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O machismo das ausências
Com alguma frequência, respondo a entrevistas. Ou tento, quando o volume de trabalho me permite.
Fico feliz quando me procuram para falar de literatura, afinal, é meu trabalho, mas noto a repetição de
uma mesma pergunta: "você já sofreu machismo no meio literário?"
Como se não bastasse o machismo galopante que transborda do mundo e a que estão sujeitas todas
as mulheres, inclusive as escritoras, a pergunta vem com a expectativa de uma resposta contundente,
com exemplos que escandalizem, com depoimentos tocantes. É onde costumo decepcionar.
Veja bem, é fácil responder de forma a satisfazer a pessoa jornalista ou o público a quem é destinada
a matéria. Mas, considerando que o meio literário não é uma realidade à parte e que o machismo
raramente começa e termina num só lugar, responder fica difícil. Difícil porque a resposta mais
completa é aquela que a pergunta não contempla. Mas é especialmente difícil porque a resposta está
nas perguntas que não nos fazem. Nos exemplos que não existem. Nos "nãos" que nem chegam a ser
ditos porque nem precisa.
O problema do preconceito de gênero é que dificilmente ele é explícito; ele está mais presente nas
coisas que não vemos. Isso também na literatura: nos convites para eventos que deixamos de
receber. Quando uma autora é deixada de lado para darem destaque a um escritor. Nas faltas de
indicação a prêmios. No esquecimento.
Apesar da relevância do trabalho das escritoras, ainda é difícil vê-las podendo falar de seu trabalho
nas mesmas condições que um autor pode falar. Nas mesas de debates compostas só por homens,
por exemplo, eles podem transcender todas essas questões e falar de seus trabalhos, de seus
personagens, de literatura. Se convidada, a escritora provavelmente acabará tendo que falar sobre
suas dificuldades, sobre o preconceito, sobre ser mulher e escrever.
Ser homem é não ter gênero, é pairar acima dele; enquanto uma mulher, não importa que seja
escritora, cientista ou jardineira, será primeiramente e acima de tudo uma mulher.
A ausência está nas perguntas que não nos fazem, aquelas que são esquecidas enquanto vêm as
questões sobre as nossas maiores dificuldades de escrever sendo mulher, o único assunto que nos
cabe.
Mas as histórias que escrevemos não importam? Nosso trabalho, por si só, não interessa? Não
podemos falar sobre literatura, pura e simplesmente? Essa é uma barreira difícil de romper.
Esse é só mais um indício de como o machismo dentro da literatura se manifesta bem antes de chegar
no mercado editorial; e, como dito, é um machismo que se manifesta de forma sutil, empurrando as
autoras para as margens. É o machismo de tornar as mulheres invisíveis. É o machismo da ausência
de oportunidades. E isso vem desde muito cedo, desde quando as jovens mulheres, ainda mais
quando são pobres, especialmente quando são negras, são desmotivadas a escrever; quando
escrevem, têm dificuldade de ser publicadas; quando são publicadas, não recebem tanta projeção.
Dessa forma, mesmo que rompamos uma série de barreiras para poder chegar a ser escritoras,
mesmo quando conseguimos, ainda seremos barradas em algum momento. E nem poderemos usar
isso como um exemplo contundente de machismo, afinal, não aconteceu. Nada existiu.
Esse “não estar” é mais cruel do que alguém fazendo um comentário machista na minha cara, porque
é mais difícil apontar para essa ausência de oportunidades do que para um preconceito explícito.
Não é um caso isolado de machismo dentro do meio literário que cria barreiras para as escritoras. É
todo um sistema, presente no mundo no qual estamos imersas, que garante que fiquemos à margem.
São essas ausências que garantem que o escritor a quem se refere o Dia do Escritor, comemorado no
dia 25 de julho, seja homem (como 72% dos autores brasileiros publicados) e branco (como 93,9%
dos que escrevem literatura no Brasil). Então é sobretudo nas ausências que precisamos prestar
atenção.
VALEK, Aline.
Acesso em: 26/01/2026 (adaptado).
Provas
O machismo das ausências
Com alguma frequência, respondo a entrevistas. Ou tento, quando o volume de trabalho me permite.
Fico feliz quando me procuram para falar de literatura, afinal, é meu trabalho, mas noto a repetição de
uma mesma pergunta: "você já sofreu machismo no meio literário?"
Como se não bastasse o machismo galopante que transborda do mundo e a que estão sujeitas todas
as mulheres, inclusive as escritoras, a pergunta vem com a expectativa de uma resposta contundente,
com exemplos que escandalizem, com depoimentos tocantes. É onde costumo decepcionar.
Veja bem, é fácil responder de forma a satisfazer a pessoa jornalista ou o público a quem é destinada
a matéria. Mas, considerando que o meio literário não é uma realidade à parte e que o machismo
raramente começa e termina num só lugar, responder fica difícil. Difícil porque a resposta mais
completa é aquela que a pergunta não contempla. Mas é especialmente difícil porque a resposta está
nas perguntas que não nos fazem. Nos exemplos que não existem. Nos "nãos" que nem chegam a ser
ditos porque nem precisa.
