Foram encontradas 434 questões.
A questão de refere-se ao texto abaixo.
TEXTO 01
Consumo, logo existo
Por Frei Betto
Ao visitar a admirável obra social do cantor Carlinhos Brown, no Candeal, em Salvador, ouvi-o
contar que, na infância, vivida ali na pobreza, ele não conheceu a fome. Havia sempre um pouco de farinha,
feijão, frutas e hortaliças. "Quem trouxe a fome foi a geladeira", disse. O eletrodoméstico impôs à família a
necessidade do supérfluo: refrigerantes, sorvetes etc. A economia de mercado, centrada no lucro e não nos
direitos da população, nos submete ao consumo de símbolos. O valor simbólico da mercadoria figura acima
de sua utilidade.
Assim, a fome a que se refere Carlinhos Brown é inelutavelmente insaciável. É próprio do humano
– e nisso também nos diferenciamos dos animais – manipular o alimento que ingere. A refeição exige preparo,
criatividade, e a cozinha é laboratório culinário, como a mesa é missa, no sentido litúrgico. A ingestão de
alimentos por um gato ou cachorro é um atavismo desprovido de arte. Entre humanos, comer exige um mínimo
de cerimônia: sentar à mesa coberta pela toalha, usar talheres, apresentar os pratos com esmero e,
sobretudo, desfrutar da companhia de outros comensais. Trata-se de um ritual que possui rubricas indeléveis.
Parece-me desumano comer de pé ou sozinho, retirando o alimento diretamente da panela. Marx já havia se
dado conta do peso da geladeira. Nos Manuscritos econômicos e filosóficos (1844), ele constata que "o valor
que cada um possui aos olhos do outro é o valor de seus respectivos bens. Portanto, em si o homem não tem
valor para nós."
O capitalismo de tal modo desumaniza que já não somos apenas consumidores, somos também
consumidos. As mercadorias que me revestem e os bens simbólicos que me cercam é que determinam meu
valor social. Desprovido ou despojado deles, perco o valor, condenado ao mundo ignaro da pobreza e à
cultura da exclusão. Para o povo maori da Nova Zelândia, cada coisa, e não apenas as pessoas, tem alma.
Em comunidades tradicionais da África também se encontra essa interação matéria-espírito. Ora, se dizem a
nós que um aborígene cultua uma árvore ou pedra, um totem ou ave, com certeza faremos um olhar de
desdém. Mas quantos de nós não cultuam o próprio carro, um determinado vinho guardado na adega, uma
joia? Assim como um objeto se associa a seu dono nas comunidades tribais, na sociedade de consumo, o
mesmo ocorre sob a sofisticada égide da grife. Não se compra um vestido, compra-se um Gaultier; não se
adquire um carro, e sim uma Ferrari; não se bebe um vinho, mas um Château Margaux. A roupa pode ser a
mais horrorosa possível, porém, se traz a assinatura de um famoso estilista, a gata borralheira transforma-se
em Cinderela. Somos consumidos pelas mercadorias na medida em que essa cultura neoliberal nos faz
acreditar que delas emana uma energia que nos cobre como uma bendita unção, a de que pertencemos ao
mundo dos eleitos, dos ricos, do poder.
Pois a avassaladora indústria do consumismo imprime aos objetos uma aura, um espírito, que nos
transfigura quando neles tocamos. E se somos privados desse privilégio, o sentimento de exclusão causa
frustração, depressão, infelicidade. Não importa que a pessoa seja imbecil. Revestida de objetos cobiçados,
é alçada ao altar dos incensados pela inveja alheia. Ela se torna também objeto, confundida com seus
apetrechos e tudo mais que carrega nela, mas não é ela: bens, cifrões, cargos etc. Comércio deriva de "com
mercê", com troca.
Hoje as relações de consumo são desprovidas de troca, impessoais, não mais mediatizadas pelas
pessoas. Outrora, a quitanda, o boteco, a mercearia, criavam vínculos entre o vendedor e o comprador, e
também constituíam o espaço das relações de vizinhança, como ainda ocorre na feira.
Agora, o supermercado suprime a presença humana. Lá está a gôndola abarrotada de produtos
sedutoramente embalados. Ali, a frustração da falta de convívio é compensada pelo consumo supérfluo.
"Nada poderia ser maior que a sedução" - diz Jean Baudrillard - "nem mesmo a ordem que a destrói." E a
sedução ganha seu supremo canal na compra pela internet. Sem sair da cadeira, o consumidor faz chegar à
sua casa todos os produtos que deseja.
Vou com frequência a livrarias de shoppings. Ao passar diante das lojas e contemplar os
veneráveis objetos de consumo, vendedores se acercam indagando se necessito algo. "Não, obrigado. Estou
apenas fazendo um passeio socrático", respondo. Olham-me intrigados. Então explico: Sócrates era um
filósofo grego que viveu séculos antes de Cristo. Também gostava de passear pelas ruas comerciais de
Atenas. E, assediado por vendedores como vocês, respondia: "Estou apenas observando quanta coisa existe
de que não preciso para ser feliz".
Disponível em: http://www.triplov.com/frei_betto/consumo.html
Acesso em 01 abr. 2023.
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TEXTO 01
Consumo, logo existo
Por Frei Betto
Ao visitar a admirável obra social do cantor Carlinhos Brown, no Candeal, em Salvador, ouvi-o
contar que, na infância, vivida ali na pobreza, ele não conheceu a fome. Havia sempre um pouco de farinha,
feijão, frutas e hortaliças. "Quem trouxe a fome foi a geladeira", disse. O eletrodoméstico impôs à família a
necessidade do supérfluo: refrigerantes, sorvetes etc. A economia de mercado, centrada no lucro e não nos
direitos da população, nos submete ao consumo de símbolos. O valor simbólico da mercadoria figura acima
de sua utilidade.
Assim, a fome a que se refere Carlinhos Brown é inelutavelmente insaciável. É próprio do humano
– e nisso também nos diferenciamos dos animais – manipular o alimento que ingere. A refeição exige preparo,
criatividade, e a cozinha é laboratório culinário, como a mesa é missa, no sentido litúrgico. A ingestão de
alimentos por um gato ou cachorro é um atavismo desprovido de arte. Entre humanos, comer exige um mínimo
de cerimônia: sentar à mesa coberta pela toalha, usar talheres, apresentar os pratos com esmero e,
sobretudo, desfrutar da companhia de outros comensais. Trata-se de um ritual que possui rubricas indeléveis.
Parece-me desumano comer de pé ou sozinho, retirando o alimento diretamente da panela. Marx já havia se
dado conta do peso da geladeira. Nos Manuscritos econômicos e filosóficos (1844), ele constata que "o valor
que cada um possui aos olhos do outro é o valor de seus respectivos bens. Portanto, em si o homem não tem
valor para nós."
O capitalismo de tal modo desumaniza que já não somos apenas consumidores, somos também
consumidos. As mercadorias que me revestem e os bens simbólicos que me cercam é que determinam meu
valor social. Desprovido ou despojado deles, perco o valor, condenado ao mundo ignaro da pobreza e à
cultura da exclusão. Para o povo maori da Nova Zelândia, cada coisa, e não apenas as pessoas, tem alma.
Em comunidades tradicionais da África também se encontra essa interação matéria-espírito. Ora, se dizem a
nós que um aborígene cultua uma árvore ou pedra, um totem ou ave, com certeza faremos um olhar de
desdém. Mas quantos de nós não cultuam o próprio carro, um determinado vinho guardado na adega, uma
joia? Assim como um objeto se associa a seu dono nas comunidades tribais, na sociedade de consumo, o
mesmo ocorre sob a sofisticada égide da grife. Não se compra um vestido, compra-se um Gaultier; não se
adquire um carro, e sim uma Ferrari; não se bebe um vinho, mas um Château Margaux. A roupa pode ser a
mais horrorosa possível, porém, se traz a assinatura de um famoso estilista, a gata borralheira transforma-se
em Cinderela. Somos consumidos pelas mercadorias na medida em que essa cultura neoliberal nos faz
acreditar que delas emana uma energia que nos cobre como uma bendita unção, a de que pertencemos ao
mundo dos eleitos, dos ricos, do poder.
Pois a avassaladora indústria do consumismo imprime aos objetos uma aura, um espírito, que nos
transfigura quando neles tocamos. E se somos privados desse privilégio, o sentimento de exclusão causa
frustração, depressão, infelicidade. Não importa que a pessoa seja imbecil. Revestida de objetos cobiçados,
é alçada ao altar dos incensados pela inveja alheia. Ela se torna também objeto, confundida com seus
apetrechos e tudo mais que carrega nela, mas não é ela: bens, cifrões, cargos etc. Comércio deriva de "com
mercê", com troca.
Hoje as relações de consumo são desprovidas de troca, impessoais, não mais mediatizadas pelas
pessoas. Outrora, a quitanda, o boteco, a mercearia, criavam vínculos entre o vendedor e o comprador, e
também constituíam o espaço das relações de vizinhança, como ainda ocorre na feira.
Agora, o supermercado suprime a presença humana. Lá está a gôndola abarrotada de produtos
sedutoramente embalados. Ali, a frustração da falta de convívio é compensada pelo consumo supérfluo.
"Nada poderia ser maior que a sedução" - diz Jean Baudrillard - "nem mesmo a ordem que a destrói." E a
sedução ganha seu supremo canal na compra pela internet. Sem sair da cadeira, o consumidor faz chegar à
sua casa todos os produtos que deseja.
Vou com frequência a livrarias de shoppings. Ao passar diante das lojas e contemplar os
veneráveis objetos de consumo, vendedores se acercam indagando se necessito algo. "Não, obrigado. Estou
apenas fazendo um passeio socrático", respondo. Olham-me intrigados. Então explico: Sócrates era um
filósofo grego que viveu séculos antes de Cristo. Também gostava de passear pelas ruas comerciais de
Atenas. E, assediado por vendedores como vocês, respondia: "Estou apenas observando quanta coisa existe
de que não preciso para ser feliz".
Disponível em: http://www.triplov.com/frei_betto/consumo.html
Acesso em 01 abr. 2023.
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TEXTO 01
Consumo, logo existo
Por Frei Betto
Ao visitar a admirável obra social do cantor Carlinhos Brown, no Candeal, em Salvador, ouvi-o
contar que, na infância, vivida ali na pobreza, ele não conheceu a fome. Havia sempre um pouco de farinha,
feijão, frutas e hortaliças. "Quem trouxe a fome foi a geladeira", disse. O eletrodoméstico impôs à família a
necessidade do supérfluo: refrigerantes, sorvetes etc. A economia de mercado, centrada no lucro e não nos
direitos da população, nos submete ao consumo de símbolos. O valor simbólico da mercadoria figura acima
de sua utilidade.
