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Para que a existência valha a pena…
Não lembro em que momento percebi que viver deveria ser uma permanente reinvenção de nós mesmos — para não morrermos soterrados na poeira da banalidade, embora pareça que ainda estamos vivos.
Mas compreendi, num lampejo: então é isso, então é assim. Apesar dos medos, convém não ser demais fútil nem demais acomodada. Algumas vezes é preciso pegar o touro pelos chifres, mergulhar para depois ver o que acontece: porque a vida não tem de ser sorvida como uma taça que se esvazia, mas como o jarro que se renova a cada gole bebido.
Para reinventar-se é preciso pensar: isso aprendi muito cedo.
Apalpar, no nevoeiro de quem somos, algo que pareça uma essência: isso, mais ou menos, sou eu. Isso é o que eu queria ser, acredito ser, quero me tornar ou já fui. Muita inquietação por baixo das águas do cotidiano. Mais cômodo seria ficar com o travesseiro sobre a cabeça e adotar o lema reconfortante: “Parar pra pensar, nem pensar!”
O problema é que quando menos se espera ele chega, o sorrateiro pensamento que nos faz parar. Pode ser no meio do shopping, no trânsito, na frente da tevê ou do computador. Simplesmente escovando os dentes. Ou na hora da droga, do sexo sem afeto, do desafeto, do rancor, da lamúria, da hesitação e da resignação.
Sem ter programado, a gente para pra pensar. Pode ser um susto: como espiar de um berçário confortável para um corredor com mil possibilidades. Cada porta, uma escolha. Muitas vão se abrir para um nada ou para algum absurdo. Outras, para um jardim de promessas. Alguma, para a noite além da cerca. Hora de tirar os disfarces, aposentar as máscaras e reavaliar: reavaliar-se.
Pensar pede audácia, pois refletir é transgredir a ordem do superficial que nos pressiona tanto. Somos demasiado frívolos: buscamos o atordoamento das mil distrações, corremos de um lado a outro achando que somos grandes cumpridores de tarefas. Quando o primeiro dever seria de vez em quando parar e analisar: quem a gente é, o que fazemos com a nossa vida, com o tempo, com os amores. E com as obrigações também, é claro, pois não temos sempre cinco anos de idade, quando a prioridade absoluta é dormir abraçado no urso de pelúcia e prosseguir, no sono, o sonho que afinal nessa idade ainda é a vida.
Mas pensar não é apenas a ameaça de enfrentar a alma no espelho: é sair para as varandas de si mesmo e olhar em torno, e quem sabe finalmente respirar.
Compreender: somos inquilinos de algo bem maior do que o nosso pequeno segredo individual. É o poderoso ciclo da existência. Nele todos os desastres e toda a beleza têm significado como fases de um processo.
Se nos escondermos num canto escuro abafando nossos questionamentos, não escutaremos o rumor do vento nas árvores do mundo. Nem compreenderemos que o prato das inevitáveis perdas pode pesar menos do que o dos possíveis ganhos. Os ganhos ou os danos dependem da perspectiva e possibilidades de quem vai tecendo a sua história. O mundo em si não tem sentido sem o nosso olhar que lhe atribui identidade, sem o nosso pensamento que lhe confere alguma ordem.
Viver, como talvez morrer, é recriar-se: a vida não está aí apenas para ser suportada nem vivida, mas elaborada. Eventualmente reprogramada. Conscientemente executada. Muitas vezes, ousada.
[...]
Para viver de verdade, pensando e repensando a existência, para que ela valha a pena, é preciso ser amado; e amar; e amar-se. Ter esperança; qualquer esperança.
Questionar o que nos é imposto, sem rebeldias insensatas, mas sem demasiada sensatez. Saborear o bom, mas aqui e ali enfrentar o ruim. Suportar sem se submeter, aceitar sem se humilhar, entregar-se sem renunciar a si mesmo e à possível dignidade. Sonhar, porque se desistimos disso apaga-se a última claridade e nada mais valerá a pena. Escapar, na liberdade do pensamento, desse espírito de manada que trabalha obstinadamente para nos enquadrar, seja lá no que for.
E que o mínimo que a gente faça seja, a cada momento, o melhor que afinal se conseguiu fazer.
(LUFT, Lya. Disponível em: https://www.50emais.com.br/viver-deveria-ser-uma-permanente-reinvencao-de-nos-mesmos/ Acesso em: 08/10/2019.)
Analise as afirmativas a seguir referentes a elementos responsáveis pela textualidade.
I- Em Mas compreendi, num lampejo: então é isso..., o elemento referencial destacado retoma o que foi citado no primeiro parágrafo, sintetizando-o.
II- No trecho O problema é que quando menos se espera ele chega, o sorrateiro pensamento que nos faz parar., o elemento referencial destacado retoma a palavra problema.
III- No trecho Se nos escondermos num canto escuro abafando nossos questionamentos, não escutaremos o rumor do vento nas árvores do mundo., o operador argumentativo em destaque estabelece relação de causalidade.
IV- Em Eventualmente reprogramada. Conscientemente executada. Muitas vezes, ousada., estabelece-se a coesão textual por meio da elipse.
V- No trecho Questionar o que nos é imposto, sem rebeldias insensatas, mas sem demasiada sensatez., a substituição da conjunção mas pela conjunção contudo não alteraria o sentido do texto.
Está correto o que se afirma em
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Para que a existência valha a pena…
Não lembro em que momento percebi que viver deveria ser uma permanente reinvenção de nós mesmos — para não morrermos soterrados na poeira da banalidade, embora pareça que ainda estamos vivos.
