A escola das incertezas e o mundo do trabalho
Viviane Mosé
Um dos grandes ganhos da contemporaneidade foi uma revolução no modo como julgamos as coisas. Se antes o parâmetro era a verdade, hoje a regra é saber lidar com a instabilidade, com as incertezas. Se nos orgulhávamos de nossos princípios inquebrantáveis, hoje nos vemos, cada vez mais, enredados em perspectivas que cada vez se multiplicam, em novas portas que se abrem. Vivemos, nas últimas duas décadas, uma desintegração dos valores: ninguém mais sabe o que é certo, bom, amigo, masculino, feminino, criança, futuro, corpo, presente, saúde etc. Tudo é sempre provisório, as interpretações multiplicam-se, como camadas. Vivemos uma mudança de meios, uma enxurrada de informações, o mundo vive um processo de instabilidade e incerteza econômica, social, climática, e o modelo educacional vigente nas escolas públicas e privadas, fundado em verdades, em saberes acumulados, sem espaço para a invenção e para a dúvida, não foi preparado para isso. Os altos índices de evasão escolar, o baixo rendimento dos alunos, o desinteresse e a falta de estímulo que atingem a quase todos, o aumento da violência no espaço escolar manifestam a exatidão de estruturas muito antigas e a necessidade de reconstrução. Sem perspectivas diante dos inúmeros desafios do mundo atual, a escola já não satisfaz ninguém: nem alunos, nem professores, nem gestores, nem as cidades, nem o mercado.
A atual escola, a escola das incertezas, nasce especialmente da instabilidade do trabalho e da desvalorização da formação profissional, dadas as inovações tecnológicas que criam sempre novas demandas. Mas ela resulta também de um quadro de instabilidades: climática, econômica, tecnológica, de valores, de meios, de sentidos etc. Especialmente no campo da formação profissional, diz Rui Canário, passamos de uma relação de estabilidade para uma relação de incertezas. Havia previsibilidade quando o que era oferecido na formação profissional se adequava ao mercado de trabalho. Essa estabilidade, que de modo absoluto nunca existiu, deu lugar a uma relação de incertezas. Hoje as mudanças tecnológicas inserem inovações que exigem sempre novos saberes, novas habilidades. O que faz com que durante a vida seja preciso mudar algumas vezes de qualificação e construir novas competências. Além de o imenso volume de conteúdos e conhecimentos disponíveis causar a rápida e inevitável desvalorização dos antigos conteúdos adquiridos e tornar rapidamente obsoleta uma formação universitária, por exemplo. [...]
A escola precisa entender, enfim, que todo conhecimento, toda afirmação, está sujeita a mudanças, que todo saber é provisório. Essa instabilidade no domínio do conhecimento, que antes era marcado por um conjunto de verdades, nos estimula a uma mudança nas relações de poder na escola: se todo saber é provisório, professores e alunos, juntos, devem se dedicar à produção de conhecimento, em vez da relação hierarquizada, na qual o professor detém um corpo de saberes que devem ser transmitidos aos alunos.
Assim como o saber do aluno passa a ser considerado, nessas novas relações a exigência com relação ao conteúdo acumulado do professor também é reduzida: o professor não é aquele que sabe tudo, mas aquele que se interessa por tudo, que se dispõe a conhecer junto com os alunos. Não mais uma escola que ensina – hoje sabemos que ninguém aprende o que de algum modo já não sabia, intuía, percebia -, mas uma escola que aprende e se dedica a criar sempre novas situações de aprendizagem.
A escola e os desafios contemporâneos – Civilização Brasileira – Rio de Janeiro 2014
Considere as afirmações a seguir acerca das ideias abordadas no texto:
I. No início do texto, a afirmação “se antes o parâmetro era a verdade” deixa claro que uma das principais características da atual sociedade é o jogo da mentira, da intriga, da corrupção. Tal fato pôde se comprovar no período eleitoral de 2018, quando as redes sociais foram marcadas por inúmeras notícias fakes sobre os candidatos à Presidência da República.
II. Desintegração de valores, provisoriedade das coisas e enxurrada de informações são fatores, entre outros, que se contrapõem ao modelo educacional vigente, calculado em verdades e em saberes acumulados.
III. As mudanças a que todo conhecimento e toda afirmação estão sujeitos e a provisoriedade do saber, citados no terceiro parágrafo, comprovam a afirmação contida no final do primeiro parágrafo de que “a escola já não satisfaz ninguém....”, o que resulta em altos índices de evasão escolar e baixo rendimento dos alunos.
De acordo com o texto: