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TEMPOS MODERNOS
Prazeres na “nuvem”
Por Ruy Castro, em 02/10/2012, na edição 7
CDs, DVDs, câmeras digitais, telefones fixos, controle remoto e até PCs de mesa com
teclado, mouse e disco rígido̶ pelo que li há dias no “Globo”, tudo isso tende a ser história nos
próximos anos. Por história, entenda-se o grande lixão a que se destinam os cadáveres da
eletrônica. Parece que, na próxima década, só os maiores de 30 anos ainda terão uma vaga
lembrança de para que serviam esses equipamentos, aos quais ficamos hoje atracados o dia
inteiro.
A ideia é a de que as mídias físicas, palpáveis, irão literalmente para o espaço. Tudo
estará na chamada “nuvem” ̶ que, até agora, ninguém conseguiu me explicar onde fica, como
funciona e se fecha quando chove. O acesso aos conteúdos se dará por smartphones, downloads
ou com o usuário plantando bananeira contra a parede e se concentrando.
A “nuvem” é infinita e conterá tudo o que puder ser exibido, alugado, vendido,
emprestado ou copiado, e isso dispensará as cidades de manter museus, galerias, cinemas,
bibliotecas, livrarias, sebos, arquivos públicos etc. Quer dizer, os acervos destes continuarão
existindo, mas “na nuvem”, sem despesas com funcionários, material de limpeza ou energia
elétrica.
Cá entre nós, não estou com a menor pressa de aderir à “nuvem”. Ainda gosto de
manusear, apalpar, acariciar. Hoje, por exemplo, minha coleção de LPs, em edições raras,
originais, lindíssimas, é a melhor que já tive (vitrolas e agulhas não faltam̶ estou estocado). O
mesmo quanto às coleções de CDs e DVDs que acumulei̶ só espero que não interrompam logo
a fabricação dos aparelhos para tocá-los. E continuo a frequentar sebos, bibliotecas e arquivos -
gosto até do cheiro de mofo.
Meu consolo é que, um dia, quando tudo isso tiver acabado e só estiver disponível na
“nuvem”, eu também estarei nas proximidades̶ em alguma nuvem
Disponível em: http://www.observatoriodaimprensa.com.br/news/view/_ed714_prazeres_na_nuvem Acesso em 22 abr. 20
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Como tenho inveja das amendoeiras
Enviado por Zuenir Ventura, 12.01.2013, 09h45m
Zuenir Ventura
Telefonei um dia para Rubem — o Velho Braga, que hoje faria 100 anos — perguntando-
lhe por que tinha feito das amendoeiras uma de suas musas inspiradoras, se nem brasileiras elas
eram, mas indianas, como eu acabara de saber.
Discutia-se então a revelação de que, das 600 mil árvores existentes no Rio, 84% eram de
origem exótica, e apenas 16%, nativas. Daí que a Fundação Parques e Jardins, à medida que as
estrangeiras fossem morrendo, iria substituí-las por espécimes da Mata Atlântica. Não se tratava de
xenofobia, como podia parecer; era para poupar o ecossistema da cidade, que, segundo os técnicos,
se ressentia com a invasão estrangeira. O exotismo no caso era nocivo. [...]
Rubem Braga não caía nessas pegadinhas. Não usava as plantas apenas para fazer crônicas
poéticas. Era amante e grande conhecedor de sua alma e humores. Não é à toa que plantou um dos
mais surpreendentes jardins suspensos da cidade que o filho Roberto e a nora Maria do Carmo
fazem questão de manter e cuidar até hoje.
Sua resposta foi que as amendoeiras eram “árvores desentoadas”. Nunca estão de acordo
entre si. Não se vestem nem se despem por igual. Eram como a gente: cada uma envelhecia com a
idade, conforme o dia de nascimento — com a vantagem de que a cada ano fenecem, mas também
renascem.
A partir de então passei a olhar as amendoeiras de minha rua com inveja. Fiquei
imaginando como seria bom chegar a cada junho, mês em que nasci, com o cabelo caindo, a pele
enrugada, mas podendo me refugiar em casa aguardando a muda.
Um ano depois faria minha rentrée triunfal, novinho em folha, pronto para admirar as
mulheres que, segundo Rubem, em janeiro, sob a influência do verão, “sentem o coração lânguido,
e se espreguiçam de um modo especial; começam a dizer uma coisa e param no meio, seus olhos
brilham devagar, elas ficam olhando as folhas das amendoeiras como se tivessem acabado de
descobrir um estranho passarinho”.
Meu sonho não seria a imortalidade. Nada de estender a vida, como muitos desejam. Se eu
pudesse escolher, eu preferiria esticar a juventude. Que a existência humana continuasse limitada
aos 70/80 anos, tudo bem, mas que, durante o tempo de duração, eu pudesse compartilhar com as
amendoeiras de minha rua o milagre da renovação — todos os anos.
Disponível em: http://oglobo.globo.com/pais/noblat/posts/2013/01/12/como-tenho-inveja-das-amendoeiras-por-zuenir-ventura-482051.asp Acesso em: 30 abr. 20
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REDES SOCIAIS
Antissocial
Por Ruy Castro, em 22/05/20
No mínimo, três ou quatro por dia. São os convites eletrônicos que recebo para me
tornar “amigo” de fulano ou para “fazer parte de sua rede profissional”. São convites amáveis,
endereçados a mim pelo primeiro nome. Mas, apesar do tratamento personalizado, têm um ar
de mensagem disparada a 100 ou 200 pessoas ao mesmo tempo. Sempre que recebo esses
convites, embatuco. Não tenho Facebook, nem sei como funciona, e as únicas redes profissionais
a que pertenço são as empresas a que presto serviços como escritor ou jornalista. Não sei, por
exemplo, qual é a “rede profissional” de um querido amigo que, aos 70 anos, nunca teve uma
carteira de trabalho assinada, nem acordou como assalariado um único dia em sua vida – e ele
me convidou a me juntar à sua “rede”.
