A peste não se comportou, em Florença, como se comportara no Oriente. No Oriente, a saída de sangue, pelo nariz, fosse lá de quem fosse, constituía sinal manifesto de morte inevitável. Em Florença, no começo, apareciam, tanto nos homens como nas mulheres, seja na virilha, seja na axila, determinadas inchações. Destas, algumas cresciam como maçãs; outras, como ovo; umas cresciam mais; outras, menos, o vulgo dava-lhes a denominação de bubões. Das duas partes mencionadas do corpo, dentro em breve o citado tumor mortífero passava a repontar e a surgir por toda parte. Logo após, o aspecto da enfermidade começou a modificar-se, ela passou por manchas negras ou lívidas nos doentes. Essas manchas se faziam presentes nos braços, nas coxas e em outras partes do corpo. Em algumas pessoas, as manchas se faziam grandes e raras; em outras, pequenas e abundantes. E, assim como, primeiro, o bubão fora, e ainda continuava a ser, indício fatal de futura morte, assim também as manchas se tornaram mortíferas, depois, para aqueles em que elas se instalavam.
(BOCCACCIO, G. Decameron. Rio de Janeiro: Edições de Ouro, 1990.)
A Peste Negra, descrita por Giovanni Boccacccio, impactou fortemente o Ocidente Medieval ao longo do século XIV. Além da expressiva queda demográfica, quais outros elementos são desdobramentos dessa epidemia na sociedade da Baixa Idade Média?