvagens o cachimbo da paz, – o veículo da hospitalidade e da sociabilidade.

Na roça, é tomando café que se estabelecem e estreitam as relações; na cidade, é viajando no mesmo bonde que se consegue isso.

O bonde é um criador de relações de amizade ... e de amor. Há amigos inseparáveis, que se viram pela primeira vez no bonde, começaram por olhar-se com desconfiança, passaram a saudar-se com cerimônia, encetaram palestras frias, foram do senhor ao você e do você ao tu, e uniram-se para a vida e para a morte [...].

Ontem, quando te vi simbolicamente apoteosado, junto da estátua de Caxias, numa irradiação ofuscante, – dei-te um longo olhar enternecido e grato. Emblema da simplicidade, imagem do congraçamento, veículo da democracia – tu bem merecias essa homenagem ruidosa!

Agora mesmo, quase ao terminar esta Crônica, toda consagrada à tua glória, estou antegozando a satisfação que me vais dar daqui a pouco ... Por esta linda manhã, tão cheia de sol, vais levar-me por aí a fora, embebido na contemplação das coisas e das gentes, adormecendo com o teu brando movimento a recordação dos aborrecimentos que me oprimem, e oferecendo-me, em cada esquina dobrada, um espetáculo novo e um novo gérmen de sonhos consoladores.

Haverá alguém que te não ame, bonde carioca?

Vê lá agora se, inchado de orgulho com esta declaração de amor, vais ficar pior do que és. Porque, enfim, tu és bom, mas não és perfeito. E nada impede que te aperfeiçoes: podes muito bem livrar-te do sistema dos comboios, podes bem ter uma luz que não prejudique tanto os olhos de quem te frequenta à noite, – e podes, enfim, andar um pouco mais depressa. Nem todos gostam de sonhar como eu: há quem goste de agir, – e, para esses, tu ainda és quase tão moroso como a velha gôndola que destronaste...

(BILAC, Olavo. O bonde. In: DIMAS, Antônio (Org.). Olavo Bilac. Vossa Insolência. São Paulo: Companhia das Letras, 1996. p. 318-28.)

apoteosado: glorificado.

caleça: carruagem de quatro rodas e dois assentos, puxada por uma parelha de cavalos.

couplet: carruagem fechada, de quatro rodas, geralmente para dois passageiros.

notívago: aquele que anda de noite.

patear dos muares: pisada das mulas.

Assinale a alternativa que justifica, corretamente, o uso do travessão em “Natalício sim, – porque, para o Rio de Janeiro, o bonde nasceu há trinta e cinco anos, somente.”

 

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O bonde

Não me faltaram assuntos com que atulhar o bojo de uma larga crônica, bem nutrida e bem variada, neste sábado em que escrevo – um sábado alegre e quente, um sol que cobre de tons de ouro e topázio os nossos feios telhados do século atrasado. Mas não quero outro assunto senão este: o bonde, – o bonde amável e modesto, veículo da democracia, igualador de castas, nivelador de fortunas, – o bonde despretensioso, de que, anteontem, festejamos o 35° aniversário natalício.

Natalício sim, – porque, para o Rio de Janeiro, o bonde nasceu há trinta e cinco anos, somente. E a cidade ainda está cheia de gente que se lembra das gôndolas pesadas e oscilantes, que se arrastavam aos trancos, morosas e feias como grandes hipopótamos.

O bonde, assim que nasceu, matou a “gôndola”, e a “diligência”, limitou despoticamente a esfera da ação das caleças e dos couplets, tomou conta de toda da cidade, – e só por generosidade ainda admite a concorrência, aliás bem pouco forte, do tílburi. Em trinta e cinco anos, esse operário da democracia estendeu por todas as zonas da urbs o aranhol dos seus trilhos metálicos, e senhoreou-se de todas as ruas urbanas e suburbanas, povoando bairros afastados, criando bairros novos, alargando de dia em dia o âmbito da capital, estabelecendo comunicações entre todos os alvéolos da nossa imensa colmeia. São dele as ruas, são dele as praças, tudo é dele, atualmente. De dia e de noite, indo e vindo, ao ronrom da corrente elétrica, ou ao rumoroso patear dos muares sobre as pedras, aí passa ele, o triunfador, – o servidor dos ricos, a providência dos pobres, a vida e a animação da cidade.

Haja sol ou chova, labute ou durma a cidade, o trabalho metódico do bonde não cessa: e alta noite, ou alta madrugada, quando já os mais terríveis notívagos se meteram no vale dos lençóis, ainda ele está cumprindo o seu fadário, deslizando sobre os trilhos, abrindo clareiras na treva com as suas lanternas vermelhas ou azuis, acordando os ecos das ruas desertas, velando incansável pela comodidade, pelo conforto, pelo serviço da população. Cheio ou vazio, com passageiros suspensos em pencas das balaustradas ou abrigando apenas dois ou três viajantes sonolentos, – a sua marcha é a mesma, certa e pausada, num ritmo regular que é a expressão perfeita de regularidade da sua missão na terra...

[...] Tu és um grande apóstolo do Socialismo, ó bonde modesto! tu destruíste os preconceitos de raça e de cor, tu baralhaste na mesma expansão de vida o orgulho dos fortes e a humildade dos fracos, as ambições e os desinteresses, a beleza e a fealdade, a saúde e a invalidez...

E, além disso, amo-te porque és, juntamente com o café, o que era nas antigas povoações selvagens o cachimbo da paz, – o veículo da hospitalidade e da sociabilidade.

Na roça, é tomando café que se estabelecem e estreitam as relações; na cidade, é viajando no mesmo bonde que se consegue isso.

O bonde é um criador de relações de amizade ... e de amor. Há amigos inseparáveis, que se viram pela primeira vez no bonde, começaram por olhar-se com desconfiança, passaram a saudar-se com cerimônia, encetaram palestras frias, foram do senhor ao você e do você ao tu, e uniram-se para a vida e para a morte [...].

Ontem, quando te vi simbolicamente apoteosado, junto da estátua de Caxias, numa irradiação ofuscante, – dei-te um longo olhar enternecido e grato. Emblema da simplicidade, imagem do congraçamento, veículo da democracia – tu bem merecias essa homenagem ruidosa!

Agora mesmo, quase ao terminar esta Crônica, toda consagrada à tua glória, estou antegozando a satisfação que me vais dar daqui a pouco ... Por esta linda manhã, tão cheia de sol, vais levar-me por aí a fora, embebido na contemplação das coisas e das gentes, adormecendo com o teu brando movimento a recordação dos aborrecimentos que me oprimem, e oferecendo-me, em cada esquina dobrada, um espetáculo novo e um novo gérmen de sonhos consoladores.

Haverá alguém que te não ame, bonde carioca?

Vê lá agora se, inchado de orgulho com esta declaração de amor, vais ficar pior do que és. Porque, enfim, tu és bom, mas não és perfeito. E nada impede que te aperfeiçoes: podes muito bem livrar-te do sistema dos comboios, podes bem ter uma luz que não prejudique tanto os olhos de quem te frequenta à noite, – e podes, enfim, andar um pouco mais depressa. Nem todos gostam de sonhar como eu: há quem goste de agir, – e, para esses, tu ainda és quase tão moroso como a velha gôndola que destronaste...

(BILAC, Olavo. O bonde. In: DIMAS, Antônio (Org.). Olavo Bilac. Vossa Insolência. São Paulo: Companhia das Letras, 1996. p. 318-28.)

apoteosado: glorificado.

caleça: carruagem de quatro rodas e dois assentos, puxada por uma parelha de cavalos.

couplet: carruagem fechada, de quatro rodas, geralmente para dois passageiros.

notívago: aquele que anda de noite.

patear dos muares: pisada das mulas.

Assinale a alternativa em que o termo ou a expressão emdestaque tem, no texto, valor denotativo.

 

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O bonde

Não me faltaram assuntos com que atulhar o bojo de uma larga crônica, bem nutrida e bem variada, neste sábado em que escrevo – um sábado alegre e quente, um sol que cobre de tons de ouro e topázio os nossos feios telhados do século atrasado. Mas não quero outro assunto senão este: o bonde, – o bonde amável e modesto, veículo da democracia, igualador de castas, nivelador de fortunas, – o bonde despretensioso, de que, anteontem, festejamos o 35° aniversário natalício.

Natalício sim, – porque, para o Rio de Janeiro, o bonde nasceu há trinta e cinco anos, somente. E a cidade ainda está cheia de gente que se lembra das gôndolas pesadas e oscilantes, que se arrastavam aos trancos, morosas e feias como grandes hipopótamos.

O bonde, assim que nasceu, matou a “gôndola”, e a “diligência”, limitou despoticamente a esfera da ação das caleças e dos couplets, tomou conta de toda da cidade, – e só por generosidade ainda admite a concorrência, aliás bem pouco forte, do tílburi. Em trinta e cinco anos, esse operário da democracia estendeu por todas as zonas da urbs o aranhol dos seus trilhos metálicos, e senhoreou-se de todas as ruas urbanas e suburbanas, povoando bairros afastados, criando bairros novos, alargando de dia em dia o âmbito da capital, estabelecendo comunicações entre todos os alvéolos da nossa imensa colmeia. São dele as ruas, são dele as praças, tudo é dele, atualmente. De dia e de noite, indo e vindo, ao ronrom da corrente elétrica, ou ao rumoroso patear dos muares sobre as pedras, aí passa ele, o triunfador, – o servidor dos ricos, a providência dos pobres, a vida e a animação da cidade.

Haja sol ou chova, labute ou durma a cidade, o trabalho metódico do bonde não cessa: e alta noite, ou alta madrugada, quando já os mais terríveis notívagos se meteram no vale dos lençóis, ainda ele está cumprindo o seu fadário, deslizando sobre os trilhos, abrindo clareiras na treva com as suas lanternas vermelhas ou azuis, acordando os ecos das ruas desertas, velando incansável pela comodidade, pelo conforto, pelo serviço da população. Cheio ou vazio, com passageiros suspensos em pencas das balaustradas ou abrigando apenas dois ou três viajantes sonolentos, – a sua marcha é a mesma, certa e pausada, num ritmo regular que é a expressão perfeita de regularidade da sua missão na terra...

[...] Tu és um grande apóstolo do Socialismo, ó bonde modesto! tu destruíste os preconceitos de raça e de cor, tu baralhaste na mesma expansão de vida o orgulho dos fortes e a humildade dos fracos, as ambições e os desinteresses, a beleza e a fealdade, a saúde e a invalidez...

E, além disso, amo-te porque és, juntamente com o café, o que era nas antigas povoações selvagens o cachimbo da paz, – o veículo da hospitalidade e da sociabilidade.

Na roça, é tomando café que se estabelecem e estreitam as relações; na cidade, é viajando no mesmo bonde que se consegue isso.

O bonde é um criador de relações de amizade ... e de amor. Há amigos inseparáveis, que se viram pela primeira vez no bonde, começaram por olhar-se com desconfiança, passaram a saudar-se com cerimônia, encetaram palestras frias, foram do senhor ao você e do você ao tu, e uniram-se para a vida e para a morte [...].

Ontem, quando te vi simbolicamente apoteosado, junto da estátua de Caxias, numa irradiação ofuscante, – dei-te um longo olhar enternecido e grato. Emblema da simplicidade, imagem do congraçamento, veículo da democracia – tu bem merecias essa homenagem ruidosa!

Agora mesmo, quase ao terminar esta Crônica, toda consagrada à tua glória, estou antegozando a satisfação que me vais dar daqui a pouco ... Por esta linda manhã, tão cheia de sol, vais levar-me por aí a fora, embebido na contemplação das coisas e das gentes, adormecendo com o teu brando movimento a recordação dos aborrecimentos que me oprimem, e oferecendo-me, em cada esquina dobrada, um espetáculo novo e um novo gérmen de sonhos consoladores.

Haverá alguém que te não ame, bonde carioca?

Vê lá agora se, inchado de orgulho com esta declaração de amor, vais ficar pior do que és. Porque, enfim, tu és bom, mas não és perfeito. E nada impede que te aperfeiçoes: podes muito bem livrar-te do sistema dos comboios, podes bem ter uma luz que não prejudique tanto os olhos de quem te frequenta à noite, – e podes, enfim, andar um pouco mais depressa. Nem todos gostam de sonhar como eu: há quem goste de agir, – e, para esses, tu ainda és quase tão moroso como a velha gôndola que destronaste...

(BILAC, Olavo. O bonde. In: DIMAS, Antônio (Org.). Olavo Bilac. Vossa Insolência. São Paulo: Companhia das Letras, 1996. p. 318-28.)

apoteosado: glorificado.

caleça: carruagem de quatro rodas e dois assentos, puxada por uma parelha de cavalos.

couplet: carruagem fechada, de quatro rodas, geralmente para dois passageiros.

notívago: aquele que anda de noite.

patear dos muares: pisada das mulas.

Coma chegada do bonde, a vida da cidade tornou-se:

 

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O bonde

Não me faltaram assuntos com que atulhar o bojo de uma larga crônica, bem nutrida e bem variada, neste sábado em que escrevo – um sábado alegre e quente, um sol que cobre de tons de ouro e topázio os nossos feios telhados do século atrasado. Mas não quero outro assunto senão este: o bonde, – o bonde amável e modesto, veículo da democracia, igualador de castas, nivelador de fortunas, – o bonde despretensioso, de que, anteontem, festejamos o 35° aniversário natalício.

Natalício sim, – porque, para o Rio de Janeiro, o bonde nasceu há trinta e cinco anos, somente. E a cidade ainda está cheia de gente que se lembra das gôndolas pesadas e oscilantes, que se arrastavam aos trancos, morosas e feias como grandes hipopótamos.