O problema do preconceito de gênero é que dificilmente ele é explícito; ele está mais presente nas
coisas que não vemos. Isso também na literatura: nos convites para eventos que deixamos de
receber. Quando uma autora é deixada de lado para darem destaque a um escritor. Nas faltas de
indicação a prêmios. No esquecimento.
Apesar da relevância do trabalho das escritoras, ainda é difícil vê-las podendo falar de seu trabalho
nas mesmas condições que um autor pode falar. Nas mesas de debates compostas só por homens,
por exemplo, eles podem transcender todas essas questões e falar de seus trabalhos, de seus
personagens, de literatura. Se convidada, a escritora provavelmente acabará tendo que falar sobre
suas dificuldades, sobre o preconceito, sobre ser mulher e escrever.
Ser homem é não ter gênero, é pairar acima dele; enquanto uma mulher, não importa que seja
escritora, cientista ou jardineira, será primeiramente e acima de tudo uma mulher.
A ausência está nas perguntas que não nos fazem, aquelas que são esquecidas enquanto vêm as
questões sobre as nossas maiores dificuldades de escrever sendo mulher, o único assunto que nos
cabe.
Mas as histórias que escrevemos não importam? Nosso trabalho, por si só, não interessa? Não
podemos falar sobre literatura, pura e simplesmente? Essa é uma barreira difícil de romper.
Esse é só mais um indício de como o machismo dentro da literatura se manifesta bem antes de chegar
no mercado editorial; e, como dito, é um machismo que se manifesta de forma sutil, empurrando as
autoras para as margens. É o machismo de tornar as mulheres invisíveis. É o machismo da ausência
de oportunidades. E isso vem desde muito cedo, desde quando as jovens mulheres, ainda mais
quando são pobres, especialmente quando são negras, são desmotivadas a escrever; quando
escrevem, têm dificuldade de ser publicadas; quando são publicadas, não recebem tanta projeção.
Dessa forma, mesmo que rompamos uma série de barreiras para poder chegar a ser escritoras,
mesmo quando conseguimos, ainda seremos barradas em algum momento. E nem poderemos usar
isso como um exemplo contundente de machismo, afinal, não aconteceu. Nada existiu.
Esse “não estar” é mais cruel do que alguém fazendo um comentário machista na minha cara, porque
é mais difícil apontar para essa ausência de oportunidades do que para um preconceito explícito.
Não é um caso isolado de machismo dentro do meio literário que cria barreiras para as escritoras. É
todo um sistema, presente no mundo no qual estamos imersas, que garante que fiquemos à margem.
São essas ausências que garantem que o escritor a quem se refere o Dia do Escritor, comemorado no
dia 25 de julho, seja homem (como 72% dos autores brasileiros publicados) e branco (como 93,9%
dos que escrevem literatura no Brasil). Então é sobretudo nas ausências que precisamos prestar
atenção.
VALEK, Aline.
Acesso em: 26/01/2026 (adaptado).
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O machismo das ausências
Com alguma frequência, respondo a entrevistas. Ou tento, quando o volume de trabalho me permite.
Fico feliz quando me procuram para falar de literatura, afinal, é meu trabalho, mas noto a repetição de
uma mesma pergunta: "você já sofreu machismo no meio literário?"
Como se não bastasse o machismo galopante que transborda do mundo e a que estão sujeitas todas
as mulheres, inclusive as escritoras, a pergunta vem com a expectativa de uma resposta contundente,
com exemplos que escandalizem, com depoimentos tocantes. É onde costumo decepcionar.
Veja bem, é fácil responder de forma a satisfazer a pessoa jornalista ou o público a quem é destinada
a matéria. Mas, considerando que o meio literário não é uma realidade à parte e que o machismo
raramente começa e termina num só lugar, responder fica difícil. Difícil porque a resposta mais
completa é aquela que a pergunta não contempla. Mas é especialmente difícil porque a resposta está
nas perguntas que não nos fazem. Nos exemplos que não existem. Nos "nãos" que nem chegam a ser
ditos porque nem precisa.
O problema do preconceito de gênero é que dificilmente ele é explícito; ele está mais presente nas
coisas que não vemos. Isso também na literatura: nos convites para eventos que deixamos de
receber. Quando uma autora é deixada de lado para darem destaque a um escritor. Nas faltas de
indicação a prêmios. No esquecimento.
Apesar da relevância do trabalho das escritoras, ainda é difícil vê-las podendo falar de seu trabalho
nas mesmas condições que um autor pode falar. Nas mesas de debates compostas só por homens,
por exemplo, eles podem transcender todas essas questões e falar de seus trabalhos, de seus
personagens, de literatura. Se convidada, a escritora provavelmente acabará tendo que falar sobre
suas dificuldades, sobre o preconceito, sobre ser mulher e escrever.
Ser homem é não ter gênero, é pairar acima dele; enquanto uma mulher, não importa que seja
escritora, cientista ou jardineira, será primeiramente e acima de tudo uma mulher.
