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UMA NOVA FORMA DE EMPOBRECIMENTO
Um fantasma ronda o ser humano: a diminuição do vocabulário
Somos atravessados pela linguagem. Ao nascer, o corpo natural chora ao se deparar com o mundo. Desde então, a emissão de
sons se transforma em palavras, que são interpretadas – bem ou mal – pelos outros que convivem conosco. Nos comunicamos
por essa sonorização que, entendida – ou desentendida –, vai formando um universo no qual nos orientamos em nosso estar-nomundo. Todas as espécies se comunicam, mas nenhuma delas o faz do jeito humano: pela linguagem simbólica.
Conceitos são palavras. Palavras são sons. Sons são impulsos que convencionamos usar para nomear coisas, pessoas e
sentimentos. Durante muito tempo, acreditou-se que os nomes eram universais, entidades incorpóreas que descreviam, de
forma fiel, a essência das coisas. Por exemplo, a palavra “mesa” definia a essência daquele objeto que utilizamos para apoiar
pratos e cadernos. Porém, com a filosofia contemporânea, sabemos que os conceitos são invenções, instrumentos da criação
humana, uma convenção social. Poderíamos ter escolhido qualquer outro som para definir quaisquer outros objetos.
Há uma questão filosófica de primeira grandeza por trás dessa reflexão: existem mais coisas ou palavras no mundo? Como toda
pergunta, ela luta contra a ansiedade da resposta. Por isso, não tente respondê-la de imediato. As grandes perguntas nascem
com o objetivo de fazer pensar e, muitas vezes, respondemos para tentar aliviar a angústia inerente a todo questionamento. É
preciso se deliciar com a reflexão, pois, enquanto fazemos isso, pensamos, e realizamos esse ato por meio das palavras.
Se a linguagem é responsável por enriquecer nosso universo, nos acomodando e nos incomodando, ela também pode ser uma
boa referência para seu oposto: o empobrecimento humano. Não por culpa dela, claro, mas por responsabilidade dos seres
falantes, que esquecem seu caráter humanizador.
Estudos recentes indicam que a chamada geração Z vive um colapso de vocabulário. Cerca de 40% dos jovens estão perdendo
habilidades fundamentais de fluência comunicativa, como a competência de interpretar textos longos ou sustentar diálogos com
sequência lógica, conforme nos aponta o neurocientista Michel Desmurget, autor do livro “A Fábrica de Cretinos Digitais”.
Ao contrário do que muitos pensam, esse dado não aponta apenas para um declínio cognitivo, impactando somente a vida
escolar. O abandono das palavras traça um horizonte bem mais perigoso: uma lenta renúncia ao universo humano. Quando
desistimos da linguagem, abandonamos nós mesmos em um deserto árido, uma paisagem de escassez distópica, semelhante
àquelas dos filmes que retratam o fim do mundo. Vemos coisas, destroços, escombros e não conseguimos nomeá-los, daí o
sentimento de que estamos perdidos. E pior, ainda podem surgir alguns zumbis, tentando se alimentar de nosso cérebro.
É por isso que vivemos uma nova forma de empobrecimento: a pobreza linguística. Incentivados por dispositivos e aplicativos de
criação de textos e imagens, vamos abdicando lentamente daquilo que nos humanizou e entregando aos algoritmos não apenas
a liberdade de escolha, mas a criatividade do falar, a importância do dizer e a beleza de se expressar.
A inteligência artificial ocupa, nesse cenário, um lugar ambíguo. Ela é, ao mesmo tempo, fruto sofisticado da linguagem humana
e possível catalisadora de seu empobrecimento. Alimentada por bilhões de palavras, aprende padrões, imita estilos, recompõe
sentidos. Contudo, ao oferecer respostas prontas, sínteses automáticas e textos instantâneos, pode induzir à terceirização do
esforço expressivo. Se antes a dificuldade de formular uma frase exigia silêncio e reflexão, agora basta um comando. Deslocamos
para a máquina um exercício formativo do espírito.
