Foram encontradas 170 questões.
O FUTURO DA GENÉTICA
O debate social sobre o sentido e o valor da engenharia
genética segue um padrão facilmente apreensível. Os
críticos usualmente recorrem a formulações éticas de
nosso passado cultural para recomendar interdições e/ou
cuidados. Uma fórmula é a hybris. Assim como os gregos
propunham que haveria castigo divino para os humanos
orgulhosos que queriam e podiam muito, que procuravam
assemelhar-se aos deuses, algumas críticas da engenharia
genética prescrevem a não-violação da ordem da natureza
e alertam para a nossa extinção se continuarmos a cometer
excessos. Esse gênero de crítica está em concordância
com o conto milenar do aprendiz de feiticeiro, incapaz
de controlar suas experiências. Uma outra aproximação
crítica é feita entre o horror da eugenia moderna, que
culmina no nazismo, e a tendência, apresentada em livros
e filmes, para a fabricação do homem perfeito.
Os defensores da engenharia genética tampouco
são inovadores. Ora reiteram que o conhecimento está
acima de tudo, ora que implicará em diversos progressos
terapêuticos. No anúncio de resultados preliminares,
políticos e médicos frisaram que o mapeamento do
genoma humano seria o maior feito da humanidade e que
erradicaria, num futuro próximo, uma série de doenças.
O modo de desdobramento do debate está marcado
por uma ausência decisiva: a singularidade desse modo
de conhecimento. O genoma não é a descrição de um
produto acabado; parece-se com um programa, com
uma receita para construir, processo que é afetado
pelas circunstâncias de desenvolvimento dos indivíduos.
Quando se diz que um gene é para alguma coisa, o que se
descobre usualmente é que a presença de uma diferença
na sequência genética determina ou favorece a aparição
de alguma doença ou desvio. Por fim, raros são os casos
em que um erro de sequência determina singularmente
o advento de uma doença. Como associam as diferenças
de sequência a estatísticas sobre a aparição de doenças
em uma população, a grande maioria dos diagnósticos
genéticos é e será probabilística e multicausal. A medicina
descobrirá propensões acrescidas de contrair certas
doenças associadas a sequências genéticas singulares,
propensões que se concretizam ou não, dependendo dos
hábitos de vida.
O que estamos experimentando é uma transformação
tecnológica do estatuto do corpo. De início, trata-se de
uma transformação ontológica: o corpo e todos os seres
vivos tornam-se informação codificada. A quebra do código
é o que permite a manipulação do modo de ser de todos
os seres vivos. A vida como programa implica um corpo
transformável, mas não só pela intervenção tecnológica.
O corpo torna-se, ao mesmo tempo, um conjunto de
possibilidades cuja atualização depende dos cuidados que
o indivíduo estabelece consigo mesmo. […]
Atentar a esta relação entre corpo e futuro permite recolocar
o debate sobre o sentido e valor da engenharia genética.
Precisa-se questioná-la no lugar mesmo em que nossa adesão
é mais facilmente conquistada: a saúde. O conhecimento do
genoma humano, mais do que permitir avanços na saúde,
transforma a relação que estabelecemos com nosso corpo
e com nosso futuro. Transforma, pois, o modo com que os
indivíduos se propõem a cuidar de si mesmos.
VAZ, Paulo. “O futuro da genética” In: Nas fronteiras do contemporâneo:
território, identidade, arte, moda, corpo e mídia. Org.: Nízia Villaça, Fred
Góes. Rio de Janeiro: Mauad: FUJB, 2001
Provas
Questão presente nas seguintes provas
- MorfologiaAdjetivos
- MorfologiaAdvérbios
- MorfologiaConjunçõesRelações de Causa e Consequência
- MorfologiaPronomes
- MorfologiaSubstantivos
O suor e a lágrima
(Carlos Heitor Cony)
Fazia calor no Rio, 40 graus e qualquer coisa, quase 41. No
dia seguinte, os jornais diriam que fora o mais quente deste
verão que inaugura o século e o milênio. Cheguei ao Santos
Dumont, o voo estava atrasado, decidi engraxar os sapatos.