Assim, a fome a que se refere Carlinhos Brown é inelutavelmente insaciável. É próprio do humano
– e nisso também nos diferenciamos dos animais – manipular o alimento que ingere. A refeição exige preparo,
criatividade, e a cozinha é laboratório culinário, como a mesa é missa, no sentido litúrgico. A ingestão de
alimentos por um gato ou cachorro é um atavismo desprovido de arte. Entre humanos, comer exige um mínimo
de cerimônia: sentar à mesa coberta pela toalha, usar talheres, apresentar os pratos com esmero e,
sobretudo, desfrutar da companhia de outros comensais. Trata-se de um ritual que possui rubricas indeléveis.
Parece-me desumano comer de pé ou sozinho, retirando o alimento diretamente da panela. Marx já havia se
dado conta do peso da geladeira. Nos Manuscritos econômicos e filosóficos (1844), ele constata que "o valor
que cada um possui aos olhos do outro é o valor de seus respectivos bens. Portanto, em si o homem não tem
valor para nós."
O capitalismo de tal modo desumaniza que já não somos apenas consumidores, somos também
consumidos. As mercadorias que me revestem e os bens simbólicos que me cercam é que determinam meu
valor social. Desprovido ou despojado deles, perco o valor, condenado ao mundo ignaro da pobreza e à
cultura da exclusão. Para o povo maori da Nova Zelândia, cada coisa, e não apenas as pessoas, tem alma.
Em comunidades tradicionais da África também se encontra essa interação matéria-espírito. Ora, se dizem a
nós que um aborígene cultua uma árvore ou pedra, um totem ou ave, com certeza faremos um olhar de
desdém. Mas quantos de nós não cultuam o próprio carro, um determinado vinho guardado na adega, uma
joia? Assim como um objeto se associa a seu dono nas comunidades tribais, na sociedade de consumo, o
mesmo ocorre sob a sofisticada égide da grife. Não se compra um vestido, compra-se um Gaultier; não se
adquire um carro, e sim uma Ferrari; não se bebe um vinho, mas um Château Margaux. A roupa pode ser a
mais horrorosa possível, porém, se traz a assinatura de um famoso estilista, a gata borralheira transforma-se
em Cinderela. Somos consumidos pelas mercadorias na medida em que essa cultura neoliberal nos faz
acreditar que delas emana uma energia que nos cobre como uma bendita unção, a de que pertencemos ao
mundo dos eleitos, dos ricos, do poder.
Pois a avassaladora indústria do consumismo imprime aos objetos uma aura, um espírito, que nos
transfigura quando neles tocamos. E se somos privados desse privilégio, o sentimento de exclusão causa
frustração, depressão, infelicidade. Não importa que a pessoa seja imbecil. Revestida de objetos cobiçados,
é alçada ao altar dos incensados pela inveja alheia. Ela se torna também objeto, confundida com seus
apetrechos e tudo mais que carrega nela, mas não é ela: bens, cifrões, cargos etc. Comércio deriva de "com
mercê", com troca.
Hoje as relações de consumo são desprovidas de troca, impessoais, não mais mediatizadas pelas
pessoas. Outrora, a quitanda, o boteco, a mercearia, criavam vínculos entre o vendedor e o comprador, e
também constituíam o espaço das relações de vizinhança, como ainda ocorre na feira.
Agora, o supermercado suprime a presença humana. Lá está a gôndola abarrotada de produtos
sedutoramente embalados. Ali, a frustração da falta de convívio é compensada pelo consumo supérfluo.
"Nada poderia ser maior que a sedução" - diz Jean Baudrillard - "nem mesmo a ordem que a destrói." E a
sedução ganha seu supremo canal na compra pela internet. Sem sair da cadeira, o consumidor faz chegar à
sua casa todos os produtos que deseja.
Vou com frequência a livrarias de shoppings. Ao passar diante das lojas e contemplar os
veneráveis objetos de consumo, vendedores se acercam indagando se necessito algo. "Não, obrigado. Estou
apenas fazendo um passeio socrático", respondo. Olham-me intrigados. Então explico: Sócrates era um
filósofo grego que viveu séculos antes de Cristo. Também gostava de passear pelas ruas comerciais de
Atenas. E, assediado por vendedores como vocês, respondia: "Estou apenas observando quanta coisa existe
de que não preciso para ser feliz".
Disponível em: http://www.triplov.com/frei_betto/consumo.html
Acesso em 01 abr. 2023.
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A questão refere-se ao texto abaixo.
TEXTO 03
Quem é Hipólita Jacinta, a primeira mulher a fazer parte do
Panteão da Inconfidência em Ouro Preto?
Por Christiano Borges,
jornalista do G1.
Hoje, cerca de 230 anos depois da Inconfidência Mineira, Hipólita Jacinta Teixeira de Melo terá
finalmente o reconhecimento merecido e negligenciado por livros, registros e documentos - não
despropositadamente - que ignoraram a decisiva participação da destemida fazendeira mineira no movimento
que queria libertar Minas Gerais da Coroa Portuguesa.
Segundo aponta a historiadora Heloísa Starling, naquela época, "Hipólita foi personagem de grande
importância na Conjuração Mineira, ao colaborar para a comunicação entre os inconfidentes, além de financiar
algumas das ações do movimento, já ela que detinha grande riqueza, e disponibilizar sua residência, a
Fazenda Ponta do Morro, para encontros e reuniões dos mesmos".
Hipólita será a primeira mulher a ter uma lápide no Panteão do Inconfidentes, em Ouro Preto, na
Região Central de Minas Gerais. Uma cerimônia de homenagem acontece neste sábado (29) no Museu da
Inconfidência. O papel desempenhado por Hipólita na Conjuração Mineira, outro nome do movimento,
também será debatido.
Adaptado de: https://g1.globo.com/mg/minas-gerais/noticia/2023/04/29/quem-e-hipolita-jacinta-a-primeira-mulher-afazer-parte-do-panteao-da-inconfidencia-em-ouro-preto.ghtml
Acesso em: 29 abr. 2023.
