Magna Concursos

Foram encontradas 90 questões.

4151288 Ano: 2026
Disciplina: Português
Banca: UERJ
Orgão: CBM-RJ

Considere o texto a seguir para responder a questão

 

TEXTO II

 

O ARQUIVO

 

No fim de um ano de trabalho, joão obteve uma redução de quinze por cento em seus vencimentos.

 

João era moço. Aquele era seu primeiro emprego. Não se mostrou orgulhoso, embora tenha sido um dos poucos contemplados. Afinal, esforçara-se. Não tivera uma só falta ou atraso. Limitou-se a sorrir, a agradecer ao chefe.

 

No dia seguinte, mudou-se para um quarto mais distante do centro da cidade. Com o salário reduzido, podia pagar um aluguel menor.

 

Passou a tomar duas conduções para chegar ao trabalho. No entanto, estava satisfeito. Acordava mais cedo, e isto parecia aumentar-lhe a disposição.

 

Dois anos mais tarde, veio outra recompensa.

 

O chefe chamou-o e lhe comunicou o segundo corte salarial.

 

Desta vez, a empresa atravessava um período excelente. A redução foi um pouco maior: dezessete por cento.

 

Novos sorrisos, novos agradecimentos, nova mudança.

 

Agora joão acordava às cinco da manhã. Esperava três conduções. Em compensação, comia menos. Ficou mais esbelto. Sua pele tornou-se menos rosada. O contentamento aumentou.

 

Prosseguiu a luta.

 

Porém, nos quatro anos seguintes, nada de extraordinário aconteceu.

 

João preocupava-se. Perdia o sono, envenenado em intrigas de colegas invejosos. Odiava-os. Torturava-se com a incompreensão do chefe. Mas não desistia. Passou a trabalhar mais duas horas diárias.

 

Uma tarde, quase ao fim do expediente, foi chamado ao escritório principal.

 

Respirou descompassado.

 

– Seu joão. Nossa firma tem uma grande dívida com o senhor.

 

João baixou a cabeça em sinal de modéstia.

 

– Sabemos de todos os seus esforços. É nosso desejo dar-lhe uma prova substancial de nosso reconhecimento.

 

O coração parava.

 

– Além de uma redução de dezesseis por cento em seu ordenado, resolvemos, na reunião de ontem, rebaixá-lo de posto.

 

A revelação deslumbrou-o. Todos sorriam.

 

– De hoje em diante, o senhor passará a auxiliar de contabilidade, com menos cinco dias de férias. Contente?

 

Radiante, joão gaguejou alguma coisa ininteligível, cumprimentou a diretoria, voltou ao trabalho.

 

Nesta noite, joão não pensou em nada. Dormiu pacífico, no silêncio do subúrbio.

 

Mais uma vez, mudou-se. Finalmente, deixara de jantar. O almoço reduziu-se a um sanduíche. Emagrecia, sentia-se mais leve, mais ágil. Não havia necessidade de muita roupa. Eliminara certas despesas inúteis, lavadeira, pensão.

 

Chegava em casa às onze da noite, levantava-se às três da madrugada. Esfarelava-se num trem e dois ônibus para garantir meia hora de antecedência.

 

A vida foi passando, com novos prêmios.

 

Aos sessenta anos, o ordenado equivalia a dois por cento do inicial. O organismo acomodara-se à fome. Uma vez ou outra, saboreava alguma raiz das estradas. Dormia apenas quinze minutos. Não tinha mais problemas de moradia ou vestimenta. Vivia nos campos, entre árvores refrescantes, cobria-se com os farrapos de um lençol adquirido há muito tempo.

 

O corpo era um monte de rugas sorridentes.

 

Todos os dias, um caminhão anônimo transportava-o ao trabalho.

 

Quando completou quarenta anos de serviço, foi convocado pela chefia:

 

– Seu joão. O senhor acaba de ter seu salário eliminado. Não haverá mais férias. E sua função, a partir de amanhã, será a de limpador de nossos sanitários.

 

O crânio seco comprimiu-se. Do olho amarelado, escorreu um líquido tênue. A boca tremeu, mas nada disse. Sentia-se cansado. Enfim, atingira todos os objetivos. Tentou sorrir:

 

– Agradeço tudo que fizeram em meu benefício. Mas desejo requerer minha aposentadoria.

 

O chefe não compreendeu:

 

– Mas seu joão, logo agora que o senhor está desassalariado? Por quê? Dentro de alguns meses terá de pagar a taxa inicial para permanecer em nosso quadro. Desprezar tudo isto? Quarenta anos de convívio? O senhor ainda está forte. Que acha?

 

A emoção impediu qualquer resposta.

 

João afastou-se. O lábio murcho se estendeu. A pele enrijeceu, ficou lisa. A estatura regrediu. A cabeça se fundiu ao corpo. As formas desumanizaram-se, planas, compactas. Nos lados, havia duas arestas. Tornou-se cinzento.

 

João transformou-se num arquivo de metal.

 

VICTOR GIUDICE (1972) Em: MORICONI, Ítalo (org.). Os cem

melhores contos brasileiros do século. Rio de Janeiro: Objetiva, 2000.

 

A noção semântica de propósito está expressa por meio de um verbo em:

 

Provas

Questão presente nas seguintes provas
4151287 Ano: 2026
Disciplina: Português
Banca: UERJ
Orgão: CBM-RJ

Considere o texto a seguir para responder a questão

 

TEXTO II

 

O ARQUIVO

 

No fim de um ano de trabalho, joão obteve uma redução de quinze por cento em seus vencimentos.

 

João era moço. Aquele era seu primeiro emprego. Não se mostrou orgulhoso, embora tenha sido um dos poucos contemplados. Afinal, esforçara-se. Não tivera uma só falta ou atraso. Limitou-se a sorrir, a agradecer ao chefe.

 

No dia seguinte, mudou-se para um quarto mais distante do centro da cidade. Com o salário reduzido, podia pagar um aluguel menor.

 

Passou a tomar duas conduções para chegar ao trabalho. No entanto, estava satisfeito. Acordava mais cedo, e isto parecia aumentar-lhe a disposição.