Pelo menos aqui no Rio, são raros esses engraxates, só existem
nos aeroportos e em poucos lugares avulsos.
Sentei-me naquela espécie de cadeira canônica, de coro de
abadia pobre, que também pode parecer o trono de um rei
desolado de um reino desolante.
O engraxate era gordo e estava com calor — o que me pareceu
óbvio. Elogiou meus sapatos, cromo italiano, fabricante ilustre,
os Rosseti. Uso-o pouco, em parte para poupá-lo, em parte
porque quando posso estou sempre de tênis.
Ofereceu-me o jornal que eu já havia lido e começou seu
ofício. Meio careca, o suor encharcou-lhe a testa e a calva.
Pegou aquele paninho que dá brilho final nos sapatos e com
ele enxugou o próprio suor, que era abundante.
Com o mesmo pano, executou com maestria aqueles
movimentos rápidos em torno da biqueira, mas a todo instante
o usava para enxugar-se — caso contrário, o suor inundaria o
meu cromo italiano.
E foi assim que a testa e a calva do valente filho do povo
ficaram manchadas de graxa e o meu sapato adquiriu um
brilho de espelho à custa do suor alheio. Nunca tive sapatos
tão brilhantes, tão dignamente suados.
Na hora de pagar, alegando não ter nota menor, deixei-lhe um
troco generoso. Ele me olhou espantado, retribuiu a gorjeta
me desejando em dobro tudo o que eu viesse a precisar nos
restos dos meus dias.
Saí daquela cadeira com um baita sentimento de culpa. Que
diabo, meus sapatos não estavam tão sujos assim, por míseros
tostões, fizera um filho do povo suar para ganhar seu pão.
Olhei meus sapatos e tive vergonha daquele brilho humano,
salgado como lágrima.
(http://www.releituras.com/cony_menu.asp)
Provas
Questão presente nas seguintes provas
O FUTURO DA GENÉTICA
O debate social sobre o sentido e o valor da engenharia
genética segue um padrão facilmente apreensível. Os
críticos usualmente recorrem a formulações éticas de
nosso passado cultural para recomendar interdições e/ou
cuidados. Uma fórmula é a hybris. Assim como os gregos
propunham que haveria castigo divino para os humanos
orgulhosos que queriam e podiam muito, que procuravam
assemelhar-se aos deuses, algumas críticas da engenharia
genética prescrevem a não-violação da ordem da natureza
e alertam para a nossa extinção se continuarmos a cometer
excessos. Esse gênero de crítica está em concordância
com o conto milenar do aprendiz de feiticeiro, incapaz
de controlar suas experiências. Uma outra aproximação
crítica é feita entre o horror da eugenia moderna, que
culmina no nazismo, e a tendência, apresentada em livros
e filmes, para a fabricação do homem perfeito.
Os defensores da engenharia genética tampouco
são inovadores. Ora reiteram que o conhecimento está
acima de tudo, ora que implicará em diversos progressos
terapêuticos. No anúncio de resultados preliminares,
políticos e médicos frisaram que o mapeamento do
genoma humano seria o maior feito da humanidade e que
erradicaria, num futuro próximo, uma série de doenças.
O modo de desdobramento do debate está marcado
por uma ausência decisiva: a singularidade desse modo
de conhecimento. O genoma não é a descrição de um
produto acabado; parece-se com um programa, com
uma receita para construir, processo que é afetado
pelas circunstâncias de desenvolvimento dos indivíduos.
Quando se diz que um gene é para alguma coisa, o que se
descobre usualmente é que a presença de uma diferença
na sequência genética determina ou favorece a aparição
de alguma doença ou desvio. Por fim, raros são os casos
em que um erro de sequência determina singularmente
o advento de uma doença. Como associam as diferenças
de sequência a estatísticas sobre a aparição de doenças
em uma população, a grande maioria dos diagnósticos
genéticos é e será probabilística e multicausal. A medicina
descobrirá propensões acrescidas de contrair certas
doenças associadas a sequências genéticas singulares,
propensões que se concretizam ou não, dependendo dos
hábitos de vida.