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Questão presente nas seguintes provas
A questão referem-se à charge abaixo.
TEXTO 02

Disponível em: http://gilmaronline.blogspot.com/2018/04/charge-indigenas.html
Acesso em 01. abr. 2023.
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Questão presente nas seguintes provas
A questão refere-se ao texto abaixo.
TEXTO 01
“Eles não são mais índios...”
A possibilidade de uma vida indígena foi cada vez mais dificultada, dado o avanço da 'civilização'
sobre suas terras
Por Maria Luiza Santos Soares,
jornalista e mestre em comunicação.
“Eles não são mais índios… eles perderam a sua cultura”. Esta frase recorrente no seio da sociedade
brasileira faz parte de uma herança, cuja origem remonta à descoberta do Novo Mundo pelos navegadores
portugueses e espanhóis. Desde então, a ideia acerca dos povos indígenas vem sendo construída através
de um olhar nostálgico, reservando-lhes um lugar que não cabe no espaço contemporâneo. Este
estranhamento, no entanto, foi construído historicamente, desde os primeiros relatos dos colonizadores,
passando pelos escritos iluministas de Russeau, Rotherdan e Morus, pela literatura romântica brasileira do
século XIX, aos dias de hoje.
Por isso ainda é comum a ironia diante de um indígena utilizando um automóvel do ano, um celular,
ou um computador. Esta visão também bebeu na fonte de textos bíblicos, como se os povos ameríndios
fossem os verdadeiros habitantes do Éden, mantendo fora da história tudo que estivesse relacionado com
eles. Não é por nada que demarcação das terras indígenas atiça setores da elite com o mesmo discurso
“muita terra para pouco índio”.
“Que índio é este, vestido com roupas de branco?” É o que dizem muitas pessoas ao encontrarem
famílias Kaingang e Guarani vendendo seu artesanato no Brique da Redenção aos domingos em Porto
Alegre. De todos os absurdos que podem ser atribuídos a eles, este certamente é o mais cruel. Não são mais
índios por quê? Por que perderam sua cultura? Por que não passeiam em trajes típicos neste paraíso tão
almejado pelos conquistadores lá nos mil e quinhentos?
E o que significa ser indígena? Ao consideramos que, originariamente, os povos que aqui se
desenvolveram estavam intimamente ligados ao meio ambiente, a crueldade aumenta ainda mais. No Rio
Grande do Sul, cada etnia vivia em um determinado ecossistema. Enquanto alguns grupos habitavam os
campos, Charruas e os Minuanos, os Guarani viviam na Mata Atlântica e os Kaingang, no Planalto Meridional
– cada qual dispondo dos recursos naturais à sua volta. Mais de que um bioma em si, não se tratava apenas
de uma questão de sustentabilidade material. Existia uma raiz cultural na relação com o espaço que
ocupavam. Eles desconheciam a terra como propriedade privada. Seu valor não era o do mercado. Para os
povos originários, a terra tem um caráter místico e cosmológico, por isso nenhum lugar é igual a outro. Pela
mesma razão, estão reunidos hoje em Brasília no Acampamento Terra Livre. Querem suas terras ancestrais
e o direito de continuarem sendo indígenas, preconizado pela Constituição brasileira – Aliás, direito ainda hoje
questionado pelas elites conservadoras e seu governo despótico, interessados no que há acima e abaixo das
terras indígenas.
A dita “perda da cultura”, portanto, está ligada à invasão de suas terras. Como realizar todos os rituais
das diferentes etnias sem os elementos da natureza que deram origem às suas crenças e costumes? Por
isso fica difícil entender por que, no Rio Grande do Sul, estado onde prevalecem culturas estrangeiras
preservadas até hoje, não se respeita a cultura originária. Talvez, no fundo, seja mesmo uma profunda
dificuldade de uns se colocarem no lugar de outros.
O antropólogo Claude Lévi-Strauss revelou às Nações Unidas, por meio de um discurso proferido em
1959, que “a diversidade deve ser salva”, sugerindo que não se pode mais enxergar o indígena com os olhos
dos conquistadores. Ao valorizar somente seu passado, repete-se o mesmo equívoco: o de estacionar nosso
imaginário naquele tempo passado, fixado na ideia de preservação de uma cultura, como se ela fosse
inexorável. Tudo muda e tudo flui, como bem nos ensinou Heráclito.
Darcy Ribeiro em “O índio e a civilização” (1970) mostrou que a interação dos indígenas com a
sociedade brasileira os levou de uma condição de índios-tribais à de índios genéricos. Portanto, não é por
nada que o preconceito persiste – há 308 etnias no Brasil atual, sendo que, no Rio Grande do Sul, além dos
Guarani e dos Kaingang, ainda estão os remanescentes dos Xoklen e dos Charrua. Segundo ele, o avanço
sobre os territórios indígenas era quase impossível frente à discriminação racial e os interesses que estavam
em jogo: culturas indígenas diante do desenvolvimento econômico do país.
A possibilidade de uma vida indígena foi cada vez mais dificultada, dado o avanço da “civilização”
sobre suas terras. Foi por ela que os povos indígenas foram usurpados de seu modo de vida tradicional. Foi
por ela que tiveram sua população reduzida por várias décadas, e foi por ela que jamais deixaram de lutar.
No entanto, o “eles não são mais índios” persiste no imaginário.
