UM PASSO ATRÁS É UM PASSO A MAIS
ser poesia é estar verde in natura
e também brasa lenha fumaça
estar poesia é sorrir fina dureza
eco do segredo, fogaréu da casa
errar na vírgula, escolher a máscara
chorar no mesmo abraço errante
recuar do que sufoca engasga
antes copo cheio, depois um gole d’água
imensa na oferenda, ponte ensina viajante
um passo atrás é um passo a mais
firmamento fundamento voo de quem faz sal
escorrer na pedra que rola há tanto
caminhar de mãos dadas promessa
com afeto medo sangue pulsante
ser poesia é cavalgar incerteza
de quem te ler na escuta silenciosa
e lambe a dúvida mambembe circulante
se pode molhar os pés mergulhar
no fundo da rua minguante, ou boiar
e diluir tudo em um instante
decifrar poesia é mais difícil (talvez
impossível)
porque é patuá, às vezes loucura
onda mistério do que não pode ser dito
por não compreender a geografia do artifício
a exatidão do recém tido
por ser um sopro a lida da vida
por ser um rio a adoçar a maresia
o frio do céu azul daqui o quente daí, da Bahia
em casa cedo a gente aprende
nem todo até logo é despedida,
um passo atrás é um passo a mais
porque é ancoragem
porque é acolhida.
Fonte: DAS MERCÊS, Calila. Um passo atrás é um passo a mais. Revista Piauí, Rio de Janeiro, n. 234, mar. 2026.
Disponível em: https://revistapiaui.pressreader.com/revista-piaui/20260301. Acesso em: 5 mar. 2026.
Nesse texto, a repetição do verso que dá título ao poema apresenta uma ideia paradoxal ao: