Foram encontradas 205 questões.
A lixeira
Um dia, quando lhe perguntarem onde é que nasceu, a moça poderá responder, sorrindo: “na lixeira”. Pois realmente foi
ali que a jogaram, entre cascas de banana e borra de café, para que não vivesse; e foi dali que a retiraram, viva, para que desse
testemunho: até numa lixeira a vida pode começar.
O suposto nascimento anterior, num quarto, não vale para essa menina da rua Pedro América; ele se consumou na clandestinidade, a contragosto da mãe, talvez sem que o pai tivesse notícia, e mesmo sem que a mãe tivesse notícia do pai. Não era desejado, não
veio precedido de amor, mas de vergonha, medo, angústia, recriminação. Quem nasce sob tais condições negativas é como se não
nascesse, e a lixeira foi o instrumento providencial que ocorreu à mãe dessa menina errada, para anular, em escala individual, o efeito
da explosão demográfica. Enquanto não se decide a construção de crematórios para os que acabam regularmente, aí está, para os que
começam irregularmente, o incinerador do lixo doméstico. Nem seria preciso queimar a menina, com os demais detritos da casa. A
morte viria logo – necessária, oportuna, benfazeja.
Mas, naquele dia, a lixeira reagiu de forma imprevista, abstendo-se de cumprir a missão que já tantas mães solteiras, desesperadas ou não, lhe confiaram. Ficou surda aos argumentos sociais, morais e econômicos que demonstram a inconveniência de salvar-se
uma vida de origem equívoca e de custeio incerto. Guardou a menina como lixeira pode guardar, sem qualquer cuidado higiênico ou
resquício de conforto, mas guardou-a. Não lhe abafou o chorinho com o desmoronamento de um pacote de restos de cozinha, ou a
queda de uma lata vazia de pessegada sobre a cabeça. Na verdade, estimulou-a a chorar e bradar, dando-lhe ar pútrido e temperatura
de fornalha, para que melhor protestasse e atraísse, pelo sofrimento revoltado, a atenção do faxineiro.
E chegou o faxineiro e tirou daquelas entranhas estranhas a recém-nascida, como o obstetra faz o parto. Estava nascendo,
na porcaria, uma criança; e outro menino não nasceu, faz muito tempo, num cocho de comida de animais, no estábulo, entre
o farelo e o milho? A lixeira pode fazer as vezes de maternidade, berçário moderno para a vida que quer manifestar-se de
qualquer modo e não encontra outra saída. O obscuro humanitarismo, a piedade e a simpatia dessa lixeira, não salvaram, criaram a
vida. Foi lá que a criança verdadeiramente nasceu, quando os seres humanos, a ordem econômica e os últimos preconceitos
lhe negaram ou lhe impediram a existência.
A menina, mais tarde, poderá dizer com alegria reconhecida: “devo a vida a uma lixeira, foi nela que vim ao mundo”. E nós
também devemos alguma coisa a essa lixeira: a lição de respeito à vida.
(ANDRADE, Carlos Drummond de. Caminhos de João Brandão. Rio de Janeiro: Livraria José Olympio Editora, 1970. p. 97-98.)
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A lixeira
Um dia, quando lhe perguntarem onde é que nasceu, a moça poderá responder, sorrindo: “na lixeira”. Pois realmente foi
ali que a jogaram, entre cascas de banana e borra de café, para que não vivesse; e foi dali que a retiraram, viva, para que desse
testemunho: até numa lixeira a vida pode começar.
O suposto nascimento anterior, num quarto, não vale para essa menina da rua Pedro América; ele se consumou na clandestinidade, a contragosto da mãe, talvez sem que o pai tivesse notícia, e mesmo sem que a mãe tivesse notícia do pai. Não era desejado, não
veio precedido de amor, mas de vergonha, medo, angústia, recriminação. Quem nasce sob tais condições negativas é como se não
nascesse, e a lixeira foi o instrumento providencial que ocorreu à mãe dessa menina errada, para anular, em escala individual, o efeito
da explosão demográfica. Enquanto não se decide a construção de crematórios para os que acabam regularmente, aí está, para os que
começam irregularmente, o incinerador do lixo doméstico. Nem seria preciso queimar a menina, com os demais detritos da casa. A
morte viria logo – necessária, oportuna, benfazeja.
