Instrução: As questões de números 01 a 10 referem-se ao texto abaixo. Os destaques ao longo do texto estão citados nas questões.
O futuro da cultura na era dos computadores
O professor e especialista em política cultural Teixeira Coelho discute o que pode acontecer com cultura e a arte em um mundo polarizado e dominado pelas novas tecnologias
01 Revista: Com a globalização, imaginamos um mundo em que as culturas regionais
02 seriam soterradas por manifestações de potências como os EUA. No entanto, parece
03 haver um leve renascimento e uma diversificação da identidade cultural. As redes
04 sociais diluíram um pouco dessa influência massificadora?
05 TC: Eu chamo essas redes de antissociais, porque elas promovem a divisão, o ódio e a situação
06 do 50-50, dois grupos que se opõem frontalmente. Temos como exemplos o Brexit, os Estados
07 Unidos e o Brasil.
08 Não sei se houve uma diluição da influência da indústria cultural. Se pesquisarmos serviços de
09 streaming de vídeo, podemos encontrar uma série finlandesa, sueca ou até brasileira, mas a
10 média dos produtos é bastante codificada. Sim, é possível ter uma brecha para manifestações
11 diferentes. Isso aconteceu, por exemplo, com a E. L. James, que escreveu 50 Tons de Cinza. Ela
12 pulou as barreiras da editora, da distribuição, da livraria e da crítica e entrou no mercado. O que
13 nós ganhamos com seus livros eu não sei, mas ela ganhou muito. Não discuto que essas brechas
14 podem vir a ser usadas de maneira criativa, mas não é o que acontece no momento.
15 Todo mundo ficou muito entusiasmado com a internet pela possibilidade de transgredir as
16 barreiras e a censura dos estados, só que isso não aconteceu. s vezes, não temos uma censura
17 política ou religiosa, mas batemos de frente com uma barreira econômica. Ainda estamos na
18 infância desse instrumento novo e sem uma noção clara de para onde vamos. Hoje é possível
19 fazer o seu filme e colocar no YouTube. É fácil. Só não sei se o saldo da iniciativa aponta para a
20 diversificação das manifestações artísticas. A globalização não conseguiu pasteurizar tudo, mas
21 também não temos a liberdade que pensamos que teríamos no início.
22 Revista: A obra de arte vai sobreviver ___ novidades tecnológicas, vai continuar
23 contundente e questionadora ou pode se tornar mais massificada e inócua?
24 TC: A questão é saber se a arte que conhecemos na modernidade da civilização ocidental, crítica
25 e questionadora, vai continuar a existir. O questionamento está sendo cerceado. Um desafio para
26 a arte, por exemplo, é o politicamente correto. Não só a censura exterior continua existindo,
27 mas há também a censura interior do artista. Aquela arte que veio ___ tona no final do século
28 XIX estava livre do Estado, da igreja, dos partidos políticos e do comprador burguês. O pintor
29 Monet, por exemplo, passou a fazer o que queria. Se alguém comprava uma obra dele, ótimo,
30 se não, tudo bem. Ele tinha condições de fazer isso, claro, mas esse tipo de arte, que tem a
31 função de fazer as pessoas pensarem, corre perigo de desaparecer.
32 Os exemplos do que é chamado de arte tecnológica hoje não vão muito além de um passatempo
33 intelectual desenraizado. Os instrumentos tecnológicos atuais não impedem que a arte continue
34 a existir. Mas os primórdios dessa arte digital ou computacional não possuem resultados nem
35 próximos de algo como um Picasso, um Monet, ou a arte dos Estados Unidos dos anos 1960, que
36 era extremamente questionadora.
37 Revista: A maneira como tomamos decisões é cultural. Escolhemos uma coisa porque
38 aprendemos que é melhor ou mais ética do que outra. Uma máquina que toma decisões
39 a partir de conceitos éticos "universais" será capaz de mudar nossa expressão
40 cultural?
41 TC: A maneira como tomamos decisões é realmente uma questão cultural, de hábito. Não
42 existem conceitos universais. E o livre arbítrio do ser humano é ilusão. Hoje, estão oferecendo
43 empregos para quem conseguir "injetar" ética em um algoritmo. O grande problema dessa
44 cultura computacional é que não existe como injetar uma ética de escolha em um algoritmo
45 simplesmente porque a humanidade não é capaz de identificar ou de concordar quanto a seus
46 valores. Não podemos esperar que a cultura computacional resolva um problema que não
47 conseguimos equacionar no nosso dia ___ dia.
48 A maneira como tomamos decisões pode mudar de acordo com nossas origens e com nossa
49 etnia, por exemplo, e uma máquina de inteligência artificial poderá modificar isso. Só que não é
50 algo que vá acontecer rapidamente. Se o mundo tiver tempo para que o processo siga seu curso,
51 e não sei se temos esse tempo pela frente, é possível que haja uma homogeneização. Neste
52 momento, porém, estamos elogiando a diversidade, que significa valores diferentes, conflitos e
53 discórdia. A pergunta é: queremos culturas homogêneas?
(Revista Época – 18/11/2019 - www.revistaepoca.com.br – adaptação.)
Na linha 50, tem-se a ocorrência da locução conjuntiva “para que”. Seu valor semântico indica ______________ e poderia ser substituída por ___________ desde que _____________ alterações no período a fim de que se mantenham a correção gramatical.
Assinale a alternativa que preenche, correta e respectivamente, as lacunas do trecho acima.