Foram encontradas 60 questões.
Leia o texto e responda à questão.
“O café do intervalo e a teoria do quase”
No intervalo da manhã, quando o corredor vira uma avenida
de passos apressados e promessas de “já volto”, eu caminho até
a cantina como quem vai cumprir um ritual civil. Não é fome: é
aquela necessidade de um gole quente para reorganizar o
pensamento, como se a cafeína soubesse arquivar dúvidas. A
placa anuncia “Café passado na hora”, e eu me pego sorrindo
para a expressão: como se existisse a hora oficial do café, com
carimbo e assinatura.
A fila começa curta e, por isso mesmo, suspeita. O primeiro
obstáculo é o entusiasmo alheio. Uma colega me cumprimenta
com um “rapidinho, só uma pergunta”, e essa frase, aprendi, tem
o mesmo estatuto do “sem querer” antes de um comentário bem
intencional. Eu respondo com um “claro”, que na língua da
sobrevivência acadêmica significa: claro que não há escolha. Ela
quer saber se eu “só poderia dar uma olhadinha” em um
formulário, “bem simples”. Simples, aqui, é um adjetivo mágico:
não descreve o objeto; descreve a tentativa de reduzir o tempo
do outro.
Enquanto finjo analisar campos e siglas, a fila cresce atrás
de nós como argumento que se encorpa. Quando enfim chego ao
balcão, o atendente aponta para um aviso escrito à mão: “PIX fora
do ar”. A frase tem a concisão de um decreto e, ao mesmo tempo,
a delicadeza de um pedido de desculpas. Procuro moedas,
encontro um cartão que “agora não passa”, e sinto a vergonha
minúscula de quem foi desmentida pelo próprio bolso. “É só
reiniciar a maquininha”, diz alguém, como se reiniciar fosse
sinônimo de resolver.
Volto dois passos, tento sinal, tento fé. Na tela do celular, o
círculo de carregamento gira com uma serenidade provocativa.
Penso na teoria do quase: quase é a região onde a gente vive por
prática, não por vocação. Quase respondi, quase terminei, quase
publiquei, quase fui ao médico, quase dormi cedo. Quase é um
jeito de manter a esperança em pé sem precisar encostar a
realidade na parede. E, no intervalo, quase tem rosto: o “já”, o
“só”, o “bem”, o “assim que der”.
Finalmente pago em dinheiro emprestado — “me devolve
depois, quando puder, sem pressa” — e essa generosidade traz
embutida uma cobrança leve, do tipo que não pesa hoje, mas
cobra amanhã. O café vem em copo de papel, tampado, e o vapor
foge pela fresta como fofoca que não aguenta segredo. Dou o
primeiro gole e percebo que não está tão quente quanto prometia
a placa. Está morno, aquela temperatura neutra que não consola
nem ofende.
No caminho de volta, um aluno me alcança: “Prof, é
rapidinho”. E eu, já com o café na mão e o intervalo no fim, ouço
a frase como quem ouve o próprio nome dito errado. Ele abre o
celular e me mostra uma mensagem: “Desculpa incomodar, mas
eu quase desisti da disciplina”. Quase, outra vez.
Eu me lembro de quantas vezes usei “quase” para suavizar
pedidos: quase poderia enviar hoje? quase dá para remarcar?
Como se a palavra amortecesse o impacto do desejo. Mas, ali,
ela era um pedido de ajuda sem dramatização, um ponto de
exclamação sussurrado bem mesmo.
Só que, agora, o quase não adia; avisa. Eu paro. O corredor
continua correndo. E, pela primeira vez na manhã, o café serve:
não para acelerar, mas para ficar.
Fonte: Banca Examinadora
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“O café do intervalo e a teoria do quase”
No intervalo da manhã, quando o corredor vira uma avenida
de passos apressados e promessas de “já volto”, eu caminho até
a cantina como quem vai cumprir um ritual civil. Não é fome: é
aquela necessidade de um gole quente para reorganizar o
pensamento, como se a cafeína soubesse arquivar dúvidas. A
placa anuncia “Café passado na hora”, e eu me pego sorrindo
para a expressão: como se existisse a hora oficial do café, com
carimbo e assinatura.