Cada frase construída exige seleção, hierarquização, renúncia e invenção. Ao delegarmos sistematicamente essa tarefa,
enfraquecemos a musculatura simbólica que sustenta nossa vida comum. A linguagem deixa de ser morada e fica reduzida a um
serviço. O vocabulário se estreita, as imagens se repetem, os argumentos se simplificam. Pouco a pouco, o mundo também se
apequena, pois só enxergamos com nitidez aquilo que sabemos nomear.
A linguagem não é apenas instrumento; ela é a possibilidade do próprio humano. Martin Heidegger a define como “casa do ser”.
Se a habitamos de modo apressado, superficial ou delegado, nossa morada se empobrece.
Por isso não podemos esquecer de que o uso das palavras – para o bem ou para o mal, da diplomacia à poesia - sempre decidiu
o futuro da humanidade.
(Autor: Renato de Faria. Site “Estado de Minas” – Coluna Filosofia Explicadinha. Publicado em 02/03/2026)
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UMA NOVA FORMA DE EMPOBRECIMENTO
Um fantasma ronda o ser humano: a diminuição do vocabulário
Somos atravessados pela linguagem. Ao nascer, o corpo natural chora ao se deparar com o mundo. Desde então, a emissão de
sons se transforma em palavras, que são interpretadas – bem ou mal – pelos outros que convivem conosco. Nos comunicamos
por essa sonorização que, entendida – ou desentendida –, vai formando um universo no qual nos orientamos em nosso estar-nomundo. Todas as espécies se comunicam, mas nenhuma delas o faz do jeito humano: pela linguagem simbólica.
Conceitos são palavras. Palavras são sons. Sons são impulsos que convencionamos usar para nomear coisas, pessoas e
sentimentos. Durante muito tempo, acreditou-se que os nomes eram universais, entidades incorpóreas que descreviam, de
forma fiel, a essência das coisas. Por exemplo, a palavra “mesa” definia a essência daquele objeto que utilizamos para apoiar
pratos e cadernos. Porém, com a filosofia contemporânea, sabemos que os conceitos são invenções, instrumentos da criação
humana, uma convenção social. Poderíamos ter escolhido qualquer outro som para definir quaisquer outros objetos.
Há uma questão filosófica de primeira grandeza por trás dessa reflexão: existem mais coisas ou palavras no mundo? Como toda
pergunta, ela luta contra a ansiedade da resposta. Por isso, não tente respondê-la de imediato. As grandes perguntas nascem
com o objetivo de fazer pensar e, muitas vezes, respondemos para tentar aliviar a angústia inerente a todo questionamento. É
preciso se deliciar com a reflexão, pois, enquanto fazemos isso, pensamos, e realizamos esse ato por meio das palavras.
Se a linguagem é responsável por enriquecer nosso universo, nos acomodando e nos incomodando, ela também pode ser uma
boa referência para seu oposto: o empobrecimento humano. Não por culpa dela, claro, mas por responsabilidade dos seres
falantes, que esquecem seu caráter humanizador.
Estudos recentes indicam que a chamada geração Z vive um colapso de vocabulário. Cerca de 40% dos jovens estão perdendo
habilidades fundamentais de fluência comunicativa, como a competência de interpretar textos longos ou sustentar diálogos com
sequência lógica, conforme nos aponta o neurocientista Michel Desmurget, autor do livro “A Fábrica de Cretinos Digitais”.
Ao contrário do que muitos pensam, esse dado não aponta apenas para um declínio cognitivo, impactando somente a vida
escolar. O abandono das palavras traça um horizonte bem mais perigoso: uma lenta renúncia ao universo humano. Quando
desistimos da linguagem, abandonamos nós mesmos em um deserto árido, uma paisagem de escassez distópica, semelhante
àquelas dos filmes que retratam o fim do mundo. Vemos coisas, destroços, escombros e não conseguimos nomeá-los, daí o
sentimento de que estamos perdidos. E pior, ainda podem surgir alguns zumbis, tentando se alimentar de nosso cérebro.
É por isso que vivemos uma nova forma de empobrecimento: a pobreza linguística. Incentivados por dispositivos e aplicativos de
criação de textos e imagens, vamos abdicando lentamente daquilo que nos humanizou e entregando aos algoritmos não apenas
a liberdade de escolha, mas a criatividade do falar, a importância do dizer e a beleza de se expressar.
