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2873501 Ano: 2022
Disciplina: Português
Banca: Consulplan
Orgão: Pref. Caeté-MG
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Dê uma chance ao ser humano

A vizinha tocou a campainha e, quando abri a porta, surpreso com a visita inesperada, ela entrou, me abraçou forte e falou devagar, olhando fundo nos meus olhos: “Você tem sido um vizinho muito compreensivo e eu ando muito relapsa na criação dos meus cachorros. Isso vai mudar!” Desde então, uma série de procedimentos na casa em frente à minha acabou com um pesadelo que me atormentou por mais de um ano. Sei que todo mundo tem um caso com o cachorro do vizinho para contar, mas, com final feliz assim, francamente, duvido. A história que agora passo a narrar do início explica em grande parte por que ainda acredito no ser humano – ô, raça!

Não sei se os outros vizinhos decidiram em assembleia que esperariam a todo custo por uma reação minha, mas, para encurtar a história, o fato é que, um ano e tanto depois da chegada do primeiro pastor alemão àquela casa, eu tive um ataque, enlouqueci, surtei. Imagine o mico: vinha chegando da rua com meus filhos – gêmeos de 10 anos –, chovia baldes, eu não conseguia achar as chaves e os bichos gritavam como se fôssemos assaltantes de banco. Segura o guarda-chuva! Cadê as chaves? Será que não podiam ao menos parar de latir um pouco, caramba? – Cala a boooooocaaaa! – gritei para ser ouvido em todo o bairro. Os cachorros emudeceram por dez segundos. Fez- -se um silêncio profundo na Gávea. Os garotos me olhavam como se estivessem vendo alguém assim, inteiramente fora de si, pela primeira vez na vida. Eu mesmo não me reconhecia, mas, à primeira rosnada que se seguiu, resolvi ir em frente, impossível recuar: “Cala a booooocaaaa! Cala a boooocaaaaa!” Silêncio total. Os meninos estavam agora admirados: acho que jamais tinham visto aqueles bichos de boca fechada.

Havia muito tempo que não entrava nem saía de casa sem que os cães dessem alarme de minha presença na rua. Tinha vivido uma época de separações, morte de gente muito querida, além de momentos de intensa felicidade, sempre com aqueles bichos latindo sem parar. De manhã, de tarde, de noite, de madrugada, manja pesadelo? “Seus cachorros são insuportáveis e, se vocês nada fizerem a respeito – estamos no Brasil, tudo é possível –, eu vou me embora, me mudo, sumo daqui...” – escrevi algo assim, mais resignado que irritado, o arquivo original sumiu do computador.

Mas chegou aonde devia ou a vizinha não teria me dado aquele abraço comovido na noite em que abri a porta, surpreso com ela se anunciando no interfone, depois de meu chilique diante de casa. No dia seguinte chegou carta do marido dela: “Seu incômodo é o nosso, agravado pelo fato de sermos responsáveis por essas criaturas que adotamos não para funções policiais, mas por amor mesmo. Try a little bit harder, diz a canção, e é o que será feito. Desculpe os aborrecimentos. Agradeço sua paciência e educação”.

Desde então – há coisa de um mês, portanto –, meus vizinhos têm feito o possível para controlar o ímpeto de seus bichos, que já não me vigiam dia e noite, arrumaram para eles coisa decerto mais interessante a fazer no quintal. Quando o DNA de Rin-tin-tin ameaça se manifestar, são chamados à atenção e se calam. Às vezes não acredito que isso esteja realmente acontecendo neste mundo cão em que vivemos. Se não estou vendo coisas – o que também ocorre com certa frequência –, o ser humano talvez ainda tenha alguma chance de dar certo. Pense nisso!

(VASQUES, Tutty. In: Santos, Joaquim Ferreira dos (Org.). As cem melhores

crônicas brasileiras. Rio de Janeiro: Objetiva, 2007. Adaptado.)

Em “Você tem sido um vizinho muito compreensivo e eu ando muito relapsa na criação dos meus cachorros. Isso vai mudar!” (1º§), o termo destacado poderia ser substituído, sem causar alteração do sentido originalmente proposto, pelas seguintes palavras, EXCETO:

 

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2873500 Ano: 2022
Disciplina: Português
Banca: Consulplan
Orgão: Pref. Caeté-MG
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Dê uma chance ao ser humano

A vizinha tocou a campainha e, quando abri a porta, surpreso com a visita inesperada, ela entrou, me abraçou forte e falou devagar, olhando fundo nos meus olhos: “Você tem sido um vizinho muito compreensivo e eu ando muito relapsa na criação dos meus cachorros. Isso vai mudar!” Desde então, uma série de procedimentos na casa em frente à minha acabou com um pesadelo que me atormentou por mais de um ano. Sei que todo mundo tem um caso com o cachorro do vizinho para contar, mas, com final feliz assim, francamente, duvido. A história que agora passo a narrar do início explica em grande parte por que ainda acredito no ser humano – ô, raça!

Não sei se os outros vizinhos decidiram em assembleia que esperariam a todo custo por uma reação minha, mas, para encurtar a história, o fato é que, um ano e tanto depois da chegada do primeiro pastor alemão àquela casa, eu tive um ataque, enlouqueci, surtei. Imagine o mico: vinha chegando da rua com meus filhos – gêmeos de 10 anos –, chovia baldes, eu não conseguia achar as chaves e os bichos gritavam como se fôssemos assaltantes de banco. Segura o guarda-chuva! Cadê as chaves? Será que não podiam ao menos parar de latir um pouco, caramba? – Cala a boooooocaaaa! – gritei para ser ouvido em todo o bairro. Os cachorros emudeceram por dez segundos. Fez- -se um silêncio profundo na Gávea. Os garotos me olhavam como se estivessem vendo alguém assim, inteiramente fora de si, pela primeira vez na vida. Eu mesmo não me reconhecia, mas, à primeira rosnada que se seguiu, resolvi ir em frente, impossível recuar: “Cala a booooocaaaa! Cala a boooocaaaaa!” Silêncio total. Os meninos estavam agora admirados: acho que jamais tinham visto aqueles bichos de boca fechada.