 

Dois anos mais tarde, veio outra recompensa.

 

O chefe chamou-o e lhe comunicou o segundo corte salarial.

 

Desta vez, a empresa atravessava um período excelente. A redução foi um pouco maior: dezessete por cento.

 

Novos sorrisos, novos agradecimentos, nova mudança.

 

Agora joão acordava às cinco da manhã. Esperava três conduções. Em compensação, comia menos. Ficou mais esbelto. Sua pele tornou-se menos rosada. O contentamento aumentou.

 

Prosseguiu a luta.

 

Porém, nos quatro anos seguintes, nada de extraordinário aconteceu.

 

João preocupava-se. Perdia o sono, envenenado em intrigas de colegas invejosos. Odiava-os. Torturava-se com a incompreensão do chefe. Mas não desistia. Passou a trabalhar mais duas horas diárias.

 

Uma tarde, quase ao fim do expediente, foi chamado ao escritório principal.

 

Respirou descompassado.

 

– Seu joão. Nossa firma tem uma grande dívida com o senhor.

 

João baixou a cabeça em sinal de modéstia.

 

– Sabemos de todos os seus esforços. É nosso desejo dar-lhe uma prova substancial de nosso reconhecimento.

 

O coração parava.

 

– Além de uma redução de dezesseis por cento em seu ordenado, resolvemos, na reunião de ontem, rebaixá-lo de posto.

 

A revelação deslumbrou-o. Todos sorriam.

 

– De hoje em diante, o senhor passará a auxiliar de contabilidade, com menos cinco dias de férias. Contente?

 

Radiante, joão gaguejou alguma coisa ininteligível, cumprimentou a diretoria, voltou ao trabalho.

 

Nesta noite, joão não pensou em nada. Dormiu pacífico, no silêncio do subúrbio.

 

Mais uma vez, mudou-se. Finalmente, deixara de jantar. O almoço reduziu-se a um sanduíche. Emagrecia, sentia-se mais leve, mais ágil. Não havia necessidade de muita roupa. Eliminara certas despesas inúteis, lavadeira, pensão.

 

Chegava em casa às onze da noite, levantava-se às três da madrugada. Esfarelava-se num trem e dois ônibus para garantir meia hora de antecedência.

 

A vida foi passando, com novos prêmios.

 

Aos sessenta anos, o ordenado equivalia a dois por cento do inicial. O organismo acomodara-se à fome. Uma vez ou outra, saboreava alguma raiz das estradas. Dormia apenas quinze minutos. Não tinha mais problemas de moradia ou vestimenta. Vivia nos campos, entre árvores refrescantes, cobria-se com os farrapos de um lençol adquirido há muito tempo.

 

O corpo era um monte de rugas sorridentes.

 

Todos os dias, um caminhão anônimo transportava-o ao trabalho.

 

Quando completou quarenta anos de serviço, foi convocado pela chefia:

 

– Seu joão. O senhor acaba de ter seu salário eliminado. Não haverá mais férias. E sua função, a partir de amanhã, será a de limpador de nossos sanitários.

 

O crânio seco comprimiu-se. Do olho amarelado, escorreu um líquido tênue. A boca tremeu, mas nada disse. Sentia-se cansado. Enfim, atingira todos os objetivos. Tentou sorrir:

 

– Agradeço tudo que fizeram em meu benefício. Mas desejo requerer minha aposentadoria.

 

O chefe não compreendeu:

 

– Mas seu joão, logo agora que o senhor está desassalariado? Por quê? Dentro de alguns meses terá de pagar a taxa inicial para permanecer em nosso quadro. Desprezar tudo isto? Quarenta anos de convívio? O senhor ainda está forte. Que acha?

 

A emoção impediu qualquer resposta.

 

João afastou-se. O lábio murcho se estendeu. A pele enrijeceu, ficou lisa. A estatura regrediu. A cabeça se fundiu ao corpo. As formas desumanizaram-se, planas, compactas. Nos lados, havia duas arestas. Tornou-se cinzento.

 

João transformou-se num arquivo de metal.

 

VICTOR GIUDICE (1972) Em: MORICONI, Ítalo (org.). Os cem

melhores contos brasileiros do século. Rio de Janeiro: Objetiva, 2000.

 

No texto II, observa-se a predominância de períodos simples.

 

Essa predominância pode ser associada ao seguinte aspecto da vida do personagem central:

 

Provas

Questão presente nas seguintes provas
4151286 Ano: 2026
Disciplina: Português
Banca: UERJ
Orgão: CBM-RJ

Considere o texto a seguir para responder a questão

TEXTO II 

O ARQUIVO 

No fim de um ano de trabalho, joão obteve uma redução de quinze por cento em seus vencimentos. 

João era moço. Aquele era seu primeiro emprego. Não se mostrou orgulhoso, embora tenha sido um dos poucos contemplados. Afinal, esforçara-se. Não tivera uma só falta ou atraso. Limitou-se a sorrir, a agradecer ao chefe. 

No dia seguinte, mudou-se para um quarto mais distante do centro da cidade. Com o salário reduzido, podia pagar um aluguel menor. 

Passou a tomar duas conduções para chegar ao trabalho. No entanto, estava satisfeito. Acordava mais cedo, e isto parecia aumentar-lhe a disposição. 

Dois anos mais tarde, veio outra recompensa. 

O chefe chamou-o e lhe comunicou o segundo corte salarial. 

Desta vez, a empresa atravessava um período excelente. A redução foi um pouco maior: dezessete por cento. 

Novos sorrisos, novos agradecimentos, nova mudança. 

Agora joão acordava às cinco da manhã. Esperava três conduções. Em compensação, comia menos. Ficou mais esbelto. Sua pele tornou-se menos rosada. O contentamento aumentou. 

Prosseguiu a luta. 

Porém, nos quatro anos seguintes, nada de extraordinário aconteceu. 

João preocupava-se. Perdia o sono, envenenado em intrigas de colegas invejosos. Odiava-os. Torturava-se com a incompreensão do chefe. Mas não desistia. Passou a trabalhar mais duas horas diárias. 