A inteligência artificial ocupa, nesse cenário, um lugar ambíguo. Ela é, ao mesmo tempo, fruto sofisticado da linguagem humana
e possível catalisadora de seu empobrecimento. Alimentada por bilhões de palavras, aprende padrões, imita estilos, recompõe
sentidos. Contudo, ao oferecer respostas prontas, sínteses automáticas e textos instantâneos, pode induzir à terceirização do
esforço expressivo. Se antes a dificuldade de formular uma frase exigia silêncio e reflexão, agora basta um comando. Deslocamos
para a máquina um exercício formativo do espírito.
Cada frase construída exige seleção, hierarquização, renúncia e invenção. Ao delegarmos sistematicamente essa tarefa,
enfraquecemos a musculatura simbólica que sustenta nossa vida comum. A linguagem deixa de ser morada e fica reduzida a um
serviço. O vocabulário se estreita, as imagens se repetem, os argumentos se simplificam. Pouco a pouco, o mundo também se
apequena, pois só enxergamos com nitidez aquilo que sabemos nomear.
A linguagem não é apenas instrumento; ela é a possibilidade do próprio humano. Martin Heidegger a define como “casa do ser”.
Se a habitamos de modo apressado, superficial ou delegado, nossa morada se empobrece.
Por isso não podemos esquecer de que o uso das palavras – para o bem ou para o mal, da diplomacia à poesia - sempre decidiu
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(Autor: Renato de Faria. Site “Estado de Minas” – Coluna Filosofia Explicadinha. Publicado em 02/03/2026)
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UMA NOVA FORMA DE EMPOBRECIMENTO
Um fantasma ronda o ser humano: a diminuição do vocabulário
Somos atravessados pela linguagem. Ao nascer, o corpo natural chora ao se deparar com o mundo. Desde então, a emissão de
sons se transforma em palavras, que são interpretadas – bem ou mal – pelos outros que convivem conosco. Nos comunicamos
por essa sonorização que, entendida – ou desentendida –, vai formando um universo no qual nos orientamos em nosso estar-nomundo. Todas as espécies se comunicam, mas nenhuma delas o faz do jeito humano: pela linguagem simbólica.
Conceitos são palavras. Palavras são sons. Sons são impulsos que convencionamos usar para nomear coisas, pessoas e
sentimentos. Durante muito tempo, acreditou-se que os nomes eram universais, entidades incorpóreas que descreviam, de
forma fiel, a essência das coisas. Por exemplo, a palavra “mesa” definia a essência daquele objeto que utilizamos para apoiar
pratos e cadernos. Porém, com a filosofia contemporânea, sabemos que os conceitos são invenções, instrumentos da criação
humana, uma convenção social. Poderíamos ter escolhido qualquer outro som para definir quaisquer outros objetos.
Há uma questão filosófica de primeira grandeza por trás dessa reflexão: existem mais coisas ou palavras no mundo? Como toda
pergunta, ela luta contra a ansiedade da resposta. Por isso, não tente respondê-la de imediato. As grandes perguntas nascem
com o objetivo de fazer pensar e, muitas vezes, respondemos para tentar aliviar a angústia inerente a todo questionamento. É
preciso se deliciar com a reflexão, pois, enquanto fazemos isso, pensamos, e realizamos esse ato por meio das palavras.
Se a linguagem é responsável por enriquecer nosso universo, nos acomodando e nos incomodando, ela também pode ser uma
boa referência para seu oposto: o empobrecimento humano. Não por culpa dela, claro, mas por responsabilidade dos seres
falantes, que esquecem seu caráter humanizador.
Estudos recentes indicam que a chamada geração Z vive um colapso de vocabulário. Cerca de 40% dos jovens estão perdendo
habilidades fundamentais de fluência comunicativa, como a competência de interpretar textos longos ou sustentar diálogos com
sequência lógica, conforme nos aponta o neurocientista Michel Desmurget, autor do livro “A Fábrica de Cretinos Digitais”.