A ausência está nas perguntas que não nos fazem, aquelas que são esquecidas enquanto vêm as
questões sobre as nossas maiores dificuldades de escrever sendo mulher, o único assunto que nos
cabe.
Mas as histórias que escrevemos não importam? Nosso trabalho, por si só, não interessa? Não
podemos falar sobre literatura, pura e simplesmente? Essa é uma barreira difícil de romper.
Esse é só mais um indício de como o machismo dentro da literatura se manifesta bem antes de chegar
no mercado editorial; e, como dito, é um machismo que se manifesta de forma sutil, empurrando as
autoras para as margens. É o machismo de tornar as mulheres invisíveis. É o machismo da ausência
de oportunidades. E isso vem desde muito cedo, desde quando as jovens mulheres, ainda mais
quando são pobres, especialmente quando são negras, são desmotivadas a escrever; quando
escrevem, têm dificuldade de ser publicadas; quando são publicadas, não recebem tanta projeção.
Dessa forma, mesmo que rompamos uma série de barreiras para poder chegar a ser escritoras,
mesmo quando conseguimos, ainda seremos barradas em algum momento. E nem poderemos usar
isso como um exemplo contundente de machismo, afinal, não aconteceu. Nada existiu.
Esse “não estar” é mais cruel do que alguém fazendo um comentário machista na minha cara, porque
é mais difícil apontar para essa ausência de oportunidades do que para um preconceito explícito.
Não é um caso isolado de machismo dentro do meio literário que cria barreiras para as escritoras. É
todo um sistema, presente no mundo no qual estamos imersas, que garante que fiquemos à margem.
São essas ausências que garantem que o escritor a quem se refere o Dia do Escritor, comemorado no
dia 25 de julho, seja homem (como 72% dos autores brasileiros publicados) e branco (como 93,9%
dos que escrevem literatura no Brasil). Então é sobretudo nas ausências que precisamos prestar
atenção.
VALEK, Aline.
Acesso em: 26/01/2026 (adaptado).
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O machismo das ausências
Com alguma frequência, respondo a entrevistas. Ou tento, quando o volume de trabalho me permite.
Fico feliz quando me procuram para falar de literatura, afinal, é meu trabalho, mas noto a repetição de
uma mesma pergunta: "você já sofreu machismo no meio literário?"
Como se não bastasse o machismo galopante que transborda do mundo e a que estão sujeitas todas
as mulheres, inclusive as escritoras, a pergunta vem com a expectativa de uma resposta contundente,
com exemplos que escandalizem, com depoimentos tocantes. É onde costumo decepcionar.
Veja bem, é fácil responder de forma a satisfazer a pessoa jornalista ou o público a quem é destinada
a matéria. Mas, considerando que o meio literário não é uma realidade à parte e que o machismo
raramente começa e termina num só lugar, responder fica difícil. Difícil porque a resposta mais
completa é aquela que a pergunta não contempla. Mas é especialmente difícil porque a resposta está
nas perguntas que não nos fazem. Nos exemplos que não existem. Nos "nãos" que nem chegam a ser
ditos porque nem precisa.
O problema do preconceito de gênero é que dificilmente ele é explícito; ele está mais presente nas
coisas que não vemos. Isso também na literatura: nos convites para eventos que deixamos de
receber. Quando uma autora é deixada de lado para darem destaque a um escritor. Nas faltas de
indicação a prêmios. No esquecimento.
Apesar da relevância do trabalho das escritoras, ainda é difícil vê-las podendo falar de seu trabalho
nas mesmas condições que um autor pode falar. Nas mesas de debates compostas só por homens,
por exemplo, eles podem transcender todas essas questões e falar de seus trabalhos, de seus
personagens, de literatura. Se convidada, a escritora provavelmente acabará tendo que falar sobre
suas dificuldades, sobre o preconceito, sobre ser mulher e escrever.
Ser homem é não ter gênero, é pairar acima dele; enquanto uma mulher, não importa que seja
escritora, cientista ou jardineira, será primeiramente e acima de tudo uma mulher.
A ausência está nas perguntas que não nos fazem, aquelas que são esquecidas enquanto vêm as
questões sobre as nossas maiores dificuldades de escrever sendo mulher, o único assunto que nos
cabe.
Mas as histórias que escrevemos não importam? Nosso trabalho, por si só, não interessa? Não
podemos falar sobre literatura, pura e simplesmente? Essa é uma barreira difícil de romper.
Esse é só mais um indício de como o machismo dentro da literatura se manifesta bem antes de chegar
no mercado editorial; e, como dito, é um machismo que se manifesta de forma sutil, empurrando as
autoras para as margens. É o machismo de tornar as mulheres invisíveis. É o machismo da ausência
de oportunidades. E isso vem desde muito cedo, desde quando as jovens mulheres, ainda mais
quando são pobres, especialmente quando são negras, são desmotivadas a escrever; quando
escrevem, têm dificuldade de ser publicadas; quando são publicadas, não recebem tanta projeção.