Havia muito tempo que não entrava nem saía de casa sem que os cães dessem alarme de minha presença na rua. Tinha vivido uma época de separações, morte de gente muito querida, além de momentos de intensa felicidade, sempre com aqueles bichos latindo sem parar. De manhã, de tarde, de noite, de madrugada, manja pesadelo? “Seus cachorros são insuportáveis e, se vocês nada fizerem a respeito – estamos no Brasil, tudo é possível –, eu vou me embora, me mudo, sumo daqui...” – escrevi algo assim, mais resignado que irritado, o arquivo original sumiu do computador.

Mas chegou aonde devia ou a vizinha não teria me dado aquele abraço comovido na noite em que abri a porta, surpreso com ela se anunciando no interfone, depois de meu chilique diante de casa. No dia seguinte chegou carta do marido dela: “Seu incômodo é o nosso, agravado pelo fato de sermos responsáveis por essas criaturas que adotamos não para funções policiais, mas por amor mesmo. Try a little bit harder, diz a canção, e é o que será feito. Desculpe os aborrecimentos. Agradeço sua paciência e educação”.

Desde então – há coisa de um mês, portanto –, meus vizinhos têm feito o possível para controlar o ímpeto de seus bichos, que já não me vigiam dia e noite, arrumaram para eles coisa decerto mais interessante a fazer no quintal. Quando o DNA de Rin-tin-tin ameaça se manifestar, são chamados à atenção e se calam. Às vezes não acredito que isso esteja realmente acontecendo neste mundo cão em que vivemos. Se não estou vendo coisas – o que também ocorre com certa frequência –, o ser humano talvez ainda tenha alguma chance de dar certo. Pense nisso!

(VASQUES, Tutty. In: Santos, Joaquim Ferreira dos (Org.). As cem melhores

crônicas brasileiras. Rio de Janeiro: Objetiva, 2007. Adaptado.)

Considerando que o sujeito é o termo essencial da oração sobre o qual se diz alguma coisa, assinale a afirmativa textual que apresenta sujeito implícito.

 

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2873499 Ano: 2022
Disciplina: Português
Banca: Consulplan
Orgão: Pref. Caeté-MG
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Dê uma chance ao ser humano

A vizinha tocou a campainha e, quando abri a porta, surpreso com a visita inesperada, ela entrou, me abraçou forte e falou devagar, olhando fundo nos meus olhos: “Você tem sido um vizinho muito compreensivo e eu ando muito relapsa na criação dos meus cachorros. Isso vai mudar!” Desde então, uma série de procedimentos na casa em frente à minha acabou com um pesadelo que me atormentou por mais de um ano. Sei que todo mundo tem um caso com o cachorro do vizinho para contar, mas, com final feliz assim, francamente, duvido. A história que agora passo a narrar do início explica em grande parte por que ainda acredito no ser humano – ô, raça!

Não sei se os outros vizinhos decidiram em assembleia que esperariam a todo custo por uma reação minha, mas, para encurtar a história, o fato é que, um ano e tanto depois da chegada do primeiro pastor alemão àquela casa, eu tive um ataque, enlouqueci, surtei. Imagine o mico: vinha chegando da rua com meus filhos – gêmeos de 10 anos –, chovia baldes, eu não conseguia achar as chaves e os bichos gritavam como se fôssemos assaltantes de banco. Segura o guarda-chuva! Cadê as chaves? Será que não podiam ao menos parar de latir um pouco, caramba? – Cala a boooooocaaaa! – gritei para ser ouvido em todo o bairro. Os cachorros emudeceram por dez segundos. Fez- -se um silêncio profundo na Gávea. Os garotos me olhavam como se estivessem vendo alguém assim, inteiramente fora de si, pela primeira vez na vida. Eu mesmo não me reconhecia, mas, à primeira rosnada que se seguiu, resolvi ir em frente, impossível recuar: “Cala a booooocaaaa! Cala a boooocaaaaa!” Silêncio total. Os meninos estavam agora admirados: acho que jamais tinham visto aqueles bichos de boca fechada.

Havia muito tempo que não entrava nem saía de casa sem que os cães dessem alarme de minha presença na rua. Tinha vivido uma época de separações, morte de gente muito querida, além de momentos de intensa felicidade, sempre com aqueles bichos latindo sem parar. De manhã, de tarde, de noite, de madrugada, manja pesadelo? “Seus cachorros são insuportáveis e, se vocês nada fizerem a respeito – estamos no Brasil, tudo é possível –, eu vou me embora, me mudo, sumo daqui...” – escrevi algo assim, mais resignado que irritado, o arquivo original sumiu do computador.

Mas chegou aonde devia ou a vizinha não teria me dado aquele abraço comovido na noite em que abri a porta, surpreso com ela se anunciando no interfone, depois de meu chilique diante de casa. No dia seguinte chegou carta do marido dela: “Seu incômodo é o nosso, agravado pelo fato de sermos responsáveis por essas criaturas que adotamos não para funções policiais, mas por amor mesmo. Try a little bit harder, diz a canção, e é o que será feito. Desculpe os aborrecimentos. Agradeço sua paciência e educação”.

Desde então – há coisa de um mês, portanto –, meus vizinhos têm feito o possível para controlar o ímpeto de seus bichos, que já não me vigiam dia e noite, arrumaram para eles coisa decerto mais interessante a fazer no quintal. Quando o DNA de Rin-tin-tin ameaça se manifestar, são chamados à atenção e se calam. Às vezes não acredito que isso esteja realmente acontecendo neste mundo cão em que vivemos. Se não estou vendo coisas – o que também ocorre com certa frequência –, o ser humano talvez ainda tenha alguma chance de dar certo. Pense nisso!