Uma tarde, quase ao fim do expediente, foi chamado ao escritório principal. 

Respirou descompassado. 

– Seu joão. Nossa firma tem uma grande dívida com o senhor. 

João baixou a cabeça em sinal de modéstia. 

– Sabemos de todos os seus esforços. É nosso desejo dar-lhe uma prova substancial de nosso reconhecimento. 

O coração parava. 

– Além de uma redução de dezesseis por cento em seu ordenado, resolvemos, na reunião de ontem, rebaixá-lo de posto. 

A revelação deslumbrou-o. Todos sorriam. 

– De hoje em diante, o senhor passará a auxiliar de contabilidade, com menos cinco dias de férias. Contente? 

Radiante, joão gaguejou alguma coisa ininteligível, cumprimentou a diretoria, voltou ao trabalho. 

Nesta noite, joão não pensou em nada. Dormiu pacífico, no silêncio do subúrbio. 

Mais uma vez, mudou-se. Finalmente, deixara de jantar. O almoço reduziu-se a um sanduíche. Emagrecia, sentia-se mais leve, mais ágil. Não havia necessidade de muita roupa. Eliminara certas despesas inúteis, lavadeira, pensão. 

Chegava em casa às onze da noite, levantava-se às três da madrugada. Esfarelava-se num trem e dois ônibus para garantir meia hora de antecedência. 

A vida foi passando, com novos prêmios. 

Aos sessenta anos, o ordenado equivalia a dois por cento do inicial. O organismo acomodara-se à fome. Uma vez ou outra, saboreava alguma raiz das estradas. Dormia apenas quinze minutos. Não tinha mais problemas de moradia ou vestimenta. Vivia nos campos, entre árvores refrescantes, cobria-se com os farrapos de um lençol adquirido há muito tempo. 

O corpo era um monte de rugas sorridentes. 

Todos os dias, um caminhão anônimo transportava-o ao trabalho. 

Quando completou quarenta anos de serviço, foi convocado pela chefia: 

– Seu joão. O senhor acaba de ter seu salário eliminado. Não haverá mais férias. E sua função, a partir de amanhã, será a de limpador de nossos sanitários. 

O crânio seco comprimiu-se. Do olho amarelado, escorreu um líquido tênue. A boca tremeu, mas nada disse. Sentia-se cansado. Enfim, atingira todos os objetivos. Tentou sorrir: 

– Agradeço tudo que fizeram em meu benefício. Mas desejo requerer minha aposentadoria. 

O chefe não compreendeu: 

– Mas seu joão, logo agora que o senhor está desassalariado? Por quê? Dentro de alguns meses terá de pagar a taxa inicial para permanecer em nosso quadro. Desprezar tudo isto? Quarenta anos de convívio? O senhor ainda está forte. Que acha? 

A emoção impediu qualquer resposta. 

João afastou-se. O lábio murcho se estendeu. A pele enrijeceu, ficou lisa. A estatura regrediu. A cabeça se fundiu ao corpo. As formas desumanizaram-se, planas, compactas. Nos lados, havia duas arestas. Tornou-se cinzento. 

João transformou-se num arquivo de metal. 

VICTOR GIUDICE (1972) Em: MORICONI, Ítalo (org.). Os cem melhores contos brasileiros do século. Rio de Janeiro: Objetiva, 2000.

Agora joão acordava às cinco da manhã. Esperava três conduções.

No trecho, as formas verbais encontram-se no pretérito imperfeito do modo indicativo, expressando a noção de:

 

Provas

Questão presente nas seguintes provas
4151285 Ano: 2026
Disciplina: Português
Banca: UERJ
Orgão: CBM-RJ

Considere o texto a seguir para responder a questão

TEXTO II 

O ARQUIVO 

No fim de um ano de trabalho, joão obteve uma redução de quinze por cento em seus vencimentos. 

João era moço. Aquele era seu primeiro emprego. Não se mostrou orgulhoso, embora tenha sido um dos poucos contemplados. Afinal, esforçara-se. Não tivera uma só falta ou atraso. Limitou-se a sorrir, a agradecer ao chefe. 

No dia seguinte, mudou-se para um quarto mais distante do centro da cidade. Com o salário reduzido, podia pagar um aluguel menor. 

Passou a tomar duas conduções para chegar ao trabalho. No entanto, estava satisfeito. Acordava mais cedo, e isto parecia aumentar-lhe a disposição. 

Dois anos mais tarde, veio outra recompensa. 

O chefe chamou-o e lhe comunicou o segundo corte salarial. 

Desta vez, a empresa atravessava um período excelente. A redução foi um pouco maior: dezessete por cento. 

Novos sorrisos, novos agradecimentos, nova mudança. 

Agora joão acordava às cinco da manhã. Esperava três conduções. Em compensação, comia menos. Ficou mais esbelto. Sua pele tornou-se menos rosada. O contentamento aumentou. 

Prosseguiu a luta. 

Porém, nos quatro anos seguintes, nada de extraordinário aconteceu. 

João preocupava-se. Perdia o sono, envenenado em intrigas de colegas invejosos. Odiava-os. Torturava-se com a incompreensão do chefe. Mas não desistia. Passou a trabalhar mais duas horas diárias. 

Uma tarde, quase ao fim do expediente, foi chamado ao escritório principal. 

Respirou descompassado. 

– Seu joão. Nossa firma tem uma grande dívida com o senhor. 

João baixou a cabeça em sinal de modéstia. 

– Sabemos de todos os seus esforços. É nosso desejo dar-lhe uma prova substancial de nosso reconhecimento. 

O coração parava. 

– Além de uma redução de dezesseis por cento em seu ordenado, resolvemos, na reunião de ontem, rebaixá-lo de posto. 

A revelação deslumbrou-o. Todos sorriam. 

– De hoje em diante, o senhor passará a auxiliar de contabilidade, com menos cinco dias de férias. Contente? 

Radiante, joão gaguejou alguma coisa ininteligível, cumprimentou a diretoria, voltou ao trabalho. 

Nesta noite, joão não pensou em nada. Dormiu pacífico, no silêncio do subúrbio. 

Mais uma vez, mudou-se. Finalmente, deixara de jantar. O almoço reduziu-se a um sanduíche. Emagrecia, sentia-se mais leve, mais ágil. Não havia necessidade de muita roupa. Eliminara certas despesas inúteis, lavadeira, pensão. 

Chegava em casa às onze da noite, levantava-se às três da madrugada. Esfarelava-se num trem e dois ônibus para garantir meia hora de antecedência. 

A vida foi passando, com novos prêmios. 

Aos sessenta anos, o ordenado equivalia a dois por cento do inicial. O organismo acomodara-se à fome. Uma vez ou outra, saboreava alguma raiz das estradas. Dormia apenas quinze minutos. Não tinha mais problemas de moradia ou vestimenta. Vivia nos campos, entre árvores refrescantes, cobria-se com os farrapos de um lençol adquirido há muito tempo. 

O corpo era um monte de rugas sorridentes. 

Todos os dias, um caminhão anônimo transportava-o ao trabalho. 

Quando completou quarenta anos de serviço, foi convocado pela chefia: 

– Seu joão. O senhor acaba de ter seu salário eliminado. Não haverá mais férias. E sua função, a partir de amanhã, será a de limpador de nossos sanitários. 

O crânio seco comprimiu-se. Do olho amarelado, escorreu um líquido tênue. A boca tremeu, mas nada disse. Sentia-se cansado. Enfim, atingira todos os objetivos. Tentou sorrir: 

– Agradeço tudo que fizeram em meu benefício. Mas desejo requerer minha aposentadoria. 

O chefe não compreendeu: 

– Mas seu joão, logo agora que o senhor está desassalariado? Por quê? Dentro de alguns meses terá de pagar a taxa inicial para permanecer em nosso quadro. Desprezar tudo isto? Quarenta anos de convívio? O senhor ainda está forte. Que acha? 

A emoção impediu qualquer resposta. 

João afastou-se. O lábio murcho se estendeu. A pele enrijeceu, ficou lisa. A estatura regrediu. A cabeça se fundiu ao corpo. As formas desumanizaram-se, planas, compactas. Nos lados, havia duas arestas. Tornou-se cinzento. 

João transformou-se num arquivo de metal. 

VICTOR GIUDICE (1972) Em: MORICONI, Ítalo (org.). Os cem melhores contos brasileiros do século. Rio de Janeiro: Objetiva, 2000.

O nome do personagem central é grafado com a inicial em minúscula, mesmo no início dos períodos, o que revela um índice do processo de transformação por que passa o personagem.

Esse processo é denominado:

 

Provas

Questão presente nas seguintes provas
4151284 Ano: 2026
Disciplina: Português
Banca: UERJ
Orgão: CBM-RJ

Considere os textos I e II para responder a questão

 

TEXTO I

 

POR QUE O EMPREGADO AGORA É COLABORADOR?

 

A estreia da segunda temporada da magnífica série “Ruptura” nos dá a oportunidade de refletir sobre o mais bem-sucedido eufemismo corporativo do nosso tempo: “colaborador”.

 

Na comédia distópica dirigida por Ben Stiller, a poderosa Lumon, empresa-polvo de estética fascista, mantém um departamento em que empregados se submetem voluntariamente a um experimento radical de alienação do trabalho. Por meio do implante de um chip cerebral, têm suas memórias bifurcadas: fora da empresa, nada sabem do que fazem lá dentro; quando estão dentro, ignoram a vida que levam fora. São os colaboradores perfeitos.

 

No mundo em que o chip da Lumon ainda não existe (que se saiba), cabe à linguagem o mesmo trabalho. Em sites uníssonos, a velha turma do setor de Recursos Humanos – também renomeado para “gestão de pessoas” – explica que a palavra empregado tornou-se arcaica. Empresas modernas contratam colaboradores.

 

Um parêntese: a CLT (Consolidação das Leis do Trabalho) continua a chamar de empregado quem, não detendo meios de produção, trabalha em troca de salário. Claro que para os gurus do colaboracionismo, interessados em sucatear a CLT, isso só atesta a beleza de sua “novilíngua”. Cito um desses manuais:

 

“Enquanto o empregado, em dias atuais, chega na empresa, faz o seu trabalho e vai embora, o colaborador tem a consciência da sua importância na organização, possui uma visão sistêmica do seu setor ou da empresa como um todo, incluindo suas metas e objetivos, e não mede esforços para ‘colaborar’ com isso”. Ênfase em “não mede esforços”!

 

Não se chegou de um dia para o outro a esse nível de cinismo no mascaramento da natureza dos contratos de trabalho firmados entre partes desiguais – patrões de um lado, empregados do outro. O percurso linguístico rumo ao colaborador incluiu um estágio em que se favoreceu a palavra funcionário (por tradição mais usada para o empregado do setor público) e até desvios burlescos como o de chamar empregadas domésticas de secretárias.

 

Também é parte desse fenômeno a onda de eufemização que varreu o mundo de meio século para cá – puxada, nesse caso, por setores progressistas da sociedade. Hoje em dia, a menos que você seja um ogro de extrema direita, é bem difícil contestar a ideia de que acolchoar os atritos da realidade com palavras bonitas – substituindo “mendigo” por “pessoa em situação de rua”, por exemplo – melhora a vida das pessoas. Mesmo que elas continuem sem ter onde morar.

 

O eufemismo pode ser um aliado do processo civilizatório, como prova a sacada brilhante do primeiro hominídeo que anunciou que iria “dar um pulo ali na moita”. Pode também ser – o que talvez seja mais frequente – pura embromação. É preciso examinar caso a caso. O eufemismo da atual consagração de colaborador como sinônimo preferível de empregado está claramente a serviço do desmonte de um aparato histórico de proteção dos direitos dos trabalhadores.

 

Ainda melhor do que ser colaborador, claro, é dar dinheiro para um coach e virar “empreendedor individual”. Mas esse chip os laboratórios da Lumon ainda estão aperfeiçoando. Deve ficar para a terceira temporada.