Ao contrário do que muitos pensam, esse dado não aponta apenas para um declínio cognitivo, impactando somente a vida
escolar. O abandono das palavras traça um horizonte bem mais perigoso: uma lenta renúncia ao universo humano. Quando
desistimos da linguagem, abandonamos nós mesmos em um deserto árido, uma paisagem de escassez distópica, semelhante
àquelas dos filmes que retratam o fim do mundo. Vemos coisas, destroços, escombros e não conseguimos nomeá-los, daí o
sentimento de que estamos perdidos. E pior, ainda podem surgir alguns zumbis, tentando se alimentar de nosso cérebro.
É por isso que vivemos uma nova forma de empobrecimento: a pobreza linguística. Incentivados por dispositivos e aplicativos de
criação de textos e imagens, vamos abdicando lentamente daquilo que nos humanizou e entregando aos algoritmos não apenas
a liberdade de escolha, mas a criatividade do falar, a importância do dizer e a beleza de se expressar.
A inteligência artificial ocupa, nesse cenário, um lugar ambíguo. Ela é, ao mesmo tempo, fruto sofisticado da linguagem humana
e possível catalisadora de seu empobrecimento. Alimentada por bilhões de palavras, aprende padrões, imita estilos, recompõe
sentidos. Contudo, ao oferecer respostas prontas, sínteses automáticas e textos instantâneos, pode induzir à terceirização do
esforço expressivo. Se antes a dificuldade de formular uma frase exigia silêncio e reflexão, agora basta um comando. Deslocamos
para a máquina um exercício formativo do espírito.
Cada frase construída exige seleção, hierarquização, renúncia e invenção. Ao delegarmos sistematicamente essa tarefa,
enfraquecemos a musculatura simbólica que sustenta nossa vida comum. A linguagem deixa de ser morada e fica reduzida a um
serviço. O vocabulário se estreita, as imagens se repetem, os argumentos se simplificam. Pouco a pouco, o mundo também se
apequena, pois só enxergamos com nitidez aquilo que sabemos nomear.
A linguagem não é apenas instrumento; ela é a possibilidade do próprio humano. Martin Heidegger a define como “casa do ser”.
Se a habitamos de modo apressado, superficial ou delegado, nossa morada se empobrece.
Por isso não podemos esquecer de que o uso das palavras – para o bem ou para o mal, da diplomacia à poesia - sempre decidiu
o futuro da humanidade.
(Autor: Renato de Faria. Site “Estado de Minas” – Coluna Filosofia Explicadinha. Publicado em 02/03/2026)
I. O texto sustenta que a linguagem é um elemento constitutivo da experiência humana, e não apenas um instrumento de comunicação.
II. A referência ao “deserto árido” e aos “zumbis” possui função meramente ornamental, sem relação efetiva com a argumentação central do autor.
III. A diminuição do vocabulário é apresentada como um fenômeno que ultrapassa o campo educacional, afetando dimensões existenciais do ser humano.
IV. A filosofia contemporânea, segundo o texto, reforça a ideia de que as palavras possuem essência fixa e universal, independente da convenção social. Assinale a alternativa que apresenta a sequência correta:
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Um fantasma ronda o ser humano: a diminuição do vocabulário
Somos atravessados pela linguagem. Ao nascer, o corpo natural chora ao se deparar com o mundo. Desde então, a emissão de
sons se transforma em palavras, que são interpretadas – bem ou mal – pelos outros que convivem conosco. Nos comunicamos
por essa sonorização que, entendida – ou desentendida –, vai formando um universo no qual nos orientamos em nosso estar-nomundo. Todas as espécies se comunicam, mas nenhuma delas o faz do jeito humano: pela linguagem simbólica.
Conceitos são palavras. Palavras são sons. Sons são impulsos que convencionamos usar para nomear coisas, pessoas e
sentimentos. Durante muito tempo, acreditou-se que os nomes eram universais, entidades incorpóreas que descreviam, de
forma fiel, a essência das coisas. Por exemplo, a palavra “mesa” definia a essência daquele objeto que utilizamos para apoiar
pratos e cadernos. Porém, com a filosofia contemporânea, sabemos que os conceitos são invenções, instrumentos da criação
humana, uma convenção social. Poderíamos ter escolhido qualquer outro som para definir quaisquer outros objetos.