Mas, naquele dia, a lixeira reagiu de forma imprevista, abstendo-se de cumprir a missão que já tantas mães solteiras, desesperadas ou não, lhe confiaram. Ficou surda aos argumentos sociais, morais e econômicos que demonstram a inconveniência de salvar-se
uma vida de origem equívoca e de custeio incerto. Guardou a menina como lixeira pode guardar, sem qualquer cuidado higiênico ou
resquício de conforto, mas guardou-a. Não lhe abafou o chorinho com o desmoronamento de um pacote de restos de cozinha, ou a
queda de uma lata vazia de pessegada sobre a cabeça. Na verdade, estimulou-a a chorar e bradar, dando-lhe ar pútrido e temperatura
de fornalha, para que melhor protestasse e atraísse, pelo sofrimento revoltado, a atenção do faxineiro.
E chegou o faxineiro e tirou daquelas entranhas estranhas a recém-nascida, como o obstetra faz o parto. Estava nascendo,
na porcaria, uma criança; e outro menino não nasceu, faz muito tempo, num cocho de comida de animais, no estábulo, entre
o farelo e o milho? A lixeira pode fazer as vezes de maternidade, berçário moderno para a vida que quer manifestar-se de
qualquer modo e não encontra outra saída. O obscuro humanitarismo, a piedade e a simpatia dessa lixeira, não salvaram, criaram a
vida. Foi lá que a criança verdadeiramente nasceu, quando os seres humanos, a ordem econômica e os últimos preconceitos
lhe negaram ou lhe impediram a existência.
A menina, mais tarde, poderá dizer com alegria reconhecida: “devo a vida a uma lixeira, foi nela que vim ao mundo”. E nós
também devemos alguma coisa a essa lixeira: a lição de respeito à vida.
(ANDRADE, Carlos Drummond de. Caminhos de João Brandão. Rio de Janeiro: Livraria José Olympio Editora, 1970. p. 97-98.)
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A lixeira
Um dia, quando lhe perguntarem onde é que nasceu, a moça poderá responder, sorrindo: “na lixeira”. Pois realmente foi
ali que a jogaram, entre cascas de banana e borra de café, para que não vivesse; e foi dali que a retiraram, viva, para que desse
testemunho: até numa lixeira a vida pode começar.
O suposto nascimento anterior, num quarto, não vale para essa menina da rua Pedro América; ele se consumou na clandestinidade, a contragosto da mãe, talvez sem que o pai tivesse notícia, e mesmo sem que a mãe tivesse notícia do pai. Não era desejado, não
veio precedido de amor, mas de vergonha, medo, angústia, recriminação. Quem nasce sob tais condições negativas é como se não
nascesse, e a lixeira foi o instrumento providencial que ocorreu à mãe dessa menina errada, para anular, em escala individual, o efeito
da explosão demográfica. Enquanto não se decide a construção de crematórios para os que acabam regularmente, aí está, para os que
começam irregularmente, o incinerador do lixo doméstico. Nem seria preciso queimar a menina, com os demais detritos da casa. A
morte viria logo – necessária, oportuna, benfazeja.
Mas, naquele dia, a lixeira reagiu de forma imprevista, abstendo-se de cumprir a missão que já tantas mães solteiras, desesperadas ou não, lhe confiaram. Ficou surda aos argumentos sociais, morais e econômicos que demonstram a inconveniência de salvar-se
uma vida de origem equívoca e de custeio incerto. Guardou a menina como lixeira pode guardar, sem qualquer cuidado higiênico ou
resquício de conforto, mas guardou-a. Não lhe abafou o chorinho com o desmoronamento de um pacote de restos de cozinha, ou a
queda de uma lata vazia de pessegada sobre a cabeça. Na verdade, estimulou-a a chorar e bradar, dando-lhe ar pútrido e temperatura
de fornalha, para que melhor protestasse e atraísse, pelo sofrimento revoltado, a atenção do faxineiro.