Mas compreendi, num lampejo: então é isso, então é assim. Apesar dos medos, convém não ser demais fútil nem demais acomodada. Algumas vezes é preciso pegar o touro pelos chifres, mergulhar para depois ver o que acontece: porque a vida não tem de ser sorvida como uma taça que se esvazia, mas como o jarro que se renova a cada gole bebido.
Para reinventar-se é preciso pensar: isso aprendi muito cedo.
Apalpar, no nevoeiro de quem somos, algo que pareça uma essência: isso, mais ou menos, sou eu. Isso é o que eu queria ser, acredito ser, quero me tornar ou já fui. Muita inquietação por baixo das águas do cotidiano. Mais cômodo seria ficar com o travesseiro sobre a cabeça e adotar o lema reconfortante: “Parar pra pensar, nem pensar!”
O problema é que quando menos se espera ele chega, o sorrateiro pensamento que nos faz parar. Pode ser no meio do shopping, no trânsito, na frente da tevê ou do computador. Simplesmente escovando os dentes. Ou na hora da droga, do sexo sem afeto, do desafeto, do rancor, da lamúria, da hesitação e da resignação.
Sem ter programado, a gente para pra pensar. Pode ser um susto: como espiar de um berçário confortável para um corredor com mil possibilidades. Cada porta, uma escolha. Muitas vão se abrir para um nada ou para algum absurdo. Outras, para um jardim de promessas. Alguma, para a noite além da cerca. Hora de tirar os disfarces, aposentar as máscaras e reavaliar: reavaliar-se.
Pensar pede audácia, pois refletir é transgredir a ordem do superficial que nos pressiona tanto. Somos demasiado frívolos: buscamos o atordoamento das mil distrações, corremos de um lado a outro achando que somos grandes cumpridores de tarefas. Quando o primeiro dever seria de vez em quando parar e analisar: quem a gente é, o que fazemos com a nossa vida, com o tempo, com os amores. E com as obrigações também, é claro, pois não temos sempre cinco anos de idade, quando a prioridade absoluta é dormir abraçado no urso de pelúcia e prosseguir, no sono, o sonho que afinal nessa idade ainda é a vida.
Mas pensar não é apenas a ameaça de enfrentar a alma no espelho: é sair para as varandas de si mesmo e olhar em torno, e quem sabe finalmente respirar.
Compreender: somos inquilinos de algo bem maior do que o nosso pequeno segredo individual. É o poderoso ciclo da existência. Nele todos os desastres e toda a beleza têm significado como fases de um processo.
Se nos escondermos num canto escuro abafando nossos questionamentos, não escutaremos o rumor do vento nas árvores do mundo. Nem compreenderemos que o prato das inevitáveis perdas pode pesar menos do que o dos possíveis ganhos. Os ganhos ou os danos dependem da perspectiva e possibilidades de quem vai tecendo a sua história. O mundo em si não tem sentido sem o nosso olhar que lhe atribui identidade, sem o nosso pensamento que lhe confere alguma ordem.
Viver, como talvez morrer, é recriar-se: a vida não está aí apenas para ser suportada nem vivida, mas elaborada. Eventualmente reprogramada. Conscientemente executada. Muitas vezes, ousada.
[...]
Para viver de verdade, pensando e repensando a existência, para que ela valha a pena, é preciso ser amado; e amar; e amar-se. Ter esperança; qualquer esperança.
Questionar o que nos é imposto, sem rebeldias insensatas, mas sem demasiada sensatez. Saborear o bom, mas aqui e ali enfrentar o ruim. Suportar sem se submeter, aceitar sem se humilhar, entregar-se sem renunciar a si mesmo e à possível dignidade. Sonhar, porque se desistimos disso apaga-se a última claridade e nada mais valerá a pena. Escapar, na liberdade do pensamento, desse espírito de manada que trabalha obstinadamente para nos enquadrar, seja lá no que for.
E que o mínimo que a gente faça seja, a cada momento, o melhor que afinal se conseguiu fazer.
(LUFT, Lya. Disponível em: https://www.50emais.com.br/viver-deveria-ser-uma-permanente-reinvencao-de-nos-mesmos/ Acesso em: 08/10/2019.)
Infere-se da leitura dessa crônica argumentativa que
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Para que a existência valha a pena…
Não lembro em que momento percebi que viver deveria ser uma permanente reinvenção de nós mesmos — para não morrermos soterrados na poeira da banalidade, embora pareça que ainda estamos vivos.
Mas compreendi, num lampejo: então é isso, então é assim. Apesar dos medos, convém não ser demais fútil nem demais acomodada. Algumas vezes é preciso pegar o touro pelos chifres, mergulhar para depois ver o que acontece: porque a vida não tem de ser sorvida como uma taça que se esvazia, mas como o jarro que se renova a cada gole bebido.
Para reinventar-se é preciso pensar: isso aprendi muito cedo.
Apalpar, no nevoeiro de quem somos, algo que pareça uma essência: isso, mais ou menos, sou eu. Isso é o que eu queria ser, acredito ser, quero me tornar ou já fui. Muita inquietação por baixo das águas do cotidiano. Mais cômodo seria ficar com o travesseiro sobre a cabeça e adotar o lema reconfortante: “Parar pra pensar, nem pensar!”
O problema é que quando menos se espera ele chega, o sorrateiro pensamento que nos faz parar. Pode ser no meio do shopping, no trânsito, na frente da tevê ou do computador. Simplesmente escovando os dentes. Ou na hora da droga, do sexo sem afeto, do desafeto, do rancor, da lamúria, da hesitação e da resignação.
Sem ter programado, a gente para pra pensar. Pode ser um susto: como espiar de um berçário confortável para um corredor com mil possibilidades. Cada porta, uma escolha. Muitas vão se abrir para um nada ou para algum absurdo. Outras, para um jardim de promessas. Alguma, para a noite além da cerca. Hora de tirar os disfarces, aposentar as máscaras e reavaliar: reavaliar-se.