A fila começa curta e, por isso mesmo, suspeita. O primeiro
obstáculo é o entusiasmo alheio. Uma colega me cumprimenta
com um “rapidinho, só uma pergunta”, e essa frase, aprendi, tem
o mesmo estatuto do “sem querer” antes de um comentário bem
intencional. Eu respondo com um “claro”, que na língua da
sobrevivência acadêmica significa: claro que não há escolha. Ela
quer saber se eu “só poderia dar uma olhadinha” em um
formulário, “bem simples”. Simples, aqui, é um adjetivo mágico:
não descreve o objeto; descreve a tentativa de reduzir o tempo
do outro.
Enquanto finjo analisar campos e siglas, a fila cresce atrás
de nós como argumento que se encorpa. Quando enfim chego ao
balcão, o atendente aponta para um aviso escrito à mão: “PIX fora
do ar”. A frase tem a concisão de um decreto e, ao mesmo tempo,
a delicadeza de um pedido de desculpas. Procuro moedas,
encontro um cartão que “agora não passa”, e sinto a vergonha
minúscula de quem foi desmentida pelo próprio bolso. “É só
reiniciar a maquininha”, diz alguém, como se reiniciar fosse
sinônimo de resolver.
Volto dois passos, tento sinal, tento fé. Na tela do celular, o
círculo de carregamento gira com uma serenidade provocativa.
Penso na teoria do quase: quase é a região onde a gente vive por
prática, não por vocação. Quase respondi, quase terminei, quase
publiquei, quase fui ao médico, quase dormi cedo. Quase é um
jeito de manter a esperança em pé sem precisar encostar a
realidade na parede. E, no intervalo, quase tem rosto: o “já”, o
“só”, o “bem”, o “assim que der”.
Finalmente pago em dinheiro emprestado — “me devolve
depois, quando puder, sem pressa” — e essa generosidade traz
embutida uma cobrança leve, do tipo que não pesa hoje, mas
cobra amanhã. O café vem em copo de papel, tampado, e o vapor
foge pela fresta como fofoca que não aguenta segredo. Dou o
primeiro gole e percebo que não está tão quente quanto prometia
a placa. Está morno, aquela temperatura neutra que não consola
nem ofende.
No caminho de volta, um aluno me alcança: “Prof, é
rapidinho”. E eu, já com o café na mão e o intervalo no fim, ouço
a frase como quem ouve o próprio nome dito errado. Ele abre o
celular e me mostra uma mensagem: “Desculpa incomodar, mas
eu quase desisti da disciplina”. Quase, outra vez.
Eu me lembro de quantas vezes usei “quase” para suavizar
pedidos: quase poderia enviar hoje? quase dá para remarcar?
Como se a palavra amortecesse o impacto do desejo. Mas, ali,
ela era um pedido de ajuda sem dramatização, um ponto de
exclamação sussurrado bem mesmo.
Só que, agora, o quase não adia; avisa. Eu paro. O corredor
continua correndo. E, pela primeira vez na manhã, o café serve:
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a cantina como quem vai cumprir um ritual civil. Não é fome: é
aquela necessidade de um gole quente para reorganizar o
pensamento, como se a cafeína soubesse arquivar dúvidas. A
placa anuncia “Café passado na hora”, e eu me pego sorrindo
para a expressão: como se existisse a hora oficial do café, com
carimbo e assinatura.
A fila começa curta e, por isso mesmo, suspeita. O primeiro
obstáculo é o entusiasmo alheio. Uma colega me cumprimenta
com um “rapidinho, só uma pergunta”, e essa frase, aprendi, tem
o mesmo estatuto do “sem querer” antes de um comentário bem
intencional. Eu respondo com um “claro”, que na língua da
sobrevivência acadêmica significa: claro que não há escolha. Ela
quer saber se eu “só poderia dar uma olhadinha” em um
formulário, “bem simples”. Simples, aqui, é um adjetivo mágico:
não descreve o objeto; descreve a tentativa de reduzir o tempo
do outro.
Enquanto finjo analisar campos e siglas, a fila cresce atrás
de nós como argumento que se encorpa. Quando enfim chego ao
balcão, o atendente aponta para um aviso escrito à mão: “PIX fora
do ar”. A frase tem a concisão de um decreto e, ao mesmo tempo,
a delicadeza de um pedido de desculpas. Procuro moedas,
encontro um cartão que “agora não passa”, e sinto a vergonha
minúscula de quem foi desmentida pelo próprio bolso. “É só
reiniciar a maquininha”, diz alguém, como se reiniciar fosse
sinônimo de resolver.
Volto dois passos, tento sinal, tento fé. Na tela do celular, o
círculo de carregamento gira com uma serenidade provocativa.
