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O machismo das ausências  


Com alguma frequência, respondo a entrevistas. Ou tento, quando o volume de trabalho me permite.

Fico feliz quando me procuram para falar de literatura, afinal, é meu trabalho, mas noto a repetição de

uma mesma pergunta: "você já sofreu machismo no meio literário?"

Como se não bastasse o machismo galopante que transborda do mundo e a que estão sujeitas todas

as mulheres, inclusive as escritoras, a pergunta vem com a expectativa de uma resposta contundente,

com exemplos que escandalizem, com depoimentos tocantes. É onde costumo decepcionar.

Veja bem, é fácil responder de forma a satisfazer a pessoa jornalista ou o público a quem é destinada

a matéria. Mas, considerando que o meio literário não é uma realidade à parte e que o machismo

raramente começa e termina num só lugar, responder fica difícil. Difícil porque a resposta mais

completa é aquela que a pergunta não contempla. Mas é especialmente difícil porque a resposta está

nas perguntas que não nos fazem. Nos exemplos que não existem. Nos "nãos" que nem chegam a ser

ditos porque nem precisa.

O problema do preconceito de gênero é que dificilmente ele é explícito; ele está mais presente nas

coisas que não vemos. Isso também na literatura: nos convites para eventos que deixamos de

receber. Quando uma autora é deixada de lado para darem destaque a um escritor. Nas faltas de

indicação a prêmios. No esquecimento.

Apesar da relevância do trabalho das escritoras, ainda é difícil vê-las podendo falar de seu trabalho

nas mesmas condições que um autor pode falar. Nas mesas de debates compostas só por homens,

por exemplo, eles podem transcender todas essas questões e falar de seus trabalhos, de seus

personagens, de literatura. Se convidada, a escritora provavelmente acabará tendo que falar sobre

suas dificuldades, sobre o preconceito, sobre ser mulher e escrever.

Ser homem é não ter gênero, é pairar acima dele; enquanto uma mulher, não importa que seja

escritora, cientista ou jardineira, será primeiramente e acima de tudo uma mulher.

A ausência está nas perguntas que não nos fazem, aquelas que são esquecidas enquanto vêm as

questões sobre as nossas maiores dificuldades de escrever sendo mulher, o único assunto que nos

cabe.

Mas as histórias que escrevemos não importam? Nosso trabalho, por si só, não interessa? Não

podemos falar sobre literatura, pura e simplesmente? Essa é uma barreira difícil de romper.

Esse é só mais um indício de como o machismo dentro da literatura se manifesta bem antes de chegar

no mercado editorial; e, como dito, é um machismo que se manifesta de forma sutil, empurrando as

autoras para as margens. É o machismo de tornar as mulheres invisíveis. É o machismo da ausência

de oportunidades. E isso vem desde muito cedo, desde quando as jovens mulheres, ainda mais

quando são pobres, especialmente quando são negras, são desmotivadas a escrever; quando

escrevem, têm dificuldade de ser publicadas; quando são publicadas, não recebem tanta projeção.

Dessa forma, mesmo que rompamos uma série de barreiras para poder chegar a ser escritoras,

mesmo quando conseguimos, ainda seremos barradas em algum momento. E nem poderemos usar

isso como um exemplo contundente de machismo, afinal, não aconteceu. Nada existiu.

Esse “não estar” é mais cruel do que alguém fazendo um comentário machista na minha cara, porque

é mais difícil apontar para essa ausência de oportunidades do que para um preconceito explícito.

Não é um caso isolado de machismo dentro do meio literário que cria barreiras para as escritoras. É

todo um sistema, presente no mundo no qual estamos imersas, que garante que fiquemos à margem.

São essas ausências que garantem que o escritor a quem se refere o Dia do Escritor, comemorado no

dia 25 de julho, seja homem (como 72% dos autores brasileiros publicados) e branco (como 93,9%

dos que escrevem literatura no Brasil). Então é sobretudo nas ausências que precisamos prestar

atenção.

VALEK, Aline.

Disponível em: https://www.cartacapital.com.br/cultura/o-machismo-das-ausencias/.

Acesso em: 26/01/2026 (adaptado).

A pontuação muitas vezes é empregada para além das regras gramaticais, de forma expressiva, com o objetivo de atender à determinada intenção do autor. No texto, o trecho que faz uso de pontuação expressiva, construindo um sentido de ênfase, é:
 

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O machismo das ausências  


Com alguma frequência, respondo a entrevistas. Ou tento, quando o volume de trabalho me permite.

Fico feliz quando me procuram para falar de literatura, afinal, é meu trabalho, mas noto a repetição de

uma mesma pergunta: "você já sofreu machismo no meio literário?"

Como se não bastasse o machismo galopante que transborda do mundo e a que estão sujeitas todas

as mulheres, inclusive as escritoras, a pergunta vem com a expectativa de uma resposta contundente,

com exemplos que escandalizem, com depoimentos tocantes. É onde costumo decepcionar.

Veja bem, é fácil responder de forma a satisfazer a pessoa jornalista ou o público a quem é destinada

a matéria. Mas, considerando que o meio literário não é uma realidade à parte e que o machismo

raramente começa e termina num só lugar, responder fica difícil. Difícil porque a resposta mais

completa é aquela que a pergunta não contempla. Mas é especialmente difícil porque a resposta está

nas perguntas que não nos fazem. Nos exemplos que não existem. Nos "nãos" que nem chegam a ser

ditos porque nem precisa.