Pensar pede audácia, pois refletir é transgredir a ordem do superficial que nos pressiona tanto. Somos demasiado frívolos: buscamos o atordoamento das mil distrações, corremos de um lado a outro achando que somos grandes cumpridores de tarefas. Quando o primeiro dever seria de vez em quando parar e analisar: quem a gente é, o que fazemos com a nossa vida, com o tempo, com os amores. E com as obrigações também, é claro, pois não temos sempre cinco anos de idade, quando a prioridade absoluta é dormir abraçado no urso de pelúcia e prosseguir, no sono, o sonho que afinal nessa idade ainda é a vida.
Mas pensar não é apenas a ameaça de enfrentar a alma no espelho: é sair para as varandas de si mesmo e olhar em torno, e quem sabe finalmente respirar.
Compreender: somos inquilinos de algo bem maior do que o nosso pequeno segredo individual. É o poderoso ciclo da existência. Nele todos os desastres e toda a beleza têm significado como fases de um processo.
Se nos escondermos num canto escuro abafando nossos questionamentos, não escutaremos o rumor do vento nas árvores do mundo. Nem compreenderemos que o prato das inevitáveis perdas pode pesar menos do que o dos possíveis ganhos. Os ganhos ou os danos dependem da perspectiva e possibilidades de quem vai tecendo a sua história. O mundo em si não tem sentido sem o nosso olhar que lhe atribui identidade, sem o nosso pensamento que lhe confere alguma ordem.
Viver, como talvez morrer, é recriar-se: a vida não está aí apenas para ser suportada nem vivida, mas elaborada. Eventualmente reprogramada. Conscientemente executada. Muitas vezes, ousada.
[...]
Para viver de verdade, pensando e repensando a existência, para que ela valha a pena, é preciso ser amado; e amar; e amar-se. Ter esperança; qualquer esperança.
Questionar o que nos é imposto, sem rebeldias insensatas, mas sem demasiada sensatez. Saborear o bom, mas aqui e ali enfrentar o ruim. Suportar sem se submeter, aceitar sem se humilhar, entregar-se sem renunciar a si mesmo e à possível dignidade. Sonhar, porque se desistimos disso apaga-se a última claridade e nada mais valerá a pena. Escapar, na liberdade do pensamento, desse espírito de manada que trabalha obstinadamente para nos enquadrar, seja lá no que for.
E que o mínimo que a gente faça seja, a cada momento, o melhor que afinal se conseguiu fazer.
(LUFT, Lya. Disponível em: https://www.50emais.com.br/viver-deveria-ser-uma-permanente-reinvencao-de-nos-mesmos/ Acesso em: 08/10/2019.)
No plano enunciativo, essa crônica se organiza por meio de uma linguagem subjetiva, em que são usadas figuras de linguagem como recursos de expressividade. Marque o trecho em que a autora NÃO usa figura de linguagem.
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Para que a existência valha a pena…
Não lembro em que momento percebi que viver deveria ser uma permanente reinvenção de nós mesmos — para não morrermos soterrados na poeira da banalidade, embora pareça que ainda estamos vivos.
Mas compreendi, num lampejo: então é isso, então é assim. Apesar dos medos, convém não ser demais fútil nem demais acomodada. Algumas vezes é preciso pegar o touro pelos chifres, mergulhar para depois ver o que acontece: porque a vida não tem de ser sorvida como uma taça que se esvazia, mas como o jarro que se renova a cada gole bebido.
Para reinventar-se é preciso pensar: isso aprendi muito cedo.
Apalpar, no nevoeiro de quem somos, algo que pareça uma essência: isso, mais ou menos, sou eu. Isso é o que eu queria ser, acredito ser, quero me tornar ou já fui. Muita inquietação por baixo das águas do cotidiano. Mais cômodo seria ficar com o travesseiro sobre a cabeça e adotar o lema reconfortante: “Parar pra pensar, nem pensar!”
O problema é que quando menos se espera ele chega, o sorrateiro pensamento que nos faz parar. Pode ser no meio do shopping, no trânsito, na frente da tevê ou do computador. Simplesmente escovando os dentes. Ou na hora da droga, do sexo sem afeto, do desafeto, do rancor, da lamúria, da hesitação e da resignação.
Sem ter programado, a gente para pra pensar. Pode ser um susto: como espiar de um berçário confortável para um corredor com mil possibilidades. Cada porta, uma escolha. Muitas vão se abrir para um nada ou para algum absurdo. Outras, para um jardim de promessas. Alguma, para a noite além da cerca. Hora de tirar os disfarces, aposentar as máscaras e reavaliar: reavaliar-se.
Pensar pede audácia, pois refletir é transgredir a ordem do superficial que nos pressiona tanto. Somos demasiado frívolos: buscamos o atordoamento das mil distrações, corremos de um lado a outro achando que somos grandes cumpridores de tarefas. Quando o primeiro dever seria de vez em quando parar e analisar: quem a gente é, o que fazemos com a nossa vida, com o tempo, com os amores. E com as obrigações também, é claro, pois não temos sempre cinco anos de idade, quando a prioridade absoluta é dormir abraçado no urso de pelúcia e prosseguir, no sono, o sonho que afinal nessa idade ainda é a vida.
Mas pensar não é apenas a ameaça de enfrentar a alma no espelho: é sair para as varandas de si mesmo e olhar em torno, e quem sabe finalmente respirar.
Compreender: somos inquilinos de algo bem maior do que o nosso pequeno segredo individual. É o poderoso ciclo da existência. Nele todos os desastres e toda a beleza têm significado como fases de um processo.