E chegou o faxineiro e tirou daquelas entranhas estranhas a recém-nascida, como o obstetra faz o parto. Estava nascendo,
na porcaria, uma criança; e outro menino não nasceu, faz muito tempo, num cocho de comida de animais, no estábulo, entre
o farelo e o milho? A lixeira pode fazer as vezes de maternidade, berçário moderno para a vida que quer manifestar-se de
qualquer modo e não encontra outra saída. O obscuro humanitarismo, a piedade e a simpatia dessa lixeira, não salvaram, criaram a
vida. Foi lá que a criança verdadeiramente nasceu, quando os seres humanos, a ordem econômica e os últimos preconceitos
lhe negaram ou lhe impediram a existência.
A menina, mais tarde, poderá dizer com alegria reconhecida: “devo a vida a uma lixeira, foi nela que vim ao mundo”. E nós
também devemos alguma coisa a essa lixeira: a lição de respeito à vida.
(ANDRADE, Carlos Drummond de. Caminhos de João Brandão. Rio de Janeiro: Livraria José Olympio Editora, 1970. p. 97-98.)
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ali que a jogaram, entre cascas de banana e borra de café, para que não vivesse; e foi dali que a retiraram, viva, para que desse
testemunho: até numa lixeira a vida pode começar.
O suposto nascimento anterior, num quarto, não vale para essa menina da rua Pedro América; ele se consumou na clandestinidade, a contragosto da mãe, talvez sem que o pai tivesse notícia, e mesmo sem que a mãe tivesse notícia do pai. Não era desejado, não
veio precedido de amor, mas de vergonha, medo, angústia, recriminação. Quem nasce sob tais condições negativas é como se não
nascesse, e a lixeira foi o instrumento providencial que ocorreu à mãe dessa menina errada, para anular, em escala individual, o efeito
da explosão demográfica. Enquanto não se decide a construção de crematórios para os que acabam regularmente, aí está, para os que
começam irregularmente, o incinerador do lixo doméstico. Nem seria preciso queimar a menina, com os demais detritos da casa. A
morte viria logo – necessária, oportuna, benfazeja.
Mas, naquele dia, a lixeira reagiu de forma imprevista, abstendo-se de cumprir a missão que já tantas mães solteiras, desesperadas ou não, lhe confiaram. Ficou surda aos argumentos sociais, morais e econômicos que demonstram a inconveniência de salvar-se
uma vida de origem equívoca e de custeio incerto. Guardou a menina como lixeira pode guardar, sem qualquer cuidado higiênico ou
resquício de conforto, mas guardou-a. Não lhe abafou o chorinho com o desmoronamento de um pacote de restos de cozinha, ou a
queda de uma lata vazia de pessegada sobre a cabeça. Na verdade, estimulou-a a chorar e bradar, dando-lhe ar pútrido e temperatura
de fornalha, para que melhor protestasse e atraísse, pelo sofrimento revoltado, a atenção do faxineiro.
E chegou o faxineiro e tirou daquelas entranhas estranhas a recém-nascida, como o obstetra faz o parto. Estava nascendo,
na porcaria, uma criança; e outro menino não nasceu, faz muito tempo, num cocho de comida de animais, no estábulo, entre
o farelo e o milho? A lixeira pode fazer as vezes de maternidade, berçário moderno para a vida que quer manifestar-se de
qualquer modo e não encontra outra saída. O obscuro humanitarismo, a piedade e a simpatia dessa lixeira, não salvaram, criaram a
vida. Foi lá que a criança verdadeiramente nasceu, quando os seres humanos, a ordem econômica e os últimos preconceitos
lhe negaram ou lhe impediram a existência.
A menina, mais tarde, poderá dizer com alegria reconhecida: “devo a vida a uma lixeira, foi nela que vim ao mundo”. E nós
também devemos alguma coisa a essa lixeira: a lição de respeito à vida.
(ANDRADE, Carlos Drummond de. Caminhos de João Brandão. Rio de Janeiro: Livraria José Olympio Editora, 1970. p. 97-98.)
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A lixeira
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ali que a jogaram, entre cascas de banana e borra de café, para que não vivesse; e foi dali que a retiraram, viva, para que desse
testemunho: até numa lixeira a vida pode começar.