Dessa forma, mesmo que rompamos uma série de barreiras para poder chegar a ser escritoras,
mesmo quando conseguimos, ainda seremos barradas em algum momento. E nem poderemos usar
isso como um exemplo contundente de machismo, afinal, não aconteceu. Nada existiu.
Esse “não estar” é mais cruel do que alguém fazendo um comentário machista na minha cara, porque
é mais difícil apontar para essa ausência de oportunidades do que para um preconceito explícito.
Não é um caso isolado de machismo dentro do meio literário que cria barreiras para as escritoras. É
todo um sistema, presente no mundo no qual estamos imersas, que garante que fiquemos à margem.
São essas ausências que garantem que o escritor a quem se refere o Dia do Escritor, comemorado no
dia 25 de julho, seja homem (como 72% dos autores brasileiros publicados) e branco (como 93,9%
dos que escrevem literatura no Brasil). Então é sobretudo nas ausências que precisamos prestar
atenção.
VALEK, Aline.
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O machismo das ausências
Com alguma frequência, respondo a entrevistas. Ou tento, quando o volume de trabalho me permite.
Fico feliz quando me procuram para falar de literatura, afinal, é meu trabalho, mas noto a repetição de
uma mesma pergunta: "você já sofreu machismo no meio literário?"
Como se não bastasse o machismo galopante que transborda do mundo e a que estão sujeitas todas
as mulheres, inclusive as escritoras, a pergunta vem com a expectativa de uma resposta contundente,
com exemplos que escandalizem, com depoimentos tocantes. É onde costumo decepcionar.
Veja bem, é fácil responder de forma a satisfazer a pessoa jornalista ou o público a quem é destinada
a matéria. Mas, considerando que o meio literário não é uma realidade à parte e que o machismo
raramente começa e termina num só lugar, responder fica difícil. Difícil porque a resposta mais
completa é aquela que a pergunta não contempla. Mas é especialmente difícil porque a resposta está
nas perguntas que não nos fazem. Nos exemplos que não existem. Nos "nãos" que nem chegam a ser
ditos porque nem precisa.
O problema do preconceito de gênero é que dificilmente ele é explícito; ele está mais presente nas
coisas que não vemos. Isso também na literatura: nos convites para eventos que deixamos de
receber. Quando uma autora é deixada de lado para darem destaque a um escritor. Nas faltas de
indicação a prêmios. No esquecimento.
Apesar da relevância do trabalho das escritoras, ainda é difícil vê-las podendo falar de seu trabalho
nas mesmas condições que um autor pode falar. Nas mesas de debates compostas só por homens,
por exemplo, eles podem transcender todas essas questões e falar de seus trabalhos, de seus
personagens, de literatura. Se convidada, a escritora provavelmente acabará tendo que falar sobre
suas dificuldades, sobre o preconceito, sobre ser mulher e escrever.
Ser homem é não ter gênero, é pairar acima dele; enquanto uma mulher, não importa que seja
escritora, cientista ou jardineira, será primeiramente e acima de tudo uma mulher.
A ausência está nas perguntas que não nos fazem, aquelas que são esquecidas enquanto vêm as
questões sobre as nossas maiores dificuldades de escrever sendo mulher, o único assunto que nos
cabe.
Mas as histórias que escrevemos não importam? Nosso trabalho, por si só, não interessa? Não
podemos falar sobre literatura, pura e simplesmente? Essa é uma barreira difícil de romper.
Esse é só mais um indício de como o machismo dentro da literatura se manifesta bem antes de chegar
no mercado editorial; e, como dito, é um machismo que se manifesta de forma sutil, empurrando as
autoras para as margens. É o machismo de tornar as mulheres invisíveis. É o machismo da ausência
de oportunidades. E isso vem desde muito cedo, desde quando as jovens mulheres, ainda mais
quando são pobres, especialmente quando são negras, são desmotivadas a escrever; quando
escrevem, têm dificuldade de ser publicadas; quando são publicadas, não recebem tanta projeção.
Dessa forma, mesmo que rompamos uma série de barreiras para poder chegar a ser escritoras,
mesmo quando conseguimos, ainda seremos barradas em algum momento. E nem poderemos usar
isso como um exemplo contundente de machismo, afinal, não aconteceu. Nada existiu.
Esse “não estar” é mais cruel do que alguém fazendo um comentário machista na minha cara, porque
é mais difícil apontar para essa ausência de oportunidades do que para um preconceito explícito.
Não é um caso isolado de machismo dentro do meio literário que cria barreiras para as escritoras. É
todo um sistema, presente no mundo no qual estamos imersas, que garante que fiquemos à margem.
São essas ausências que garantem que o escritor a quem se refere o Dia do Escritor, comemorado no
dia 25 de julho, seja homem (como 72% dos autores brasileiros publicados) e branco (como 93,9%
dos que escrevem literatura no Brasil). Então é sobretudo nas ausências que precisamos prestar
atenção.
VALEK, Aline.
Acesso em: 26/01/2026 (adaptado).