O que estamos experimentando é uma transformação
tecnológica do estatuto do corpo. De início, trata-se de
uma transformação ontológica: o corpo e todos os seres
vivos tornam-se informação codificada. A quebra do código
é o que permite a manipulação do modo de ser de todos
os seres vivos. A vida como programa implica um corpo
transformável, mas não só pela intervenção tecnológica.
O corpo torna-se, ao mesmo tempo, um conjunto de
possibilidades cuja atualização depende dos cuidados que
o indivíduo estabelece consigo mesmo. […]
Atentar a esta relação entre corpo e futuro permite recolocar
o debate sobre o sentido e valor da engenharia genética.
Precisa-se questioná-la no lugar mesmo em que nossa adesão
é mais facilmente conquistada: a saúde. O conhecimento do
genoma humano, mais do que permitir avanços na saúde,
transforma a relação que estabelecemos com nosso corpo
e com nosso futuro. Transforma, pois, o modo com que os
indivíduos se propõem a cuidar de si mesmos.
VAZ, Paulo. “O futuro da genética” In: Nas fronteiras do contemporâneo:
território, identidade, arte, moda, corpo e mídia. Org.: Nízia Villaça, Fred
Góes. Rio de Janeiro: Mauad: FUJB, 2001
Provas
Questão presente nas seguintes provas
O FUTURO DA GENÉTICA
O debate social sobre o sentido e o valor da engenharia
genética segue um padrão facilmente apreensível. Os
críticos usualmente recorrem a formulações éticas de
nosso passado cultural para recomendar interdições e/ou
cuidados. Uma fórmula é a hybris. Assim como os gregos
propunham que haveria castigo divino para os humanos
orgulhosos que queriam e podiam muito, que procuravam
assemelhar-se aos deuses, algumas críticas da engenharia
genética prescrevem a não-violação da ordem da natureza
e alertam para a nossa extinção se continuarmos a cometer
excessos. Esse gênero de crítica está em concordância
com o conto milenar do aprendiz de feiticeiro, incapaz
de controlar suas experiências. Uma outra aproximação
crítica é feita entre o horror da eugenia moderna, que
culmina no nazismo, e a tendência, apresentada em livros
e filmes, para a fabricação do homem perfeito.
Os defensores da engenharia genética tampouco
são inovadores. Ora reiteram que o conhecimento está
acima de tudo, ora que implicará em diversos progressos
terapêuticos. No anúncio de resultados preliminares,
políticos e médicos frisaram que o mapeamento do
genoma humano seria o maior feito da humanidade e que
erradicaria, num futuro próximo, uma série de doenças.
O modo de desdobramento do debate está marcado
por uma ausência decisiva: a singularidade desse modo
de conhecimento. O genoma não é a descrição de um
produto acabado; parece-se com um programa, com
uma receita para construir, processo que é afetado
pelas circunstâncias de desenvolvimento dos indivíduos.
Quando se diz que um gene é para alguma coisa, o que se
descobre usualmente é que a presença de uma diferença
na sequência genética determina ou favorece a aparição
de alguma doença ou desvio. Por fim, raros são os casos
em que um erro de sequência determina singularmente
o advento de uma doença. Como associam as diferenças
de sequência a estatísticas sobre a aparição de doenças
em uma população, a grande maioria dos diagnósticos
genéticos é e será probabilística e multicausal. A medicina
descobrirá propensões acrescidas de contrair certas
doenças associadas a sequências genéticas singulares,
propensões que se concretizam ou não, dependendo dos
hábitos de vida.