Penso na teoria do quase: quase é a região onde a gente vive por
prática, não por vocação. Quase respondi, quase terminei, quase
publiquei, quase fui ao médico, quase dormi cedo. Quase é um
jeito de manter a esperança em pé sem precisar encostar a
realidade na parede. E, no intervalo, quase tem rosto: o “já”, o
“só”, o “bem”, o “assim que der”.
Finalmente pago em dinheiro emprestado — “me devolve
depois, quando puder, sem pressa” — e essa generosidade traz
embutida uma cobrança leve, do tipo que não pesa hoje, mas
cobra amanhã. O café vem em copo de papel, tampado, e o vapor
foge pela fresta como fofoca que não aguenta segredo. Dou o
primeiro gole e percebo que não está tão quente quanto prometia
a placa. Está morno, aquela temperatura neutra que não consola
nem ofende.
No caminho de volta, um aluno me alcança: “Prof, é
rapidinho”. E eu, já com o café na mão e o intervalo no fim, ouço
a frase como quem ouve o próprio nome dito errado. Ele abre o
celular e me mostra uma mensagem: “Desculpa incomodar, mas
eu quase desisti da disciplina”. Quase, outra vez.
Eu me lembro de quantas vezes usei “quase” para suavizar
pedidos: quase poderia enviar hoje? quase dá para remarcar?
Como se a palavra amortecesse o impacto do desejo. Mas, ali,
ela era um pedido de ajuda sem dramatização, um ponto de
exclamação sussurrado bem mesmo.
Só que, agora, o quase não adia; avisa. Eu paro. O corredor
continua correndo. E, pela primeira vez na manhã, o café serve:
não para acelerar, mas para ficar.
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No intervalo da manhã, quando o corredor vira uma avenida
de passos apressados e promessas de “já volto”, eu caminho até
a cantina como quem vai cumprir um ritual civil. Não é fome: é
aquela necessidade de um gole quente para reorganizar o
pensamento, como se a cafeína soubesse arquivar dúvidas. A
placa anuncia “Café passado na hora”, e eu me pego sorrindo
para a expressão: como se existisse a hora oficial do café, com
carimbo e assinatura.
A fila começa curta e, por isso mesmo, suspeita. O primeiro
obstáculo é o entusiasmo alheio. Uma colega me cumprimenta
com um “rapidinho, só uma pergunta”, e essa frase, aprendi, tem
o mesmo estatuto do “sem querer” antes de um comentário bem
intencional. Eu respondo com um “claro”, que na língua da
sobrevivência acadêmica significa: claro que não há escolha. Ela
quer saber se eu “só poderia dar uma olhadinha” em um
formulário, “bem simples”. Simples, aqui, é um adjetivo mágico:
não descreve o objeto; descreve a tentativa de reduzir o tempo
do outro.
Enquanto finjo analisar campos e siglas, a fila cresce atrás
de nós como argumento que se encorpa. Quando enfim chego ao
balcão, o atendente aponta para um aviso escrito à mão: “PIX fora
do ar”. A frase tem a concisão de um decreto e, ao mesmo tempo,
a delicadeza de um pedido de desculpas. Procuro moedas,
encontro um cartão que “agora não passa”, e sinto a vergonha
minúscula de quem foi desmentida pelo próprio bolso. “É só
reiniciar a maquininha”, diz alguém, como se reiniciar fosse
sinônimo de resolver.
Volto dois passos, tento sinal, tento fé. Na tela do celular, o
círculo de carregamento gira com uma serenidade provocativa.
Penso na teoria do quase: quase é a região onde a gente vive por
prática, não por vocação. Quase respondi, quase terminei, quase
publiquei, quase fui ao médico, quase dormi cedo. Quase é um
jeito de manter a esperança em pé sem precisar encostar a
realidade na parede. E, no intervalo, quase tem rosto: o “já”, o
“só”, o “bem”, o “assim que der”.
Finalmente pago em dinheiro emprestado — “me devolve
depois, quando puder, sem pressa” — e essa generosidade traz
embutida uma cobrança leve, do tipo que não pesa hoje, mas
cobra amanhã. O café vem em copo de papel, tampado, e o vapor
foge pela fresta como fofoca que não aguenta segredo. Dou o
primeiro gole e percebo que não está tão quente quanto prometia
a placa. Está morno, aquela temperatura neutra que não consola
nem ofende.
No caminho de volta, um aluno me alcança: “Prof, é
rapidinho”. E eu, já com o café na mão e o intervalo no fim, ouço
a frase como quem ouve o próprio nome dito errado. Ele abre o
celular e me mostra uma mensagem: “Desculpa incomodar, mas
eu quase desisti da disciplina”. Quase, outra vez.