Se nos escondermos num canto escuro abafando nossos questionamentos, não escutaremos o rumor do vento nas árvores do mundo. Nem compreenderemos que o prato das inevitáveis perdas pode pesar menos do que o dos possíveis ganhos. Os ganhos ou os danos dependem da perspectiva e possibilidades de quem vai tecendo a sua história. O mundo em si não tem sentido sem o nosso olhar que lhe atribui identidade, sem o nosso pensamento que lhe confere alguma ordem.
Viver, como talvez morrer, é recriar-se: a vida não está aí apenas para ser suportada nem vivida, mas elaborada. Eventualmente reprogramada. Conscientemente executada. Muitas vezes, ousada.
[...]
Para viver de verdade, pensando e repensando a existência, para que ela valha a pena, é preciso ser amado; e amar; e amar-se. Ter esperança; qualquer esperança.
Questionar o que nos é imposto, sem rebeldias insensatas, mas sem demasiada sensatez. Saborear o bom, mas aqui e ali enfrentar o ruim. Suportar sem se submeter, aceitar sem se humilhar, entregar-se sem renunciar a si mesmo e à possível dignidade. Sonhar, porque se desistimos disso apaga-se a última claridade e nada mais valerá a pena. Escapar, na liberdade do pensamento, desse espírito de manada que trabalha obstinadamente para nos enquadrar, seja lá no que for.
E que o mínimo que a gente faça seja, a cada momento, o melhor que afinal se conseguiu fazer.
(LUFT, Lya. Disponível em: https://www.50emais.com.br/viver-deveria-ser-uma-permanente-reinvencao-de-nos-mesmos/ Acesso em: 08/10/2019.)
Gêneros textuais são textos que exercem função social específica nas situações cotidianas de comunicação e apresentam uma intenção comunicativa definida. Nessa crônica argumentativa, a autora tem como intencionalidade principal
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Mais disciplina, rapaz!
Cansado de ficar zanzando durante horas na internet? Não digo que me canse, mas o tempo perdido me enche de culpa.
Há vícios em toda parte, e comigo acontece o seguinte. Gosto de ouvir programas de música clássica no computador. Isso me prende ao aparelho, porque em geral uso fones de ouvido com fio. Até aí, seria apenas um fundo sonoro para minhas atividades normais, como escrever textos, pagar contas, responder e-mails.
Não é assim que começa o vício. A coisa piora porque, se quero me concentrar no que estou ouvindo, procuro coisas descompromissadas para me ocupar no computador.
O site Pinterest (não sou fã do Instagram) fica passando diante de meus olhos imagens de países, cidades, obras de arte, atrizes, modelos e algumas outras atrações menos confessáveis. Há também capas de livros antigos, que então me conduzem ao site da Estante Virtual, onde a preços por vezes baixíssimos posso me entupir de velhas edições de bolso.
Gasto mais tempo do que dinheiro nesse tipo de coisa — terminando por perceber que não ouvi direito o programa que tinha sintonizado, e que estou com mais uma pilha de livros que não irei ler, dado o fato de que perco muito tempo na internet.
Como dizia o velho Marx, a humanidade nunca se coloca questões que não pode resolver. Se a frase me parece totalmente falsa no que diz respeito à história dos povos, há razões para aceitá-la no campo do consumo pessoal.
Vi agora que a internet traz consigo sua própria solução. O site Cold Turkey, por exemplo, promete rigores e sofrimentos comparáveis aos de quem parou de tomar drogas da noite para o dia — o nome evoca o mal estar da ressaca ou da síndrome de abstinência. [...]
A ideia é te ajudar na busca de mais disciplina para seu trabalho. Você bloqueia o site em que está viciado — e, garantem os programadores, é impossível trapacear; o programa não permite arrependimentos.
Bloqueou, nunca mais.
Eles sabem que não é bem assim; há maneiras de deixar “destravado” o seu próprio interdito. Mas eles também sabem que todo mundo começa o dia, a semana, ou o ano com boas intenções e firmeza de propósitos.
“Agora vai!”, diz o viciado, depois de já ter tentado outros bloqueadores.
Há fórmulas menos radicais. O site Rescue Time oferece um programa que mede o tempo despendido em cada site frequentado. Pode ser útil: perdemos completamente a noção, conforme o que estamos fazendo.
A contagem dos minutos possibilita uma divisão em áreas — trabalho real, comunicação com amigos, sites inúteis, compras… Há como programar alertas e, mais importante, como reservar um horário específico para não fazer nada de importante. Passamos então a outro “aplicativo”, seja lá que nome tenha. O Pick Four propõe que você estabeleça metas de produtividade (para seus estudos ou leituras, por exemplo) e confia na sua disposição para a autocrítica.
[...]
E assim vamos progredindo. O clássico perfil psicológico do burguês vitoriano — duro acumulador de capital, capaz de uma autodisciplina comparável à que exigia dos subordinados— dissolveu-se na obesidade e na abundância da sociedade de consumo.
O mundo contemporâneo, que já não mais provê emprego fixo e não sabe o que fazer com o excesso de mão de obra, retoma como conto de fadas a velha ficção liberal do indivíduo autônomo, responsável pelo próprio êxito ou insucesso na vida.
Vende-se a ideia do “empreendedorismo”, da pequena iniciativa, do trabalho flexível, do bilionário que começou com um computadorzinho no quarto de dormir. Mas os bilionários reais, os donos da Amazon e do Facebook, dependem de quem começa no computadorzinho dentro do quarto, mas não sai do quarto nunca mais.
Disciplina, rapaz, disciplina! A culpa é sua.
Se estiver difícil, pague uma mensalidade que bloqueamos os sites que você não consegue bloquear sozinho. Claro, você pode se arrepender depois. Sem problema. Sabemos bem, caro consumidor, que o arrependimento é sua especialidade.