Sedimentada numa gama de saberes que se reproduziram na ação daqueles encarregados de regrar
as normas para a colônia, as populações indígenas enfrentaram desde então as diferentes ações de linhagem
imperialista: desde as feitorias, passando pelas missões religiosas, aldeamentos, até a tutela, que só deixou
de existir, pelo menos na forma da lei, com a Constituição de 1988.
stir, pelo menos na forma da lei, com a Constituição de 1988.
Em 1680, a coroa Portuguesa concede às missões religiosas, principalmente aos jesuítas, a
administração dos indígenas, através do Regimento das Missões, onde estava explícito que transformar os
índios em cristãos era o mesmo que torná-los vassalos do Rei de Portugal. Embora não constasse no
Regimento, o extermínio de grandes populações indígenas foi enorme, bem como sua escravização. Os
aldeamentos iniciaram-se com as missões jesuíticas, através da transferência de etnias inteiras sob o pretexto
de novas almas para a Igreja.
Em 1755, o Diretório Pombalino, muitas vezes ainda saudado por promover a liberdade dos índios,
deu aos povos indígenas o direito de escolherem a quem serviriam. Pombal na verdade estava preocupado
com o avanço do poder dos jesuítas sobre as populações nativas, e pretendia ocupar o território. Assim, as
aldeias transformaram-se em vilas. Os indígenas não seriam mais convertidos à religião, mas à civilização, à
cultura e ao comércio dos brancos.
O Diretório Pombalino previa a miscigenação, através do casamento de homens brancos com
mulheres indígenas, proibia a língua geral nas escolas indígenas e incentivava o trabalho e o comércio entre
eles. Desta forma, inaugurava-se a retórica da civilização, que vai perdurar até início do século XIX. O termo
civilizado vem servindo de desculpa para suas mais perversas ações contra os povos indígenas, e acabou
virando sinônimo, inclusive para os indígenas, de homem branco.
Os tempos que sucedem o fim da II Guerra Mundial vão refletir nas ciências sociais buscando
respostas contra as atrocidades. Novos horizontes iluminaram a Antropologia Social. Neste contexto,
trabalhos dos etnólogos ligados ao Serviço de Proteção ao Índio passarão a ser orientados por estes ares,
que em termos mundiais, são determinados pela Convenção 169 da Organização Mundial do Trabalho, da
ONU, em 1948. Ela vai pregar a autodeterminação dos povos indígenas, ao decretar que as terras ocupadas
por eles devem suprir-lhes o sustento de acordo com sua cultura, formando, ainda que de forma embrionária,
uma resistência à fúria desenvolvimentista que invadia as terras novas do Brasil.
As práticas do Serviço de Proteção ao Índio, e mais tarde da Funai que viria a substituí-lo em 1967,
porém, não acompanhariam oficialmente a emancipação das comunidades indígenas, tutelando-as
legalmente, até a Constituição de 88. Além disso, o Estado brasileiro teve muita dificuldade de implementar
políticas públicas fundadas na riqueza cultural destes povos, para se contrapor à ideia desenvolvimentista
que não acolhe a diversidade. E o mais cruel ainda é perceber que muitas vezes os setores que negam a
indianidade de nossos povos originários são os mesmo que querem plantar soja ou minerar em suas terras.
Então, cara pálida, quem não é mais índio?
Adaptado de https://www.brasildefators.com.br/2022/04/18/artigo-eles-nao-sao-mais-indios
Acesso em: 01 abr. 2023.
A possibilidade de uma vida indígena foi cada vez mais dificultada, dado o avanço da 'civilização' sobre suas terras
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Questão presente nas seguintes provas
A questão referem-se ao texto abaixo.
TEXTO 03
Quem é Hipólita Jacinta, a primeira mulher a fazer parte do
Panteão da Inconfidência em Ouro Preto?
Por Christiano Borges,
jornalista do G1.
Hoje, cerca de 230 anos depois da Inconfidência Mineira, Hipólita Jacinta Teixeira de Melo terá
finalmente o reconhecimento merecido e negligenciado por livros, registros e documentos - não
despropositadamente - que ignoraram a decisiva participação da destemida fazendeira mineira no movimento
que queria libertar Minas Gerais da Coroa Portuguesa.
Segundo aponta a historiadora Heloísa Starling, naquela época, "Hipólita foi personagem de grande
importância na Conjuração Mineira, ao colaborar para a comunicação entre os inconfidentes, além de financiar
algumas das ações do movimento, já ela que detinha grande riqueza, e disponibilizar sua residência, a
Fazenda Ponta do Morro, para encontros e reuniões dos mesmos".
Hipólita será a primeira mulher a ter uma lápide no Panteão do Inconfidentes, em Ouro Preto, na
Região Central de Minas Gerais. Uma cerimônia de homenagem acontece neste sábado (29) no Museu da
Inconfidência. O papel desempenhado por Hipólita na Conjuração Mineira, outro nome do movimento,
também será debatido.
Adaptado de: https://g1.globo.com/mg/minas-gerais/noticia/2023/04/29/quem-e-hipolita-jacinta-a-primeira-mulher-afazer-parte-do-panteao-da-inconfidencia-em-ouro-preto.ghtml
Acesso em: 29 abr. 2023.
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A questão referem-se à charge abaixo.
TEXTO 02

Disponível em: http://gilmaronline.blogspot.com/2018/04/charge-indigenas.html
Acesso em 01. abr. 2023.
Quanto à mensagem implícita na charge, é coerente afirmar que
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A questão referem-se ao texto abaixo.
TEXTO 01
“Eles não são mais índios...”
A possibilidade de uma vida indígena foi cada vez mais dificultada, dado o avanço da 'civilização'
sobre suas terras
Por Maria Luiza Santos Soares,
jornalista e mestre em comunicação.