O problema do preconceito de gênero é que dificilmente ele é explícito; ele está mais presente nas

coisas que não vemos. Isso também na literatura: nos convites para eventos que deixamos de

receber. Quando uma autora é deixada de lado para darem destaque a um escritor. Nas faltas de

indicação a prêmios. No esquecimento.

Apesar da relevância do trabalho das escritoras, ainda é difícil vê-las podendo falar de seu trabalho

nas mesmas condições que um autor pode falar. Nas mesas de debates compostas só por homens,

por exemplo, eles podem transcender todas essas questões e falar de seus trabalhos, de seus

personagens, de literatura. Se convidada, a escritora provavelmente acabará tendo que falar sobre

suas dificuldades, sobre o preconceito, sobre ser mulher e escrever.

Ser homem é não ter gênero, é pairar acima dele; enquanto uma mulher, não importa que seja

escritora, cientista ou jardineira, será primeiramente e acima de tudo uma mulher.

A ausência está nas perguntas que não nos fazem, aquelas que são esquecidas enquanto vêm as

questões sobre as nossas maiores dificuldades de escrever sendo mulher, o único assunto que nos

cabe.

Mas as histórias que escrevemos não importam? Nosso trabalho, por si só, não interessa? Não

podemos falar sobre literatura, pura e simplesmente? Essa é uma barreira difícil de romper.

Esse é só mais um indício de como o machismo dentro da literatura se manifesta bem antes de chegar

no mercado editorial; e, como dito, é um machismo que se manifesta de forma sutil, empurrando as

autoras para as margens. É o machismo de tornar as mulheres invisíveis. É o machismo da ausência

de oportunidades. E isso vem desde muito cedo, desde quando as jovens mulheres, ainda mais

quando são pobres, especialmente quando são negras, são desmotivadas a escrever; quando

escrevem, têm dificuldade de ser publicadas; quando são publicadas, não recebem tanta projeção.

Dessa forma, mesmo que rompamos uma série de barreiras para poder chegar a ser escritoras,

mesmo quando conseguimos, ainda seremos barradas em algum momento. E nem poderemos usar

isso como um exemplo contundente de machismo, afinal, não aconteceu. Nada existiu.

Esse “não estar” é mais cruel do que alguém fazendo um comentário machista na minha cara, porque

é mais difícil apontar para essa ausência de oportunidades do que para um preconceito explícito.

Não é um caso isolado de machismo dentro do meio literário que cria barreiras para as escritoras. É

todo um sistema, presente no mundo no qual estamos imersas, que garante que fiquemos à margem.

São essas ausências que garantem que o escritor a quem se refere o Dia do Escritor, comemorado no

dia 25 de julho, seja homem (como 72% dos autores brasileiros publicados) e branco (como 93,9%

dos que escrevem literatura no Brasil). Então é sobretudo nas ausências que precisamos prestar

atenção.

VALEK, Aline.

Disponível em: https://www.cartacapital.com.br/cultura/o-machismo-das-ausencias/.

Acesso em: 26/01/2026 (adaptado).

O período que, reescrito, apresenta o mesmo sentido de “é um machismo que se manifesta de forma sutil, empurrando as autoras para as margens” (l. 30-31) é:
 

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Com alguma frequência, respondo a entrevistas. Ou tento, quando o volume de trabalho me permite.

Fico feliz quando me procuram para falar de literatura, afinal, é meu trabalho, mas noto a repetição de

uma mesma pergunta: "você já sofreu machismo no meio literário?"

Como se não bastasse o machismo galopante que transborda do mundo e a que estão sujeitas todas

as mulheres, inclusive as escritoras, a pergunta vem com a expectativa de uma resposta contundente,

com exemplos que escandalizem, com depoimentos tocantes. É onde costumo decepcionar.

Veja bem, é fácil responder de forma a satisfazer a pessoa jornalista ou o público a quem é destinada

a matéria. Mas, considerando que o meio literário não é uma realidade à parte e que o machismo

raramente começa e termina num só lugar, responder fica difícil. Difícil porque a resposta mais

completa é aquela que a pergunta não contempla. Mas é especialmente difícil porque a resposta está

nas perguntas que não nos fazem. Nos exemplos que não existem. Nos "nãos" que nem chegam a ser

ditos porque nem precisa.

O problema do preconceito de gênero é que dificilmente ele é explícito; ele está mais presente nas

coisas que não vemos. Isso também na literatura: nos convites para eventos que deixamos de

receber. Quando uma autora é deixada de lado para darem destaque a um escritor. Nas faltas de

indicação a prêmios. No esquecimento.

Apesar da relevância do trabalho das escritoras, ainda é difícil vê-las podendo falar de seu trabalho

nas mesmas condições que um autor pode falar. Nas mesas de debates compostas só por homens,

por exemplo, eles podem transcender todas essas questões e falar de seus trabalhos, de seus

personagens, de literatura. Se convidada, a escritora provavelmente acabará tendo que falar sobre

suas dificuldades, sobre o preconceito, sobre ser mulher e escrever.

Ser homem é não ter gênero, é pairar acima dele; enquanto uma mulher, não importa que seja

escritora, cientista ou jardineira, será primeiramente e acima de tudo uma mulher.