(VASQUES, Tutty. In: Santos, Joaquim Ferreira dos (Org.). As cem melhores

crônicas brasileiras. Rio de Janeiro: Objetiva, 2007. Adaptado.)

No fragmento “Desde então, uma série de procedimentos na casa em frente à minha acabou com um pesadelo que me atormentou por mais de um ano.” (1º§), o emprego do sinal indicativo de crase é facultativo. Podemos afirmar que a crase também é opcional em:

 

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2873498 Ano: 2022
Disciplina: Português
Banca: Consulplan
Orgão: Pref. Caeté-MG
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Cancelar palavras para não cancelar pessoas

Li um texto em defesa do uso da palavra “denegrir”, lançando mão de um tratado etimológico quase “iluminista” para dizer que o termo não tem uma origem racista. Não deixa de me espantar a quantidade de pessoas brancas que se dizem cansadas do “politicamente correto”, cansadas de ter de trocar de palavras e “se censurar”. Li os comentários com profundo espanto. Será que não entenderam que algumas palavras podem machucar uma quantidade imensa de pessoas?

Foi na sala de aula de Rita Segato que aprendi que “raça é signo”. Nessa frase que dá nome a um de seus mais importantes textos, ela responde a algumas perguntas contrárias às cotas raciais, sendo a primeira: “como é possível falar em cotas raciais se faz tempo já que a biologia e a antropologia aboliram a raça como uma categoria válida?”, ao que responde, com perplexidade, que “somente as representações sociais têm status existencial de realidade num universo plenamente simbólico como é o humano”.

Trocando em miúdos, o fato de sabermos que as raças não existem biologicamente, que são uma mera questão de melanina não acaba com o racismo, e não acaba porque somos seres sociais, porque fomos socializados num mundo que escalona as cores da pele. Mesmo que as ciências tenham avançado e tenhamos descoberto que não há que se falar biologicamente em raças, a raça segue existindo. O racismo está no olhar que enquadra e deprecia, está também na insistência de palavras que machucam, está às vezes em lugares quase invisíveis que sustentam todo um arcabouço opressivo, assassinando pessoas diuturnamente, física e simbolicamente.

Mesmo que uma palavra tenha tido uma origem não racista, ou mesmo uma origem racista, eu diria que, independentemente da origem da palavra, é preciso fazer sua leitura hoje, no contexto atual, no mundo simbólico onde ela transita. Se ela machuca um grupo de pessoas, não há razão para insistir em seu uso.

Mas vamos combinar que substituir “denegrir” ou mesmo “judiar” não são tarefas atlânticas. A coisa boa das palavras é que há muitas, e sempre surgem novas palavras e modos de dizer. E não, isso não é um mero “cancelamento” de palavras. Ao contrário, insistir em palavras que agridem é insistir no “cancelamento” de pessoas. Militar pela abolição de palavras que machucam pessoas e grupos de pessoas é um ativismo importantíssimo e tampouco deve ser confundido com censura. Basta um pouco de bom senso, razoabilidade e sensibilidade.

Tem gente que ainda usa “o homem” para designar todos os seres humanos, a humanidade, achando irrelevante o seu caráter excludente para as mulheres, metade da população do país. Tem gente que insiste em usar a palavra “retardado”, esquecendo de seu poder ofensivo para pessoas com deficiência. Tem gente à beça que ainda não se deu conta da importância de modificarmos o nosso jeito de falar, de retificarmos nossos textos para “desgenerificar”, “desracializar”, etc., porque sem modificar a língua, essa graúda “ferramenta do senhor”, não vamos “derrubar a casa grande”, como diria a poeta Audre Lorde.

A língua está viva. A história e a etimologia nos mostram também que muitas palavras morreram e outras tantas nasceram, porque a língua é assim, não está morta e cimentada, e sobretudo, precisa estar aberta para que as palavras possam representar e traduzir a vida, seus processos, suas lutas e transformações sociais. Querendo ou não, a língua é já uma metamorfose ambulante, como a vida. Querer estancá-la e mantê-la inflexível é destruí-la, não o contrário.

Em pleno século XXI faz sentido insistirmos em vocabulários e modos linguísticos excludentes, onde nem todes se sentem representades? E dizer, ainda, que a linguagem neutra é feia? Tem gente que acha feio porque não se acostumou. Feio é excluir, feio é insistir em palavras que ferem.

Que a língua, essa metamorfose ambulante, possa, antes tarde do que mais tarde, abarcar todes que a usam. Encontremos formas de inventar novas palavras e tornar outras mais belas, como disse Drummond. Busquemos a ética na (est)ética de nossas palavras e textos. Confabulemos com urgência novas metáforas de claridade e escuridão, porque está tudo tão sufocantemente branco que a brancura queimou nossos neurônios. É preciso escurecer para perceber. Como disse Manoel de Barros, “às vezes ao poeta faz bem desexplicar – tanto quanto escurecer acende os vagalumes”.

(GONTIJO, Danú. Cancelar palavras para não cancelar pessoas. Jornal Nexo, 2022.

Disponível em: https://www.nexojornal.com.br/ensaio/2022/Cancelar-palavras-

para-n%C3%A3o-cancelar-pessoas. Acesso em: 19/08/2022. Adaptado.)

O texto lido apresenta características predominantemente argumentativas, pois apresenta uma tese, que é sustentada por meio de argumentos. Além disso, a articulista sugere ações ou medidas para minimizar a problemática social discutida. Aponte a alternativa que contém propostas de intervenção.