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O machismo das ausências
Com alguma frequência, respondo a entrevistas. Ou tento, quando o volume de trabalho me permite.
Fico feliz quando me procuram para falar de literatura, afinal, é meu trabalho, mas noto a repetição de
uma mesma pergunta: "você já sofreu machismo no meio literário?"
Como se não bastasse o machismo galopante que transborda do mundo e a que estão sujeitas todas
as mulheres, inclusive as escritoras, a pergunta vem com a expectativa de uma resposta contundente,
com exemplos que escandalizem, com depoimentos tocantes. É onde costumo decepcionar.
Veja bem, é fácil responder de forma a satisfazer a pessoa jornalista ou o público a quem é destinada
a matéria. Mas, considerando que o meio literário não é uma realidade à parte e que o machismo
raramente começa e termina num só lugar, responder fica difícil. Difícil porque a resposta mais
completa é aquela que a pergunta não contempla. Mas é especialmente difícil porque a resposta está
nas perguntas que não nos fazem. Nos exemplos que não existem. Nos "nãos" que nem chegam a ser
ditos porque nem precisa.
O problema do preconceito de gênero é que dificilmente ele é explícito; ele está mais presente nas
coisas que não vemos. Isso também na literatura: nos convites para eventos que deixamos de
receber. Quando uma autora é deixada de lado para darem destaque a um escritor. Nas faltas de
indicação a prêmios. No esquecimento.
Apesar da relevância do trabalho das escritoras, ainda é difícil vê-las podendo falar de seu trabalho
nas mesmas condições que um autor pode falar. Nas mesas de debates compostas só por homens,
por exemplo, eles podem transcender todas essas questões e falar de seus trabalhos, de seus
personagens, de literatura. Se convidada, a escritora provavelmente acabará tendo que falar sobre
suas dificuldades, sobre o preconceito, sobre ser mulher e escrever.
Ser homem é não ter gênero, é pairar acima dele; enquanto uma mulher, não importa que seja
escritora, cientista ou jardineira, será primeiramente e acima de tudo uma mulher.
A ausência está nas perguntas que não nos fazem, aquelas que são esquecidas enquanto vêm as
questões sobre as nossas maiores dificuldades de escrever sendo mulher, o único assunto que nos
cabe.
Mas as histórias que escrevemos não importam? Nosso trabalho, por si só, não interessa? Não
podemos falar sobre literatura, pura e simplesmente? Essa é uma barreira difícil de romper.
Esse é só mais um indício de como o machismo dentro da literatura se manifesta bem antes de chegar
no mercado editorial; e, como dito, é um machismo que se manifesta de forma sutil, empurrando as
autoras para as margens. É o machismo de tornar as mulheres invisíveis. É o machismo da ausência
de oportunidades. E isso vem desde muito cedo, desde quando as jovens mulheres, ainda mais
quando são pobres, especialmente quando são negras, são desmotivadas a escrever; quando
escrevem, têm dificuldade de ser publicadas; quando são publicadas, não recebem tanta projeção.
Dessa forma, mesmo que rompamos uma série de barreiras para poder chegar a ser escritoras,
mesmo quando conseguimos, ainda seremos barradas em algum momento. E nem poderemos usar
isso como um exemplo contundente de machismo, afinal, não aconteceu. Nada existiu.
Esse “não estar” é mais cruel do que alguém fazendo um comentário machista na minha cara, porque
é mais difícil apontar para essa ausência de oportunidades do que para um preconceito explícito.
Não é um caso isolado de machismo dentro do meio literário que cria barreiras para as escritoras. É
todo um sistema, presente no mundo no qual estamos imersas, que garante que fiquemos à margem.
São essas ausências que garantem que o escritor a quem se refere o Dia do Escritor, comemorado no
dia 25 de julho, seja homem (como 72% dos autores brasileiros publicados) e branco (como 93,9%
dos que escrevem literatura no Brasil). Então é sobretudo nas ausências que precisamos prestar
atenção.
VALEK, Aline.
Acesso em: 26/01/2026 (adaptado).
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O machismo das ausências
Com alguma frequência, respondo a entrevistas. Ou tento, quando o volume de trabalho me permite.
Fico feliz quando me procuram para falar de literatura, afinal, é meu trabalho, mas noto a repetição de
uma mesma pergunta: "você já sofreu machismo no meio literário?"
Como se não bastasse o machismo galopante que transborda do mundo e a que estão sujeitas todas
as mulheres, inclusive as escritoras, a pergunta vem com a expectativa de uma resposta contundente,
com exemplos que escandalizem, com depoimentos tocantes. É onde costumo decepcionar.
Veja bem, é fácil responder de forma a satisfazer a pessoa jornalista ou o público a quem é destinada
a matéria. Mas, considerando que o meio literário não é uma realidade à parte e que o machismo
raramente começa e termina num só lugar, responder fica difícil. Difícil porque a resposta mais
completa é aquela que a pergunta não contempla. Mas é especialmente difícil porque a resposta está
nas perguntas que não nos fazem. Nos exemplos que não existem. Nos "nãos" que nem chegam a ser
ditos porque nem precisa.