A ausência está nas perguntas que não nos fazem, aquelas que são esquecidas enquanto vêm as

questões sobre as nossas maiores dificuldades de escrever sendo mulher, o único assunto que nos

cabe.

Mas as histórias que escrevemos não importam? Nosso trabalho, por si só, não interessa? Não

podemos falar sobre literatura, pura e simplesmente? Essa é uma barreira difícil de romper.

Esse é só mais um indício de como o machismo dentro da literatura se manifesta bem antes de chegar

no mercado editorial; e, como dito, é um machismo que se manifesta de forma sutil, empurrando as

autoras para as margens. É o machismo de tornar as mulheres invisíveis. É o machismo da ausência

de oportunidades. E isso vem desde muito cedo, desde quando as jovens mulheres, ainda mais

quando são pobres, especialmente quando são negras, são desmotivadas a escrever; quando

escrevem, têm dificuldade de ser publicadas; quando são publicadas, não recebem tanta projeção.

Dessa forma, mesmo que rompamos uma série de barreiras para poder chegar a ser escritoras,

mesmo quando conseguimos, ainda seremos barradas em algum momento. E nem poderemos usar

isso como um exemplo contundente de machismo, afinal, não aconteceu. Nada existiu.

Esse “não estar” é mais cruel do que alguém fazendo um comentário machista na minha cara, porque

é mais difícil apontar para essa ausência de oportunidades do que para um preconceito explícito.

Não é um caso isolado de machismo dentro do meio literário que cria barreiras para as escritoras. É

todo um sistema, presente no mundo no qual estamos imersas, que garante que fiquemos à margem.

São essas ausências que garantem que o escritor a quem se refere o Dia do Escritor, comemorado no

dia 25 de julho, seja homem (como 72% dos autores brasileiros publicados) e branco (como 93,9%

dos que escrevem literatura no Brasil). Então é sobretudo nas ausências que precisamos prestar

atenção.

VALEK, Aline.

Disponível em: https://www.cartacapital.com.br/cultura/o-machismo-das-ausencias/.

Acesso em: 26/01/2026 (adaptado).

Em “Dessa forma, mesmo que rompamos uma série de barreiras para poder chegar a ser escritoras, mesmo quando conseguimos, ainda seremos barradas em algum momento” (l. 35-36), a conjunção que pode substituir a locução conjuntiva em destaque, sem alteração do sentido do trecho, é:
 

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Com alguma frequência, respondo a entrevistas. Ou tento, quando o volume de trabalho me permite.

Fico feliz quando me procuram para falar de literatura, afinal, é meu trabalho, mas noto a repetição de

uma mesma pergunta: "você já sofreu machismo no meio literário?"

Como se não bastasse o machismo galopante que transborda do mundo e a que estão sujeitas todas

as mulheres, inclusive as escritoras, a pergunta vem com a expectativa de uma resposta contundente,

com exemplos que escandalizem, com depoimentos tocantes. É onde costumo decepcionar.

Veja bem, é fácil responder de forma a satisfazer a pessoa jornalista ou o público a quem é destinada

a matéria. Mas, considerando que o meio literário não é uma realidade à parte e que o machismo

raramente começa e termina num só lugar, responder fica difícil. Difícil porque a resposta mais

completa é aquela que a pergunta não contempla. Mas é especialmente difícil porque a resposta está

nas perguntas que não nos fazem. Nos exemplos que não existem. Nos "nãos" que nem chegam a ser

ditos porque nem precisa.

O problema do preconceito de gênero é que dificilmente ele é explícito; ele está mais presente nas

coisas que não vemos. Isso também na literatura: nos convites para eventos que deixamos de

receber. Quando uma autora é deixada de lado para darem destaque a um escritor. Nas faltas de

indicação a prêmios. No esquecimento.

Apesar da relevância do trabalho das escritoras, ainda é difícil vê-las podendo falar de seu trabalho

nas mesmas condições que um autor pode falar. Nas mesas de debates compostas só por homens,

por exemplo, eles podem transcender todas essas questões e falar de seus trabalhos, de seus

personagens, de literatura. Se convidada, a escritora provavelmente acabará tendo que falar sobre

suas dificuldades, sobre o preconceito, sobre ser mulher e escrever.

Ser homem é não ter gênero, é pairar acima dele; enquanto uma mulher, não importa que seja

escritora, cientista ou jardineira, será primeiramente e acima de tudo uma mulher.

A ausência está nas perguntas que não nos fazem, aquelas que são esquecidas enquanto vêm as

questões sobre as nossas maiores dificuldades de escrever sendo mulher, o único assunto que nos

cabe.

Mas as histórias que escrevemos não importam? Nosso trabalho, por si só, não interessa? Não

podemos falar sobre literatura, pura e simplesmente? Essa é uma barreira difícil de romper.

Esse é só mais um indício de como o machismo dentro da literatura se manifesta bem antes de chegar

no mercado editorial; e, como dito, é um machismo que se manifesta de forma sutil, empurrando as

autoras para as margens. É o machismo de tornar as mulheres invisíveis. É o machismo da ausência

de oportunidades. E isso vem desde muito cedo, desde quando as jovens mulheres, ainda mais

quando são pobres, especialmente quando são negras, são desmotivadas a escrever; quando

escrevem, têm dificuldade de ser publicadas; quando são publicadas, não recebem tanta projeção.