Eu me lembro de quantas vezes usei “quase” para suavizar
pedidos: quase poderia enviar hoje? quase dá para remarcar?
Como se a palavra amortecesse o impacto do desejo. Mas, ali,
ela era um pedido de ajuda sem dramatização, um ponto de
exclamação sussurrado bem mesmo.
Só que, agora, o quase não adia; avisa. Eu paro. O corredor
continua correndo. E, pela primeira vez na manhã, o café serve:
não para acelerar, mas para ficar.
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“O café do intervalo e a teoria do quase”
No intervalo da manhã, quando o corredor vira uma avenida
de passos apressados e promessas de “já volto”, eu caminho até
a cantina como quem vai cumprir um ritual civil. Não é fome: é
aquela necessidade de um gole quente para reorganizar o
pensamento, como se a cafeína soubesse arquivar dúvidas. A
placa anuncia “Café passado na hora”, e eu me pego sorrindo
para a expressão: como se existisse a hora oficial do café, com
carimbo e assinatura.
A fila começa curta e, por isso mesmo, suspeita. O primeiro
obstáculo é o entusiasmo alheio. Uma colega me cumprimenta
com um “rapidinho, só uma pergunta”, e essa frase, aprendi, tem
o mesmo estatuto do “sem querer” antes de um comentário bem
intencional. Eu respondo com um “claro”, que na língua da
sobrevivência acadêmica significa: claro que não há escolha. Ela
quer saber se eu “só poderia dar uma olhadinha” em um
formulário, “bem simples”. Simples, aqui, é um adjetivo mágico:
não descreve o objeto; descreve a tentativa de reduzir o tempo
do outro.
Enquanto finjo analisar campos e siglas, a fila cresce atrás
de nós como argumento que se encorpa. Quando enfim chego ao
balcão, o atendente aponta para um aviso escrito à mão: “PIX fora
do ar”. A frase tem a concisão de um decreto e, ao mesmo tempo,
a delicadeza de um pedido de desculpas. Procuro moedas,
encontro um cartão que “agora não passa”, e sinto a vergonha
minúscula de quem foi desmentida pelo próprio bolso. “É só
reiniciar a maquininha”, diz alguém, como se reiniciar fosse
sinônimo de resolver.
Volto dois passos, tento sinal, tento fé. Na tela do celular, o
círculo de carregamento gira com uma serenidade provocativa.
Penso na teoria do quase: quase é a região onde a gente vive por
prática, não por vocação. Quase respondi, quase terminei, quase
publiquei, quase fui ao médico, quase dormi cedo. Quase é um
jeito de manter a esperança em pé sem precisar encostar a
realidade na parede. E, no intervalo, quase tem rosto: o “já”, o
“só”, o “bem”, o “assim que der”.
Finalmente pago em dinheiro emprestado — “me devolve
depois, quando puder, sem pressa” — e essa generosidade traz
embutida uma cobrança leve, do tipo que não pesa hoje, mas
cobra amanhã. O café vem em copo de papel, tampado, e o vapor
foge pela fresta como fofoca que não aguenta segredo. Dou o
primeiro gole e percebo que não está tão quente quanto prometia
a placa. Está morno, aquela temperatura neutra que não consola
nem ofende.
No caminho de volta, um aluno me alcança: “Prof, é
rapidinho”. E eu, já com o café na mão e o intervalo no fim, ouço
a frase como quem ouve o próprio nome dito errado. Ele abre o
celular e me mostra uma mensagem: “Desculpa incomodar, mas
eu quase desisti da disciplina”. Quase, outra vez.
Eu me lembro de quantas vezes usei “quase” para suavizar
pedidos: quase poderia enviar hoje? quase dá para remarcar?
Como se a palavra amortecesse o impacto do desejo. Mas, ali,
ela era um pedido de ajuda sem dramatização, um ponto de
exclamação sussurrado bem mesmo.
Só que, agora, o quase não adia; avisa. Eu paro. O corredor
continua correndo. E, pela primeira vez na manhã, o café serve:
não para acelerar, mas para ficar.
Fonte: Banca Examinadora
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Questão presente nas seguintes provas
Leia o texto e responda à questão.
