Leia um trecho de “A cara do Brasil”, texto escrito pela jornalista Delis Ortiz.
Outro dia, ao chegar ao Rio de Janeiro, tomei um táxi. O motorista extrovertido foi logo puxando papo, de olho no retrovisor.
— A senhora é de Brasília, não é?
— Sim — respondi.
— É, eu a reconheci. E como é que a senhora aguenta conviver com aqueles ladrões lá do Planalto Central? Não deve ser moleza. O sujeito disparou a falar de políticos, do tanto que eles são asquerosos, corruptos. Desfiou um rosário de adjetivos comuns à politicagem nacional.
— Já pensou — disse ele — se uma vez por ano esses homens não roubassem?
— Interessante — a exclamação me escapou aos lábios.
(…)
A interminável corrida já estava me saindo um absurdo… Resolvi pontuar algumas coisas:
(…)
— Veja como são as coisas, seu moço — emendei. O senhor veio de lá aqui destilando a ira de um trabalhador honesto. No entanto, aproveitou-se do fato de eu não saber andar na cidade, empurrou uma bandeirada, andou acima da velocidade permitida, furou sinal, deu voltas, fingiu que me deu o troco certo e diz que não tem nota fiscal! O senhor acha mesmo que os ladrões são aqueles que estão em Brasília? Que diferença há entre o senhor e eles?
O excerto critica