O suposto nascimento anterior, num quarto, não vale para essa menina da rua Pedro América; ele se consumou na clandestinidade, a contragosto da mãe, talvez sem que o pai tivesse notícia, e mesmo sem que a mãe tivesse notícia do pai. Não era desejado, não
veio precedido de amor, mas de vergonha, medo, angústia, recriminação. Quem nasce sob tais condições negativas é como se não
nascesse, e a lixeira foi o instrumento providencial que ocorreu à mãe dessa menina errada, para anular, em escala individual, o efeito
da explosão demográfica. Enquanto não se decide a construção de crematórios para os que acabam regularmente, aí está, para os que
começam irregularmente, o incinerador do lixo doméstico. Nem seria preciso queimar a menina, com os demais detritos da casa. A
morte viria logo – necessária, oportuna, benfazeja.
Mas, naquele dia, a lixeira reagiu de forma imprevista, abstendo-se de cumprir a missão que já tantas mães solteiras, desesperadas ou não, lhe confiaram. Ficou surda aos argumentos sociais, morais e econômicos que demonstram a inconveniência de salvar-se
uma vida de origem equívoca e de custeio incerto. Guardou a menina como lixeira pode guardar, sem qualquer cuidado higiênico ou
resquício de conforto, mas guardou-a. Não lhe abafou o chorinho com o desmoronamento de um pacote de restos de cozinha, ou a
queda de uma lata vazia de pessegada sobre a cabeça. Na verdade, estimulou-a a chorar e bradar, dando-lhe ar pútrido e temperatura
de fornalha, para que melhor protestasse e atraísse, pelo sofrimento revoltado, a atenção do faxineiro.
E chegou o faxineiro e tirou daquelas entranhas estranhas a recém-nascida, como o obstetra faz o parto. Estava nascendo,
na porcaria, uma criança; e outro menino não nasceu, faz muito tempo, num cocho de comida de animais, no estábulo, entre
o farelo e o milho? A lixeira pode fazer as vezes de maternidade, berçário moderno para a vida que quer manifestar-se de
qualquer modo e não encontra outra saída. O obscuro humanitarismo, a piedade e a simpatia dessa lixeira, não salvaram, criaram a
vida. Foi lá que a criança verdadeiramente nasceu, quando os seres humanos, a ordem econômica e os últimos preconceitos
lhe negaram ou lhe impediram a existência.
A menina, mais tarde, poderá dizer com alegria reconhecida: “devo a vida a uma lixeira, foi nela que vim ao mundo”. E nós
também devemos alguma coisa a essa lixeira: a lição de respeito à vida.
(ANDRADE, Carlos Drummond de. Caminhos de João Brandão. Rio de Janeiro: Livraria José Olympio Editora, 1970. p. 97-98.)
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ali que a jogaram, entre cascas de banana e borra de café, para que não vivesse; e foi dali que a retiraram, viva, para que desse
testemunho: até numa lixeira a vida pode começar.
O suposto nascimento anterior, num quarto, não vale para essa menina da rua Pedro América; ele se consumou na clandestinidade, a contragosto da mãe, talvez sem que o pai tivesse notícia, e mesmo sem que a mãe tivesse notícia do pai. Não era desejado, não
veio precedido de amor, mas de vergonha, medo, angústia, recriminação. Quem nasce sob tais condições negativas é como se não
nascesse, e a lixeira foi o instrumento providencial que ocorreu à mãe dessa menina errada, para anular, em escala individual, o efeito
da explosão demográfica. Enquanto não se decide a construção de crematórios para os que acabam regularmente, aí está, para os que
começam irregularmente, o incinerador do lixo doméstico. Nem seria preciso queimar a menina, com os demais detritos da casa. A
morte viria logo – necessária, oportuna, benfazeja.
Mas, naquele dia, a lixeira reagiu de forma imprevista, abstendo-se de cumprir a missão que já tantas mães solteiras, desesperadas ou não, lhe confiaram. Ficou surda aos argumentos sociais, morais e econômicos que demonstram a inconveniência de salvar-se
uma vida de origem equívoca e de custeio incerto. Guardou a menina como lixeira pode guardar, sem qualquer cuidado higiênico ou
resquício de conforto, mas guardou-a. Não lhe abafou o chorinho com o desmoronamento de um pacote de restos de cozinha, ou a
queda de uma lata vazia de pessegada sobre a cabeça. Na verdade, estimulou-a a chorar e bradar, dando-lhe ar pútrido e temperatura
de fornalha, para que melhor protestasse e atraísse, pelo sofrimento revoltado, a atenção do faxineiro.
E chegou o faxineiro e tirou daquelas entranhas estranhas a recém-nascida, como o obstetra faz o parto. Estava nascendo,
na porcaria, uma criança; e outro menino não nasceu, faz muito tempo, num cocho de comida de animais, no estábulo, entre
o farelo e o milho? A lixeira pode fazer as vezes de maternidade, berçário moderno para a vida que quer manifestar-se de
qualquer modo e não encontra outra saída. O obscuro humanitarismo, a piedade e a simpatia dessa lixeira, não salvaram, criaram a
vida. Foi lá que a criança verdadeiramente nasceu, quando os seres humanos, a ordem econômica e os últimos preconceitos
lhe negaram ou lhe impediram a existência.
A menina, mais tarde, poderá dizer com alegria reconhecida: “devo a vida a uma lixeira, foi nela que vim ao mundo”. E nós
também devemos alguma coisa a essa lixeira: a lição de respeito à vida.
(ANDRADE, Carlos Drummond de. Caminhos de João Brandão. Rio de Janeiro: Livraria José Olympio Editora, 1970. p. 97-98.)
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Os Vinicius de Moraes
Eu confesso a vocês que descobri o segredo do coleguinha jornalista, poeta, diplomata e teleco-tequista Vinicius de Moraes
numa tarde em que ambos (não ambos os Vinicius, como ficara provado mais tarde, mas ambos: eu e ele) tomávamos umas e
outras no
Bar Calypso
, num desses crepúsculos vespertinos de Ipanema que já baixam pedindo um chope.
Estávamos lá “entornando”, quando chegou minha hora de subir para Petrópolis:
– Poetinha, eu vou me mandar – disse eu.
Ele suspirou ante a perspectiva de ter de ficar sozinho e desejou boa viagem. Eu entrei no carro e subi para Petrópolis, onde
cheguei certo de que nenhum carro passara pelo meu, na estrada. No entanto, parei na avenida Quinze da cidade serrana, manobrei o carro e coloquei na vaga indo tomar mais uma na Confeitaria Copacabana. Quando entrei e olhei para as mesas, vi que um
camarada me saudava lá de dentro: era Vinicius de Moraes.
Foi nessa tarde – repito – que eu descobri que Vinicius era, pelo menos, dois.
Está claro que pode haver mais de dois. Duvido até que as múltiplas atividades de Vinicius (reparem que seu nome já é no
plural para enganar os trouxas) possam ser realizadas só por dois deles. Acredito mesmo que haja uma meia dúzia de Vinicius: um
para poesia, um para diplomacia, outro para samba, um quarto para jornalista e o resto para mulher. Desses, os mais assoberbados
talvez sejam os últimos.
Eu acho, outrossim, que sou o único ao qual Vinicius (não sei qual deles) deu a pala de que eles são uma equipe e não um
homem, por isso ficou rindo dos coleguinhas que disputam o privilégio de noticiar o Vinicius certo na hora exata. Os jornais de
ontem, por exemplo, estavam muito pitorescos sobre Vinicius (todos os Vinicius).
Em Última Hora
a confreirinha jornalista Teresa
Cesário Alvim, num esforço de reportagem, dizia: “Vinicius de Moraes anda a todo vapor, de uns tempos para cá. Tomou pressão
em Petrópolis e desceu a serra carregado de ideias, jorrando inspiração para todos os lados”. (Coitada da Teresa, não sabe que há
Vinicius
pela
aí tudo.)
Já o coleguinha Jacinto de
Thormes
, no mesmo dia, na mesma
UH
e talvez escrevendo à mesma hora, dizia: “O sr. Vinicius de
Moraes está fazendo uma temporada de repouso na Clínica São Vicente”. De fato, há um dos Vinicius que está repousando, o que
explica as notícias tão desencontradas de dois colunistas, no mesmo jornal, no mesmo dia.