“O café do intervalo e a teoria do quase”
No intervalo da manhã, quando o corredor vira uma avenida
de passos apressados e promessas de “já volto”, eu caminho até
a cantina como quem vai cumprir um ritual civil. Não é fome: é
aquela necessidade de um gole quente para reorganizar o
pensamento, como se a cafeína soubesse arquivar dúvidas. A
placa anuncia “Café passado na hora”, e eu me pego sorrindo
para a expressão: como se existisse a hora oficial do café, com
carimbo e assinatura.
A fila começa curta e, por isso mesmo, suspeita. O primeiro
obstáculo é o entusiasmo alheio. Uma colega me cumprimenta
com um “rapidinho, só uma pergunta”, e essa frase, aprendi, tem
o mesmo estatuto do “sem querer” antes de um comentário bem
intencional. Eu respondo com um “claro”, que na língua da
sobrevivência acadêmica significa: claro que não há escolha. Ela
quer saber se eu “só poderia dar uma olhadinha” em um
formulário, “bem simples”. Simples, aqui, é um adjetivo mágico:
não descreve o objeto; descreve a tentativa de reduzir o tempo
do outro.
Enquanto finjo analisar campos e siglas, a fila cresce atrás
de nós como argumento que se encorpa. Quando enfim chego ao
balcão, o atendente aponta para um aviso escrito à mão: “PIX fora
do ar”. A frase tem a concisão de um decreto e, ao mesmo tempo,
a delicadeza de um pedido de desculpas. Procuro moedas,
encontro um cartão que “agora não passa”, e sinto a vergonha
minúscula de quem foi desmentida pelo próprio bolso. “É só
reiniciar a maquininha”, diz alguém, como se reiniciar fosse
sinônimo de resolver.
Volto dois passos, tento sinal, tento fé. Na tela do celular, o
círculo de carregamento gira com uma serenidade provocativa.
Penso na teoria do quase: quase é a região onde a gente vive por
prática, não por vocação. Quase respondi, quase terminei, quase
publiquei, quase fui ao médico, quase dormi cedo. Quase é um
jeito de manter a esperança em pé sem precisar encostar a
realidade na parede. E, no intervalo, quase tem rosto: o “já”, o
“só”, o “bem”, o “assim que der”.
Finalmente pago em dinheiro emprestado — “me devolve
depois, quando puder, sem pressa” — e essa generosidade traz
embutida uma cobrança leve, do tipo que não pesa hoje, mas
cobra amanhã. O café vem em copo de papel, tampado, e o vapor
foge pela fresta como fofoca que não aguenta segredo. Dou o
primeiro gole e percebo que não está tão quente quanto prometia
a placa. Está morno, aquela temperatura neutra que não consola
nem ofende.
No caminho de volta, um aluno me alcança: “Prof, é
rapidinho”. E eu, já com o café na mão e o intervalo no fim, ouço
a frase como quem ouve o próprio nome dito errado. Ele abre o
celular e me mostra uma mensagem: “Desculpa incomodar, mas
eu quase desisti da disciplina”. Quase, outra vez.
Eu me lembro de quantas vezes usei “quase” para suavizar
pedidos: quase poderia enviar hoje? quase dá para remarcar?
Como se a palavra amortecesse o impacto do desejo. Mas, ali,
ela era um pedido de ajuda sem dramatização, um ponto de
exclamação sussurrado bem mesmo.
Só que, agora, o quase não adia; avisa. Eu paro. O corredor
continua correndo. E, pela primeira vez na manhã, o café serve:
não para acelerar, mas para ficar.
Fonte: Banca Examinadora
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Questão presente nas seguintes provas
Leia o texto e responda à questão.
“O café do intervalo e a teoria do quase”
No intervalo da manhã, quando o corredor vira uma avenida
de passos apressados e promessas de “já volto”, eu caminho até
a cantina como quem vai cumprir um ritual civil. Não é fome: é
aquela necessidade de um gole quente para reorganizar o
pensamento, como se a cafeína soubesse arquivar dúvidas. A
placa anuncia “Café passado na hora”, e eu me pego sorrindo
para a expressão: como se existisse a hora oficial do café, com
carimbo e assinatura.
A fila começa curta e, por isso mesmo, suspeita. O primeiro
obstáculo é o entusiasmo alheio. Uma colega me cumprimenta
com um “rapidinho, só uma pergunta”, e essa frase, aprendi, tem
o mesmo estatuto do “sem querer” antes de um comentário bem
intencional. Eu respondo com um “claro”, que na língua da
sobrevivência acadêmica significa: claro que não há escolha. Ela
quer saber se eu “só poderia dar uma olhadinha” em um
formulário, “bem simples”. Simples, aqui, é um adjetivo mágico:
não descreve o objeto; descreve a tentativa de reduzir o tempo
do outro.