Dessa forma, mesmo que rompamos uma série de barreiras para poder chegar a ser escritoras,

mesmo quando conseguimos, ainda seremos barradas em algum momento. E nem poderemos usar

isso como um exemplo contundente de machismo, afinal, não aconteceu. Nada existiu.

Esse “não estar” é mais cruel do que alguém fazendo um comentário machista na minha cara, porque

é mais difícil apontar para essa ausência de oportunidades do que para um preconceito explícito.

Não é um caso isolado de machismo dentro do meio literário que cria barreiras para as escritoras. É

todo um sistema, presente no mundo no qual estamos imersas, que garante que fiquemos à margem.

São essas ausências que garantem que o escritor a quem se refere o Dia do Escritor, comemorado no

dia 25 de julho, seja homem (como 72% dos autores brasileiros publicados) e branco (como 93,9%

dos que escrevem literatura no Brasil). Então é sobretudo nas ausências que precisamos prestar

atenção.

VALEK, Aline.

Disponível em: https://www.cartacapital.com.br/cultura/o-machismo-das-ausencias/.

Acesso em: 26/01/2026 (adaptado).

De forma geral, as informações são organizadas nos textos com o objetivo de promover a continuidade do tema de forma coesa e coerente. No texto em análise, o décimo parágrafo (l. 35-37) desenvolve, em relação ao parágrafo anterior (l. 29-34), uma ideia de:
 

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Com alguma frequência, respondo a entrevistas. Ou tento, quando o volume de trabalho me permite.

Fico feliz quando me procuram para falar de literatura, afinal, é meu trabalho, mas noto a repetição de

uma mesma pergunta: "você já sofreu machismo no meio literário?"

Como se não bastasse o machismo galopante que transborda do mundo e a que estão sujeitas todas

as mulheres, inclusive as escritoras, a pergunta vem com a expectativa de uma resposta contundente,

com exemplos que escandalizem, com depoimentos tocantes. É onde costumo decepcionar.

Veja bem, é fácil responder de forma a satisfazer a pessoa jornalista ou o público a quem é destinada

a matéria. Mas, considerando que o meio literário não é uma realidade à parte e que o machismo

raramente começa e termina num só lugar, responder fica difícil. Difícil porque a resposta mais

completa é aquela que a pergunta não contempla. Mas é especialmente difícil porque a resposta está

nas perguntas que não nos fazem. Nos exemplos que não existem. Nos "nãos" que nem chegam a ser

ditos porque nem precisa.

O problema do preconceito de gênero é que dificilmente ele é explícito; ele está mais presente nas

coisas que não vemos. Isso também na literatura: nos convites para eventos que deixamos de

receber. Quando uma autora é deixada de lado para darem destaque a um escritor. Nas faltas de

indicação a prêmios. No esquecimento.

Apesar da relevância do trabalho das escritoras, ainda é difícil vê-las podendo falar de seu trabalho

nas mesmas condições que um autor pode falar. Nas mesas de debates compostas só por homens,

por exemplo, eles podem transcender todas essas questões e falar de seus trabalhos, de seus

personagens, de literatura. Se convidada, a escritora provavelmente acabará tendo que falar sobre

suas dificuldades, sobre o preconceito, sobre ser mulher e escrever.

Ser homem é não ter gênero, é pairar acima dele; enquanto uma mulher, não importa que seja

escritora, cientista ou jardineira, será primeiramente e acima de tudo uma mulher.

A ausência está nas perguntas que não nos fazem, aquelas que são esquecidas enquanto vêm as

questões sobre as nossas maiores dificuldades de escrever sendo mulher, o único assunto que nos

cabe.

Mas as histórias que escrevemos não importam? Nosso trabalho, por si só, não interessa? Não

podemos falar sobre literatura, pura e simplesmente? Essa é uma barreira difícil de romper.

Esse é só mais um indício de como o machismo dentro da literatura se manifesta bem antes de chegar

no mercado editorial; e, como dito, é um machismo que se manifesta de forma sutil, empurrando as

autoras para as margens. É o machismo de tornar as mulheres invisíveis. É o machismo da ausência

de oportunidades. E isso vem desde muito cedo, desde quando as jovens mulheres, ainda mais

quando são pobres, especialmente quando são negras, são desmotivadas a escrever; quando

escrevem, têm dificuldade de ser publicadas; quando são publicadas, não recebem tanta projeção.

Dessa forma, mesmo que rompamos uma série de barreiras para poder chegar a ser escritoras,

mesmo quando conseguimos, ainda seremos barradas em algum momento. E nem poderemos usar

isso como um exemplo contundente de machismo, afinal, não aconteceu. Nada existiu.

Esse “não estar” é mais cruel do que alguém fazendo um comentário machista na minha cara, porque

é mais difícil apontar para essa ausência de oportunidades do que para um preconceito explícito.

Não é um caso isolado de machismo dentro do meio literário que cria barreiras para as escritoras. É

todo um sistema, presente no mundo no qual estamos imersas, que garante que fiquemos à margem.

São essas ausências que garantem que o escritor a quem se refere o Dia do Escritor, comemorado no

dia 25 de julho, seja homem (como 72% dos autores brasileiros publicados) e branco (como 93,9%

dos que escrevem literatura no Brasil). Então é sobretudo nas ausências que precisamos prestar

atenção.

VALEK, Aline.

Disponível em: https://www.cartacapital.com.br/cultura/o-machismo-das-ausencias/.