“Eles não são mais índios… eles perderam a sua cultura”. Esta frase recorrente no seio da sociedade
brasileira faz parte de uma herança, cuja origem remonta à descoberta do Novo Mundo pelos navegadores
portugueses e espanhóis. Desde então, a ideia acerca dos povos indígenas vem sendo construída através
de um olhar nostálgico, reservando-lhes um lugar que não cabe no espaço contemporâneo. Este
estranhamento, no entanto, foi construído historicamente, desde os primeiros relatos dos colonizadores,
passando pelos escritos iluministas de Russeau, Rotherdan e Morus, pela literatura romântica brasileira do
século XIX, aos dias de hoje.
Por isso ainda é comum a ironia diante de um indígena utilizando um automóvel do ano, um celular,
ou um computador. Esta visão também bebeu na fonte de textos bíblicos, como se os povos ameríndios
fossem os verdadeiros habitantes do Éden, mantendo fora da história tudo que estivesse relacionado com
eles. Não é por nada que demarcação das terras indígenas atiça setores da elite com o mesmo discurso
“muita terra para pouco índio”.
Que índio é este, vestido com roupas de branco?” É o que dizem muitas pessoas ao encontrarem
famílias Kaingang e Guarani vendendo seu artesanato no Brique da Redenção aos domingos em Porto
Alegre. De todos os absurdos que podem ser atribuídos a eles, este certamente é o mais cruel. Não são mais
índios por quê? Por que perderam sua cultura? Por que não passeiam em trajes típicos neste paraíso tão
almejado pelos conquistadores lá nos mil e quinhentos?
E o que significa ser indígena? Ao consideramos que, originariamente, os povos que aqui se
desenvolveram estavam intimamente ligados ao meio ambiente, a crueldade aumenta ainda mais. No Rio
Grande do Sul, cada etnia vivia em um determinado ecossistema. Enquanto alguns grupos habitavam os
campos, Charruas e os Minuanos, os Guarani viviam na Mata Atlântica e os Kaingang, no Planalto Meridional
– cada qual dispondo dos recursos naturais à sua volta. Mais de que um bioma em si, não se tratava apenas
de uma questão de sustentabilidade material. Existia uma raiz cultural na relação com o espaço que
ocupavam. Eles desconheciam a terra como propriedade privada. Seu valor não era o do mercado. Para os
povos originários, a terra tem um caráter místico e cosmológico, por isso nenhum lugar é igual a outro. Pela
mesma razão, estão reunidos hoje em Brasília no Acampamento Terra Livre. Querem suas terras ancestrais
e o direito de continuarem sendo indígenas, preconizado pela Constituição brasileira – Aliás, direito ainda hoje
questionado pelas elites conservadoras e seu governo despótico, interessados no que há acima e abaixo das
terras indígenas.
A dita “perda da cultura”, portanto, está ligada à invasão de suas terras. Como realizar todos os rituais
das diferentes etnias sem os elementos da natureza que deram origem às suas crenças e costumes? Por
isso fica difícil entender por que, no Rio Grande do Sul, estado onde prevalecem culturas estrangeiras
preservadas até hoje, não se respeita a cultura originária. Talvez, no fundo, seja mesmo uma profunda
dificuldade de uns se colocarem no lugar de outros.
O antropólogo Claude Lévi-Strauss revelou às Nações Unidas, por meio de um discurso proferido em
1959, que “a diversidade deve ser salva”, sugerindo que não se pode mais enxergar o indígena com os olhos
dos conquistadores. Ao valorizar somente seu passado, repete-se o mesmo equívoco: o de estacionar nosso
imaginário naquele tempo passado, fixado na ideia de preservação de uma cultura, como se ela fosse
inexorável. Tudo muda e tudo flui, como bem nos ensinou Heráclito.
Darcy Ribeiro em “O índio e a civilização” (1970) mostrou que a interação dos indígenas com a
sociedade brasileira os levou de uma condição de índios-tribais à de índios genéricos. Portanto, não é por
nada que o preconceito persiste – há 308 etnias no Brasil atual, sendo que, no Rio Grande do Sul, além dos
Guarani e dos Kaingang, ainda estão os remanescentes dos Xoklen e dos Charrua. Segundo ele, o avanço
sobre os territórios indígenas era quase impossível frente à discriminação racial e os interesses que estavam
em jogo: culturas indígenas diante do desenvolvimento econômico do país.
A possibilidade de uma vida indígena foi cada vez mais dificultada, dado o avanço da “civilização”
sobre suas terras. Foi por ela que os povos indígenas foram usurpados de seu modo de vida tradicional. Foi
por ela que tiveram sua população reduzida por várias décadas, e foi por ela que jamais deixaram de lutar.
No entanto, o “eles não são mais índios” persiste no imaginário.
Sedimentada numa gama de saberes que se reproduziram na ação daqueles encarregados de regrar
as normas para a colônia, as populações indígenas enfrentaram desde então as diferentes ações de linhagem
imperialista: desde as feitorias, passando pelas missões religiosas, aldeamentos, até a tutela, que só deixou
de existir, pelo menos na forma da lei, com a Constituição de 1988.
Em 1680, a coroa Portuguesa concede às missões religiosas, principalmente aos jesuítas, a
administração dos indígenas, através do Regimento das Missões, onde estava explícito que transformar os
índios em cristãos era o mesmo que torná-los vassalos do Rei de Portugal. Embora não constasse no
Regimento, o extermínio de grandes populações indígenas foi enorme, bem como sua escravização. Os
aldeamentos iniciaram-se com as missões jesuíticas, através da transferência de etnias inteiras sob o pretexto
de novas almas para a Igreja.