No mesmo dia, aliás, o Carlos Alberto escrevia na coluna: “O poeta Vinicius de Moraes, ontem de madrugada, conversando
no restaurante Fiorentina”. É verdade. Vinicius estava lá no Fiorentina, numa roda batendo papo. Dezenas de testemunhas podem
provar o que o Carlos Alberto disse. Estava também tomando oxigênio na Clínica São Vicente, estava em casa com amigos, compondo sambas ao som do violão de
Baden Powell,
estava no Cine Alvorada, assistindo a
Morangos silvestres
(o porteiro me disse
que o Vinicius já assistiu à fita quatro vezes, mas é mentira. Vários Vinicius ainda não viram).
Como, minha senhora? A senhora não acredita que Vinicius seja uma porção? Azar o seu, dona. Um dia ainda se fará um
programa de televisão com Vinicius ao violão, acompanhando outro Vinicius que canta, junto com um quarteto vocal de Vinicius.
Sem videoteipe.
Quem tem razão é Tia Zulmira, quando diz que, se Vinicius de Moraes fosse um só, não seria Vinicius de Moraes, seria Vinício
de Moral.
(Stanislaw Ponte Preta.)
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Os Vinicius de Moraes
Eu confesso a vocês que descobri o segredo do coleguinha jornalista, poeta, diplomata e teleco-tequista Vinicius de Moraes
numa tarde em que ambos (não ambos os Vinicius, como ficara provado mais tarde, mas ambos: eu e ele) tomávamos umas e
outras no
Bar Calypso
, num desses crepúsculos vespertinos de Ipanema que já baixam pedindo um chope.
Estávamos lá “entornando”, quando chegou minha hora de subir para Petrópolis:
– Poetinha, eu vou me mandar – disse eu.
Ele suspirou ante a perspectiva de ter de ficar sozinho e desejou boa viagem. Eu entrei no carro e subi para Petrópolis, onde
cheguei certo de que nenhum carro passara pelo meu, na estrada. No entanto, parei na avenida Quinze da cidade serrana, manobrei o carro e coloquei na vaga indo tomar mais uma na Confeitaria Copacabana. Quando entrei e olhei para as mesas, vi que um
camarada me saudava lá de dentro: era Vinicius de Moraes.
Foi nessa tarde – repito – que eu descobri que Vinicius era, pelo menos, dois.
Está claro que pode haver mais de dois. Duvido até que as múltiplas atividades de Vinicius (reparem que seu nome já é no
plural para enganar os trouxas) possam ser realizadas só por dois deles. Acredito mesmo que haja uma meia dúzia de Vinicius: um
para poesia, um para diplomacia, outro para samba, um quarto para jornalista e o resto para mulher. Desses, os mais assoberbados
talvez sejam os últimos.
Eu acho, outrossim, que sou o único ao qual Vinicius (não sei qual deles) deu a pala de que eles são uma equipe e não um
homem, por isso ficou rindo dos coleguinhas que disputam o privilégio de noticiar o Vinicius certo na hora exata. Os jornais de
ontem, por exemplo, estavam muito pitorescos sobre Vinicius (todos os Vinicius).
Em Última Hora
a confreirinha jornalista Teresa
Cesário Alvim, num esforço de reportagem, dizia: “Vinicius de Moraes anda a todo vapor, de uns tempos para cá. Tomou pressão
em Petrópolis e desceu a serra carregado de ideias, jorrando inspiração para todos os lados”. (Coitada da Teresa, não sabe que há
Vinicius
pela
aí tudo.)
Já o coleguinha Jacinto de
Thormes
, no mesmo dia, na mesma
UH
e talvez escrevendo à mesma hora, dizia: “O sr. Vinicius de
Moraes está fazendo uma temporada de repouso na Clínica São Vicente”. De fato, há um dos Vinicius que está repousando, o que
explica as notícias tão desencontradas de dois colunistas, no mesmo jornal, no mesmo dia.
No mesmo dia, aliás, o Carlos Alberto escrevia na coluna: “O poeta Vinicius de Moraes, ontem de madrugada, conversando
no restaurante Fiorentina”. É verdade. Vinicius estava lá no Fiorentina, numa roda batendo papo. Dezenas de testemunhas podem
provar o que o Carlos Alberto disse. Estava também tomando oxigênio na Clínica São Vicente, estava em casa com amigos, compondo sambas ao som do violão de
Baden Powell,
estava no Cine Alvorada, assistindo a
Morangos silvestres
(o porteiro me disse
que o Vinicius já assistiu à fita quatro vezes, mas é mentira. Vários Vinicius ainda não viram).