 

SÉRGIO RODRIGUES Adaptado de folha.uol.com.br, 15/01/2025.

 

TEXTO II

 

O ARQUIVO

 

No fim de um ano de trabalho, joão obteve uma redução de quinze por cento em seus vencimentos.

 

João era moço. Aquele era seu primeiro emprego. Não se mostrou orgulhoso, embora tenha sido um dos poucos contemplados. Afinal, esforçara-se. Não tivera uma só falta ou atraso. Limitou-se a sorrir, a agradecer ao chefe.

 

No dia seguinte, mudou-se para um quarto mais distante do centro da cidade. Com o salário reduzido, podia pagar um aluguel menor.

 

Passou a tomar duas conduções para chegar ao trabalho. No entanto, estava satisfeito. Acordava mais cedo, e isto parecia aumentar-lhe a disposição.

 

Dois anos mais tarde, veio outra recompensa.

 

O chefe chamou-o e lhe comunicou o segundo corte salarial.

 

Desta vez, a empresa atravessava um período excelente. A redução foi um pouco maior: dezessete por cento.

 

Novos sorrisos, novos agradecimentos, nova mudança.

 

Agora joão acordava às cinco da manhã. Esperava três conduções. Em compensação, comia menos. Ficou mais esbelto. Sua pele tornou-se menos rosada. O contentamento aumentou.

 

Prosseguiu a luta.

 

Porém, nos quatro anos seguintes, nada de extraordinário aconteceu.

 

João preocupava-se. Perdia o sono, envenenado em intrigas de colegas invejosos. Odiava-os. Torturava-se com a incompreensão do chefe. Mas não desistia. Passou a trabalhar mais duas horas diárias.

 

Uma tarde, quase ao fim do expediente, foi chamado ao escritório principal.

 

Respirou descompassado.

 

– Seu joão. Nossa firma tem uma grande dívida com o senhor.

 

João baixou a cabeça em sinal de modéstia.

 

– Sabemos de todos os seus esforços. É nosso desejo dar-lhe uma prova substancial de nosso reconhecimento.

 

O coração parava.

 

– Além de uma redução de dezesseis por cento em seu ordenado, resolvemos, na reunião de ontem, rebaixá-lo de posto.

 

A revelação deslumbrou-o. Todos sorriam.

 

– De hoje em diante, o senhor passará a auxiliar de contabilidade, com menos cinco dias de férias. Contente?

 

Radiante, joão gaguejou alguma coisa ininteligível, cumprimentou a diretoria, voltou ao trabalho.

 

Nesta noite, joão não pensou em nada. Dormiu pacífico, no silêncio do subúrbio.

 

Mais uma vez, mudou-se. Finalmente, deixara de jantar. O almoço reduziu-se a um sanduíche. Emagrecia, sentia-se mais leve, mais ágil. Não havia necessidade de muita roupa. Eliminara certas despesas inúteis, lavadeira, pensão.

 

Chegava em casa às onze da noite, levantava-se às três da madrugada. Esfarelava-se num trem e dois ônibus para garantir meia hora de antecedência.

 

A vida foi passando, com novos prêmios.

 

Aos sessenta anos, o ordenado equivalia a dois por cento do inicial. O organismo acomodara-se à fome. Uma vez ou outra, saboreava alguma raiz das estradas. Dormia apenas quinze minutos. Não tinha mais problemas de moradia ou vestimenta. Vivia nos campos, entre árvores refrescantes, cobria-se com os farrapos de um lençol adquirido há muito tempo.

 

O corpo era um monte de rugas sorridentes.

 

Todos os dias, um caminhão anônimo transportava-o ao trabalho.

 

Quando completou quarenta anos de serviço, foi convocado pela chefia:

 

– Seu joão. O senhor acaba de ter seu salário eliminado. Não haverá mais férias. E sua função, a partir de amanhã, será a de limpador de nossos sanitários.

 

O crânio seco comprimiu-se. Do olho amarelado, escorreu um líquido tênue. A boca tremeu, mas nada disse. Sentia-se cansado. Enfim, atingira todos os objetivos. Tentou sorrir:

 

– Agradeço tudo que fizeram em meu benefício. Mas desejo requerer minha aposentadoria.

 

O chefe não compreendeu:

 

– Mas seu joão, logo agora que o senhor está desassalariado? Por quê? Dentro de alguns meses terá de pagar a taxa inicial para permanecer em nosso quadro. Desprezar tudo isto? Quarenta anos de convívio? O senhor ainda está forte. Que acha?

 

A emoção impediu qualquer resposta.

 

João afastou-se. O lábio murcho se estendeu. A pele enrijeceu, ficou lisa. A estatura regrediu. A cabeça se fundiu ao corpo. As formas desumanizaram-se, planas, compactas. Nos lados, havia duas arestas. Tornou-se cinzento.

 

João transformou-se num arquivo de metal.

 

VICTOR GIUDICE (1972) Em: MORICONI, Ítalo (org.). Os cem

melhores contos brasileiros do século. Rio de Janeiro: Objetiva, 2000.

 

Os títulos dos textos I e II apontam para abordagens diferentes de um mesmo tema. No primeiro, o título resume a tese principal. No segundo, o substantivo que compõe o título remete à conclusão final.

 

Esse substantivo expressa a seguinte figura de linguagem:

 

Provas

Questão presente nas seguintes provas
4151283 Ano: 2026
Disciplina: Português
Banca: UERJ
Orgão: CBM-RJ

Considere o texto a seguir para responder a questão

 

TEXTO I

 

POR QUE O EMPREGADO AGORA É COLABORADOR?

 

A estreia da segunda temporada da magnífica série “Ruptura” nos dá a oportunidade de refletir sobre o mais bem-sucedido eufemismo corporativo do nosso tempo: “colaborador”.