Em 1755, o Diretório Pombalino, muitas vezes ainda saudado por promover a liberdade dos índios,
deu aos povos indígenas o direito de escolherem a quem serviriam. Pombal na verdade estava preocupado
com o avanço do poder dos jesuítas sobre as populações nativas, e pretendia ocupar o território. Assim, as
aldeias transformaram-se em vilas. Os indígenas não seriam mais convertidos à religião, mas à civilização, à
cultura e ao comércio dos brancos.
O Diretório Pombalino previa a miscigenação, através do casamento de homens brancos com
mulheres indígenas, proibia a língua geral nas escolas indígenas e incentivava o trabalho e o comércio entre
eles. Desta forma, inaugurava-se a retórica da civilização, que vai perdurar até início do século XIX. O termo
civilizado vem servindo de desculpa para suas mais perversas ações contra os povos indígenas, e acabou
virando sinônimo, inclusive para os indígenas, de homem branco.
Os tempos que sucedem o fim da II Guerra Mundial vão refletir nas ciências sociais buscando
respostas contra as atrocidades. Novos horizontes iluminaram a Antropologia Social. Neste contexto,
trabalhos dos etnólogos ligados ao Serviço de Proteção ao Índio passarão a ser orientados por estes ares,
que em termos mundiais, são determinados pela Convenção 169 da Organização Mundial do Trabalho, da
ONU, em 1948. Ela vai pregar a autodeterminação dos povos indígenas, ao decretar que as terras ocupadas
por eles devem suprir-lhes o sustento de acordo com sua cultura, formando, ainda que de forma embrionária,
uma resistência à fúria desenvolvimentista que invadia as terras novas do Brasil.
As práticas do Serviço de Proteção ao Índio, e mais tarde da Funai que viria a substituí-lo em 1967,
porém, não acompanhariam oficialmente a emancipação das comunidades indígenas, tutelando-as
legalmente, até a Constituição de 88. Além disso, o Estado brasileiro teve muita dificuldade de implementar
políticas públicas fundadas na riqueza cultural destes povos, para se contrapor à ideia desenvolvimentista
que não acolhe a diversidade. E o mais cruel ainda é perceber que muitas vezes os setores que negam a
indianidade de nossos povos originários são os mesmo que querem plantar soja ou minerar em suas terras.
Então, cara pálida, quem não é mais índio?
Adaptado de https://www.brasildefators.com.br/2022/04/18/artigo-eles-nao-sao-mais-indios
Acesso em: 01 abr. 2023.
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A questão referem-se ao texto abaixo.
TEXTO 01
“Eles não são mais índios...”
A possibilidade de uma vida indígena foi cada vez mais dificultada, dado o avanço da 'civilização'
sobre suas terras
Por Maria Luiza Santos Soares,
jornalista e mestre em comunicação.
“Eles não são mais índios… eles perderam a sua cultura”. Esta frase recorrente no seio da sociedade
brasileira faz parte de uma herança, cuja origem remonta à descoberta do Novo Mundo pelos navegadores
portugueses e espanhóis. Desde então, a ideia acerca dos povos indígenas vem sendo construída através
de um olhar nostálgico, reservando-lhes um lugar que não cabe no espaço contemporâneo. Este
estranhamento, no entanto, foi construído historicamente, desde os primeiros relatos dos colonizadores,
passando pelos escritos iluministas de Russeau, Rotherdan e Morus, pela literatura romântica brasileira do
século XIX, aos dias de hoje.
Por isso ainda é comum a ironia diante de um indígena utilizando um automóvel do ano, um celular,
ou um computador. Esta visão também bebeu na fonte de textos bíblicos, como se os povos ameríndios
fossem os verdadeiros habitantes do Éden, mantendo fora da história tudo que estivesse relacionado com
eles. Não é por nada que demarcação das terras indígenas atiça setores da elite com o mesmo discurso
“muita terra para pouco índio”.
Que índio é este, vestido com roupas de branco?” É o que dizem muitas pessoas ao encontrarem
famílias Kaingang e Guarani vendendo seu artesanato no Brique da Redenção aos domingos em Porto
Alegre. De todos os absurdos que podem ser atribuídos a eles, este certamente é o mais cruel. Não são mais
índios por quê? Por que perderam sua cultura? Por que não passeiam em trajes típicos neste paraíso tão
almejado pelos conquistadores lá nos mil e quinhentos?
E o que significa ser indígena? Ao consideramos que, originariamente, os povos que aqui se
desenvolveram estavam intimamente ligados ao meio ambiente, a crueldade aumenta ainda mais. No Rio
Grande do Sul, cada etnia vivia em um determinado ecossistema. Enquanto alguns grupos habitavam os
campos, Charruas e os Minuanos, os Guarani viviam na Mata Atlântica e os Kaingang, no Planalto Meridional
– cada qual dispondo dos recursos naturais à sua volta. Mais de que um bioma em si, não se tratava apenas
de uma questão de sustentabilidade material. Existia uma raiz cultural na relação com o espaço que
ocupavam. Eles desconheciam a terra como propriedade privada. Seu valor não era o do mercado. Para os
povos originários, a terra tem um caráter místico e cosmológico, por isso nenhum lugar é igual a outro. Pela
mesma razão, estão reunidos hoje em Brasília no Acampamento Terra Livre. Querem suas terras ancestrais
e o direito de continuarem sendo indígenas, preconizado pela Constituição brasileira – Aliás, direito ainda hoje
questionado pelas elites conservadoras e seu governo despótico, interessados no que há acima e abaixo das
terras indígenas.