Como, minha senhora? A senhora não acredita que Vinicius seja uma porção? Azar o seu, dona. Um dia ainda se fará um
programa de televisão com Vinicius ao violão, acompanhando outro Vinicius que canta, junto com um quarteto vocal de Vinicius.
Sem videoteipe.
Quem tem razão é Tia Zulmira, quando diz que, se Vinicius de Moraes fosse um só, não seria Vinicius de Moraes, seria Vinício
de Moral.
(Stanislaw Ponte Preta.)
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Eu confesso a vocês que descobri o segredo do coleguinha jornalista, poeta, diplomata e teleco-tequista Vinicius de Moraes
numa tarde em que ambos (não ambos os Vinicius, como ficara provado mais tarde, mas ambos: eu e ele) tomávamos umas e
outras no
Bar Calypso
, num desses crepúsculos vespertinos de Ipanema que já baixam pedindo um chope.
Estávamos lá “entornando”, quando chegou minha hora de subir para Petrópolis:
– Poetinha, eu vou me mandar – disse eu.
Ele suspirou ante a perspectiva de ter de ficar sozinho e desejou boa viagem. Eu entrei no carro e subi para Petrópolis, onde
cheguei certo de que nenhum carro passara pelo meu, na estrada. No entanto, parei na avenida Quinze da cidade serrana, manobrei o carro e coloquei na vaga indo tomar mais uma na Confeitaria Copacabana. Quando entrei e olhei para as mesas, vi que um
camarada me saudava lá de dentro: era Vinicius de Moraes.
Foi nessa tarde – repito – que eu descobri que Vinicius era, pelo menos, dois.
Está claro que pode haver mais de dois. Duvido até que as múltiplas atividades de Vinicius (reparem que seu nome já é no
plural para enganar os trouxas) possam ser realizadas só por dois deles. Acredito mesmo que haja uma meia dúzia de Vinicius: um
para poesia, um para diplomacia, outro para samba, um quarto para jornalista e o resto para mulher. Desses, os mais assoberbados
talvez sejam os últimos.
Eu acho, outrossim, que sou o único ao qual Vinicius (não sei qual deles) deu a pala de que eles são uma equipe e não um
homem, por isso ficou rindo dos coleguinhas que disputam o privilégio de noticiar o Vinicius certo na hora exata. Os jornais de
ontem, por exemplo, estavam muito pitorescos sobre Vinicius (todos os Vinicius).
Em Última Hora
a confreirinha jornalista Teresa
Cesário Alvim, num esforço de reportagem, dizia: “Vinicius de Moraes anda a todo vapor, de uns tempos para cá. Tomou pressão
em Petrópolis e desceu a serra carregado de ideias, jorrando inspiração para todos os lados”. (Coitada da Teresa, não sabe que há
Vinicius
pela
aí tudo.)
Já o coleguinha Jacinto de
Thormes
, no mesmo dia, na mesma
UH
e talvez escrevendo à mesma hora, dizia: “O sr. Vinicius de
Moraes está fazendo uma temporada de repouso na Clínica São Vicente”. De fato, há um dos Vinicius que está repousando, o que
explica as notícias tão desencontradas de dois colunistas, no mesmo jornal, no mesmo dia.
No mesmo dia, aliás, o Carlos Alberto escrevia na coluna: “O poeta Vinicius de Moraes, ontem de madrugada, conversando
no restaurante Fiorentina”. É verdade. Vinicius estava lá no Fiorentina, numa roda batendo papo. Dezenas de testemunhas podem
provar o que o Carlos Alberto disse. Estava também tomando oxigênio na Clínica São Vicente, estava em casa com amigos, compondo sambas ao som do violão de
Baden Powell,
estava no Cine Alvorada, assistindo a
Morangos silvestres
(o porteiro me disse
que o Vinicius já assistiu à fita quatro vezes, mas é mentira. Vários Vinicius ainda não viram).
Como, minha senhora? A senhora não acredita que Vinicius seja uma porção? Azar o seu, dona. Um dia ainda se fará um
programa de televisão com Vinicius ao violão, acompanhando outro Vinicius que canta, junto com um quarteto vocal de Vinicius.
