Para responder à questão, leia o texto abaixo.
Serena filosofia
Abro a janela na clara manhã de um sábado de verão.
Dois sabiás cantam no galho de uma laranjeira. Tudo o
mais é silêncio. Estendo os olhos para o pomar e vejo os
cães deitados na grama, ern busca de um raio de sol. A
quietude do instante me abraça. Lembro das minhas
amadas tias e um pedaço da infância me visita novamente.
Seus nomes
-
Assunta, Pasquina e Giacomina
-
estão
gravados em mim como um diamante lapidado pelo afeto.
Fomos para elas, eu e minha irmã, filhos nascidos do bem-querer. Bordavam de ternura nossos dias, deixando um
rastro de proteção e amor que persiste.
Quando o dia se levanta, passeio pelo jardim e
encontro as roseiras e os hibiscos florescendo. Um vento
suave faz as plantas parecerem mais vivas ainda. Como no
verso de um velho poeta chinês, é preciso pisar com
cuidado para não matar, involuntariamente, tantas vidas
miúdas que merecem continuar existindo tanto quanto
nós. Evito ocupar-me com atividades rotineiras e deixo-me
simplesmente ser. Ao visitar a biblioteca, abro um livro de
poesia. Eis aqui a primeira refeição para a alma, como se
ela amaciasse os problemas reais ou imaginários. Afastado
da ansiedade, pertenço ao momento que me habita.
Penso em Buda, em Jesus... seres que alcançaram um alto
patamar de consciência. Fico em sua companhia até me
chamarem para cumprir uma tarefa de ordem cotidiana.
Amigos me perguntam se sou feliz e respondo sem
pestanejar: sim, como se isso fosse uma condição natural
do humano. Estar imerso nela significa vigília permanente
para arrancar a erva daninha da vaidade, do desejo pelo
poder e da incapacidade de ver o outro como um igual em
meio a um mundo de competição desenfreada. Extraio
beleza no milagre de sentir-se bem no corpo e na mente.
A memória salva da ferrugem me faz acolher mentalmente
cada ser do planeta. Os que estão proximos e também os
que voltaram a se integrar ao todo. O Eu, tão enganoso,
representa a falsa verdade da separação. Assim, morrer
não é algo ruim, mas apenas o retorno de onde ignoro ter
vindo.
A tarde vai se debruçando, vestindo de sombras as
bromélias e as íris. Caminhar me deixa entorpecido de
alegria. Em meio ao bosque, observo com atenção os
troncos antigos das árvores. Eles são nutridos pela seiva
circulando em seu interior. Como nós pelo sangue. Tudo
se esforça para perseverar. A vontade de ser, como uma
espécie de revolta contra o inevitável fim Luta vã, pois
necessitamos ceder lugar para o novo.
Instalo-me dentro da noite banhado pela gratidão.
Um filme, uma xícara de café com leite, o sono me
espiando entre os lençóis macios. A eternidade do agora.
A serena filosofia que me guarda na palma de suas mãos.
Desconheço a orfandade. Sou uma multidão.
Autor: Gilmar Marcílio GZH (adaptado).
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