 

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2873497 Ano: 2022
Disciplina: Português
Banca: Consulplan
Orgão: Pref. Caeté-MG
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Cancelar palavras para não cancelar pessoas

Li um texto em defesa do uso da palavra “denegrir”, lançando mão de um tratado etimológico quase “iluminista” para dizer que o termo não tem uma origem racista. Não deixa de me espantar a quantidade de pessoas brancas que se dizem cansadas do “politicamente correto”, cansadas de ter de trocar de palavras e “se censurar”. Li os comentários com profundo espanto. Será que não entenderam que algumas palavras podem machucar uma quantidade imensa de pessoas?

Foi na sala de aula de Rita Segato que aprendi que “raça é signo”. Nessa frase que dá nome a um de seus mais importantes textos, ela responde a algumas perguntas contrárias às cotas raciais, sendo a primeira: “como é possível falar em cotas raciais se faz tempo já que a biologia e a antropologia aboliram a raça como uma categoria válida?”, ao que responde, com perplexidade, que “somente as representações sociais têm status existencial de realidade num universo plenamente simbólico como é o humano”.

Trocando em miúdos, o fato de sabermos que as raças não existem biologicamente, que são uma mera questão de melanina não acaba com o racismo, e não acaba porque somos seres sociais, porque fomos socializados num mundo que escalona as cores da pele. Mesmo que as ciências tenham avançado e tenhamos descoberto que não há que se falar biologicamente em raças, a raça segue existindo. O racismo está no olhar que enquadra e deprecia, está também na insistência de palavras que machucam, está às vezes em lugares quase invisíveis que sustentam todo um arcabouço opressivo, assassinando pessoas diuturnamente, física e simbolicamente.

Mesmo que uma palavra tenha tido uma origem não racista, ou mesmo uma origem racista, eu diria que, independentemente da origem da palavra, é preciso fazer sua leitura hoje, no contexto atual, no mundo simbólico onde ela transita. Se ela machuca um grupo de pessoas, não há razão para insistir em seu uso.

Mas vamos combinar que substituir “denegrir” ou mesmo “judiar” não são tarefas atlânticas. A coisa boa das palavras é que há muitas, e sempre surgem novas palavras e modos de dizer. E não, isso não é um mero “cancelamento” de palavras. Ao contrário, insistir em palavras que agridem é insistir no “cancelamento” de pessoas. Militar pela abolição de palavras que machucam pessoas e grupos de pessoas é um ativismo importantíssimo e tampouco deve ser confundido com censura. Basta um pouco de bom senso, razoabilidade e sensibilidade.

Tem gente que ainda usa “o homem” para designar todos os seres humanos, a humanidade, achando irrelevante o seu caráter excludente para as mulheres, metade da população do país. Tem gente que insiste em usar a palavra “retardado”, esquecendo de seu poder ofensivo para pessoas com deficiência. Tem gente à beça que ainda não se deu conta da importância de modificarmos o nosso jeito de falar, de retificarmos nossos textos para “desgenerificar”, “desracializar”, etc., porque sem modificar a língua, essa graúda “ferramenta do senhor”, não vamos “derrubar a casa grande”, como diria a poeta Audre Lorde.

A língua está viva. A história e a etimologia nos mostram também que muitas palavras morreram e outras tantas nasceram, porque a língua é assim, não está morta e cimentada, e sobretudo, precisa estar aberta para que as palavras possam representar e traduzir a vida, seus processos, suas lutas e transformações sociais. Querendo ou não, a língua é já uma metamorfose ambulante, como a vida. Querer estancá-la e mantê-la inflexível é destruí-la, não o contrário.

Em pleno século XXI faz sentido insistirmos em vocabulários e modos linguísticos excludentes, onde nem todes se sentem representades? E dizer, ainda, que a linguagem neutra é feia? Tem gente que acha feio porque não se acostumou. Feio é excluir, feio é insistir em palavras que ferem.

Que a língua, essa metamorfose ambulante, possa, antes tarde do que mais tarde, abarcar todes que a usam. Encontremos formas de inventar novas palavras e tornar outras mais belas, como disse Drummond. Busquemos a ética na (est)ética de nossas palavras e textos. Confabulemos com urgência novas metáforas de claridade e escuridão, porque está tudo tão sufocantemente branco que a brancura queimou nossos neurônios. É preciso escurecer para perceber. Como disse Manoel de Barros, “às vezes ao poeta faz bem desexplicar – tanto quanto escurecer acende os vagalumes”.

(GONTIJO, Danú. Cancelar palavras para não cancelar pessoas. Jornal Nexo, 2022.

Disponível em: https://www.nexojornal.com.br/ensaio/2022/Cancelar-palavras-

para-n%C3%A3o-cancelar-pessoas. Acesso em: 19/08/2022. Adaptado.)

Selecione a passagem do texto em que a autora utilizou uma linguagem mais próxima do registro informal ou coloquial da linguagem.

 

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2873496 Ano: 2022
Disciplina: Português
Banca: Consulplan
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Li um texto em defesa do uso da palavra “denegrir”, lançando mão de um tratado etimológico quase “iluminista” para dizer que o termo não tem uma origem racista. Não deixa de me espantar a quantidade de pessoas brancas que se dizem cansadas do “politicamente correto”, cansadas de ter de trocar de palavras e “se censurar”. Li os comentários com profundo espanto. Será que não entenderam que algumas palavras podem machucar uma quantidade imensa de pessoas?

Foi na sala de aula de Rita Segato que aprendi que “raça é signo”. Nessa frase que dá nome a um de seus mais importantes textos, ela responde a algumas perguntas contrárias às cotas raciais, sendo a primeira: “como é possível falar em cotas raciais se faz tempo já que a biologia e a antropologia aboliram a raça como uma categoria válida?”, ao que responde, com perplexidade, que “somente as representações sociais têm status existencial de realidade num universo plenamente simbólico como é o humano”.