(COELHO, M. Disponível em: https://www1.folha.uol.com.br/colunas/marcelocoelho/2019/10/mais-disciplina-rapaz.shtml. Acesso em: 16/10/2019.)
Sobre o emprego dos sinais de pontuação, marque a afirmativa correta.
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Mais disciplina, rapaz!
Cansado de ficar zanzando durante horas na internet? Não digo que me canse, mas o tempo perdido me enche de culpa.
Há vícios em toda parte, e comigo acontece o seguinte. Gosto de ouvir programas de música clássica no computador. Isso me prende ao aparelho, porque em geral uso fones de ouvido com fio. Até aí, seria apenas um fundo sonoro para minhas atividades normais, como escrever textos, pagar contas, responder e-mails.
Não é assim que começa o vício. A coisa piora porque, se quero me concentrar no que estou ouvindo, procuro coisas descompromissadas para me ocupar no computador.
O site Pinterest (não sou fã do Instagram) fica passando diante de meus olhos imagens de países, cidades, obras de arte, atrizes, modelos e algumas outras atrações menos confessáveis. Há também capas de livros antigos, que então me conduzem ao site da Estante Virtual, onde a preços por vezes baixíssimos posso me entupir de velhas edições de bolso.
Gasto mais tempo do que dinheiro nesse tipo de coisa — terminando por perceber que não ouvi direito o programa que tinha sintonizado, e que estou com mais uma pilha de livros que não irei ler, dado o fato de que perco muito tempo na internet.
Como dizia o velho Marx, a humanidade nunca se coloca questões que não pode resolver. Se a frase me parece totalmente falsa no que diz respeito à história dos povos, há razões para aceitá-la no campo do consumo pessoal.
Vi agora que a internet traz consigo sua própria solução. O site Cold Turkey, por exemplo, promete rigores e sofrimentos comparáveis aos de quem parou de tomar drogas da noite para o dia — o nome evoca o mal estar da ressaca ou da síndrome de abstinência. [...]
A ideia é te ajudar na busca de mais disciplina para seu trabalho. Você bloqueia o site em que está viciado — e, garantem os programadores, é impossível trapacear; o programa não permite arrependimentos.
Bloqueou, nunca mais.
Eles sabem que não é bem assim; há maneiras de deixar “destravado” o seu próprio interdito. Mas eles também sabem que todo mundo começa o dia, a semana, ou o ano com boas intenções e firmeza de propósitos.
“Agora vai!”, diz o viciado, depois de já ter tentado outros bloqueadores.
Há fórmulas menos radicais. O site Rescue Time oferece um programa que mede o tempo despendido em cada site frequentado. Pode ser útil: perdemos completamente a noção, conforme o que estamos fazendo.
A contagem dos minutos possibilita uma divisão em áreas — trabalho real, comunicação com amigos, sites inúteis, compras… Há como programar alertas e, mais importante, como reservar um horário específico para não fazer nada de importante. Passamos então a outro “aplicativo”, seja lá que nome tenha. O Pick Four propõe que você estabeleça metas de produtividade (para seus estudos ou leituras, por exemplo) e confia na sua disposição para a autocrítica.
[...]
E assim vamos progredindo. O clássico perfil psicológico do burguês vitoriano — duro acumulador de capital, capaz de uma autodisciplina comparável à que exigia dos subordinados— dissolveu-se na obesidade e na abundância da sociedade de consumo.
O mundo contemporâneo, que já não mais provê emprego fixo e não sabe o que fazer com o excesso de mão de obra, retoma como conto de fadas a velha ficção liberal do indivíduo autônomo, responsável pelo próprio êxito ou insucesso na vida.
Vende-se a ideia do “empreendedorismo”, da pequena iniciativa, do trabalho flexível, do bilionário que começou com um computadorzinho no quarto de dormir. Mas os bilionários reais, os donos da Amazon e do Facebook, dependem de quem começa no computadorzinho dentro do quarto, mas não sai do quarto nunca mais.
Disciplina, rapaz, disciplina! A culpa é sua.
Se estiver difícil, pague uma mensalidade que bloqueamos os sites que você não consegue bloquear sozinho. Claro, você pode se arrepender depois. Sem problema. Sabemos bem, caro consumidor, que o arrependimento é sua especialidade.
(COELHO, M. Disponível em: https://www1.folha.uol.com.br/colunas/marcelocoelho/2019/10/mais-disciplina-rapaz.shtml. Acesso em: 16/10/2019.)
Sobre o uso de recursos linguísticos e gramaticais, visando ao efeito de sentido, marque V para as afirmativas verdadeiras e F para as falsas.
( ) Em Como dizia o velho Marx, a humanidade nunca se coloca questões que não pode resolver., o uso do pronome obliquo se retoma o sujeito humanidade, atribuindo à forma verbal coloca sentido de ação reflexiva.
( ) No segundo parágrafo, a forma verbal responder rege o seu complemento e-mail, segundo a gramática da norma culta.
( ) Em Vende-se a ideia do “empreendedorismo”, a indeterminação do sujeito impossibilita que o leitor identifique com exatidão o agente da ação verbal.
( ) No trecho O clássico perfil psicológico do burguês vitoriano — duro acumulador de capital., o adjetivo duro poderia ser substituído pelo adjetivo forte sem causar prejuízo de sentido.
( ) Em E assim vamos progredindo., a forma verbal em destaque expressa a ideia de ação duradoura em determinado espaço de tempo definido.
Assinale a sequência correta.
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Mais disciplina, rapaz!
Cansado de ficar zanzando durante horas na internet? Não digo que me canse, mas o tempo perdido me enche de culpa.
Há vícios em toda parte, e comigo acontece o seguinte. Gosto de ouvir programas de música clássica no computador. Isso me prende ao aparelho, porque em geral uso fones de ouvido com fio. Até aí, seria apenas um fundo sonoro para minhas atividades normais, como escrever textos, pagar contas, responder e-mails.