 

Na comédia distópica dirigida por Ben Stiller, a poderosa Lumon, empresa-polvo de estética fascista, mantém um departamento em que empregados se submetem voluntariamente a um experimento radical de alienação do trabalho. Por meio do implante de um chip cerebral, têm suas memórias bifurcadas: fora da empresa, nada sabem do que fazem lá dentro; quando estão dentro, ignoram a vida que levam fora. São os colaboradores perfeitos.

 

No mundo em que o chip da Lumon ainda não existe (que se saiba), cabe à linguagem o mesmo trabalho. Em sites uníssonos, a velha turma do setor de Recursos Humanos – também renomeado para “gestão de pessoas” – explica que a palavra empregado tornou-se arcaica. Empresas modernas contratam colaboradores.

 

Um parêntese: a CLT (Consolidação das Leis do Trabalho) continua a chamar de empregado quem, não detendo meios de produção, trabalha em troca de salário. Claro que para os gurus do colaboracionismo, interessados em sucatear a CLT, isso só atesta a beleza de sua “novilíngua”. Cito um desses manuais:

 

“Enquanto o empregado, em dias atuais, chega na empresa, faz o seu trabalho e vai embora, o colaborador tem a consciência da sua importância na organização, possui uma visão sistêmica do seu setor ou da empresa como um todo, incluindo suas metas e objetivos, e não mede esforços para ‘colaborar’ com isso”. Ênfase em “não mede esforços”!

 

Não se chegou de um dia para o outro a esse nível de cinismo no mascaramento da natureza dos contratos de trabalho firmados entre partes desiguais – patrões de um lado, empregados do outro. O percurso linguístico rumo ao colaborador incluiu um estágio em que se favoreceu a palavra funcionário (por tradição mais usada para o empregado do setor público) e até desvios burlescos como o de chamar empregadas domésticas de secretárias.

 

Também é parte desse fenômeno a onda de eufemização que varreu o mundo de meio século para cá – puxada, nesse caso, por setores progressistas da sociedade. Hoje em dia, a menos que você seja um ogro de extrema direita, é bem difícil contestar a ideia de que acolchoar os atritos da realidade com palavras bonitas – substituindo “mendigo” por “pessoa em situação de rua”, por exemplo – melhora a vida das pessoas. Mesmo que elas continuem sem ter onde morar.

 

O eufemismo pode ser um aliado do processo civilizatório, como prova a sacada brilhante do primeiro hominídeo que anunciou que iria “dar um pulo ali na moita”. Pode também ser – o que talvez seja mais frequente – pura embromação. É preciso examinar caso a caso. O eufemismo da atual consagração de colaborador como sinônimo preferível de empregado está claramente a serviço do desmonte de um aparato histórico de proteção dos direitos dos trabalhadores.

 

Ainda melhor do que ser colaborador, claro, é dar dinheiro para um coach e virar “empreendedor individual”. Mas esse chip os laboratórios da Lumon ainda estão aperfeiçoando. Deve ficar para a terceira temporada.

 

SÉRGIO RODRIGUES Adaptado de folha.uol.com.br, 15/01/2025.

 

Os adjetivos, ao determinarem o substantivo, podem expressar valores mais opinativos ou mais descritivos.

 

O adjetivo de natureza essencialmente descritiva está destacado em:

 

Provas

Questão presente nas seguintes provas
4151282 Ano: 2026
Disciplina: Português
Banca: UERJ
Orgão: CBM-RJ

Considere o texto a seguir para responder a questão

 

TEXTO I

 

POR QUE O EMPREGADO AGORA É COLABORADOR?

 

A estreia da segunda temporada da magnífica série “Ruptura” nos dá a oportunidade de refletir sobre o mais bem-sucedido eufemismo corporativo do nosso tempo: “colaborador”.

 

Na comédia distópica dirigida por Ben Stiller, a poderosa Lumon, empresa-polvo de estética fascista, mantém um departamento em que empregados se submetem voluntariamente a um experimento radical de alienação do trabalho. Por meio do implante de um chip cerebral, têm suas memórias bifurcadas: fora da empresa, nada sabem do que fazem lá dentro; quando estão dentro, ignoram a vida que levam fora. São os colaboradores perfeitos.

 

No mundo em que o chip da Lumon ainda não existe (que se saiba), cabe à linguagem o mesmo trabalho. Em sites uníssonos, a velha turma do setor de Recursos Humanos – também renomeado para “gestão de pessoas” – explica que a palavra empregado tornou-se arcaica. Empresas modernas contratam colaboradores.

 

Um parêntese: a CLT (Consolidação das Leis do Trabalho) continua a chamar de empregado quem, não detendo meios de produção, trabalha em troca de salário. Claro que para os gurus do colaboracionismo, interessados em sucatear a CLT, isso só atesta a beleza de sua “novilíngua”. Cito um desses manuais:

 

“Enquanto o empregado, em dias atuais, chega na empresa, faz o seu trabalho e vai embora, o colaborador tem a consciência da sua importância na organização, possui uma visão sistêmica do seu setor ou da empresa como um todo, incluindo suas metas e objetivos, e não mede esforços para ‘colaborar’ com isso”. Ênfase em “não mede esforços”!

 

Não se chegou de um dia para o outro a esse nível de cinismo no mascaramento da natureza dos contratos de trabalho firmados entre partes desiguais – patrões de um lado, empregados do outro. O percurso linguístico rumo ao colaborador incluiu um estágio em que se favoreceu a palavra funcionário (por tradição mais usada para o empregado do setor público) e até desvios burlescos como o de chamar empregadas domésticas de secretárias.

 

Também é parte desse fenômeno a onda de eufemização que varreu o mundo de meio século para cá – puxada, nesse caso, por setores progressistas da sociedade. Hoje em dia, a menos que você seja um ogro de extrema direita, é bem difícil contestar a ideia de que acolchoar os atritos da realidade com palavras bonitas – substituindo “mendigo” por “pessoa em situação de rua”, por exemplo – melhora a vida das pessoas. Mesmo que elas continuem sem ter onde morar.