O problema do preconceito de gênero é que dificilmente ele é explícito; ele está mais presente nas
coisas que não vemos. Isso também na literatura: nos convites para eventos que deixamos de
receber. Quando uma autora é deixada de lado para darem destaque a um escritor. Nas faltas de
indicação a prêmios. No esquecimento.
Apesar da relevância do trabalho das escritoras, ainda é difícil vê-las podendo falar de seu trabalho
nas mesmas condições que um autor pode falar. Nas mesas de debates compostas só por homens,
por exemplo, eles podem transcender todas essas questões e falar de seus trabalhos, de seus
personagens, de literatura. Se convidada, a escritora provavelmente acabará tendo que falar sobre
suas dificuldades, sobre o preconceito, sobre ser mulher e escrever.
Ser homem é não ter gênero, é pairar acima dele; enquanto uma mulher, não importa que seja
escritora, cientista ou jardineira, será primeiramente e acima de tudo uma mulher.
A ausência está nas perguntas que não nos fazem, aquelas que são esquecidas enquanto vêm as
questões sobre as nossas maiores dificuldades de escrever sendo mulher, o único assunto que nos
cabe.
Mas as histórias que escrevemos não importam? Nosso trabalho, por si só, não interessa? Não
podemos falar sobre literatura, pura e simplesmente? Essa é uma barreira difícil de romper.
Esse é só mais um indício de como o machismo dentro da literatura se manifesta bem antes de chegar
no mercado editorial; e, como dito, é um machismo que se manifesta de forma sutil, empurrando as
autoras para as margens. É o machismo de tornar as mulheres invisíveis. É o machismo da ausência
de oportunidades. E isso vem desde muito cedo, desde quando as jovens mulheres, ainda mais
quando são pobres, especialmente quando são negras, são desmotivadas a escrever; quando
escrevem, têm dificuldade de ser publicadas; quando são publicadas, não recebem tanta projeção.
Dessa forma, mesmo que rompamos uma série de barreiras para poder chegar a ser escritoras,
mesmo quando conseguimos, ainda seremos barradas em algum momento. E nem poderemos usar
isso como um exemplo contundente de machismo, afinal, não aconteceu. Nada existiu.
Esse “não estar” é mais cruel do que alguém fazendo um comentário machista na minha cara, porque
é mais difícil apontar para essa ausência de oportunidades do que para um preconceito explícito.
Não é um caso isolado de machismo dentro do meio literário que cria barreiras para as escritoras. É
todo um sistema, presente no mundo no qual estamos imersas, que garante que fiquemos à margem.
São essas ausências que garantem que o escritor a quem se refere o Dia do Escritor, comemorado no
dia 25 de julho, seja homem (como 72% dos autores brasileiros publicados) e branco (como 93,9%
dos que escrevem literatura no Brasil). Então é sobretudo nas ausências que precisamos prestar
atenção.
VALEK, Aline.
Acesso em: 26/01/2026 (adaptado).
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O machismo das ausências
Com alguma frequência, respondo a entrevistas. Ou tento, quando o volume de trabalho me permite.
Fico feliz quando me procuram para falar de literatura, afinal, é meu trabalho, mas noto a repetição de
uma mesma pergunta: "você já sofreu machismo no meio literário?"
Como se não bastasse o machismo galopante que transborda do mundo e a que estão sujeitas todas
as mulheres, inclusive as escritoras, a pergunta vem com a expectativa de uma resposta contundente,
com exemplos que escandalizem, com depoimentos tocantes. É onde costumo decepcionar.
Veja bem, é fácil responder de forma a satisfazer a pessoa jornalista ou o público a quem é destinada
a matéria. Mas, considerando que o meio literário não é uma realidade à parte e que o machismo
raramente começa e termina num só lugar, responder fica difícil. Difícil porque a resposta mais
completa é aquela que a pergunta não contempla. Mas é especialmente difícil porque a resposta está
nas perguntas que não nos fazem. Nos exemplos que não existem. Nos "nãos" que nem chegam a ser
ditos porque nem precisa.
O problema do preconceito de gênero é que dificilmente ele é explícito; ele está mais presente nas
coisas que não vemos. Isso também na literatura: nos convites para eventos que deixamos de
receber. Quando uma autora é deixada de lado para darem destaque a um escritor. Nas faltas de
indicação a prêmios. No esquecimento.
Apesar da relevância do trabalho das escritoras, ainda é difícil vê-las podendo falar de seu trabalho
nas mesmas condições que um autor pode falar. Nas mesas de debates compostas só por homens,
por exemplo, eles podem transcender todas essas questões e falar de seus trabalhos, de seus
personagens, de literatura. Se convidada, a escritora provavelmente acabará tendo que falar sobre
suas dificuldades, sobre o preconceito, sobre ser mulher e escrever.
Ser homem é não ter gênero, é pairar acima dele; enquanto uma mulher, não importa que seja
escritora, cientista ou jardineira, será primeiramente e acima de tudo uma mulher.
