Um pé de cedro
Por Adriana Antunes
Aos cinco anos de idade, depois de um passeio que eu e meu pai fazíamos pelo interior,
ganhei dele uma muda de cedro, colhida durante o caminhar. Plantamos no pátio de casa, perto
da rua. Cedro é uma árvore nativa de grande porte, tem um perfume marcante. Três anos
depois, o asfalto chegou ___ nossa rua. Lembro das máquinas, do calor do piche e do barulho.
Mais dois anos e o terreno teve de ser cercado. Meu pai dizia que deixar como estava era muito
perigoso, pois se antes só passava tobata e trator, agora passavam carros, caminhões e todo
tipo de gente. Era melhor fechar tudo. Não foi fácil. Meu pé de cedro ficava bem onde um poste
de luz precisava ser posto.
Lembro que foi uma briga, a qual perdi. A pequena árvore fora cortada antes mesmo de
ter engrossado o tronco. Para compensar, meu pai me deu uma araucária. Ela já existia no
terreno, mas ele disse que eu poderia considerar a árvore como sendo minha. Aceitei, ___ a
contragosto, embora gostasse muito dos pinhões tardios que ela nos ofertava todo ano. Aquela
imensa árvore virou minha confidente, no correr dos anos. Sentava junto dela e lhe contava
do meu dia. Você já teve uma árvore-amiga?
O bairro foi crescendo e finalmente meus pais iriam conseguir construir a casa com que
tanto tinham sonhado. Lembro do meu pai me chamando para conversar, dizendo que era para
que eu ficasse atenta, pois um fiscal viria à nossa casa entregar uma autorização para o corte
do pinheiro. A informação chegou como uma traição. Mas desta vez não briguei, tinha 16 anos
e já me sabia perdedora nesta disputa. Conversei longamente com a araucária e, sim, fui eu
quem recebeu o fiscal.
No dia em que a derrubaram, o bairro parou para assistir. Eu saí de casa logo cedo. Me
neguei a ver a árvore tombar. Ela era minha amiga. Só voltei no final do dia. A cena que não
me abandona é de um céu limpo e enlouquecido pelos pássaros que voavam desnorteados com
a ausência da árvore.
___ anos convivo com árvores sendo derrubadas. Tenho uma infinidade de histórias
tristes para contar. Mas encaro a tristeza como um ato político. É preciso que consigamos nos
entristecer diante da degradação do mundo, em todos os sentidos. Estamos alienados demais
pelo consumo, anestesiados de tanta medicação, ficando cada vez mais imbecis pelo uso da
tecnologia e da IA.
O mundo é um acontecer junto e o modo como nos relacionamos com ele fala da nossa
(in)capacidade de nos responsabilizarmos. Me questiono sobre o modo como tratamos o meio
ambiente. Estamos iludidos, demasiadamente iludidos para achar que a fatura do modo como
tratamos a natureza não vai chegar. Ou já chegou e nem nos demos conta?
(Disponível em: https://gauchazh.clicrbs.com.br/pioneiro/colunistas/adriana-antunes/noticia/2026/06/um-pe-de-cedro-cmqznhwxg00c2015tlwtwlvqp.html – texto adaptado especialmente para esta prova).
Considerando o exposto pelo texto, analise as assertivas a seguir:
I. Não fosse pelos dois últimos parágrafos do texto, seria possível dizer que se trata apenas de uma narrativa breve.
II. Pode-se identificar que o assunto principal do texto é a história da família da autora e a relação deles com as árvores.
III. A relação da autora com os presentes que ganhou do pai teve de ser interrompida em virtude do progresso da cidade e da família.
Quais estão corretas?