 

O eufemismo pode ser um aliado do processo civilizatório, como prova a sacada brilhante do primeiro hominídeo que anunciou que iria “dar um pulo ali na moita”. Pode também ser – o que talvez seja mais frequente – pura embromação. É preciso examinar caso a caso. O eufemismo da atual consagração de colaborador como sinônimo preferível de empregado está claramente a serviço do desmonte de um aparato histórico de proteção dos direitos dos trabalhadores.

 

Ainda melhor do que ser colaborador, claro, é dar dinheiro para um coach e virar “empreendedor individual”. Mas esse chip os laboratórios da Lumon ainda estão aperfeiçoando. Deve ficar para a terceira temporada.

 

SÉRGIO RODRIGUES Adaptado de folha.uol.com.br, 15/01/2025.

 

Os sufixos presentes nos vocábulos colaborador e colaboracionismo expressam, respectivamente, as ideias de:

 

Provas

Questão presente nas seguintes provas
4151281 Ano: 2026
Disciplina: Português
Banca: UERJ
Orgão: CBM-RJ

Considere o texto a seguir para responder a questão

 

TEXTO I

 

POR QUE O EMPREGADO AGORA É COLABORADOR?

 

A estreia da segunda temporada da magnífica série “Ruptura” nos dá a oportunidade de refletir sobre o mais bem-sucedido eufemismo corporativo do nosso tempo: “colaborador”.

 

Na comédia distópica dirigida por Ben Stiller, a poderosa Lumon, empresa-polvo de estética fascista, mantém um departamento em que empregados se submetem voluntariamente a um experimento radical de alienação do trabalho. Por meio do implante de um chip cerebral, têm suas memórias bifurcadas: fora da empresa, nada sabem do que fazem lá dentro; quando estão dentro, ignoram a vida que levam fora. São os colaboradores perfeitos.

 

No mundo em que o chip da Lumon ainda não existe (que se saiba), cabe à linguagem o mesmo trabalho. Em sites uníssonos, a velha turma do setor de Recursos Humanos – também renomeado para “gestão de pessoas” – explica que a palavra empregado tornou-se arcaica. Empresas modernas contratam colaboradores.

 

Um parêntese: a CLT (Consolidação das Leis do Trabalho) continua a chamar de empregado quem, não detendo meios de produção, trabalha em troca de salário. Claro que para os gurus do colaboracionismo, interessados em sucatear a CLT, isso só atesta a beleza de sua “novilíngua”. Cito um desses manuais:

 

“Enquanto o empregado, em dias atuais, chega na empresa, faz o seu trabalho e vai embora, o colaborador tem a consciência da sua importância na organização, possui uma visão sistêmica do seu setor ou da empresa como um todo, incluindo suas metas e objetivos, e não mede esforços para ‘colaborar’ com isso”. Ênfase em “não mede esforços”!

 

Não se chegou de um dia para o outro a esse nível de cinismo no mascaramento da natureza dos contratos de trabalho firmados entre partes desiguais – patrões de um lado, empregados do outro. O percurso linguístico rumo ao colaborador incluiu um estágio em que se favoreceu a palavra funcionário (por tradição mais usada para o empregado do setor público) e até desvios burlescos como o de chamar empregadas domésticas de secretárias.

 

Também é parte desse fenômeno a onda de eufemização que varreu o mundo de meio século para cá – puxada, nesse caso, por setores progressistas da sociedade. Hoje em dia, a menos que você seja um ogro de extrema direita, é bem difícil contestar a ideia de que acolchoar os atritos da realidade com palavras bonitas – substituindo “mendigo” por “pessoa em situação de rua”, por exemplo – melhora a vida das pessoas. Mesmo que elas continuem sem ter onde morar.

 

O eufemismo pode ser um aliado do processo civilizatório, como prova a sacada brilhante do primeiro hominídeo que anunciou que iria “dar um pulo ali na moita”. Pode também ser – o que talvez seja mais frequente – pura embromação. É preciso examinar caso a caso. O eufemismo da atual consagração de colaborador como sinônimo preferível de empregado está claramente a serviço do desmonte de um aparato histórico de proteção dos direitos dos trabalhadores.

 

Ainda melhor do que ser colaborador, claro, é dar dinheiro para um coach e virar “empreendedor individual”. Mas esse chip os laboratórios da Lumon ainda estão aperfeiçoando. Deve ficar para a terceira temporada.

 

SÉRGIO RODRIGUES Adaptado de folha.uol.com.br, 15/01/2025.

 

Por meio do implante de um chip cerebral, têm suas memórias bifurcadas

 

O trecho exemplifica um caso de elipse.

 

A marca gramatical que permite a recuperação do termo em elipse, no trecho, é:

 

Provas

Questão presente nas seguintes provas
4151280 Ano: 2026
Disciplina: Português
Banca: UERJ
Orgão: CBM-RJ

Considere o texto a seguir para responder a questão

 

TEXTO I

 

POR QUE O EMPREGADO AGORA É COLABORADOR?

 

A estreia da segunda temporada da magnífica série “Ruptura” nos dá a oportunidade de refletir sobre o mais bem-sucedido eufemismo corporativo do nosso tempo: “colaborador”.

 

Na comédia distópica dirigida por Ben Stiller, a poderosa Lumon, empresa-polvo de estética fascista, mantém um departamento em que empregados se submetem voluntariamente a um experimento radical de alienação do trabalho. Por meio do implante de um chip cerebral, têm suas memórias bifurcadas: fora da empresa, nada sabem do que fazem lá dentro; quando estão dentro, ignoram a vida que levam fora. São os colaboradores perfeitos.

 

No mundo em que o chip da Lumon ainda não existe (que se saiba), cabe à linguagem o mesmo trabalho. Em sites uníssonos, a velha turma do setor de Recursos Humanos – também renomeado para “gestão de pessoas” – explica que a palavra empregado tornou-se arcaica. Empresas modernas contratam colaboradores.

 

Um parêntese: a CLT (Consolidação das Leis do Trabalho) continua a chamar de empregado quem, não detendo meios de produção, trabalha em troca de salário. Claro que para os gurus do colaboracionismo, interessados em sucatear a CLT, isso só atesta a beleza de sua “novilíngua”. Cito um desses manuais:

 

“Enquanto o empregado, em dias atuais, chega na empresa, faz o seu trabalho e vai embora, o colaborador tem a consciência da sua importância na organização, possui uma visão sistêmica do seu setor ou da empresa como um todo, incluindo suas metas e objetivos, e não mede esforços para ‘colaborar’ com isso”. Ênfase em “não mede esforços”!