O que estamos experimentando é uma transformação
tecnológica do estatuto do corpo. De início, trata-se de
uma transformação ontológica: o corpo e todos os seres
vivos tornam-se informação codificada. A quebra do código
é o que permite a manipulação do modo de ser de todos
os seres vivos. A vida como programa implica um corpo
transformável, mas não só pela intervenção tecnológica.
O corpo torna-se, ao mesmo tempo, um conjunto de
possibilidades cuja atualização depende dos cuidados que
o indivíduo estabelece consigo mesmo. […]
Atentar a esta relação entre corpo e futuro permite recolocar
o debate sobre o sentido e valor da engenharia genética.
Precisa-se questioná-la no lugar mesmo em que nossa adesão
é mais facilmente conquistada: a saúde. O conhecimento do
genoma humano, mais do que permitir avanços na saúde,
transforma a relação que estabelecemos com nosso corpo
e com nosso futuro. Transforma, pois, o modo com que os
indivíduos se propõem a cuidar de si mesmos.
VAZ, Paulo. “O futuro da genética” In: Nas fronteiras do contemporâneo:
território, identidade, arte, moda, corpo e mídia. Org.: Nízia Villaça, Fred
Góes. Rio de Janeiro: Mauad: FUJB, 2001
Provas
Questão presente nas seguintes provas
O FUTURO DA GENÉTICA
O debate social sobre o sentido e o valor da engenharia
genética segue um padrão facilmente apreensível. Os
críticos usualmente recorrem a formulações éticas de
nosso passado cultural para recomendar interdições e/ou
cuidados. Uma fórmula é a hybris. Assim como os gregos
propunham que haveria castigo divino para os humanos
orgulhosos que queriam e podiam muito, que procuravam
assemelhar-se aos deuses, algumas críticas da engenharia
genética prescrevem a não-violação da ordem da natureza
e alertam para a nossa extinção se continuarmos a cometer
excessos. Esse gênero de crítica está em concordância
com o conto milenar do aprendiz de feiticeiro, incapaz
de controlar suas experiências. Uma outra aproximação
crítica é feita entre o horror da eugenia moderna, que
culmina no nazismo, e a tendência, apresentada em livros
e filmes, para a fabricação do homem perfeito.
Os defensores da engenharia genética tampouco
são inovadores. Ora reiteram que o conhecimento está
acima de tudo, ora que implicará em diversos progressos
terapêuticos. No anúncio de resultados preliminares,
políticos e médicos frisaram que o mapeamento do
genoma humano seria o maior feito da humanidade e que
erradicaria, num futuro próximo, uma série de doenças.
O modo de desdobramento do debate está marcado
por uma ausência decisiva: a singularidade desse modo
de conhecimento. O genoma não é a descrição de um
produto acabado; parece-se com um programa, com
uma receita para construir, processo que é afetado
pelas circunstâncias de desenvolvimento dos indivíduos.
Quando se diz que um gene é para alguma coisa, o que se
descobre usualmente é que a presença de uma diferença
na sequência genética determina ou favorece a aparição
de alguma doença ou desvio. Por fim, raros são os casos
em que um erro de sequência determina singularmente
o advento de uma doença. Como associam as diferenças
de sequência a estatísticas sobre a aparição de doenças
em uma população, a grande maioria dos diagnósticos
genéticos é e será probabilística e multicausal. A medicina
descobrirá propensões acrescidas de contrair certas
doenças associadas a sequências genéticas singulares,
propensões que se concretizam ou não, dependendo dos
hábitos de vida.
O que estamos experimentando é uma transformação
tecnológica do estatuto do corpo. De início, trata-se de
uma transformação ontológica: o corpo e todos os seres
vivos tornam-se informação codificada. A quebra do código
é o que permite a manipulação do modo de ser de todos
os seres vivos. A vida como programa implica um corpo
transformável, mas não só pela intervenção tecnológica.
O corpo torna-se, ao mesmo tempo, um conjunto de
possibilidades cuja atualização depende dos cuidados que
o indivíduo estabelece consigo mesmo. […]
Atentar a esta relação entre corpo e futuro permite recolocar
o debate sobre o sentido e valor da engenharia genética.