Trocando em miúdos, o fato de sabermos que as raças não existem biologicamente, que são uma mera questão de melanina não acaba com o racismo, e não acaba porque somos seres sociais, porque fomos socializados num mundo que escalona as cores da pele. Mesmo que as ciências tenham avançado e tenhamos descoberto que não há que se falar biologicamente em raças, a raça segue existindo. O racismo está no olhar que enquadra e deprecia, está também na insistência de palavras que machucam, está às vezes em lugares quase invisíveis que sustentam todo um arcabouço opressivo, assassinando pessoas diuturnamente, física e simbolicamente.

Mesmo que uma palavra tenha tido uma origem não racista, ou mesmo uma origem racista, eu diria que, independentemente da origem da palavra, é preciso fazer sua leitura hoje, no contexto atual, no mundo simbólico onde ela transita. Se ela machuca um grupo de pessoas, não há razão para insistir em seu uso.

Mas vamos combinar que substituir “denegrir” ou mesmo “judiar” não são tarefas atlânticas. A coisa boa das palavras é que há muitas, e sempre surgem novas palavras e modos de dizer. E não, isso não é um mero “cancelamento” de palavras. Ao contrário, insistir em palavras que agridem é insistir no “cancelamento” de pessoas. Militar pela abolição de palavras que machucam pessoas e grupos de pessoas é um ativismo importantíssimo e tampouco deve ser confundido com censura. Basta um pouco de bom senso, razoabilidade e sensibilidade.

Tem gente que ainda usa “o homem” para designar todos os seres humanos, a humanidade, achando irrelevante o seu caráter excludente para as mulheres, metade da população do país. Tem gente que insiste em usar a palavra “retardado”, esquecendo de seu poder ofensivo para pessoas com deficiência. Tem gente à beça que ainda não se deu conta da importância de modificarmos o nosso jeito de falar, de retificarmos nossos textos para “desgenerificar”, “desracializar”, etc., porque sem modificar a língua, essa graúda “ferramenta do senhor”, não vamos “derrubar a casa grande”, como diria a poeta Audre Lorde.

A língua está viva. A história e a etimologia nos mostram também que muitas palavras morreram e outras tantas nasceram, porque a língua é assim, não está morta e cimentada, e sobretudo, precisa estar aberta para que as palavras possam representar e traduzir a vida, seus processos, suas lutas e transformações sociais. Querendo ou não, a língua é já uma metamorfose ambulante, como a vida. Querer estancá-la e mantê-la inflexível é destruí-la, não o contrário.

Em pleno século XXI faz sentido insistirmos em vocabulários e modos linguísticos excludentes, onde nem todes se sentem representades? E dizer, ainda, que a linguagem neutra é feia? Tem gente que acha feio porque não se acostumou. Feio é excluir, feio é insistir em palavras que ferem.

Que a língua, essa metamorfose ambulante, possa, antes tarde do que mais tarde, abarcar todes que a usam. Encontremos formas de inventar novas palavras e tornar outras mais belas, como disse Drummond. Busquemos a ética na (est)ética de nossas palavras e textos. Confabulemos com urgência novas metáforas de claridade e escuridão, porque está tudo tão sufocantemente branco que a brancura queimou nossos neurônios. É preciso escurecer para perceber. Como disse Manoel de Barros, “às vezes ao poeta faz bem desexplicar – tanto quanto escurecer acende os vagalumes”.

(GONTIJO, Danú. Cancelar palavras para não cancelar pessoas. Jornal Nexo, 2022.

Disponível em: https://www.nexojornal.com.br/ensaio/2022/Cancelar-palavras-

para-n%C3%A3o-cancelar-pessoas. Acesso em: 19/08/2022. Adaptado.)

Considerando-se a temática e o posicionamento da autora, poder-se-ia atribuir qual outro título igualmente adequado ao texto?

 

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2873495 Ano: 2022
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Li um texto em defesa do uso da palavra “denegrir”, lançando mão de um tratado etimológico quase “iluminista” para dizer que o termo não tem uma origem racista. Não deixa de me espantar a quantidade de pessoas brancas que se dizem cansadas do “politicamente correto”, cansadas de ter de trocar de palavras e “se censurar”. Li os comentários com profundo espanto. Será que não entenderam que algumas palavras podem machucar uma quantidade imensa de pessoas?

Foi na sala de aula de Rita Segato que aprendi que “raça é signo”. Nessa frase que dá nome a um de seus mais importantes textos, ela responde a algumas perguntas contrárias às cotas raciais, sendo a primeira: “como é possível falar em cotas raciais se faz tempo já que a biologia e a antropologia aboliram a raça como uma categoria válida?”, ao que responde, com perplexidade, que “somente as representações sociais têm status existencial de realidade num universo plenamente simbólico como é o humano”.

Trocando em miúdos, o fato de sabermos que as raças não existem biologicamente, que são uma mera questão de melanina não acaba com o racismo, e não acaba porque somos seres sociais, porque fomos socializados num mundo que escalona as cores da pele. Mesmo que as ciências tenham avançado e tenhamos descoberto que não há que se falar biologicamente em raças, a raça segue existindo. O racismo está no olhar que enquadra e deprecia, está também na insistência de palavras que machucam, está às vezes em lugares quase invisíveis que sustentam todo um arcabouço opressivo, assassinando pessoas diuturnamente, física e simbolicamente.

Mesmo que uma palavra tenha tido uma origem não racista, ou mesmo uma origem racista, eu diria que, independentemente da origem da palavra, é preciso fazer sua leitura hoje, no contexto atual, no mundo simbólico onde ela transita. Se ela machuca um grupo de pessoas, não há razão para insistir em seu uso.