Não é assim que começa o vício. A coisa piora porque, se quero me concentrar no que estou ouvindo, procuro coisas descompromissadas para me ocupar no computador.
O site Pinterest (não sou fã do Instagram) fica passando diante de meus olhos imagens de países, cidades, obras de arte, atrizes, modelos e algumas outras atrações menos confessáveis. Há também capas de livros antigos, que então me conduzem ao site da Estante Virtual, onde a preços por vezes baixíssimos posso me entupir de velhas edições de bolso.
Gasto mais tempo do que dinheiro nesse tipo de coisa — terminando por perceber que não ouvi direito o programa que tinha sintonizado, e que estou com mais uma pilha de livros que não irei ler, dado o fato de que perco muito tempo na internet.
Como dizia o velho Marx, a humanidade nunca se coloca questões que não pode resolver. Se a frase me parece totalmente falsa no que diz respeito à história dos povos, há razões para aceitá-la no campo do consumo pessoal.
Vi agora que a internet traz consigo sua própria solução. O site Cold Turkey, por exemplo, promete rigores e sofrimentos comparáveis aos de quem parou de tomar drogas da noite para o dia — o nome evoca o mal estar da ressaca ou da síndrome de abstinência. [...]
A ideia é te ajudar na busca de mais disciplina para seu trabalho. Você bloqueia o site em que está viciado — e, garantem os programadores, é impossível trapacear; o programa não permite arrependimentos.
Bloqueou, nunca mais.
Eles sabem que não é bem assim; há maneiras de deixar “destravado” o seu próprio interdito. Mas eles também sabem que todo mundo começa o dia, a semana, ou o ano com boas intenções e firmeza de propósitos.
“Agora vai!”, diz o viciado, depois de já ter tentado outros bloqueadores.
Há fórmulas menos radicais. O site Rescue Time oferece um programa que mede o tempo despendido em cada site frequentado. Pode ser útil: perdemos completamente a noção, conforme o que estamos fazendo.
A contagem dos minutos possibilita uma divisão em áreas — trabalho real, comunicação com amigos, sites inúteis, compras… Há como programar alertas e, mais importante, como reservar um horário específico para não fazer nada de importante. Passamos então a outro “aplicativo”, seja lá que nome tenha. O Pick Four propõe que você estabeleça metas de produtividade (para seus estudos ou leituras, por exemplo) e confia na sua disposição para a autocrítica.
[...]
E assim vamos progredindo. O clássico perfil psicológico do burguês vitoriano — duro acumulador de capital, capaz de uma autodisciplina comparável à que exigia dos subordinados— dissolveu-se na obesidade e na abundância da sociedade de consumo.
O mundo contemporâneo, que já não mais provê emprego fixo e não sabe o que fazer com o excesso de mão de obra, retoma como conto de fadas a velha ficção liberal do indivíduo autônomo, responsável pelo próprio êxito ou insucesso na vida.
Vende-se a ideia do “empreendedorismo”, da pequena iniciativa, do trabalho flexível, do bilionário que começou com um computadorzinho no quarto de dormir. Mas os bilionários reais, os donos da Amazon e do Facebook, dependem de quem começa no computadorzinho dentro do quarto, mas não sai do quarto nunca mais.
Disciplina, rapaz, disciplina! A culpa é sua.
Se estiver difícil, pague uma mensalidade que bloqueamos os sites que você não consegue bloquear sozinho. Claro, você pode se arrepender depois. Sem problema. Sabemos bem, caro consumidor, que o arrependimento é sua especialidade.
(COELHO, M. Disponível em: https://www1.folha.uol.com.br/colunas/marcelocoelho/2019/10/mais-disciplina-rapaz.shtml. Acesso em: 16/10/2019.)
Em A coisa piora porque, se quero me concentrar no que estou ouvindo, procuro coisas descompromissadas para me ocupar no computador., os modalizadores destacados expressam
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Mais disciplina, rapaz!
Cansado de ficar zanzando durante horas na internet? Não digo que me canse, mas o tempo perdido me enche de culpa.
Há vícios em toda parte, e comigo acontece o seguinte. Gosto de ouvir programas de música clássica no computador. Isso me prende ao aparelho, porque em geral uso fones de ouvido com fio. Até aí, seria apenas um fundo sonoro para minhas atividades normais, como escrever textos, pagar contas, responder e-mails.
Não é assim que começa o vício. A coisa piora porque, se quero me concentrar no que estou ouvindo, procuro coisas descompromissadas para me ocupar no computador.
O site Pinterest (não sou fã do Instagram) fica passando diante de meus olhos imagens de países, cidades, obras de arte, atrizes, modelos e algumas outras atrações menos confessáveis. Há também capas de livros antigos, que então me conduzem ao site da Estante Virtual, onde a preços por vezes baixíssimos posso me entupir de velhas edições de bolso.
Gasto mais tempo do que dinheiro nesse tipo de coisa — terminando por perceber que não ouvi direito o programa que tinha sintonizado, e que estou com mais uma pilha de livros que não irei ler, dado o fato de que perco muito tempo na internet.
Como dizia o velho Marx, a humanidade nunca se coloca questões que não pode resolver. Se a frase me parece totalmente falsa no que diz respeito à história dos povos, há razões para aceitá-la no campo do consumo pessoal.
Vi agora que a internet traz consigo sua própria solução. O site Cold Turkey, por exemplo, promete rigores e sofrimentos comparáveis aos de quem parou de tomar drogas da noite para o dia — o nome evoca o mal estar da ressaca ou da síndrome de abstinência. [...]