Há uma questão filosófica de primeira grandeza por trás dessa reflexão: existem mais coisas ou palavras no mundo? Como toda
pergunta, ela luta contra a ansiedade da resposta. Por isso, não tente respondê-la de imediato. As grandes perguntas nascem
com o objetivo de fazer pensar e, muitas vezes, respondemos para tentar aliviar a angústia inerente a todo questionamento. É
preciso se deliciar com a reflexão, pois, enquanto fazemos isso, pensamos, e realizamos esse ato por meio das palavras.
Se a linguagem é responsável por enriquecer nosso universo, nos acomodando e nos incomodando, ela também pode ser uma
boa referência para seu oposto: o empobrecimento humano. Não por culpa dela, claro, mas por responsabilidade dos seres
falantes, que esquecem seu caráter humanizador.
Estudos recentes indicam que a chamada geração Z vive um colapso de vocabulário. Cerca de 40% dos jovens estão perdendo
habilidades fundamentais de fluência comunicativa, como a competência de interpretar textos longos ou sustentar diálogos com
sequência lógica, conforme nos aponta o neurocientista Michel Desmurget, autor do livro “A Fábrica de Cretinos Digitais”.
Ao contrário do que muitos pensam, esse dado não aponta apenas para um declínio cognitivo, impactando somente a vida
escolar. O abandono das palavras traça um horizonte bem mais perigoso: uma lenta renúncia ao universo humano. Quando
desistimos da linguagem, abandonamos nós mesmos em um deserto árido, uma paisagem de escassez distópica, semelhante
àquelas dos filmes que retratam o fim do mundo. Vemos coisas, destroços, escombros e não conseguimos nomeá-los, daí o
sentimento de que estamos perdidos. E pior, ainda podem surgir alguns zumbis, tentando se alimentar de nosso cérebro.
É por isso que vivemos uma nova forma de empobrecimento: a pobreza linguística. Incentivados por dispositivos e aplicativos de
criação de textos e imagens, vamos abdicando lentamente daquilo que nos humanizou e entregando aos algoritmos não apenas
a liberdade de escolha, mas a criatividade do falar, a importância do dizer e a beleza de se expressar.
A inteligência artificial ocupa, nesse cenário, um lugar ambíguo. Ela é, ao mesmo tempo, fruto sofisticado da linguagem humana
e possível catalisadora de seu empobrecimento. Alimentada por bilhões de palavras, aprende padrões, imita estilos, recompõe
sentidos. Contudo, ao oferecer respostas prontas, sínteses automáticas e textos instantâneos, pode induzir à terceirização do
esforço expressivo. Se antes a dificuldade de formular uma frase exigia silêncio e reflexão, agora basta um comando. Deslocamos
para a máquina um exercício formativo do espírito.
Cada frase construída exige seleção, hierarquização, renúncia e invenção. Ao delegarmos sistematicamente essa tarefa,
enfraquecemos a musculatura simbólica que sustenta nossa vida comum. A linguagem deixa de ser morada e fica reduzida a um
serviço. O vocabulário se estreita, as imagens se repetem, os argumentos se simplificam. Pouco a pouco, o mundo também se
apequena, pois só enxergamos com nitidez aquilo que sabemos nomear.
A linguagem não é apenas instrumento; ela é a possibilidade do próprio humano. Martin Heidegger a define como “casa do ser”.
Se a habitamos de modo apressado, superficial ou delegado, nossa morada se empobrece.
Por isso não podemos esquecer de que o uso das palavras – para o bem ou para o mal, da diplomacia à poesia - sempre decidiu
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(Autor: Renato de Faria. Site “Estado de Minas” – Coluna Filosofia Explicadinha. Publicado em 02/03/2026)
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Somos atravessados pela linguagem. Ao nascer, o corpo natural chora ao se deparar com o mundo. Desde então, a emissão de
sons se transforma em palavras, que são interpretadas – bem ou mal – pelos outros que convivem conosco. Nos comunicamos
por essa sonorização que, entendida – ou desentendida –, vai formando um universo no qual nos orientamos em nosso estar-nomundo. Todas as espécies se comunicam, mas nenhuma delas o faz do jeito humano: pela linguagem simbólica.