Mas vamos combinar que substituir “denegrir” ou mesmo “judiar” não são tarefas atlânticas. A coisa boa das palavras é que há muitas, e sempre surgem novas palavras e modos de dizer. E não, isso não é um mero “cancelamento” de palavras. Ao contrário, insistir em palavras que agridem é insistir no “cancelamento” de pessoas. Militar pela abolição de palavras que machucam pessoas e grupos de pessoas é um ativismo importantíssimo e tampouco deve ser confundido com censura. Basta um pouco de bom senso, razoabilidade e sensibilidade.

Tem gente que ainda usa “o homem” para designar todos os seres humanos, a humanidade, achando irrelevante o seu caráter excludente para as mulheres, metade da população do país. Tem gente que insiste em usar a palavra “retardado”, esquecendo de seu poder ofensivo para pessoas com deficiência. Tem gente à beça que ainda não se deu conta da importância de modificarmos o nosso jeito de falar, de retificarmos nossos textos para “desgenerificar”, “desracializar”, etc., porque sem modificar a língua, essa graúda “ferramenta do senhor”, não vamos “derrubar a casa grande”, como diria a poeta Audre Lorde.

A língua está viva. A história e a etimologia nos mostram também que muitas palavras morreram e outras tantas nasceram, porque a língua é assim, não está morta e cimentada, e sobretudo, precisa estar aberta para que as palavras possam representar e traduzir a vida, seus processos, suas lutas e transformações sociais. Querendo ou não, a língua é já uma metamorfose ambulante, como a vida. Querer estancá-la e mantê-la inflexível é destruí-la, não o contrário.

Em pleno século XXI faz sentido insistirmos em vocabulários e modos linguísticos excludentes, onde nem todes se sentem representades? E dizer, ainda, que a linguagem neutra é feia? Tem gente que acha feio porque não se acostumou. Feio é excluir, feio é insistir em palavras que ferem.

Que a língua, essa metamorfose ambulante, possa, antes tarde do que mais tarde, abarcar todes que a usam. Encontremos formas de inventar novas palavras e tornar outras mais belas, como disse Drummond. Busquemos a ética na (est)ética de nossas palavras e textos. Confabulemos com urgência novas metáforas de claridade e escuridão, porque está tudo tão sufocantemente branco que a brancura queimou nossos neurônios. É preciso escurecer para perceber. Como disse Manoel de Barros, “às vezes ao poeta faz bem desexplicar – tanto quanto escurecer acende os vagalumes”.

(GONTIJO, Danú. Cancelar palavras para não cancelar pessoas. Jornal Nexo, 2022.

Disponível em: https://www.nexojornal.com.br/ensaio/2022/Cancelar-palavras-

para-n%C3%A3o-cancelar-pessoas. Acesso em: 19/08/2022. Adaptado.)

Assinale a opção em que os dois-pontos poderiam ter sido utilizados em substituição à vírgula, sem infringir a norma culta e sem provocar alteração semântica.

 

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2873494 Ano: 2022
Disciplina: Português
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Cancelar palavras para não cancelar pessoas

Li um texto em defesa do uso da palavra “denegrir”, lançando mão de um tratado etimológico quase “iluminista” para dizer que o termo não tem uma origem racista. Não deixa de me espantar a quantidade de pessoas brancas que se dizem cansadas do “politicamente correto”, cansadas de ter de trocar de palavras e “se censurar”. Li os comentários com profundo espanto. Será que não entenderam que algumas palavras podem machucar uma quantidade imensa de pessoas?

Foi na sala de aula de Rita Segato que aprendi que “raça é signo”. Nessa frase que dá nome a um de seus mais importantes textos, ela responde a algumas perguntas contrárias às cotas raciais, sendo a primeira: “como é possível falar em cotas raciais se faz tempo já que a biologia e a antropologia aboliram a raça como uma categoria válida?”, ao que responde, com perplexidade, que “somente as representações sociais têm status existencial de realidade num universo plenamente simbólico como é o humano”.

Trocando em miúdos, o fato de sabermos que as raças não existem biologicamente, que são uma mera questão de melanina não acaba com o racismo, e não acaba porque somos seres sociais, porque fomos socializados num mundo que escalona as cores da pele. Mesmo que as ciências tenham avançado e tenhamos descoberto que não há que se falar biologicamente em raças, a raça segue existindo. O racismo está no olhar que enquadra e deprecia, está também na insistência de palavras que machucam, está às vezes em lugares quase invisíveis que sustentam todo um arcabouço opressivo, assassinando pessoas diuturnamente, física e simbolicamente.

Mesmo que uma palavra tenha tido uma origem não racista, ou mesmo uma origem racista, eu diria que, independentemente da origem da palavra, é preciso fazer sua leitura hoje, no contexto atual, no mundo simbólico onde ela transita. Se ela machuca um grupo de pessoas, não há razão para insistir em seu uso.

Mas vamos combinar que substituir “denegrir” ou mesmo “judiar” não são tarefas atlânticas. A coisa boa das palavras é que há muitas, e sempre surgem novas palavras e modos de dizer. E não, isso não é um mero “cancelamento” de palavras. Ao contrário, insistir em palavras que agridem é insistir no “cancelamento” de pessoas. Militar pela abolição de palavras que machucam pessoas e grupos de pessoas é um ativismo importantíssimo e tampouco deve ser confundido com censura. Basta um pouco de bom senso, razoabilidade e sensibilidade.

Tem gente que ainda usa “o homem” para designar todos os seres humanos, a humanidade, achando irrelevante o seu caráter excludente para as mulheres, metade da população do país. Tem gente que insiste em usar a palavra “retardado”, esquecendo de seu poder ofensivo para pessoas com deficiência. Tem gente à beça que ainda não se deu conta da importância de modificarmos o nosso jeito de falar, de retificarmos nossos textos para “desgenerificar”, “desracializar”, etc., porque sem modificar a língua, essa graúda “ferramenta do senhor”, não vamos “derrubar a casa grande”, como diria a poeta Audre Lorde.

