Magna Concursos
4242612 Ano: 2026
Disciplina: Português
Banca: FUNDATEC
Orgão: Pref. Porto Alegre-RS
Provas:

Atração pelos abismos

Por Helô Bacichette

Na semana passada, enquanto assistia a um documentário sobre cânions, falésias e

outras paisagens impressionantes, lembrei-me de uma frase atribuída a Nietzsche. Dias depois,

ao retomar a leitura de Quando Nietzsche Chorou, lembrei-me novamente da frase e ela me

pareceu ainda mais viva: “Quando você olha durante muito tempo para um abismo, o abismo

também olha para dentro de você”. Talvez porque algumas ideias, assim como certos lugares,

encontrem o momento certo para nos visitar.

Há lugares que exercem sobre nós uma atração difícil de explicar. Os cânions de

Cambará do Sul, as falésias da praia de Torres, as bordas dos precipícios despertam, ao mesmo

tempo, fa...ínio e respeito. Diante deles, sentimos uma estranha vertigem: o impulso de recuar

um passo e, ao mesmo tempo, avançar outro. Milhares de pessoas percorrem longas distâncias

para contemplar profundezas que inspiram admiração e deslumbramento. Algumas buscam a

fotografia perfeita; outras, querem apenas o silêncio.

Nietzsche sugeria que, ao contemplarmos um abismo, somos também contemplados por

ele. A frase parece falar menos de fendas abertas na rocha do que daquelas que carregamos

na alma. Há profundezas que não aparecem nos mapas. São feitas de perguntas, medos,

perdas, desejos e mistérios.

Talvez por isso certas paisagens nos emocionem tanto. Elas nos devolvem uma imagem

de nós mesmos. Diante da imensidão de um cânion, percebemos o quanto somos pequenos.

Guimarães Rosa escreveu que “o sertão é dentro da gente”. Poderíamos dizer o mesmo

dos abismos. Eles não pertencem apenas à geografia. Habitam a memória, a arte, a fé e os

caminhos que percorremos para compreender quem somos.

A literatura tem dessas vertigens. Um grande livro é sempre uma aproximação da borda.

Uma obra de arte nos convida a olhar para aquilo que evitamos. A fé, por sua vez, pede

coragem para caminhar por onde os olhos não alcançam o fundo.

Talvez fosse isso que Mario Quintana intuía em sua poesia: que a vida guarda mais

mistérios do que respostas e que nem tudo precisa ser explicado para ser compreendido. Há

profundidades que não se medem em metros, mas em assombro.

Por isso, continuamos visitando cânions, montanhas, falésias e furnas. Não porque

desejemos a queda, mas porque, diante deles, o olhar alcança mais longe e a alma se aventura

mais fundo. Até que, no fim, percebemos: os abismos da natureza apenas espelham.

Contemplamos suas profundezas e encontramos sombra e o nosso próprio rosto. Lá embaixo

não há vazio, há apenas nós.

(Disponível em: gauchazh.clicrbs.com.br/pioneiro/colunistas/helo-bacichette/noticia/2026/06/atracao-pelos-abismos-cmq11r6pk01r0013dz590gl9t.html).

Analise as assertivas que seguem a respeito do trecho abaixo, retirado do texto:

“Há profundezas que não aparecem nos mapas. São feitas de perguntas, medos, perdas, desejos e mistérios”.

I. “Perguntas, medos, perdas, desejos e mistérios” exerce o papel de sujeito paciente na oração.
II. A substituição de “profundezas” por “abismos” alteraria também o gênero de “feitas” na segunda oração.
III. A substituição de “profundezas” por sua forma no singular causaria a alteração obrigatória de outras três palavras no período, a fim de manter a concordância.

Quais estão corretas?
 

Provas

Questão presente nas seguintes provas

Médico Veterinário

60 Questões