Durante toda a minha vida recebi apenas amor condicional. Desde criança, para me sentir
amada, intuía que precisava “brilhar”. Não sei por qual razão, ou talvez até saiba, nunca me
pareceu que seria amada por ser exatamente quem eu era e, por isso, não media esforços para
superar as expectativas que as pessoas tinham sobre mim. Eu simplesmente não suportava ver
alguém dos meus precisando de algo que eu, ainda que não fosse solicitada, já estava a postos
para oferecer ajuda. De ouvido amigo à pintura de apartamento ou faxina, eu sempre estava
lá. A princípio eu não sabia, mas esse era o meu jeito de me fazer presente e, quem sabe, de
também me sentir amada.
Demorei muitos anos para notar o detalhe mais relevante dessa história que narro: ninguém
pedia. Eu sempre chegava antes do pedido, me antecipando e me fazendo imprescindível ou,
pelo menos, eu acreditava nisso. Foi lendo o livro 'O Ser e o Nada', de Sartre, que notei que eu
era como o garçom que o filósofo descreve no livro.
Sartre narra que, ao observar um garçom em um café parisiense, notou que seus gestos
eram precisos demais: o passo era um pouco apressado, a bandeja era equilibrada com o que o
autor chamou de virtuosismo desnecessário, e a voz solícita demais ao anotar o pedido.
Olhando para a cena, o filósofo se perguntou, afinal, o que aquele homem estava fazendo e
conclui que ele estava brincando de ser garçom. Ele estava representando para si mesmo e para
os demais o garçom ideal, num papel que precisa ser encenado o tempo inteiro, com zelo e com
sobra. Naquele caso, percebeu Sartre, o exagero era a prova de que se tratava de uma atuação.
Me identifiquei nessa narrativa de um modo desconcertante. O meu excesso era o mesmo
do garçom: chegar antes do pedido, antecipar a necessidade, estar a postos sem ser chamada,
nada disso é exigência de quem ajuda, mas sim de quem representa. O ajudar genuíno admite
pausa, ausência e até mesmo dizer não de vez em quando. Mas quem está atuando não pode se
recusar nunca, pois o papel precisa ser reafirmado diariamente diante do olhar dos outros,
senão desmancha. A conclusão, de todo amarga, era que eu não estava apenas ajudando os
meus, mas provando que eu era útil, para eles e para mim. Hoje não quero mais ser amada por
ser útil. Quero ser amada por quem eu sou [...].
CARDOSO, Juraciara Vieira. A vida útil. Estado de Minas. 20/07/2026. Disponível em: https://www.em.com.br/colunistas/vitalidade/2026/07/7463360-a-vida-util.html. Acesso em 12 set. 2026.