Precisa-se questioná-la no lugar mesmo em que nossa adesão
é mais facilmente conquistada: a saúde. O conhecimento do
genoma humano, mais do que permitir avanços na saúde,
transforma a relação que estabelecemos com nosso corpo
e com nosso futuro. Transforma, pois, o modo com que os
indivíduos se propõem a cuidar de si mesmos.
VAZ, Paulo. “O futuro da genética” In: Nas fronteiras do contemporâneo:
território, identidade, arte, moda, corpo e mídia. Org.: Nízia Villaça, Fred
Góes. Rio de Janeiro: Mauad: FUJB, 2001
Provas
Questão presente nas seguintes provas
O FUTURO DA GENÉTICA
O debate social sobre o sentido e o valor da engenharia
genética segue um padrão facilmente apreensível. Os
críticos usualmente recorrem a formulações éticas de
nosso passado cultural para recomendar interdições e/ou
cuidados. Uma fórmula é a hybris. Assim como os gregos
propunham que haveria castigo divino para os humanos
orgulhosos que queriam e podiam muito, que procuravam
assemelhar-se aos deuses, algumas críticas da engenharia
genética prescrevem a não-violação da ordem da natureza
e alertam para a nossa extinção se continuarmos a cometer
excessos. Esse gênero de crítica está em concordância
com o conto milenar do aprendiz de feiticeiro, incapaz
de controlar suas experiências. Uma outra aproximação
crítica é feita entre o horror da eugenia moderna, que
culmina no nazismo, e a tendência, apresentada em livros
e filmes, para a fabricação do homem perfeito.
Os defensores da engenharia genética tampouco
são inovadores. Ora reiteram que o conhecimento está
acima de tudo, ora que implicará em diversos progressos
terapêuticos. No anúncio de resultados preliminares,
políticos e médicos frisaram que o mapeamento do
genoma humano seria o maior feito da humanidade e que
erradicaria, num futuro próximo, uma série de doenças.
O modo de desdobramento do debate está marcado
por uma ausência decisiva: a singularidade desse modo
de conhecimento. O genoma não é a descrição de um
produto acabado; parece-se com um programa, com
uma receita para construir, processo que é afetado
pelas circunstâncias de desenvolvimento dos indivíduos.
Quando se diz que um gene é para alguma coisa, o que se
descobre usualmente é que a presença de uma diferença
na sequência genética determina ou favorece a aparição
de alguma doença ou desvio. Por fim, raros são os casos
em que um erro de sequência determina singularmente
o advento de uma doença. Como associam as diferenças
de sequência a estatísticas sobre a aparição de doenças
em uma população, a grande maioria dos diagnósticos
genéticos é e será probabilística e multicausal. A medicina
descobrirá propensões acrescidas de contrair certas
doenças associadas a sequências genéticas singulares,
propensões que se concretizam ou não, dependendo dos
hábitos de vida.
O que estamos experimentando é uma transformação
tecnológica do estatuto do corpo. De início, trata-se de
uma transformação ontológica: o corpo e todos os seres
vivos tornam-se informação codificada. A quebra do código
é o que permite a manipulação do modo de ser de todos
os seres vivos. A vida como programa implica um corpo
transformável, mas não só pela intervenção tecnológica.
O corpo torna-se, ao mesmo tempo, um conjunto de
possibilidades cuja atualização depende dos cuidados que
o indivíduo estabelece consigo mesmo. […]
Atentar a esta relação entre corpo e futuro permite recolocar
o debate sobre o sentido e valor da engenharia genética.
Precisa-se questioná-la no lugar mesmo em que nossa adesão
é mais facilmente conquistada: a saúde. O conhecimento do
genoma humano, mais do que permitir avanços na saúde,
transforma a relação que estabelecemos com nosso corpo
e com nosso futuro. Transforma, pois, o modo com que os
indivíduos se propõem a cuidar de si mesmos.