Enquanto finjo analisar campos e siglas, a fila cresce atrás
de nós como argumento que se encorpa. Quando enfim chego ao
balcão, o atendente aponta para um aviso escrito à mão: “PIX fora
do ar”. A frase tem a concisão de um decreto e, ao mesmo tempo,
a delicadeza de um pedido de desculpas. Procuro moedas,
encontro um cartão que “agora não passa”, e sinto a vergonha
minúscula de quem foi desmentida pelo próprio bolso. “É só
reiniciar a maquininha”, diz alguém, como se reiniciar fosse
sinônimo de resolver.
Volto dois passos, tento sinal, tento fé. Na tela do celular, o
círculo de carregamento gira com uma serenidade provocativa.
Penso na teoria do quase: quase é a região onde a gente vive por
prática, não por vocação. Quase respondi, quase terminei, quase
publiquei, quase fui ao médico, quase dormi cedo. Quase é um
jeito de manter a esperança em pé sem precisar encostar a
realidade na parede. E, no intervalo, quase tem rosto: o “já”, o
“só”, o “bem”, o “assim que der”.
Finalmente pago em dinheiro emprestado — “me devolve
depois, quando puder, sem pressa” — e essa generosidade traz
embutida uma cobrança leve, do tipo que não pesa hoje, mas
cobra amanhã. O café vem em copo de papel, tampado, e o vapor
foge pela fresta como fofoca que não aguenta segredo. Dou o
primeiro gole e percebo que não está tão quente quanto prometia
a placa. Está morno, aquela temperatura neutra que não consola
nem ofende.
No caminho de volta, um aluno me alcança: “Prof, é
rapidinho”. E eu, já com o café na mão e o intervalo no fim, ouço
a frase como quem ouve o próprio nome dito errado. Ele abre o
celular e me mostra uma mensagem: “Desculpa incomodar, mas
eu quase desisti da disciplina”. Quase, outra vez.
Eu me lembro de quantas vezes usei “quase” para suavizar
pedidos: quase poderia enviar hoje? quase dá para remarcar?
Como se a palavra amortecesse o impacto do desejo. Mas, ali,
ela era um pedido de ajuda sem dramatização, um ponto de
exclamação sussurrado bem mesmo.
Só que, agora, o quase não adia; avisa. Eu paro. O corredor
continua correndo. E, pela primeira vez na manhã, o café serve:
não para acelerar, mas para ficar.
Fonte: Banca Examinadora
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Leia o texto e responda à questão.
“O café do intervalo e a teoria do quase”
No intervalo da manhã, quando o corredor vira uma avenida
de passos apressados e promessas de “já volto”, eu caminho até
a cantina como quem vai cumprir um ritual civil. Não é fome: é
aquela necessidade de um gole quente para reorganizar o
pensamento, como se a cafeína soubesse arquivar dúvidas. A
placa anuncia “Café passado na hora”, e eu me pego sorrindo
para a expressão: como se existisse a hora oficial do café, com
carimbo e assinatura.
A fila começa curta e, por isso mesmo, suspeita. O primeiro
obstáculo é o entusiasmo alheio. Uma colega me cumprimenta
com um “rapidinho, só uma pergunta”, e essa frase, aprendi, tem
o mesmo estatuto do “sem querer” antes de um comentário bem
intencional. Eu respondo com um “claro”, que na língua da
sobrevivência acadêmica significa: claro que não há escolha. Ela
quer saber se eu “só poderia dar uma olhadinha” em um
formulário, “bem simples”. Simples, aqui, é um adjetivo mágico:
não descreve o objeto; descreve a tentativa de reduzir o tempo
do outro.
Enquanto finjo analisar campos e siglas, a fila cresce atrás
de nós como argumento que se encorpa. Quando enfim chego ao
balcão, o atendente aponta para um aviso escrito à mão: “PIX fora
do ar”. A frase tem a concisão de um decreto e, ao mesmo tempo,
a delicadeza de um pedido de desculpas. Procuro moedas,
encontro um cartão que “agora não passa”, e sinto a vergonha
minúscula de quem foi desmentida pelo próprio bolso. “É só
reiniciar a maquininha”, diz alguém, como se reiniciar fosse
sinônimo de resolver.
Volto dois passos, tento sinal, tento fé. Na tela do celular, o
círculo de carregamento gira com uma serenidade provocativa.