A língua está viva. A história e a etimologia nos mostram também que muitas palavras morreram e outras tantas nasceram, porque a língua é assim, não está morta e cimentada, e sobretudo, precisa estar aberta para que as palavras possam representar e traduzir a vida, seus processos, suas lutas e transformações sociais. Querendo ou não, a língua é já uma metamorfose ambulante, como a vida. Querer estancá-la e mantê-la inflexível é destruí-la, não o contrário.

Em pleno século XXI faz sentido insistirmos em vocabulários e modos linguísticos excludentes, onde nem todes se sentem representades? E dizer, ainda, que a linguagem neutra é feia? Tem gente que acha feio porque não se acostumou. Feio é excluir, feio é insistir em palavras que ferem.

Que a língua, essa metamorfose ambulante, possa, antes tarde do que mais tarde, abarcar todes que a usam. Encontremos formas de inventar novas palavras e tornar outras mais belas, como disse Drummond. Busquemos a ética na (est)ética de nossas palavras e textos. Confabulemos com urgência novas metáforas de claridade e escuridão, porque está tudo tão sufocantemente branco que a brancura queimou nossos neurônios. É preciso escurecer para perceber. Como disse Manoel de Barros, “às vezes ao poeta faz bem desexplicar – tanto quanto escurecer acende os vagalumes”.

(GONTIJO, Danú. Cancelar palavras para não cancelar pessoas. Jornal Nexo, 2022.

Disponível em: https://www.nexojornal.com.br/ensaio/2022/Cancelar-palavras-

para-n%C3%A3o-cancelar-pessoas. Acesso em: 19/08/2022. Adaptado.)

Atente para a passagem a seguir: “Busquemos a ética na (est)ética de nossas palavras e textos.” (9º§) Considerando o contexto, o emprego dos parênteses em “(est)ética” tem por propósito:

 

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Questão presente nas seguintes provas
2873493 Ano: 2022
Disciplina: Português
Banca: Consulplan
Orgão: Pref. Caeté-MG
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Cancelar palavras para não cancelar pessoas

Li um texto em defesa do uso da palavra “denegrir”, lançando mão de um tratado etimológico quase “iluminista” para dizer que o termo não tem uma origem racista. Não deixa de me espantar a quantidade de pessoas brancas que se dizem cansadas do “politicamente correto”, cansadas de ter de trocar de palavras e “se censurar”. Li os comentários com profundo espanto. Será que não entenderam que algumas palavras podem machucar uma quantidade imensa de pessoas?

Foi na sala de aula de Rita Segato que aprendi que “raça é signo”. Nessa frase que dá nome a um de seus mais importantes textos, ela responde a algumas perguntas contrárias às cotas raciais, sendo a primeira: “como é possível falar em cotas raciais se faz tempo já que a biologia e a antropologia aboliram a raça como uma categoria válida?”, ao que responde, com perplexidade, que “somente as representações sociais têm status existencial de realidade num universo plenamente simbólico como é o humano”.

Trocando em miúdos, o fato de sabermos que as raças não existem biologicamente, que são uma mera questão de melanina não acaba com o racismo, e não acaba porque somos seres sociais, porque fomos socializados num mundo que escalona as cores da pele. Mesmo que as ciências tenham avançado e tenhamos descoberto que não há que se falar biologicamente em raças, a raça segue existindo. O racismo está no olhar que enquadra e deprecia, está também na insistência de palavras que machucam, está às vezes em lugares quase invisíveis que sustentam todo um arcabouço opressivo, assassinando pessoas diuturnamente, física e simbolicamente.

Mesmo que uma palavra tenha tido uma origem não racista, ou mesmo uma origem racista, eu diria que, independentemente da origem da palavra, é preciso fazer sua leitura hoje, no contexto atual, no mundo simbólico onde ela transita. Se ela machuca um grupo de pessoas, não há razão para insistir em seu uso.

Mas vamos combinar que substituir “denegrir” ou mesmo “judiar” não são tarefas atlânticas. A coisa boa das palavras é que há muitas, e sempre surgem novas palavras e modos de dizer. E não, isso não é um mero “cancelamento” de palavras. Ao contrário, insistir em palavras que agridem é insistir no “cancelamento” de pessoas. Militar pela abolição de palavras que machucam pessoas e grupos de pessoas é um ativismo importantíssimo e tampouco deve ser confundido com censura. Basta um pouco de bom senso, razoabilidade e sensibilidade.

Tem gente que ainda usa “o homem” para designar todos os seres humanos, a humanidade, achando irrelevante o seu caráter excludente para as mulheres, metade da população do país. Tem gente que insiste em usar a palavra “retardado”, esquecendo de seu poder ofensivo para pessoas com deficiência. Tem gente à beça que ainda não se deu conta da importância de modificarmos o nosso jeito de falar, de retificarmos nossos textos para “desgenerificar”, “desracializar”, etc., porque sem modificar a língua, essa graúda “ferramenta do senhor”, não vamos “derrubar a casa grande”, como diria a poeta Audre Lorde.

A língua está viva. A história e a etimologia nos mostram também que muitas palavras morreram e outras tantas nasceram, porque a língua é assim, não está morta e cimentada, e sobretudo, precisa estar aberta para que as palavras possam representar e traduzir a vida, seus processos, suas lutas e transformações sociais. Querendo ou não, a língua é já uma metamorfose ambulante, como a vida. Querer estancá-la e mantê-la inflexível é destruí-la, não o contrário.

Em pleno século XXI faz sentido insistirmos em vocabulários e modos linguísticos excludentes, onde nem todes se sentem representades? E dizer, ainda, que a linguagem neutra é feia? Tem gente que acha feio porque não se acostumou. Feio é excluir, feio é insistir em palavras que ferem.