Acesso em: 26/01/2026 (adaptado).

Ambiguidade é o fenômeno que permite interpretações distintas e plausíveis de uma mesma frase, palavra, expressão. Entre as frases a seguir, aquela que não apresenta ambiguidades, construindo uma única possibilidade de interpretação, é:
 

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Com alguma frequência, respondo a entrevistas. Ou tento, quando o volume de trabalho me permite.

Fico feliz quando me procuram para falar de literatura, afinal, é meu trabalho, mas noto a repetição de

uma mesma pergunta: "você já sofreu machismo no meio literário?"

Como se não bastasse o machismo galopante que transborda do mundo e a que estão sujeitas todas

as mulheres, inclusive as escritoras, a pergunta vem com a expectativa de uma resposta contundente,

com exemplos que escandalizem, com depoimentos tocantes. É onde costumo decepcionar.

Veja bem, é fácil responder de forma a satisfazer a pessoa jornalista ou o público a quem é destinada

a matéria. Mas, considerando que o meio literário não é uma realidade à parte e que o machismo

raramente começa e termina num só lugar, responder fica difícil. Difícil porque a resposta mais

completa é aquela que a pergunta não contempla. Mas é especialmente difícil porque a resposta está

nas perguntas que não nos fazem. Nos exemplos que não existem. Nos "nãos" que nem chegam a ser

ditos porque nem precisa.

O problema do preconceito de gênero é que dificilmente ele é explícito; ele está mais presente nas

coisas que não vemos. Isso também na literatura: nos convites para eventos que deixamos de

receber. Quando uma autora é deixada de lado para darem destaque a um escritor. Nas faltas de

indicação a prêmios. No esquecimento.

Apesar da relevância do trabalho das escritoras, ainda é difícil vê-las podendo falar de seu trabalho

nas mesmas condições que um autor pode falar. Nas mesas de debates compostas só por homens,

por exemplo, eles podem transcender todas essas questões e falar de seus trabalhos, de seus

personagens, de literatura. Se convidada, a escritora provavelmente acabará tendo que falar sobre

suas dificuldades, sobre o preconceito, sobre ser mulher e escrever.

Ser homem é não ter gênero, é pairar acima dele; enquanto uma mulher, não importa que seja

escritora, cientista ou jardineira, será primeiramente e acima de tudo uma mulher.

A ausência está nas perguntas que não nos fazem, aquelas que são esquecidas enquanto vêm as

questões sobre as nossas maiores dificuldades de escrever sendo mulher, o único assunto que nos

cabe.

Mas as histórias que escrevemos não importam? Nosso trabalho, por si só, não interessa? Não

podemos falar sobre literatura, pura e simplesmente? Essa é uma barreira difícil de romper.

Esse é só mais um indício de como o machismo dentro da literatura se manifesta bem antes de chegar

no mercado editorial; e, como dito, é um machismo que se manifesta de forma sutil, empurrando as

autoras para as margens. É o machismo de tornar as mulheres invisíveis. É o machismo da ausência

de oportunidades. E isso vem desde muito cedo, desde quando as jovens mulheres, ainda mais

quando são pobres, especialmente quando são negras, são desmotivadas a escrever; quando

escrevem, têm dificuldade de ser publicadas; quando são publicadas, não recebem tanta projeção.

Dessa forma, mesmo que rompamos uma série de barreiras para poder chegar a ser escritoras,

mesmo quando conseguimos, ainda seremos barradas em algum momento. E nem poderemos usar

isso como um exemplo contundente de machismo, afinal, não aconteceu. Nada existiu.

Esse “não estar” é mais cruel do que alguém fazendo um comentário machista na minha cara, porque

é mais difícil apontar para essa ausência de oportunidades do que para um preconceito explícito.

Não é um caso isolado de machismo dentro do meio literário que cria barreiras para as escritoras. É

todo um sistema, presente no mundo no qual estamos imersas, que garante que fiquemos à margem.

São essas ausências que garantem que o escritor a quem se refere o Dia do Escritor, comemorado no

dia 25 de julho, seja homem (como 72% dos autores brasileiros publicados) e branco (como 93,9%

dos que escrevem literatura no Brasil). Então é sobretudo nas ausências que precisamos prestar

atenção.

VALEK, Aline.

Disponível em: https://www.cartacapital.com.br/cultura/o-machismo-das-ausencias/.

Acesso em: 26/01/2026 (adaptado).

As figuras de linguagem são recursos empregados para dar mais expressividade às ideias no texto; entre elas, a metáfora. O trecho que se configura como metafórico é:
 

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Fico feliz quando me procuram para falar de literatura, afinal, é meu trabalho, mas noto a repetição de

uma mesma pergunta: "você já sofreu machismo no meio literário?"

Como se não bastasse o machismo galopante que transborda do mundo e a que estão sujeitas todas

as mulheres, inclusive as escritoras, a pergunta vem com a expectativa de uma resposta contundente,

com exemplos que escandalizem, com depoimentos tocantes. É onde costumo decepcionar.

Veja bem, é fácil responder de forma a satisfazer a pessoa jornalista ou o público a quem é destinada

a matéria. Mas, considerando que o meio literário não é uma realidade à parte e que o machismo

raramente começa e termina num só lugar, responder fica difícil. Difícil porque a resposta mais

completa é aquela que a pergunta não contempla. Mas é especialmente difícil porque a resposta está

nas perguntas que não nos fazem. Nos exemplos que não existem. Nos "nãos" que nem chegam a ser

ditos porque nem precisa.