A ausência está nas perguntas que não nos fazem, aquelas que são esquecidas enquanto vêm as
questões sobre as nossas maiores dificuldades de escrever sendo mulher, o único assunto que nos
cabe.
Mas as histórias que escrevemos não importam? Nosso trabalho, por si só, não interessa? Não
podemos falar sobre literatura, pura e simplesmente? Essa é uma barreira difícil de romper.
Esse é só mais um indício de como o machismo dentro da literatura se manifesta bem antes de chegar
no mercado editorial; e, como dito, é um machismo que se manifesta de forma sutil, empurrando as
autoras para as margens. É o machismo de tornar as mulheres invisíveis. É o machismo da ausência
de oportunidades. E isso vem desde muito cedo, desde quando as jovens mulheres, ainda mais
quando são pobres, especialmente quando são negras, são desmotivadas a escrever; quando
escrevem, têm dificuldade de ser publicadas; quando são publicadas, não recebem tanta projeção.
Dessa forma, mesmo que rompamos uma série de barreiras para poder chegar a ser escritoras,
mesmo quando conseguimos, ainda seremos barradas em algum momento. E nem poderemos usar
isso como um exemplo contundente de machismo, afinal, não aconteceu. Nada existiu.
Esse “não estar” é mais cruel do que alguém fazendo um comentário machista na minha cara, porque
é mais difícil apontar para essa ausência de oportunidades do que para um preconceito explícito.
Não é um caso isolado de machismo dentro do meio literário que cria barreiras para as escritoras. É
todo um sistema, presente no mundo no qual estamos imersas, que garante que fiquemos à margem.
São essas ausências que garantem que o escritor a quem se refere o Dia do Escritor, comemorado no
dia 25 de julho, seja homem (como 72% dos autores brasileiros publicados) e branco (como 93,9%
dos que escrevem literatura no Brasil). Então é sobretudo nas ausências que precisamos prestar
atenção.
VALEK, Aline.
Acesso em: 26/01/2026 (adaptado).
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O machismo das ausências
Com alguma frequência, respondo a entrevistas. Ou tento, quando o volume de trabalho me permite.
Fico feliz quando me procuram para falar de literatura, afinal, é meu trabalho, mas noto a repetição de
uma mesma pergunta: "você já sofreu machismo no meio literário?"
Como se não bastasse o machismo galopante que transborda do mundo e a que estão sujeitas todas
as mulheres, inclusive as escritoras, a pergunta vem com a expectativa de uma resposta contundente,
com exemplos que escandalizem, com depoimentos tocantes. É onde costumo decepcionar.
Veja bem, é fácil responder de forma a satisfazer a pessoa jornalista ou o público a quem é destinada
a matéria. Mas, considerando que o meio literário não é uma realidade à parte e que o machismo
raramente começa e termina num só lugar, responder fica difícil. Difícil porque a resposta mais
completa é aquela que a pergunta não contempla. Mas é especialmente difícil porque a resposta está
nas perguntas que não nos fazem. Nos exemplos que não existem. Nos "nãos" que nem chegam a ser
ditos porque nem precisa.
O problema do preconceito de gênero é que dificilmente ele é explícito; ele está mais presente nas
coisas que não vemos. Isso também na literatura: nos convites para eventos que deixamos de
receber. Quando uma autora é deixada de lado para darem destaque a um escritor. Nas faltas de
indicação a prêmios. No esquecimento.
Apesar da relevância do trabalho das escritoras, ainda é difícil vê-las podendo falar de seu trabalho
nas mesmas condições que um autor pode falar. Nas mesas de debates compostas só por homens,
por exemplo, eles podem transcender todas essas questões e falar de seus trabalhos, de seus
personagens, de literatura. Se convidada, a escritora provavelmente acabará tendo que falar sobre
suas dificuldades, sobre o preconceito, sobre ser mulher e escrever.
Ser homem é não ter gênero, é pairar acima dele; enquanto uma mulher, não importa que seja
escritora, cientista ou jardineira, será primeiramente e acima de tudo uma mulher.
A ausência está nas perguntas que não nos fazem, aquelas que são esquecidas enquanto vêm as
questões sobre as nossas maiores dificuldades de escrever sendo mulher, o único assunto que nos
cabe.
Mas as histórias que escrevemos não importam? Nosso trabalho, por si só, não interessa? Não
podemos falar sobre literatura, pura e simplesmente? Essa é uma barreira difícil de romper.
Esse é só mais um indício de como o machismo dentro da literatura se manifesta bem antes de chegar
no mercado editorial; e, como dito, é um machismo que se manifesta de forma sutil, empurrando as
autoras para as margens. É o machismo de tornar as mulheres invisíveis. É o machismo da ausência
de oportunidades. E isso vem desde muito cedo, desde quando as jovens mulheres, ainda mais
quando são pobres, especialmente quando são negras, são desmotivadas a escrever; quando
escrevem, têm dificuldade de ser publicadas; quando são publicadas, não recebem tanta projeção.