A dita “perda da cultura”, portanto, está ligada à invasão de suas terras. Como realizar todos os rituais
das diferentes etnias sem os elementos da natureza que deram origem às suas crenças e costumes? Por
isso fica difícil entender por que, no Rio Grande do Sul, estado onde prevalecem culturas estrangeiras
preservadas até hoje, não se respeita a cultura originária. Talvez, no fundo, seja mesmo uma profunda
dificuldade de uns se colocarem no lugar de outros.
O antropólogo Claude Lévi-Strauss revelou às Nações Unidas, por meio de um discurso proferido em
1959, que “a diversidade deve ser salva”, sugerindo que não se pode mais enxergar o indígena com os olhos
dos conquistadores. Ao valorizar somente seu passado, repete-se o mesmo equívoco: o de estacionar nosso
imaginário naquele tempo passado, fixado na ideia de preservação de uma cultura, como se ela fosse
inexorável. Tudo muda e tudo flui, como bem nos ensinou Heráclito.
Darcy Ribeiro em “O índio e a civilização” (1970) mostrou que a interação dos indígenas com a
sociedade brasileira os levou de uma condição de índios-tribais à de índios genéricos. Portanto, não é por
nada que o preconceito persiste – há 308 etnias no Brasil atual, sendo que, no Rio Grande do Sul, além dos
Guarani e dos Kaingang, ainda estão os remanescentes dos Xoklen e dos Charrua. Segundo ele, o avanço
sobre os territórios indígenas era quase impossível frente à discriminação racial e os interesses que estavam
em jogo: culturas indígenas diante do desenvolvimento econômico do país.
A possibilidade de uma vida indígena foi cada vez mais dificultada, dado o avanço da “civilização”
sobre suas terras. Foi por ela que os povos indígenas foram usurpados de seu modo de vida tradicional. Foi
por ela que tiveram sua população reduzida por várias décadas, e foi por ela que jamais deixaram de lutar.
No entanto, o “eles não são mais índios” persiste no imaginário.
Sedimentada numa gama de saberes que se reproduziram na ação daqueles encarregados de regrar
as normas para a colônia, as populações indígenas enfrentaram desde então as diferentes ações de linhagem
imperialista: desde as feitorias, passando pelas missões religiosas, aldeamentos, até a tutela, que só deixou
de existir, pelo menos na forma da lei, com a Constituição de 1988.
Em 1680, a coroa Portuguesa concede às missões religiosas, principalmente aos jesuítas, a
administração dos indígenas, através do Regimento das Missões, onde estava explícito que transformar os
índios em cristãos era o mesmo que torná-los vassalos do Rei de Portugal. Embora não constasse no
Regimento, o extermínio de grandes populações indígenas foi enorme, bem como sua escravização. Os
aldeamentos iniciaram-se com as missões jesuíticas, através da transferência de etnias inteiras sob o pretexto
de novas almas para a Igreja.
Em 1755, o Diretório Pombalino, muitas vezes ainda saudado por promover a liberdade dos índios,
deu aos povos indígenas o direito de escolherem a quem serviriam. Pombal na verdade estava preocupado
com o avanço do poder dos jesuítas sobre as populações nativas, e pretendia ocupar o território. Assim, as
aldeias transformaram-se em vilas. Os indígenas não seriam mais convertidos à religião, mas à civilização, à
cultura e ao comércio dos brancos.
O Diretório Pombalino previa a miscigenação, através do casamento de homens brancos com
mulheres indígenas, proibia a língua geral nas escolas indígenas e incentivava o trabalho e o comércio entre
eles. Desta forma, inaugurava-se a retórica da civilização, que vai perdurar até início do século XIX. O termo
civilizado vem servindo de desculpa para suas mais perversas ações contra os povos indígenas, e acabou
virando sinônimo, inclusive para os indígenas, de homem branco.
Os tempos que sucedem o fim da II Guerra Mundial vão refletir nas ciências sociais buscando
respostas contra as atrocidades. Novos horizontes iluminaram a Antropologia Social. Neste contexto,
trabalhos dos etnólogos ligados ao Serviço de Proteção ao Índio passarão a ser orientados por estes ares,
que em termos mundiais, são determinados pela Convenção 169 da Organização Mundial do Trabalho, da
ONU, em 1948. Ela vai pregar a autodeterminação dos povos indígenas, ao decretar que as terras ocupadas
por eles devem suprir-lhes o sustento de acordo com sua cultura, formando, ainda que de forma embrionária,
uma resistência à fúria desenvolvimentista que invadia as terras novas do Brasil.
As práticas do Serviço de Proteção ao Índio, e mais tarde da Funai que viria a substituí-lo em 1967,
porém, não acompanhariam oficialmente a emancipação das comunidades indígenas, tutelando-as
legalmente, até a Constituição de 88. Além disso, o Estado brasileiro teve muita dificuldade de implementar
políticas públicas fundadas na riqueza cultural destes povos, para se contrapor à ideia desenvolvimentista
que não acolhe a diversidade. E o mais cruel ainda é perceber que muitas vezes os setores que negam a
indianidade de nossos povos originários são os mesmo que querem plantar soja ou minerar em suas terras.
Então, cara pálida, quem não é mais índio?
Adaptado de https://www.brasildefators.com.br/2022/04/18/artigo-eles-nao-sao-mais-indios
Acesso em: 01 abr. 2023.
O antropólogo Claude Lévi-Strauss revelou às Nações Unidas, por meio de um discurso proferido em 1959, que “a diversidade deve ser salva”, sugerindo que não se pode mais enxergar o indígena com os olhos dos conquistadores.
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