A ideia é te ajudar na busca de mais disciplina para seu trabalho. Você bloqueia o site em que está viciado — e, garantem os programadores, é impossível trapacear; o programa não permite arrependimentos.
Bloqueou, nunca mais.
Eles sabem que não é bem assim; há maneiras de deixar “destravado” o seu próprio interdito. Mas eles também sabem que todo mundo começa o dia, a semana, ou o ano com boas intenções e firmeza de propósitos.
“Agora vai!”, diz o viciado, depois de já ter tentado outros bloqueadores.
Há fórmulas menos radicais. O site Rescue Time oferece um programa que mede o tempo despendido em cada site frequentado. Pode ser útil: perdemos completamente a noção, conforme o que estamos fazendo.
A contagem dos minutos possibilita uma divisão em áreas — trabalho real, comunicação com amigos, sites inúteis, compras… Há como programar alertas e, mais importante, como reservar um horário específico para não fazer nada de importante. Passamos então a outro “aplicativo”, seja lá que nome tenha. O Pick Four propõe que você estabeleça metas de produtividade (para seus estudos ou leituras, por exemplo) e confia na sua disposição para a autocrítica.
[...]
E assim vamos progredindo. O clássico perfil psicológico do burguês vitoriano — duro acumulador de capital, capaz de uma autodisciplina comparável à que exigia dos subordinados— dissolveu-se na obesidade e na abundância da sociedade de consumo.
O mundo contemporâneo, que já não mais provê emprego fixo e não sabe o que fazer com o excesso de mão de obra, retoma como conto de fadas a velha ficção liberal do indivíduo autônomo, responsável pelo próprio êxito ou insucesso na vida.
Vende-se a ideia do “empreendedorismo”, da pequena iniciativa, do trabalho flexível, do bilionário que começou com um computadorzinho no quarto de dormir. Mas os bilionários reais, os donos da Amazon e do Facebook, dependem de quem começa no computadorzinho dentro do quarto, mas não sai do quarto nunca mais.
Disciplina, rapaz, disciplina! A culpa é sua.
Se estiver difícil, pague uma mensalidade que bloqueamos os sites que você não consegue bloquear sozinho. Claro, você pode se arrepender depois. Sem problema. Sabemos bem, caro consumidor, que o arrependimento é sua especialidade.
(COELHO, M. Disponível em: https://www1.folha.uol.com.br/colunas/marcelocoelho/2019/10/mais-disciplina-rapaz.shtml. Acesso em: 16/10/2019.)
Sobre a organização das ideias, analise as afirmativas.
I- O quarto parágrafo amplia o argumento apresentado no terceiro parágrafo, justificando-o.
II- No sexto parágrafo, a ideia de Marx é veementemente contestada pelo autor.
III- No décimo quarto parágrafo, o autor recorre à ironia, a fim de persuadir o leitor.
IV- Os dois últimos parágrafos retomam a ideia sugerida no título por meio da interlocução direta entre a internet e o leitor.
V- No décimo sexto parágrafo, o autor usa a oposição de ideias como estratégia argumentativa.
Está correto o que se afirma em
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Mais disciplina, rapaz!
Cansado de ficar zanzando durante horas na internet? Não digo que me canse, mas o tempo perdido me enche de culpa.
Há vícios em toda parte, e comigo acontece o seguinte. Gosto de ouvir programas de música clássica no computador. Isso me prende ao aparelho, porque em geral uso fones de ouvido com fio. Até aí, seria apenas um fundo sonoro para minhas atividades normais, como escrever textos, pagar contas, responder e-mails.
Não é assim que começa o vício. A coisa piora porque, se quero me concentrar no que estou ouvindo, procuro coisas descompromissadas para me ocupar no computador.
O site Pinterest (não sou fã do Instagram) fica passando diante de meus olhos imagens de países, cidades, obras de arte, atrizes, modelos e algumas outras atrações menos confessáveis. Há também capas de livros antigos, que então me conduzem ao site da Estante Virtual, onde a preços por vezes baixíssimos posso me entupir de velhas edições de bolso.
Gasto mais tempo do que dinheiro nesse tipo de coisa — terminando por perceber que não ouvi direito o programa que tinha sintonizado, e que estou com mais uma pilha de livros que não irei ler, dado o fato de que perco muito tempo na internet.
Como dizia o velho Marx, a humanidade nunca se coloca questões que não pode resolver. Se a frase me parece totalmente falsa no que diz respeito à história dos povos, há razões para aceitá-la no campo do consumo pessoal.
Vi agora que a internet traz consigo sua própria solução. O site Cold Turkey, por exemplo, promete rigores e sofrimentos comparáveis aos de quem parou de tomar drogas da noite para o dia — o nome evoca o mal estar da ressaca ou da síndrome de abstinência. [...]
A ideia é te ajudar na busca de mais disciplina para seu trabalho. Você bloqueia o site em que está viciado — e, garantem os programadores, é impossível trapacear; o programa não permite arrependimentos.
Bloqueou, nunca mais.
Eles sabem que não é bem assim; há maneiras de deixar “destravado” o seu próprio interdito. Mas eles também sabem que todo mundo começa o dia, a semana, ou o ano com boas intenções e firmeza de propósitos.
“Agora vai!”, diz o viciado, depois de já ter tentado outros bloqueadores.
Há fórmulas menos radicais. O site Rescue Time oferece um programa que mede o tempo despendido em cada site frequentado. Pode ser útil: perdemos completamente a noção, conforme o que estamos fazendo.
A contagem dos minutos possibilita uma divisão em áreas — trabalho real, comunicação com amigos, sites inúteis, compras… Há como programar alertas e, mais importante, como reservar um horário específico para não fazer nada de importante. Passamos então a outro “aplicativo”, seja lá que nome tenha. O Pick Four propõe que você estabeleça metas de produtividade (para seus estudos ou leituras, por exemplo) e confia na sua disposição para a autocrítica.