Conceitos são palavras. Palavras são sons. Sons são impulsos que convencionamos usar para nomear coisas, pessoas e
sentimentos. Durante muito tempo, acreditou-se que os nomes eram universais, entidades incorpóreas que descreviam, de
forma fiel, a essência das coisas. Por exemplo, a palavra “mesa” definia a essência daquele objeto que utilizamos para apoiar
pratos e cadernos. Porém, com a filosofia contemporânea, sabemos que os conceitos são invenções, instrumentos da criação
humana, uma convenção social. Poderíamos ter escolhido qualquer outro som para definir quaisquer outros objetos.
Há uma questão filosófica de primeira grandeza por trás dessa reflexão: existem mais coisas ou palavras no mundo? Como toda
pergunta, ela luta contra a ansiedade da resposta. Por isso, não tente respondê-la de imediato. As grandes perguntas nascem
com o objetivo de fazer pensar e, muitas vezes, respondemos para tentar aliviar a angústia inerente a todo questionamento. É
preciso se deliciar com a reflexão, pois, enquanto fazemos isso, pensamos, e realizamos esse ato por meio das palavras.
Se a linguagem é responsável por enriquecer nosso universo, nos acomodando e nos incomodando, ela também pode ser uma
boa referência para seu oposto: o empobrecimento humano. Não por culpa dela, claro, mas por responsabilidade dos seres
falantes, que esquecem seu caráter humanizador.
Estudos recentes indicam que a chamada geração Z vive um colapso de vocabulário. Cerca de 40% dos jovens estão perdendo
habilidades fundamentais de fluência comunicativa, como a competência de interpretar textos longos ou sustentar diálogos com
sequência lógica, conforme nos aponta o neurocientista Michel Desmurget, autor do livro “A Fábrica de Cretinos Digitais”.
Ao contrário do que muitos pensam, esse dado não aponta apenas para um declínio cognitivo, impactando somente a vida
escolar. O abandono das palavras traça um horizonte bem mais perigoso: uma lenta renúncia ao universo humano. Quando
desistimos da linguagem, abandonamos nós mesmos em um deserto árido, uma paisagem de escassez distópica, semelhante
àquelas dos filmes que retratam o fim do mundo. Vemos coisas, destroços, escombros e não conseguimos nomeá-los, daí o
sentimento de que estamos perdidos. E pior, ainda podem surgir alguns zumbis, tentando se alimentar de nosso cérebro.
É por isso que vivemos uma nova forma de empobrecimento: a pobreza linguística. Incentivados por dispositivos e aplicativos de
criação de textos e imagens, vamos abdicando lentamente daquilo que nos humanizou e entregando aos algoritmos não apenas
a liberdade de escolha, mas a criatividade do falar, a importância do dizer e a beleza de se expressar.
A inteligência artificial ocupa, nesse cenário, um lugar ambíguo. Ela é, ao mesmo tempo, fruto sofisticado da linguagem humana
e possível catalisadora de seu empobrecimento. Alimentada por bilhões de palavras, aprende padrões, imita estilos, recompõe
sentidos. Contudo, ao oferecer respostas prontas, sínteses automáticas e textos instantâneos, pode induzir à terceirização do
esforço expressivo. Se antes a dificuldade de formular uma frase exigia silêncio e reflexão, agora basta um comando. Deslocamos
para a máquina um exercício formativo do espírito.
Cada frase construída exige seleção, hierarquização, renúncia e invenção. Ao delegarmos sistematicamente essa tarefa,
enfraquecemos a musculatura simbólica que sustenta nossa vida comum. A linguagem deixa de ser morada e fica reduzida a um
serviço. O vocabulário se estreita, as imagens se repetem, os argumentos se simplificam. Pouco a pouco, o mundo também se
apequena, pois só enxergamos com nitidez aquilo que sabemos nomear.
A linguagem não é apenas instrumento; ela é a possibilidade do próprio humano. Martin Heidegger a define como “casa do ser”.
Se a habitamos de modo apressado, superficial ou delegado, nossa morada se empobrece.
Por isso não podemos esquecer de que o uso das palavras – para o bem ou para o mal, da diplomacia à poesia - sempre decidiu
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