A formação de capital humano para a inovação no Brasil
Uma posição popular nos meios acadêmicos é a de que uma educação superior de altíssima qualidade seria uma condição “sine qua non”* para o desenvolvimento. O exemplo seria o papel importante que as grandes universidades nos Estados Unidos têm na inovação.
Essa é uma leitura errada da evidência histórica. Os Estados Unidos já eram, em 1900, a maior potência industrial, enquanto o papel principal de Harvard, Princeton e Yale era dar um verniz cultural para os filhos da classe privilegiada. As universidades americanas só se tornaram as melhores do mundo depois da guerra, após se beneficiarem enormemente dos grandes projetos tecnológicos realizados a partir de 1940, e do grande influxo de cientistas e intelectuais vindos da Europa.
Um processo semelhante ocorre na China, que se tornou uma superpotência econômica, mas que segue enviando centenas de milhares de estudantes aos EUA, à Europa e à Austrália, reconhecendo que suas universidades ainda não estão, em geral, no mesmo nível.
Esses exemplos não são, é claro, evidência de que as universidades devam simplesmente reagir às demandas do sistema produtivo. Como centros de investigação e pesquisa, as universidades, energizadas por aquelas demandas, irão adiante, abrirão novos caminhos.
O que é necessário para inovação, portanto, é um processo de realimentação intenso, entre a economia e o governo, por um lado, e a universidade por outro, nas duas direções.
Essa integração da universidade no processo econômico não ocorreu no Brasil, onde a universidade ainda não está culturalmente orientada para oferecer uma formação que ajude a apontar soluções para os complexos problemas da sociedade contemporânea.
O caminho para um Brasil mais próspero, justo, democrático e ambientalmente saudável requer um investimento acelerado em infraestrutura e, simultaneamente, a expansão e valorização de um ensino e pesquisa de alta qualidade nas nossas universidades.
(Flavio Bartmann. https://www1.folha.uol.com.br/opiniao/. 08.08.2022. Adaptado)
* sine qua non: indispensável.
Assinale a alternativa em que, com a substituição do verbo “reagir”, na frase do 4º parágrafo “... reagir às demandas do sistema produtivo”, o uso da crase permanece em conformidade com a norma-padrão da língua.