O bonde, assim que nasceu, matou a “gôndola”, e a “diligência”, limitou despoticamente a esfera da ação das caleças e dos couplets, tomou conta de toda da cidade, – e só por generosidade ainda admite a concorrência, aliás bem pouco forte, do tílburi. Em trinta e cinco anos, esse operário da democracia estendeu por todas as zonas da urbs o aranhol dos seus trilhos metálicos, e senhoreou-se de todas as ruas urbanas e suburbanas, povoando bairros afastados, criando bairros novos, alargando de dia em dia o âmbito da capital, estabelecendo comunicações entre todos os alvéolos da nossa imensa colmeia. São dele as ruas, são dele as praças, tudo é dele, atualmente. De dia e de noite, indo e vindo, ao ronrom da corrente elétrica, ou ao rumoroso patear dos muares sobre as pedras, aí passa ele, o triunfador, – o servidor dos ricos, a providência dos pobres, a vida e a animação da cidade.

Haja sol ou chova, labute ou durma a cidade, o trabalho metódico do bonde não cessa: e alta noite, ou alta madrugada, quando já os mais terríveis notívagos se meteram no vale dos lençóis, ainda ele está cumprindo o seu fadário, deslizando sobre os trilhos, abrindo clareiras na treva com as suas lanternas vermelhas ou azuis, acordando os ecos das ruas desertas, velando incansável pela comodidade, pelo conforto, pelo serviço da população. Cheio ou vazio, com passageiros suspensos em pencas das balaustradas ou abrigando apenas dois ou três viajantes sonolentos, – a sua marcha é a mesma, certa e pausada, num ritmo regular que é a expressão perfeita de regularidade da sua missão na terra...

[...] Tu és um grande apóstolo do Socialismo, ó bonde modesto! tu destruíste os preconceitos de raça e de cor, tu baralhaste na mesma expansão de vida o orgulho dos fortes e a humildade dos fracos, as ambições e os desinteresses, a beleza e a fealdade, a saúde e a invalidez...

E, além disso, amo-te porque és, juntamente com o café, o que era nas antigas povoações selvagens o cachimbo da paz, – o veículo da hospitalidade e da sociabilidade.

Na roça, é tomando café que se estabelecem e estreitam as relações; na cidade, é viajando no mesmo bonde que se consegue isso.

O bonde é um criador de relações de amizade ... e de amor. Há amigos inseparáveis, que se viram pela primeira vez no bonde, começaram por olhar-se com desconfiança, passaram a saudar-se com cerimônia, encetaram palestras frias, foram do senhor ao você e do você ao tu, e uniram-se para a vida e para a morte [...].

Ontem, quando te vi simbolicamente apoteosado, junto da estátua de Caxias, numa irradiação ofuscante, – dei-te um longo olhar enternecido e grato. Emblema da simplicidade, imagem do congraçamento, veículo da democracia – tu bem merecias essa homenagem ruidosa!

Agora mesmo, quase ao terminar esta Crônica, toda consagrada à tua glória, estou antegozando a satisfação que me vais dar daqui a pouco ... Por esta linda manhã, tão cheia de sol, vais levar-me por aí a fora, embebido na contemplação das coisas e das gentes, adormecendo com o teu brando movimento a recordação dos aborrecimentos que me oprimem, e oferecendo-me, em cada esquina dobrada, um espetáculo novo e um novo gérmen de sonhos consoladores.

Haverá alguém que te não ame, bonde carioca?

Vê lá agora se, inchado de orgulho com esta declaração de amor, vais ficar pior do que és. Porque, enfim, tu és bom, mas não és perfeito. E nada impede que te aperfeiçoes: podes muito bem livrar-te do sistema dos comboios, podes bem ter uma luz que não prejudique tanto os olhos de quem te frequenta à noite, – e podes, enfim, andar um pouco mais depressa. Nem todos gostam de sonhar como eu: há quem goste de agir, – e, para esses, tu ainda és quase tão moroso como a velha gôndola que destronaste...

(BILAC, Olavo. O bonde. In: DIMAS, Antônio (Org.). Olavo Bilac. Vossa Insolência. São Paulo: Companhia das Letras, 1996. p. 318-28.)

apoteosado: glorificado.

caleça: carruagem de quatro rodas e dois assentos, puxada por uma parelha de cavalos.

couplet: carruagem fechada, de quatro rodas, geralmente para dois passageiros.

notívago: aquele que anda de noite.

patear dos muares: pisada das mulas.

Com base na descrição do bonde nas ruas, como o autor contrapõe o atraso e a modernização da cidade?

 

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