Penso na teoria do quase: quase é a região onde a gente vive por
prática, não por vocação. Quase respondi, quase terminei, quase
publiquei, quase fui ao médico, quase dormi cedo. Quase é um
jeito de manter a esperança em pé sem precisar encostar a
realidade na parede. E, no intervalo, quase tem rosto: o “já”, o
“só”, o “bem”, o “assim que der”.
Finalmente pago em dinheiro emprestado — “me devolve
depois, quando puder, sem pressa” — e essa generosidade traz
embutida uma cobrança leve, do tipo que não pesa hoje, mas
cobra amanhã. O café vem em copo de papel, tampado, e o vapor
foge pela fresta como fofoca que não aguenta segredo. Dou o
primeiro gole e percebo que não está tão quente quanto prometia
a placa. Está morno, aquela temperatura neutra que não consola
nem ofende.
No caminho de volta, um aluno me alcança: “Prof, é
rapidinho”. E eu, já com o café na mão e o intervalo no fim, ouço
a frase como quem ouve o próprio nome dito errado. Ele abre o
celular e me mostra uma mensagem: “Desculpa incomodar, mas
eu quase desisti da disciplina”. Quase, outra vez.
Eu me lembro de quantas vezes usei “quase” para suavizar
pedidos: quase poderia enviar hoje? quase dá para remarcar?
Como se a palavra amortecesse o impacto do desejo. Mas, ali,
ela era um pedido de ajuda sem dramatização, um ponto de
exclamação sussurrado bem mesmo.
Só que, agora, o quase não adia; avisa. Eu paro. O corredor
continua correndo. E, pela primeira vez na manhã, o café serve:
não para acelerar, mas para ficar.
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“O café do intervalo e a teoria do quase”
No intervalo da manhã, quando o corredor vira uma avenida
de passos apressados e promessas de “já volto”, eu caminho até
a cantina como quem vai cumprir um ritual civil. Não é fome: é
aquela necessidade de um gole quente para reorganizar o
pensamento, como se a cafeína soubesse arquivar dúvidas. A
placa anuncia “Café passado na hora”, e eu me pego sorrindo
para a expressão: como se existisse a hora oficial do café, com
carimbo e assinatura.
A fila começa curta e, por isso mesmo, suspeita. O primeiro
obstáculo é o entusiasmo alheio. Uma colega me cumprimenta
com um “rapidinho, só uma pergunta”, e essa frase, aprendi, tem
o mesmo estatuto do “sem querer” antes de um comentário bem
intencional. Eu respondo com um “claro”, que na língua da
sobrevivência acadêmica significa: claro que não há escolha. Ela
quer saber se eu “só poderia dar uma olhadinha” em um
formulário, “bem simples”. Simples, aqui, é um adjetivo mágico:
não descreve o objeto; descreve a tentativa de reduzir o tempo
do outro.
Enquanto finjo analisar campos e siglas, a fila cresce atrás
de nós como argumento que se encorpa. Quando enfim chego ao
balcão, o atendente aponta para um aviso escrito à mão: “PIX fora
do ar”. A frase tem a concisão de um decreto e, ao mesmo tempo,
a delicadeza de um pedido de desculpas. Procuro moedas,
encontro um cartão que “agora não passa”, e sinto a vergonha
minúscula de quem foi desmentida pelo próprio bolso. “É só
reiniciar a maquininha”, diz alguém, como se reiniciar fosse
sinônimo de resolver.
Volto dois passos, tento sinal, tento fé. Na tela do celular, o
círculo de carregamento gira com uma serenidade provocativa.
Penso na teoria do quase: quase é a região onde a gente vive por
prática, não por vocação. Quase respondi, quase terminei, quase
publiquei, quase fui ao médico, quase dormi cedo. Quase é um
jeito de manter a esperança em pé sem precisar encostar a
realidade na parede. E, no intervalo, quase tem rosto: o “já”, o
“só”, o “bem”, o “assim que der”.
Finalmente pago em dinheiro emprestado — “me devolve
depois, quando puder, sem pressa” — e essa generosidade traz
embutida uma cobrança leve, do tipo que não pesa hoje, mas
cobra amanhã. O café vem em copo de papel, tampado, e o vapor
foge pela fresta como fofoca que não aguenta segredo. Dou o
primeiro gole e percebo que não está tão quente quanto prometia
a placa. Está morno, aquela temperatura neutra que não consola
nem ofende.
