4125994
Ano: 2026
Disciplina: Literatura Brasileira e Estrangeira
Banca: IBAM
Orgão: Pref. Armação Búzios-RJ
Disciplina: Literatura Brasileira e Estrangeira
Banca: IBAM
Orgão: Pref. Armação Búzios-RJ
Provas:
TEXTO 2: A LITERATURA E A SOCIEDADE
EXCITADA
O livro de Christoph Türcke intitulado
Sociedade excitada (2010 [2002]), mesmo sem se
referir diretamente ao que se passa hoje nas
escolas, realiza uma leitura do paradigma da
sensação que controla nossas sensibilidades e
aquelas do mercado. Atualmente tem vida
assegurada somente aquilo que excita a percepção
continuamente; deixar de excitar a percepção
significa, nesse esquema, perder pontos na bolsa
de valores dos olhares apenas parcialmente
atentos, e é por isso que só o espetacular pode
sobreviver.
Não por acaso – e não há contradição
alguma nisso –, a sociedade excitada é, ao mesmo
tempo, a sociedade do cansaço, conforme Byung Chul Han observa em seu livro nomeado
justamente Sociedade do cansaço (2015).
Logicamente, o excesso de estímulos nos deixa
cansados e à beira do tédio; diminuir a frequência
de estímulos, contudo, corresponde a correr o risco
de sair de cena. Frente a um mundo
espetacularizado e que não cessa de estimular a
percepção – “ser é ser visto” –, a escola só pode
sobreviver pela via da espetacularização de si.
Celulares, tablets, data shows e outros recursos
imagéticos preenchem os espaços vazios da sala
de aula, a fim de que a vida escolar entre as quatro
paredes se torne suportável ou pelo menos
parecida com o que se passa fora delas. Em vez de
tensionar ou interromper momentaneamente o fluxo
de estímulos e imagens, a escola se entrega a ele
numa tentativa última de ganhar tempo de
sobrevida.
A literatura, entretanto, não emite, não
conecta, não irradia, não estimula e não excita,
pelos menos não nos termos aqui em pauta. A
literatura é uma atividade negativa, que demanda
um tempo incompatível com aquele da sociedade
excitada, da sociedade do cansaço. Para que a
literatura possa de fato existir em sua singularidade,
e não como simulacro, faz-se necessário aquilo que
Fabio Durão (2011) chama de “estratégia de
desaceleração” dos objetos: “Tornar o pensamento
e a interpretação mais lentos é precondição para
que os objetos possam surgir como eles
mesmos...”.
Corretas ou não, essas falas expressam
uma convicção profunda acerca do fato,
aparentemente óbvio, mas hoje sob suspeita, de
que a experiência literária jamais prescinde do
contato direto com as obras literárias, lidas em sua
singularidade. Restituir esse princípio mínimo ao
centro dos debates sobre o lugar do literário nas
instituições de ensino constitui o primeiro passo
para a reavaliação geral da relação entre literatura
e educação.
Efetivar a presença da literatura na escola
significa, então, antes de qualquer outra coisa,
empreender uma violência contra o fluxo contínuo
das coisas, ou melhor, mudar a nossa relação com
o tempo, estabelecer uma atenção aos objetos,
capaz de desacelerar a passagem homogeneizante
de conteúdos e imagens. O tempo que a leitura
literária demanda abriga, simultaneamente, sua
verdadeira potência, mas também sua fragilidade
maior: inserida em uma instituição supostamente
em crise graças ao mundo espetacularizado que
adentrou as suas portas, a literatura, por um lado,
pode fundar uma temporalidade crítica para esse
mundo, permitindo uma outra forma de relação com
os objetos; por outro lado, se desfaz de imediato,
destituída da lentidão que lhe é particular, cedendo
espaço aos dispositivos que convertem todas as
coisas em mercadoria.
ANDRÉ CECHINEL
Adaptado de Revista Pro-Posições, Campinas, v. 29, nº
2, 2018.