O problema do preconceito de gênero é que dificilmente ele é explícito; ele está mais presente nas

coisas que não vemos. Isso também na literatura: nos convites para eventos que deixamos de

receber. Quando uma autora é deixada de lado para darem destaque a um escritor. Nas faltas de

indicação a prêmios. No esquecimento.

Apesar da relevância do trabalho das escritoras, ainda é difícil vê-las podendo falar de seu trabalho

nas mesmas condições que um autor pode falar. Nas mesas de debates compostas só por homens,

por exemplo, eles podem transcender todas essas questões e falar de seus trabalhos, de seus

personagens, de literatura. Se convidada, a escritora provavelmente acabará tendo que falar sobre

suas dificuldades, sobre o preconceito, sobre ser mulher e escrever.

Ser homem é não ter gênero, é pairar acima dele; enquanto uma mulher, não importa que seja

escritora, cientista ou jardineira, será primeiramente e acima de tudo uma mulher.

A ausência está nas perguntas que não nos fazem, aquelas que são esquecidas enquanto vêm as

questões sobre as nossas maiores dificuldades de escrever sendo mulher, o único assunto que nos

cabe.

Mas as histórias que escrevemos não importam? Nosso trabalho, por si só, não interessa? Não

podemos falar sobre literatura, pura e simplesmente? Essa é uma barreira difícil de romper.

Esse é só mais um indício de como o machismo dentro da literatura se manifesta bem antes de chegar

no mercado editorial; e, como dito, é um machismo que se manifesta de forma sutil, empurrando as

autoras para as margens. É o machismo de tornar as mulheres invisíveis. É o machismo da ausência

de oportunidades. E isso vem desde muito cedo, desde quando as jovens mulheres, ainda mais

quando são pobres, especialmente quando são negras, são desmotivadas a escrever; quando

escrevem, têm dificuldade de ser publicadas; quando são publicadas, não recebem tanta projeção.

Dessa forma, mesmo que rompamos uma série de barreiras para poder chegar a ser escritoras,

mesmo quando conseguimos, ainda seremos barradas em algum momento. E nem poderemos usar

isso como um exemplo contundente de machismo, afinal, não aconteceu. Nada existiu.

Esse “não estar” é mais cruel do que alguém fazendo um comentário machista na minha cara, porque

é mais difícil apontar para essa ausência de oportunidades do que para um preconceito explícito.

Não é um caso isolado de machismo dentro do meio literário que cria barreiras para as escritoras. É

todo um sistema, presente no mundo no qual estamos imersas, que garante que fiquemos à margem.

São essas ausências que garantem que o escritor a quem se refere o Dia do Escritor, comemorado no

dia 25 de julho, seja homem (como 72% dos autores brasileiros publicados) e branco (como 93,9%

dos que escrevem literatura no Brasil). Então é sobretudo nas ausências que precisamos prestar

atenção.

VALEK, Aline.

Disponível em: https://www.cartacapital.com.br/cultura/o-machismo-das-ausencias/.

Acesso em: 26/01/2026 (adaptado).

Como estratégia persuasiva, a autora busca uma aproximação maior com o leitor por meio da interlocução direta. No texto, essa estratégia se constrói pelo emprego do(a):
 

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Com alguma frequência, respondo a entrevistas. Ou tento, quando o volume de trabalho me permite.

Fico feliz quando me procuram para falar de literatura, afinal, é meu trabalho, mas noto a repetição de

uma mesma pergunta: "você já sofreu machismo no meio literário?"

Como se não bastasse o machismo galopante que transborda do mundo e a que estão sujeitas todas

as mulheres, inclusive as escritoras, a pergunta vem com a expectativa de uma resposta contundente,

com exemplos que escandalizem, com depoimentos tocantes. É onde costumo decepcionar.

Veja bem, é fácil responder de forma a satisfazer a pessoa jornalista ou o público a quem é destinada

a matéria. Mas, considerando que o meio literário não é uma realidade à parte e que o machismo

raramente começa e termina num só lugar, responder fica difícil. Difícil porque a resposta mais

completa é aquela que a pergunta não contempla. Mas é especialmente difícil porque a resposta está

nas perguntas que não nos fazem. Nos exemplos que não existem. Nos "nãos" que nem chegam a ser

ditos porque nem precisa.

O problema do preconceito de gênero é que dificilmente ele é explícito; ele está mais presente nas

coisas que não vemos. Isso também na literatura: nos convites para eventos que deixamos de

receber. Quando uma autora é deixada de lado para darem destaque a um escritor. Nas faltas de

indicação a prêmios. No esquecimento.

Apesar da relevância do trabalho das escritoras, ainda é difícil vê-las podendo falar de seu trabalho

nas mesmas condições que um autor pode falar. Nas mesas de debates compostas só por homens,

por exemplo, eles podem transcender todas essas questões e falar de seus trabalhos, de seus

personagens, de literatura. Se convidada, a escritora provavelmente acabará tendo que falar sobre

suas dificuldades, sobre o preconceito, sobre ser mulher e escrever.

Ser homem é não ter gênero, é pairar acima dele; enquanto uma mulher, não importa que seja

escritora, cientista ou jardineira, será primeiramente e acima de tudo uma mulher.

A ausência está nas perguntas que não nos fazem, aquelas que são esquecidas enquanto vêm as

questões sobre as nossas maiores dificuldades de escrever sendo mulher, o único assunto que nos

cabe.

Mas as histórias que escrevemos não importam? Nosso trabalho, por si só, não interessa? Não

podemos falar sobre literatura, pura e simplesmente? Essa é uma barreira difícil de romper.

Esse é só mais um indício de como o machismo dentro da literatura se manifesta bem antes de chegar

no mercado editorial; e, como dito, é um machismo que se manifesta de forma sutil, empurrando as

autoras para as margens. É o machismo de tornar as mulheres invisíveis. É o machismo da ausência

de oportunidades. E isso vem desde muito cedo, desde quando as jovens mulheres, ainda mais

quando são pobres, especialmente quando são negras, são desmotivadas a escrever; quando

escrevem, têm dificuldade de ser publicadas; quando são publicadas, não recebem tanta projeção.

Dessa forma, mesmo que rompamos uma série de barreiras para poder chegar a ser escritoras,

mesmo quando conseguimos, ainda seremos barradas em algum momento. E nem poderemos usar

isso como um exemplo contundente de machismo, afinal, não aconteceu. Nada existiu.

Esse “não estar” é mais cruel do que alguém fazendo um comentário machista na minha cara, porque

é mais difícil apontar para essa ausência de oportunidades do que para um preconceito explícito.

Não é um caso isolado de machismo dentro do meio literário que cria barreiras para as escritoras. É

todo um sistema, presente no mundo no qual estamos imersas, que garante que fiquemos à margem.

São essas ausências que garantem que o escritor a quem se refere o Dia do Escritor, comemorado no

dia 25 de julho, seja homem (como 72% dos autores brasileiros publicados) e branco (como 93,9%

dos que escrevem literatura no Brasil). Então é sobretudo nas ausências que precisamos prestar

atenção.

VALEK, Aline.

Disponível em: https://www.cartacapital.com.br/cultura/o-machismo-das-ausencias/.

Acesso em: 26/01/2026 (adaptado).

O título “O machismo das ausências” refere-se à(ao):
 

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O machismo das ausências  


Com alguma frequência, respondo a entrevistas. Ou tento, quando o volume de trabalho me permite.

Fico feliz quando me procuram para falar de literatura, afinal, é meu trabalho, mas noto a repetição de

uma mesma pergunta: "você já sofreu machismo no meio literário?"

Como se não bastasse o machismo galopante que transborda do mundo e a que estão sujeitas todas

as mulheres, inclusive as escritoras, a pergunta vem com a expectativa de uma resposta contundente,

com exemplos que escandalizem, com depoimentos tocantes. É onde costumo decepcionar.

Veja bem, é fácil responder de forma a satisfazer a pessoa jornalista ou o público a quem é destinada

a matéria. Mas, considerando que o meio literário não é uma realidade à parte e que o machismo

raramente começa e termina num só lugar, responder fica difícil. Difícil porque a resposta mais

completa é aquela que a pergunta não contempla. Mas é especialmente difícil porque a resposta está

nas perguntas que não nos fazem. Nos exemplos que não existem. Nos "nãos" que nem chegam a ser

ditos porque nem precisa.

O problema do preconceito de gênero é que dificilmente ele é explícito; ele está mais presente nas

coisas que não vemos. Isso também na literatura: nos convites para eventos que deixamos de

receber. Quando uma autora é deixada de lado para darem destaque a um escritor. Nas faltas de

indicação a prêmios. No esquecimento.

Apesar da relevância do trabalho das escritoras, ainda é difícil vê-las podendo falar de seu trabalho

nas mesmas condições que um autor pode falar. Nas mesas de debates compostas só por homens,

por exemplo, eles podem transcender todas essas questões e falar de seus trabalhos, de seus

personagens, de literatura. Se convidada, a escritora provavelmente acabará tendo que falar sobre

suas dificuldades, sobre o preconceito, sobre ser mulher e escrever.

Ser homem é não ter gênero, é pairar acima dele; enquanto uma mulher, não importa que seja

escritora, cientista ou jardineira, será primeiramente e acima de tudo uma mulher.

A ausência está nas perguntas que não nos fazem, aquelas que são esquecidas enquanto vêm as

questões sobre as nossas maiores dificuldades de escrever sendo mulher, o único assunto que nos

cabe.

Mas as histórias que escrevemos não importam? Nosso trabalho, por si só, não interessa? Não

podemos falar sobre literatura, pura e simplesmente? Essa é uma barreira difícil de romper.

Esse é só mais um indício de como o machismo dentro da literatura se manifesta bem antes de chegar

no mercado editorial; e, como dito, é um machismo que se manifesta de forma sutil, empurrando as

autoras para as margens. É o machismo de tornar as mulheres invisíveis. É o machismo da ausência

de oportunidades. E isso vem desde muito cedo, desde quando as jovens mulheres, ainda mais

quando são pobres, especialmente quando são negras, são desmotivadas a escrever; quando

escrevem, têm dificuldade de ser publicadas; quando são publicadas, não recebem tanta projeção.

Dessa forma, mesmo que rompamos uma série de barreiras para poder chegar a ser escritoras,

mesmo quando conseguimos, ainda seremos barradas em algum momento. E nem poderemos usar

isso como um exemplo contundente de machismo, afinal, não aconteceu. Nada existiu.