No caminho de volta, um aluno me alcança: “Prof, é
rapidinho”. E eu, já com o café na mão e o intervalo no fim, ouço
a frase como quem ouve o próprio nome dito errado. Ele abre o
celular e me mostra uma mensagem: “Desculpa incomodar, mas
eu quase desisti da disciplina”. Quase, outra vez.
Eu me lembro de quantas vezes usei “quase” para suavizar
pedidos: quase poderia enviar hoje? quase dá para remarcar?
Como se a palavra amortecesse o impacto do desejo. Mas, ali,
ela era um pedido de ajuda sem dramatização, um ponto de
exclamação sussurrado bem mesmo.
Só que, agora, o quase não adia; avisa. Eu paro. O corredor
continua correndo. E, pela primeira vez na manhã, o café serve:
não para acelerar, mas para ficar.
Fonte: Banca Examinadora
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Leia o texto e responda à questão.
“O café do intervalo e a teoria do quase”
No intervalo da manhã, quando o corredor vira uma avenida
de passos apressados e promessas de “já volto”, eu caminho até
a cantina como quem vai cumprir um ritual civil. Não é fome: é
aquela necessidade de um gole quente para reorganizar o
pensamento, como se a cafeína soubesse arquivar dúvidas. A
placa anuncia “Café passado na hora”, e eu me pego sorrindo
para a expressão: como se existisse a hora oficial do café, com
carimbo e assinatura.
A fila começa curta e, por isso mesmo, suspeita. O primeiro
obstáculo é o entusiasmo alheio. Uma colega me cumprimenta
com um “rapidinho, só uma pergunta”, e essa frase, aprendi, tem
o mesmo estatuto do “sem querer” antes de um comentário bem
intencional. Eu respondo com um “claro”, que na língua da
sobrevivência acadêmica significa: claro que não há escolha. Ela
quer saber se eu “só poderia dar uma olhadinha” em um
formulário, “bem simples”. Simples, aqui, é um adjetivo mágico:
não descreve o objeto; descreve a tentativa de reduzir o tempo
do outro.
Enquanto finjo analisar campos e siglas, a fila cresce atrás
de nós como argumento que se encorpa. Quando enfim chego ao
balcão, o atendente aponta para um aviso escrito à mão: “PIX fora
do ar”. A frase tem a concisão de um decreto e, ao mesmo tempo,
a delicadeza de um pedido de desculpas. Procuro moedas,
encontro um cartão que “agora não passa”, e sinto a vergonha
minúscula de quem foi desmentida pelo próprio bolso. “É só
reiniciar a maquininha”, diz alguém, como se reiniciar fosse
sinônimo de resolver.
Volto dois passos, tento sinal, tento fé. Na tela do celular, o
círculo de carregamento gira com uma serenidade provocativa.
Penso na teoria do quase: quase é a região onde a gente vive por
prática, não por vocação. Quase respondi, quase terminei, quase
publiquei, quase fui ao médico, quase dormi cedo. Quase é um
jeito de manter a esperança em pé sem precisar encostar a
realidade na parede. E, no intervalo, quase tem rosto: o “já”, o
“só”, o “bem”, o “assim que der”.
Finalmente pago em dinheiro emprestado — “me devolve
depois, quando puder, sem pressa” — e essa generosidade traz
embutida uma cobrança leve, do tipo que não pesa hoje, mas
cobra amanhã. O café vem em copo de papel, tampado, e o vapor
foge pela fresta como fofoca que não aguenta segredo. Dou o
primeiro gole e percebo que não está tão quente quanto prometia
a placa. Está morno, aquela temperatura neutra que não consola
nem ofende.
No caminho de volta, um aluno me alcança: “Prof, é
rapidinho”. E eu, já com o café na mão e o intervalo no fim, ouço
a frase como quem ouve o próprio nome dito errado. Ele abre o
celular e me mostra uma mensagem: “Desculpa incomodar, mas
eu quase desisti da disciplina”. Quase, outra vez.
Eu me lembro de quantas vezes usei “quase” para suavizar
pedidos: quase poderia enviar hoje? quase dá para remarcar?
Como se a palavra amortecesse o impacto do desejo. Mas, ali,
ela era um pedido de ajuda sem dramatização, um ponto de
exclamação sussurrado bem mesmo.
Só que, agora, o quase não adia; avisa. Eu paro. O corredor
continua correndo. E, pela primeira vez na manhã, o café serve:
não para acelerar, mas para ficar.
Fonte: Banca Examinadora
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