Dessa forma, mesmo que rompamos uma série de barreiras para poder chegar a ser escritoras,
mesmo quando conseguimos, ainda seremos barradas em algum momento. E nem poderemos usar
isso como um exemplo contundente de machismo, afinal, não aconteceu. Nada existiu.
Esse “não estar” é mais cruel do que alguém fazendo um comentário machista na minha cara, porque
é mais difícil apontar para essa ausência de oportunidades do que para um preconceito explícito.
Não é um caso isolado de machismo dentro do meio literário que cria barreiras para as escritoras. É
todo um sistema, presente no mundo no qual estamos imersas, que garante que fiquemos à margem.
São essas ausências que garantem que o escritor a quem se refere o Dia do Escritor, comemorado no
dia 25 de julho, seja homem (como 72% dos autores brasileiros publicados) e branco (como 93,9%
dos que escrevem literatura no Brasil). Então é sobretudo nas ausências que precisamos prestar
atenção.
VALEK, Aline.
Acesso em: 26/01/2026 (adaptado).
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O machismo das ausências
Com alguma frequência, respondo a entrevistas. Ou tento, quando o volume de trabalho me permite.
Fico feliz quando me procuram para falar de literatura, afinal, é meu trabalho, mas noto a repetição de
uma mesma pergunta: "você já sofreu machismo no meio literário?"
Como se não bastasse o machismo galopante que transborda do mundo e a que estão sujeitas todas
as mulheres, inclusive as escritoras, a pergunta vem com a expectativa de uma resposta contundente,
com exemplos que escandalizem, com depoimentos tocantes. É onde costumo decepcionar.
Veja bem, é fácil responder de forma a satisfazer a pessoa jornalista ou o público a quem é destinada
a matéria. Mas, considerando que o meio literário não é uma realidade à parte e que o machismo
raramente começa e termina num só lugar, responder fica difícil. Difícil porque a resposta mais
completa é aquela que a pergunta não contempla. Mas é especialmente difícil porque a resposta está
nas perguntas que não nos fazem. Nos exemplos que não existem. Nos "nãos" que nem chegam a ser
ditos porque nem precisa.
O problema do preconceito de gênero é que dificilmente ele é explícito; ele está mais presente nas
coisas que não vemos. Isso também na literatura: nos convites para eventos que deixamos de
receber. Quando uma autora é deixada de lado para darem destaque a um escritor. Nas faltas de
indicação a prêmios. No esquecimento.
Apesar da relevância do trabalho das escritoras, ainda é difícil vê-las podendo falar de seu trabalho
nas mesmas condições que um autor pode falar. Nas mesas de debates compostas só por homens,
por exemplo, eles podem transcender todas essas questões e falar de seus trabalhos, de seus
personagens, de literatura. Se convidada, a escritora provavelmente acabará tendo que falar sobre
suas dificuldades, sobre o preconceito, sobre ser mulher e escrever.
Ser homem é não ter gênero, é pairar acima dele; enquanto uma mulher, não importa que seja
escritora, cientista ou jardineira, será primeiramente e acima de tudo uma mulher.
A ausência está nas perguntas que não nos fazem, aquelas que são esquecidas enquanto vêm as
questões sobre as nossas maiores dificuldades de escrever sendo mulher, o único assunto que nos
cabe.
Mas as histórias que escrevemos não importam? Nosso trabalho, por si só, não interessa? Não
podemos falar sobre literatura, pura e simplesmente? Essa é uma barreira difícil de romper.
Esse é só mais um indício de como o machismo dentro da literatura se manifesta bem antes de chegar
no mercado editorial; e, como dito, é um machismo que se manifesta de forma sutil, empurrando as
autoras para as margens. É o machismo de tornar as mulheres invisíveis. É o machismo da ausência
de oportunidades. E isso vem desde muito cedo, desde quando as jovens mulheres, ainda mais
quando são pobres, especialmente quando são negras, são desmotivadas a escrever; quando
escrevem, têm dificuldade de ser publicadas; quando são publicadas, não recebem tanta projeção.
Dessa forma, mesmo que rompamos uma série de barreiras para poder chegar a ser escritoras,
mesmo quando conseguimos, ainda seremos barradas em algum momento. E nem poderemos usar
isso como um exemplo contundente de machismo, afinal, não aconteceu. Nada existiu.
Esse “não estar” é mais cruel do que alguém fazendo um comentário machista na minha cara, porque
é mais difícil apontar para essa ausência de oportunidades do que para um preconceito explícito.
Não é um caso isolado de machismo dentro do meio literário que cria barreiras para as escritoras. É
todo um sistema, presente no mundo no qual estamos imersas, que garante que fiquemos à margem.
São essas ausências que garantem que o escritor a quem se refere o Dia do Escritor, comemorado no
dia 25 de julho, seja homem (como 72% dos autores brasileiros publicados) e branco (como 93,9%
dos que escrevem literatura no Brasil). Então é sobretudo nas ausências que precisamos prestar
atenção.
VALEK, Aline.
Acesso em: 26/01/2026 (adaptado).
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