VAZ, Paulo. “O futuro da genética” In: Nas fronteiras do contemporâneo:
território, identidade, arte, moda, corpo e mídia. Org.: Nízia Villaça, Fred
Góes. Rio de Janeiro: Mauad: FUJB, 2001
Provas
Questão presente nas seguintes provas
O FUTURO DA GENÉTICA
O debate social sobre o sentido e o valor da engenharia
genética segue um padrão facilmente apreensível. Os
críticos usualmente recorrem a formulações éticas de
nosso passado cultural para recomendar interdições e/ou
cuidados. Uma fórmula é a hybris. Assim como os gregos
propunham que haveria castigo divino para os humanos
orgulhosos que queriam e podiam muito, que procuravam
assemelhar-se aos deuses, algumas críticas da engenharia
genética prescrevem a não-violação da ordem da natureza
e alertam para a nossa extinção se continuarmos a cometer
excessos. Esse gênero de crítica está em concordância
com o conto milenar do aprendiz de feiticeiro, incapaz
de controlar suas experiências. Uma outra aproximação
crítica é feita entre o horror da eugenia moderna, que
culmina no nazismo, e a tendência, apresentada em livros
e filmes, para a fabricação do homem perfeito.
Os defensores da engenharia genética tampouco
são inovadores. Ora reiteram que o conhecimento está
acima de tudo, ora que implicará em diversos progressos
terapêuticos. No anúncio de resultados preliminares,
políticos e médicos frisaram que o mapeamento do
genoma humano seria o maior feito da humanidade e que
erradicaria, num futuro próximo, uma série de doenças.
O modo de desdobramento do debate está marcado
por uma ausência decisiva: a singularidade desse modo
de conhecimento. O genoma não é a descrição de um
produto acabado; parece-se com um programa, com
uma receita para construir, processo que é afetado
pelas circunstâncias de desenvolvimento dos indivíduos.
Quando se diz que um gene é para alguma coisa, o que se
descobre usualmente é que a presença de uma diferença
na sequência genética determina ou favorece a aparição
de alguma doença ou desvio. Por fim, raros são os casos
em que um erro de sequência determina singularmente
o advento de uma doença. Como associam as diferenças
de sequência a estatísticas sobre a aparição de doenças
em uma população, a grande maioria dos diagnósticos
genéticos é e será probabilística e multicausal. A medicina
descobrirá propensões acrescidas de contrair certas
doenças associadas a sequências genéticas singulares,
propensões que se concretizam ou não, dependendo dos
hábitos de vida.
O que estamos experimentando é uma transformação
tecnológica do estatuto do corpo. De início, trata-se de
uma transformação ontológica: o corpo e todos os seres
vivos tornam-se informação codificada. A quebra do código
é o que permite a manipulação do modo de ser de todos
os seres vivos. A vida como programa implica um corpo
transformável, mas não só pela intervenção tecnológica.
O corpo torna-se, ao mesmo tempo, um conjunto de
possibilidades cuja atualização depende dos cuidados que
o indivíduo estabelece consigo mesmo. […]
Atentar a esta relação entre corpo e futuro permite recolocar
o debate sobre o sentido e valor da engenharia genética.
Precisa-se questioná-la no lugar mesmo em que nossa adesão
é mais facilmente conquistada: a saúde. O conhecimento do
genoma humano, mais do que permitir avanços na saúde,
transforma a relação que estabelecemos com nosso corpo
e com nosso futuro. Transforma, pois, o modo com que os
indivíduos se propõem a cuidar de si mesmos.
VAZ, Paulo. “O futuro da genética” In: Nas fronteiras do contemporâneo:
território, identidade, arte, moda, corpo e mídia. Org.: Nízia Villaça, Fred
Góes. Rio de Janeiro: Mauad: FUJB, 2001
Provas
Questão presente nas seguintes provas
O suor e a lágrima
(Carlos Heitor Cony)
Fazia calor no Rio, 40 graus e qualquer coisa, quase 41. No
dia seguinte, os jornais diriam que fora o mais quente deste
verão que inaugura o século e o milênio. Cheguei ao Santos
Dumont, o voo estava atrasado, decidi engraxar os sapatos.