Sem videoteipe.
Quem tem razão é Tia Zulmira, quando diz que, se Vinicius de Moraes fosse um só, não seria Vinicius de Moraes, seria Vinício
de Moral.
(Stanislaw Ponte Preta.)
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Os Vinicius de Moraes
Eu confesso a vocês que descobri o segredo do coleguinha jornalista, poeta, diplomata e teleco-tequista Vinicius de Moraes
numa tarde em que ambos (não ambos os Vinicius, como ficara provado mais tarde, mas ambos: eu e ele) tomávamos umas e
outras no
Bar Calypso
, num desses crepúsculos vespertinos de Ipanema que já baixam pedindo um chope.
Estávamos lá “entornando”, quando chegou minha hora de subir para Petrópolis:
– Poetinha, eu vou me mandar – disse eu.
Ele suspirou ante a perspectiva de ter de ficar sozinho e desejou boa viagem. Eu entrei no carro e subi para Petrópolis, onde
cheguei certo de que nenhum carro passara pelo meu, na estrada. No entanto, parei na avenida Quinze da cidade serrana, manobrei o carro e coloquei na vaga indo tomar mais uma na Confeitaria Copacabana. Quando entrei e olhei para as mesas, vi que um
camarada me saudava lá de dentro: era Vinicius de Moraes.
Foi nessa tarde – repito – que eu descobri que Vinicius era, pelo menos, dois.
Está claro que pode haver mais de dois. Duvido até que as múltiplas atividades de Vinicius (reparem que seu nome já é no
plural para enganar os trouxas) possam ser realizadas só por dois deles. Acredito mesmo que haja uma meia dúzia de Vinicius: um
para poesia, um para diplomacia, outro para samba, um quarto para jornalista e o resto para mulher. Desses, os mais assoberbados
talvez sejam os últimos.
Eu acho, outrossim, que sou o único ao qual Vinicius (não sei qual deles) deu a pala de que eles são uma equipe e não um
homem, por isso ficou rindo dos coleguinhas que disputam o privilégio de noticiar o Vinicius certo na hora exata. Os jornais de
ontem, por exemplo, estavam muito pitorescos sobre Vinicius (todos os Vinicius).
Em Última Hora
a confreirinha jornalista Teresa
Cesário Alvim, num esforço de reportagem, dizia: “Vinicius de Moraes anda a todo vapor, de uns tempos para cá. Tomou pressão
em Petrópolis e desceu a serra carregado de ideias, jorrando inspiração para todos os lados”. (Coitada da Teresa, não sabe que há
Vinicius
pela
aí tudo.)
Já o coleguinha Jacinto de
Thormes
, no mesmo dia, na mesma
UH
e talvez escrevendo à mesma hora, dizia: “O sr. Vinicius de
Moraes está fazendo uma temporada de repouso na Clínica São Vicente”. De fato, há um dos Vinicius que está repousando, o que
explica as notícias tão desencontradas de dois colunistas, no mesmo jornal, no mesmo dia.
No mesmo dia, aliás, o Carlos Alberto escrevia na coluna: “O poeta Vinicius de Moraes, ontem de madrugada, conversando
no restaurante Fiorentina”. É verdade. Vinicius estava lá no Fiorentina, numa roda batendo papo. Dezenas de testemunhas podem
provar o que o Carlos Alberto disse. Estava também tomando oxigênio na Clínica São Vicente, estava em casa com amigos, compondo sambas ao som do violão de
Baden Powell,
estava no Cine Alvorada, assistindo a
Morangos silvestres
(o porteiro me disse
que o Vinicius já assistiu à fita quatro vezes, mas é mentira. Vários Vinicius ainda não viram).
Como, minha senhora? A senhora não acredita que Vinicius seja uma porção? Azar o seu, dona. Um dia ainda se fará um
programa de televisão com Vinicius ao violão, acompanhando outro Vinicius que canta, junto com um quarteto vocal de Vinicius.
Sem videoteipe.
Quem tem razão é Tia Zulmira, quando diz que, se Vinicius de Moraes fosse um só, não seria Vinicius de Moraes, seria Vinício
de Moral.
(Stanislaw Ponte Preta.)
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