MEU CANÁRIO MARECHAL
Era o meu canário uma obra-prima de Deus. Acordava com os seus cantos. Estalava nos gorjeios, vibrava ao sol, com os albores da madrugada. Corria da cama, ia mudar a água de seu cocho, deixava alpiste na gavetinha. A princípio não se acomodava com o calor da cozinha. Depois passava a saltar de um lado para outro, como se estivesse em ginástica matinal. E cantava. Enchia-me a alma aquela maravilha de criação. Os outros pássaros rondavam por perto da sua gaiola, atrás do alpiste que o meu príncipe derramava na sua abundância de lorde. Considerava-me um dono da terra. O meu carneiro Jasmim, do engenho, nem chegava aos pés daquele canário que foi o maior orgulho de menino. O soldado do destacamento parava para escutar os gorjeios. Os presos da cadeia se regalariam com os seus trinados. Até o juiz, quando passava para a casa da Câmara, parava, gozando as maravilhas do meu pássaro. Era meu, todo meu...
Nem as patativas, nem os sabiás lhe chegavam aos pés. Marechal criara fama. Aparecia gente da vila para escutá-lo e ele não se fazia de rogado. Cantava o dia inteiro. À boca da noite os seus trinados se adoçavam. Sentia sem dúvida a ternura da hora e as tristezas do crepúsculo.
(JOSÉ LINS DO REGO. Meus Verdes Anos. Rio de Janeiro, 1957, p. 344/347.)
Assinale a alternativa em que a palavra é acentuada pela mesma razão que “canário”:
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