Pelo menos aqui no Rio, são raros esses engraxates, só existem
nos aeroportos e em poucos lugares avulsos.
Sentei-me naquela espécie de cadeira canônica, de coro de
abadia pobre, que também pode parecer o trono de um rei
desolado de um reino desolante.
O engraxate era gordo e estava com calor — o que me pareceu
óbvio. Elogiou meus sapatos, cromo italiano, fabricante ilustre,
os Rosseti. Uso-o pouco, em parte para poupá-lo, em parte
porque quando posso estou sempre de tênis.
Ofereceu-me o jornal que eu já havia lido e começou seu
ofício. Meio careca, o suor encharcou-lhe a testa e a calva.
Pegou aquele paninho que dá brilho final nos sapatos e com
ele enxugou o próprio suor, que era abundante.
Com o mesmo pano, executou com maestria aqueles
movimentos rápidos em torno da biqueira, mas a todo instante
o usava para enxugar-se — caso contrário, o suor inundaria o
meu cromo italiano.
E foi assim que a testa e a calva do valente filho do povo
ficaram manchadas de graxa e o meu sapato adquiriu um
brilho de espelho à custa do suor alheio. Nunca tive sapatos
tão brilhantes, tão dignamente suados.
Na hora de pagar, alegando não ter nota menor, deixei-lhe um
troco generoso. Ele me olhou espantado, retribuiu a gorjeta
me desejando em dobro tudo o que eu viesse a precisar nos
restos dos meus dias.
Saí daquela cadeira com um baita sentimento de culpa. Que
diabo, meus sapatos não estavam tão sujos assim, por míseros
tostões, fizera um filho do povo suar para ganhar seu pão.
Olhei meus sapatos e tive vergonha daquele brilho humano,
salgado como lágrima.
(http://www.releituras.com/cony_menu.asp)
Provas
Questão presente nas seguintes provas
O suor e a lágrima
(Carlos Heitor Cony)
Fazia calor no Rio, 40 graus e qualquer coisa, quase 41. No
dia seguinte, os jornais diriam que fora o mais quente deste
verão que inaugura o século e o milênio. Cheguei ao Santos
Dumont, o voo estava atrasado, decidi engraxar os sapatos.
Pelo menos aqui no Rio, são raros esses engraxates, só existem
nos aeroportos e em poucos lugares avulsos.
Sentei-me naquela espécie de cadeira canônica, de coro de
abadia pobre, que também pode parecer o trono de um rei
desolado de um reino desolante.
O engraxate era gordo e estava com calor — o que me pareceu
óbvio. Elogiou meus sapatos, cromo italiano, fabricante ilustre,
os Rosseti. Uso-o pouco, em parte para poupá-lo, em parte
porque quando posso estou sempre de tênis.
Ofereceu-me o jornal que eu já havia lido e começou seu
ofício. Meio careca, o suor encharcou-lhe a testa e a calva.
Pegou aquele paninho que dá brilho final nos sapatos e com
ele enxugou o próprio suor, que era abundante.
Com o mesmo pano, executou com maestria aqueles
movimentos rápidos em torno da biqueira, mas a todo instante
o usava para enxugar-se — caso contrário, o suor inundaria o
meu cromo italiano.
E foi assim que a testa e a calva do valente filho do povo
ficaram manchadas de graxa e o meu sapato adquiriu um
brilho de espelho à custa do suor alheio. Nunca tive sapatos
tão brilhantes, tão dignamente suados.
Na hora de pagar, alegando não ter nota menor, deixei-lhe um
troco generoso. Ele me olhou espantado, retribuiu a gorjeta
me desejando em dobro tudo o que eu viesse a precisar nos
restos dos meus dias.
Saí daquela cadeira com um baita sentimento de culpa. Que
diabo, meus sapatos não estavam tão sujos assim, por míseros
tostões, fizera um filho do povo suar para ganhar seu pão.
Olhei meus sapatos e tive vergonha daquele brilho humano,
salgado como lágrima.
(http://www.releituras.com/cony_menu.asp)
Provas
Questão presente nas seguintes provas
O FUTURO DA GENÉTICA
O debate social sobre o sentido e o valor da engenharia
genética segue um padrão facilmente apreensível. Os
críticos usualmente recorrem a formulações éticas de
nosso passado cultural para recomendar interdições e/ou
cuidados. Uma fórmula é a hybris. Assim como os gregos
propunham que haveria castigo divino para os humanos
orgulhosos que queriam e podiam muito, que procuravam
assemelhar-se aos deuses, algumas críticas da engenharia
genética prescrevem a não-violação da ordem da natureza
e alertam para a nossa extinção se continuarmos a cometer
excessos. Esse gênero de crítica está em concordância
com o conto milenar do aprendiz de feiticeiro, incapaz
de controlar suas experiências. Uma outra aproximação
crítica é feita entre o horror da eugenia moderna, que
culmina no nazismo, e a tendência, apresentada em livros
e filmes, para a fabricação do homem perfeito.
Os defensores da engenharia genética tampouco
são inovadores. Ora reiteram que o conhecimento está
acima de tudo, ora que implicará em diversos progressos
terapêuticos. No anúncio de resultados preliminares,
políticos e médicos frisaram que o mapeamento do
genoma humano seria o maior feito da humanidade e que
erradicaria, num futuro próximo, uma série de doenças.
O modo de desdobramento do debate está marcado
por uma ausência decisiva: a singularidade desse modo
de conhecimento. O genoma não é a descrição de um
produto acabado; parece-se com um programa, com
uma receita para construir, processo que é afetado
pelas circunstâncias de desenvolvimento dos indivíduos.
Quando se diz que um gene é para alguma coisa, o que se
descobre usualmente é que a presença de uma diferença
na sequência genética determina ou favorece a aparição
de alguma doença ou desvio. Por fim, raros são os casos
em que um erro de sequência determina singularmente
o advento de uma doença. Como associam as diferenças
de sequência a estatísticas sobre a aparição de doenças
em uma população, a grande maioria dos diagnósticos
genéticos é e será probabilística e multicausal. A medicina
descobrirá propensões acrescidas de contrair certas
doenças associadas a sequências genéticas singulares,
propensões que se concretizam ou não, dependendo dos
hábitos de vida.
O que estamos experimentando é uma transformação
tecnológica do estatuto do corpo. De início, trata-se de
uma transformação ontológica: o corpo e todos os seres
vivos tornam-se informação codificada. A quebra do código
é o que permite a manipulação do modo de ser de todos
os seres vivos. A vida como programa implica um corpo
transformável, mas não só pela intervenção tecnológica.
O corpo torna-se, ao mesmo tempo, um conjunto de
possibilidades cuja atualização depende dos cuidados que
o indivíduo estabelece consigo mesmo. […]
Atentar a esta relação entre corpo e futuro permite recolocar
o debate sobre o sentido e valor da engenharia genética.
Precisa-se questioná-la no lugar mesmo em que nossa adesão
é mais facilmente conquistada: a saúde. O conhecimento do
genoma humano, mais do que permitir avanços na saúde,
transforma a relação que estabelecemos com nosso corpo
e com nosso futuro. Transforma, pois, o modo com que os
indivíduos se propõem a cuidar de si mesmos.
VAZ, Paulo. “O futuro da genética” In: Nas fronteiras do contemporâneo:
território, identidade, arte, moda, corpo e mídia. Org.: Nízia Villaça, Fred
Góes. Rio de Janeiro: Mauad: FUJB, 2001
Provas
Questão presente nas seguintes provas
Cadernos
Caderno Container