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A febre das selfies
Você já parou para pensar sobre o fenômeno
contemporâneo das selfies? O interesse de perpetuação da
própria imagem sempre existiu, como constatamos na
história humana com as máscaras mortuárias, além de
pinturas e esculturas voltadas para perenizar a figura de uma
personalidade. Também os artistas sempre fizeram
autorretratos. Com o advento da fotografia, e especialmente
agora, na era do celular, ampliou-se ilimitadamente a
possibilidade da reprodução da própria imagem.
Sabemos que o termo narcisismo deriva do mito
grego de Narciso, que, encantado pela própria imagem
refletida nas águas de uma fonte, apaixona-se por si mesmo
e, nessa contemplação, consome-se e morre. Freud retomou
esse mito, reconhecendo que o amor de si é importante
para o desenvolvimento da criança, que necessita ser objeto
de amor dos outros e também de si mesma. O problema é
não conseguir superar o enclausuramento que impede o
contato com os outros e com a cultura da qual faz parte.
Para fazer uma selfie, as pessoas procuram o melhor
ângulo — ou emolduram-se em um entorno que valoriza seu
ego — e, às vezes, se esquecem de apreciar os locais e as
exposições que visitam; até mesmo em situações trágicas há
quem não resista à repetição do gesto. Com todo esse ritual,
constrói-se uma imagem de si mesmo — uma máscara —
imediatamente exibida nas redes sociais.
Durante a pandemia de covid-19, em um contexto de
isolamento, as selfies se tornaram, para muitas pessoas, o
único recurso de exposição social. Catalisadoras de
interações virtuais, as selfies são objetos de curtidas, e
quanto mais atraentes elas forem, mais interações gerarão.
Por isso, frequentemente as pessoas usam filtros e
ferramentas de edição de fotos para manipular a própria
imagem e suprimir traços físicos que julgam imperfeitos. Isso
acentuou o chamado transtorno dismórfico corporal, uma
preocupação excessiva com a aparência e com
características mínimas e imperceptíveis.
De acordo com uma pesquisa realizada em 2020 pela
American Academy of Facial Plastic and Reconstructive
Surgery (Academia Americana de Cirurgia Plástica e
Reconstrutiva Facial), a pandemia de covid-19 aumentou a
busca por procedimentos estéticos, com muitos pacientes
relatando que as intervenções teriam como finalidade
melhorar suas selfies. Não se trata de recusar o mecanismo
das selfies, mas de refletir sobre o fato de esse costume ter
sido exacerbado nos últimos anos, tornando-se uma
obsessão, com a possibilidade de comprometer a saúde
mental das pessoas.
Fonte: Moderna Plus Filosofia. Adaptado.
( ) A revisitação histórica sobre a valorização da própria imagem é confirmada no último parágrafo ao se revelar que, mesmo diante de uma crise sanitária grave, as pessoas buscam se preocupar com a própria selfie.
( ) As selfies, muitas vezes, acabam por desencadear nas pessoas a necessidade por tratamentos estéticos, com o intuito de melhorarem e aperfeiçoarem suas fotos.
( ) Durante a pandemia de covid-19, as selfies foram a única forma de exposição social para todos, ao se evidenciar a necessidade de curtidas e de engajamento.
( ) O texto faz referência ao mito de Narciso ao explicar o desenvolvimento da criança a partir da superação do enclausuramento do contato com os outros.
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