 

Não se chegou de um dia para o outro a esse nível de cinismo no mascaramento da natureza dos contratos de trabalho firmados entre partes desiguais – patrões de um lado, empregados do outro. O percurso linguístico rumo ao colaborador incluiu um estágio em que se favoreceu a palavra funcionário (por tradição mais usada para o empregado do setor público) e até desvios burlescos como o de chamar empregadas domésticas de secretárias.

 

Também é parte desse fenômeno a onda de eufemização que varreu o mundo de meio século para cá – puxada, nesse caso, por setores progressistas da sociedade. Hoje em dia, a menos que você seja um ogro de extrema direita, é bem difícil contestar a ideia de que acolchoar os atritos da realidade com palavras bonitas – substituindo “mendigo” por “pessoa em situação de rua”, por exemplo – melhora a vida das pessoas. Mesmo que elas continuem sem ter onde morar.

 

O eufemismo pode ser um aliado do processo civilizatório, como prova a sacada brilhante do primeiro hominídeo que anunciou que iria “dar um pulo ali na moita”. Pode também ser – o que talvez seja mais frequente – pura embromação. É preciso examinar caso a caso. O eufemismo da atual consagração de colaborador como sinônimo preferível de empregado está claramente a serviço do desmonte de um aparato histórico de proteção dos direitos dos trabalhadores.

 

Ainda melhor do que ser colaborador, claro, é dar dinheiro para um coach e virar “empreendedor individual”. Mas esse chip os laboratórios da Lumon ainda estão aperfeiçoando. Deve ficar para a terceira temporada.

 

SÉRGIO RODRIGUES Adaptado de folha.uol.com.br, 15/01/2025.

 

No primeiro parágrafo, faz-se referência ao eufemismo “colaborador”, utilizado no lugar de “empregado”. Do ponto de vista legal, não há conotação negativa no termo “empregado”.

 

Logo, o que o eufemismo “colaborador” procura suavizar é a relação, entre empregador e empregado, de:

 

Provas

Questão presente nas seguintes provas
4151279 Ano: 2026
Disciplina: Português
Banca: UERJ
Orgão: CBM-RJ

Considere o texto a seguir para responder a questão

 

TEXTO I

 

POR QUE O EMPREGADO AGORA É COLABORADOR?

 

A estreia da segunda temporada da magnífica série “Ruptura” nos dá a oportunidade de refletir sobre o mais bem-sucedido eufemismo corporativo do nosso tempo: “colaborador”.

 

Na comédia distópica dirigida por Ben Stiller, a poderosa Lumon, empresa-polvo de estética fascista, mantém um departamento em que empregados se submetem voluntariamente a um experimento radical de alienação do trabalho. Por meio do implante de um chip cerebral, têm suas memórias bifurcadas: fora da empresa, nada sabem do que fazem lá dentro; quando estão dentro, ignoram a vida que levam fora. São os colaboradores perfeitos.

 

No mundo em que o chip da Lumon ainda não existe (que se saiba), cabe à linguagem o mesmo trabalho. Em sites uníssonos, a velha turma do setor de Recursos Humanos – também renomeado para “gestão de pessoas” – explica que a palavra empregado tornou-se arcaica. Empresas modernas contratam colaboradores.

 

Um parêntese: a CLT (Consolidação das Leis do Trabalho) continua a chamar de empregado quem, não detendo meios de produção, trabalha em troca de salário. Claro que para os gurus do colaboracionismo, interessados em sucatear a CLT, isso só atesta a beleza de sua “novilíngua”. Cito um desses manuais:

 

“Enquanto o empregado, em dias atuais, chega na empresa, faz o seu trabalho e vai embora, o colaborador tem a consciência da sua importância na organização, possui uma visão sistêmica do seu setor ou da empresa como um todo, incluindo suas metas e objetivos, e não mede esforços para ‘colaborar’ com isso”. Ênfase em “não mede esforços”!

 

Não se chegou de um dia para o outro a esse nível de cinismo no mascaramento da natureza dos contratos de trabalho firmados entre partes desiguais – patrões de um lado, empregados do outro. O percurso linguístico rumo ao colaborador incluiu um estágio em que se favoreceu a palavra funcionário (por tradição mais usada para o empregado do setor público) e até desvios burlescos como o de chamar empregadas domésticas de secretárias.

 

Também é parte desse fenômeno a onda de eufemização que varreu o mundo de meio século para cá – puxada, nesse caso, por setores progressistas da sociedade. Hoje em dia, a menos que você seja um ogro de extrema direita, é bem difícil contestar a ideia de que acolchoar os atritos da realidade com palavras bonitas – substituindo “mendigo” por “pessoa em situação de rua”, por exemplo – melhora a vida das pessoas. Mesmo que elas continuem sem ter onde morar.

 

O eufemismo pode ser um aliado do processo civilizatório, como prova a sacada brilhante do primeiro hominídeo que anunciou que iria “dar um pulo ali na moita”. Pode também ser – o que talvez seja mais frequente – pura embromação. É preciso examinar caso a caso. O eufemismo da atual consagração de colaborador como sinônimo preferível de empregado está claramente a serviço do desmonte de um aparato histórico de proteção dos direitos dos trabalhadores.

 

Ainda melhor do que ser colaborador, claro, é dar dinheiro para um coach e virar “empreendedor individual”. Mas esse chip os laboratórios da Lumon ainda estão aperfeiçoando. Deve ficar para a terceira temporada.

 

SÉRGIO RODRIGUES Adaptado de folha.uol.com.br, 15/01/2025.

 

O ponto de partida da crônica de Sérgio Rodrigues é uma série fictícia de televisão chamada “Ruptura”.

 

A finalidade dessa referência é:

 

Provas

Questão presente nas seguintes provas