Esse “não estar” é mais cruel do que alguém fazendo um comentário machista na minha cara, porque

é mais difícil apontar para essa ausência de oportunidades do que para um preconceito explícito.

Não é um caso isolado de machismo dentro do meio literário que cria barreiras para as escritoras. É

todo um sistema, presente no mundo no qual estamos imersas, que garante que fiquemos à margem.

São essas ausências que garantem que o escritor a quem se refere o Dia do Escritor, comemorado no

dia 25 de julho, seja homem (como 72% dos autores brasileiros publicados) e branco (como 93,9%

dos que escrevem literatura no Brasil). Então é sobretudo nas ausências que precisamos prestar

atenção.

VALEK, Aline.

Disponível em: https://www.cartacapital.com.br/cultura/o-machismo-das-ausencias/.

Acesso em: 26/01/2026 (adaptado).

A autora busca convencer o leitor de que existe machismo na literatura, apresentando fatos e opiniões. O trecho que apresenta uma avaliação pessoal explícita da autora, configurando-se como opinião, é:
 

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Com alguma frequência, respondo a entrevistas. Ou tento, quando o volume de trabalho me permite.

Fico feliz quando me procuram para falar de literatura, afinal, é meu trabalho, mas noto a repetição de

uma mesma pergunta: "você já sofreu machismo no meio literário?"

Como se não bastasse o machismo galopante que transborda do mundo e a que estão sujeitas todas

as mulheres, inclusive as escritoras, a pergunta vem com a expectativa de uma resposta contundente,

com exemplos que escandalizem, com depoimentos tocantes. É onde costumo decepcionar.

Veja bem, é fácil responder de forma a satisfazer a pessoa jornalista ou o público a quem é destinada

a matéria. Mas, considerando que o meio literário não é uma realidade à parte e que o machismo

raramente começa e termina num só lugar, responder fica difícil. Difícil porque a resposta mais

completa é aquela que a pergunta não contempla. Mas é especialmente difícil porque a resposta está

nas perguntas que não nos fazem. Nos exemplos que não existem. Nos "nãos" que nem chegam a ser

ditos porque nem precisa.

O problema do preconceito de gênero é que dificilmente ele é explícito; ele está mais presente nas

coisas que não vemos. Isso também na literatura: nos convites para eventos que deixamos de

receber. Quando uma autora é deixada de lado para darem destaque a um escritor. Nas faltas de

indicação a prêmios. No esquecimento.

Apesar da relevância do trabalho das escritoras, ainda é difícil vê-las podendo falar de seu trabalho

nas mesmas condições que um autor pode falar. Nas mesas de debates compostas só por homens,

por exemplo, eles podem transcender todas essas questões e falar de seus trabalhos, de seus

personagens, de literatura. Se convidada, a escritora provavelmente acabará tendo que falar sobre

suas dificuldades, sobre o preconceito, sobre ser mulher e escrever.

Ser homem é não ter gênero, é pairar acima dele; enquanto uma mulher, não importa que seja

escritora, cientista ou jardineira, será primeiramente e acima de tudo uma mulher.

A ausência está nas perguntas que não nos fazem, aquelas que são esquecidas enquanto vêm as

questões sobre as nossas maiores dificuldades de escrever sendo mulher, o único assunto que nos

cabe.

Mas as histórias que escrevemos não importam? Nosso trabalho, por si só, não interessa? Não

podemos falar sobre literatura, pura e simplesmente? Essa é uma barreira difícil de romper.

Esse é só mais um indício de como o machismo dentro da literatura se manifesta bem antes de chegar

no mercado editorial; e, como dito, é um machismo que se manifesta de forma sutil, empurrando as

autoras para as margens. É o machismo de tornar as mulheres invisíveis. É o machismo da ausência

de oportunidades. E isso vem desde muito cedo, desde quando as jovens mulheres, ainda mais

quando são pobres, especialmente quando são negras, são desmotivadas a escrever; quando

escrevem, têm dificuldade de ser publicadas; quando são publicadas, não recebem tanta projeção.

Dessa forma, mesmo que rompamos uma série de barreiras para poder chegar a ser escritoras,

mesmo quando conseguimos, ainda seremos barradas em algum momento. E nem poderemos usar

isso como um exemplo contundente de machismo, afinal, não aconteceu. Nada existiu.

Esse “não estar” é mais cruel do que alguém fazendo um comentário machista na minha cara, porque

é mais difícil apontar para essa ausência de oportunidades do que para um preconceito explícito.

Não é um caso isolado de machismo dentro do meio literário que cria barreiras para as escritoras. É

todo um sistema, presente no mundo no qual estamos imersas, que garante que fiquemos à margem.

São essas ausências que garantem que o escritor a quem se refere o Dia do Escritor, comemorado no

dia 25 de julho, seja homem (como 72% dos autores brasileiros publicados) e branco (como 93,9%

dos que escrevem literatura no Brasil). Então é sobretudo nas ausências que precisamos prestar

atenção.

VALEK, Aline.

Disponível em: https://www.cartacapital.com.br/cultura/o-machismo-das-ausencias/.

Acesso em: 26/01/2026 (adaptado).

De acordo com o texto, o machismo na literatura manifesta-se bem antes do mercado editorial, pois as mulheres:
 

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