[...]
E assim vamos progredindo. O clássico perfil psicológico do burguês vitoriano — duro acumulador de capital, capaz de uma autodisciplina comparável à que exigia dos subordinados— dissolveu-se na obesidade e na abundância da sociedade de consumo.
O mundo contemporâneo, que já não mais provê emprego fixo e não sabe o que fazer com o excesso de mão de obra, retoma como conto de fadas a velha ficção liberal do indivíduo autônomo, responsável pelo próprio êxito ou insucesso na vida.
Vende-se a ideia do “empreendedorismo”, da pequena iniciativa, do trabalho flexível, do bilionário que começou com um computadorzinho no quarto de dormir. Mas os bilionários reais, os donos da Amazon e do Facebook, dependem de quem começa no computadorzinho dentro do quarto, mas não sai do quarto nunca mais.
Disciplina, rapaz, disciplina! A culpa é sua.
Se estiver difícil, pague uma mensalidade que bloqueamos os sites que você não consegue bloquear sozinho. Claro, você pode se arrepender depois. Sem problema. Sabemos bem, caro consumidor, que o arrependimento é sua especialidade.
(COELHO, M. Disponível em: https://www1.folha.uol.com.br/colunas/marcelocoelho/2019/10/mais-disciplina-rapaz.shtml. Acesso em: 16/10/2019.)
Referente ao uso da linguagem, marque a afirmativa correta.
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Mais disciplina, rapaz!
Cansado de ficar zanzando durante horas na internet? Não digo que me canse, mas o tempo perdido me enche de culpa.
Há vícios em toda parte, e comigo acontece o seguinte. Gosto de ouvir programas de música clássica no computador. Isso me prende ao aparelho, porque em geral uso fones de ouvido com fio. Até aí, seria apenas um fundo sonoro para minhas atividades normais, como escrever textos, pagar contas, responder e-mails.
Não é assim que começa o vício. A coisa piora porque, se quero me concentrar no que estou ouvindo, procuro coisas descompromissadas para me ocupar no computador.
O site Pinterest (não sou fã do Instagram) fica passando diante de meus olhos imagens de países, cidades, obras de arte, atrizes, modelos e algumas outras atrações menos confessáveis. Há também capas de livros antigos, que então me conduzem ao site da Estante Virtual, onde a preços por vezes baixíssimos posso me entupir de velhas edições de bolso.
Gasto mais tempo do que dinheiro nesse tipo de coisa — terminando por perceber que não ouvi direito o programa que tinha sintonizado, e que estou com mais uma pilha de livros que não irei ler, dado o fato de que perco muito tempo na internet.
Como dizia o velho Marx, a humanidade nunca se coloca questões que não pode resolver. Se a frase me parece totalmente falsa no que diz respeito à história dos povos, há razões para aceitá-la no campo do consumo pessoal.
Vi agora que a internet traz consigo sua própria solução. O site Cold Turkey, por exemplo, promete rigores e sofrimentos comparáveis aos de quem parou de tomar drogas da noite para o dia — o nome evoca o mal estar da ressaca ou da síndrome de abstinência. [...]
A ideia é te ajudar na busca de mais disciplina para seu trabalho. Você bloqueia o site em que está viciado — e, garantem os programadores, é impossível trapacear; o programa não permite arrependimentos.
Bloqueou, nunca mais.
Eles sabem que não é bem assim; há maneiras de deixar “destravado” o seu próprio interdito. Mas eles também sabem que todo mundo começa o dia, a semana, ou o ano com boas intenções e firmeza de propósitos.
“Agora vai!”, diz o viciado, depois de já ter tentado outros bloqueadores.
Há fórmulas menos radicais. O site Rescue Time oferece um programa que mede o tempo despendido em cada site frequentado. Pode ser útil: perdemos completamente a noção, conforme o que estamos fazendo.
A contagem dos minutos possibilita uma divisão em áreas — trabalho real, comunicação com amigos, sites inúteis, compras… Há como programar alertas e, mais importante, como reservar um horário específico para não fazer nada de importante. Passamos então a outro “aplicativo”, seja lá que nome tenha. O Pick Four propõe que você estabeleça metas de produtividade (para seus estudos ou leituras, por exemplo) e confia na sua disposição para a autocrítica.
[...]
E assim vamos progredindo. O clássico perfil psicológico do burguês vitoriano — duro acumulador de capital, capaz de uma autodisciplina comparável à que exigia dos subordinados— dissolveu-se na obesidade e na abundância da sociedade de consumo.
O mundo contemporâneo, que já não mais provê emprego fixo e não sabe o que fazer com o excesso de mão de obra, retoma como conto de fadas a velha ficção liberal do indivíduo autônomo, responsável pelo próprio êxito ou insucesso na vida.
Vende-se a ideia do “empreendedorismo”, da pequena iniciativa, do trabalho flexível, do bilionário que começou com um computadorzinho no quarto de dormir. Mas os bilionários reais, os donos da Amazon e do Facebook, dependem de quem começa no computadorzinho dentro do quarto, mas não sai do quarto nunca mais.
Disciplina, rapaz, disciplina! A culpa é sua.
Se estiver difícil, pague uma mensalidade que bloqueamos os sites que você não consegue bloquear sozinho. Claro, você pode se arrepender depois. Sem problema. Sabemos bem, caro consumidor, que o arrependimento é sua especialidade.
(COELHO, M. Disponível em: https://www1.folha.uol.com.br/colunas/marcelocoelho/2019/10/mais-disciplina-rapaz.shtml. Acesso em: 16/10/2019.)
Nesse artigo de opinião, o autor defende a seguinte tese:
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