Que a língua, essa metamorfose ambulante, possa, antes tarde do que mais tarde, abarcar todes que a usam. Encontremos formas de inventar novas palavras e tornar outras mais belas, como disse Drummond. Busquemos a ética na (est)ética de nossas palavras e textos. Confabulemos com urgência novas metáforas de claridade e escuridão, porque está tudo tão sufocantemente branco que a brancura queimou nossos neurônios. É preciso escurecer para perceber. Como disse Manoel de Barros, “às vezes ao poeta faz bem desexplicar – tanto quanto escurecer acende os vagalumes”.

(GONTIJO, Danú. Cancelar palavras para não cancelar pessoas. Jornal Nexo, 2022.

Disponível em: https://www.nexojornal.com.br/ensaio/2022/Cancelar-palavras-

para-n%C3%A3o-cancelar-pessoas. Acesso em: 19/08/2022. Adaptado.)

Considerando os conceitos de denotação e conotação, assinale a alternativa cuja passagem do texto exemplifica o predomínio de linguagem denotativa, literal.

 

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2873492 Ano: 2022
Disciplina: Português
Banca: Consulplan
Orgão: Pref. Caeté-MG
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Li um texto em defesa do uso da palavra “denegrir”, lançando mão de um tratado etimológico quase “iluminista” para dizer que o termo não tem uma origem racista. Não deixa de me espantar a quantidade de pessoas brancas que se dizem cansadas do “politicamente correto”, cansadas de ter de trocar de palavras e “se censurar”. Li os comentários com profundo espanto. Será que não entenderam que algumas palavras podem machucar uma quantidade imensa de pessoas?

Foi na sala de aula de Rita Segato que aprendi que “raça é signo”. Nessa frase que dá nome a um de seus mais importantes textos, ela responde a algumas perguntas contrárias às cotas raciais, sendo a primeira: “como é possível falar em cotas raciais se faz tempo já que a biologia e a antropologia aboliram a raça como uma categoria válida?”, ao que responde, com perplexidade, que “somente as representações sociais têm status existencial de realidade num universo plenamente simbólico como é o humano”.

Trocando em miúdos, o fato de sabermos que as raças não existem biologicamente, que são uma mera questão de melanina não acaba com o racismo, e não acaba porque somos seres sociais, porque fomos socializados num mundo que escalona as cores da pele. Mesmo que as ciências tenham avançado e tenhamos descoberto que não há que se falar biologicamente em raças, a raça segue existindo. O racismo está no olhar que enquadra e deprecia, está também na insistência de palavras que machucam, está às vezes em lugares quase invisíveis que sustentam todo um arcabouço opressivo, assassinando pessoas diuturnamente, física e simbolicamente.

Mesmo que uma palavra tenha tido uma origem não racista, ou mesmo uma origem racista, eu diria que, independentemente da origem da palavra, é preciso fazer sua leitura hoje, no contexto atual, no mundo simbólico onde ela transita. Se ela machuca um grupo de pessoas, não há razão para insistir em seu uso.

Mas vamos combinar que substituir “denegrir” ou mesmo “judiar” não são tarefas atlânticas. A coisa boa das palavras é que há muitas, e sempre surgem novas palavras e modos de dizer. E não, isso não é um mero “cancelamento” de palavras. Ao contrário, insistir em palavras que agridem é insistir no “cancelamento” de pessoas. Militar pela abolição de palavras que machucam pessoas e grupos de pessoas é um ativismo importantíssimo e tampouco deve ser confundido com censura. Basta um pouco de bom senso, razoabilidade e sensibilidade.

Tem gente que ainda usa “o homem” para designar todos os seres humanos, a humanidade, achando irrelevante o seu caráter excludente para as mulheres, metade da população do país. Tem gente que insiste em usar a palavra “retardado”, esquecendo de seu poder ofensivo para pessoas com deficiência. Tem gente à beça que ainda não se deu conta da importância de modificarmos o nosso jeito de falar, de retificarmos nossos textos para “desgenerificar”, “desracializar”, etc., porque sem modificar a língua, essa graúda “ferramenta do senhor”, não vamos “derrubar a casa grande”, como diria a poeta Audre Lorde.

A língua está viva. A história e a etimologia nos mostram também que muitas palavras morreram e outras tantas nasceram, porque a língua é assim, não está morta e cimentada, e sobretudo, precisa estar aberta para que as palavras possam representar e traduzir a vida, seus processos, suas lutas e transformações sociais. Querendo ou não, a língua é já uma metamorfose ambulante, como a vida. Querer estancá-la e mantê-la inflexível é destruí-la, não o contrário.

Em pleno século XXI faz sentido insistirmos em vocabulários e modos linguísticos excludentes, onde nem todes se sentem representades? E dizer, ainda, que a linguagem neutra é feia? Tem gente que acha feio porque não se acostumou. Feio é excluir, feio é insistir em palavras que ferem.

Que a língua, essa metamorfose ambulante, possa, antes tarde do que mais tarde, abarcar todes que a usam. Encontremos formas de inventar novas palavras e tornar outras mais belas, como disse Drummond. Busquemos a ética na (est)ética de nossas palavras e textos. Confabulemos com urgência novas metáforas de claridade e escuridão, porque está tudo tão sufocantemente branco que a brancura queimou nossos neurônios. É preciso escurecer para perceber. Como disse Manoel de Barros, “às vezes ao poeta faz bem desexplicar – tanto quanto escurecer acende os vagalumes”.

(GONTIJO, Danú. Cancelar palavras para não cancelar pessoas. Jornal Nexo, 2022.

Disponível em: https://www.nexojornal.com.br/ensaio/2022/Cancelar-palavras-

para-n%C3%A3o-cancelar-pessoas. Acesso em: 19/08/2022. Adaptado.)

Das passagens transcritas a seguir, qual a única que apresenta o conector destacado com valor lógico-semântico adequadamente indicado?

 

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