Como não sei para que servem essas redes, também não sei o que responder e, pior,
temo que tais mensagens sejam pegadinhas marotas contendo vírus. Assim, ou as apago ou
deixo que morram de velhice na lista de mensagens. O problema é que, com isso, posso estar
passando por esnobe ou antissocial para quem se deu ao trabalho de me convidar a ser seu
“amigo” ou juntar-me à sua “rede”. O ridículo é que os que me convidam a tornar-me “amigo”
deles já são meus amigos. Têm meu telefone, sabem onde moro, já saímos juntos para
pândegas, discutimos futebol, fomos até sócios no passado e, se calhar, um tomou a namorada
do outro e vice-versa. Então, por que tal formalismo engessado?
Acredito que os programadores dessas maravilhas eletrônicas tenham pouca prática de
vida real. Por serem muito jovens e já terem nascido com um mouse na mão, talvez não saibam
que as relações humanas podem se formar a partir de um encontro casual, um aperto de mão,
um brilho no olhar.
Disponível em: http://www.observatoriodaimprensa.com.br/news/view/_ed695_antissocial Acesso em 22 abr. 20
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Como tenho inveja das amendoeiras
Enviado por Zuenir Ventura, 12.01.2013, 09h45m
Zuenir Ventura
Telefonei um dia para Rubem — o Velho Braga, que hoje faria 100 anos — perguntando-
lhe por que tinha feito das amendoeiras uma de suas musas inspiradoras, se nem brasileiras elas
eram, mas indianas, como eu acabara de saber.
Discutia-se então a revelação de que, das 600 mil árvores existentes no Rio, 84% eram de
origem exótica, e apenas 16%, nativas. Daí que a Fundação Parques e Jardins, à medida que as
estrangeiras fossem morrendo, iria substituí-las por espécimes da Mata Atlântica. Não se tratava de
xenofobia, como podia parecer; era para poupar o ecossistema da cidade, que, segundo os técnicos,
se ressentia com a invasão estrangeira. O exotismo no caso era nocivo. [...]
Rubem Braga não caía nessas pegadinhas. Não usava as plantas apenas para fazer crônicas
poéticas. Era amante e grande conhecedor de sua alma e humores. Não é à toa que plantou um dos
mais surpreendentes jardins suspensos da cidade que o filho Roberto e a nora Maria do Carmo
fazem questão de manter e cuidar até hoje.
Sua resposta foi que as amendoeiras eram “árvores desentoadas”. Nunca estão de acordo
entre si. Não se vestem nem se despem por igual. Eram como a gente: cada uma envelhecia com a
idade, conforme o dia de nascimento — com a vantagem de que a cada ano fenecem, mas também
renascem.
A partir de então passei a olhar as amendoeiras de minha rua com inveja. Fiquei
imaginando como seria bom chegar a cada junho, mês em que nasci, com o cabelo caindo, a pele
enrugada, mas podendo me refugiar em casa aguardando a muda.
Um ano depois faria minha rentrée triunfal, novinho em folha, pronto para admirar as
mulheres que, segundo Rubem, em janeiro, sob a influência do verão, “sentem o coração lânguido,
e se espreguiçam de um modo especial; começam a dizer uma coisa e param no meio, seus olhos
brilham devagar, elas ficam olhando as folhas das amendoeiras como se tivessem acabado de
descobrir um estranho passarinho”.
Meu sonho não seria a imortalidade. Nada de estender a vida, como muitos desejam. Se eu
pudesse escolher, eu preferiria esticar a juventude. Que a existência humana continuasse limitada
aos 70/80 anos, tudo bem, mas que, durante o tempo de duração, eu pudesse compartilhar com as
amendoeiras de minha rua o milagre da renovação — todos os anos.
Disponível em: http://oglobo.globo.com/pais/noblat/posts/2013/01/12/como-tenho-inveja-das-amendoeiras-por-zuenir-ventura-482051.asp Acesso em: 30 abr. 20
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Como tenho inveja das amendoeiras
Enviado por Zuenir Ventura, 12.01.2013, 09h45m
Zuenir Ventura
Telefonei um dia para Rubem — o Velho Braga, que hoje faria 100 anos — perguntando-
lhe por que tinha feito das amendoeiras uma de suas musas inspiradoras, se nem brasileiras elas
eram, mas indianas, como eu acabara de saber.
Discutia-se então a revelação de que, das 600 mil árvores existentes no Rio, 84% eram de
origem exótica, e apenas 16%, nativas. Daí que a Fundação Parques e Jardins, à medida que as
estrangeiras fossem morrendo, iria substituí-las por espécimes da Mata Atlântica. Não se tratava de
xenofobia, como podia parecer; era para poupar o ecossistema da cidade, que, segundo os técnicos,
se ressentia com a invasão estrangeira. O exotismo no caso era nocivo. [...]
Rubem Braga não caía nessas pegadinhas. Não usava as plantas apenas para fazer crônicas
poéticas. Era amante e grande conhecedor de sua alma e humores. Não é à toa que plantou um dos
mais surpreendentes jardins suspensos da cidade que o filho Roberto e a nora Maria do Carmo
fazem questão de manter e cuidar até hoje.
Sua resposta foi que as amendoeiras eram “árvores desentoadas”. Nunca estão de acordo
entre si. Não se vestem nem se despem por igual. Eram como a gente: cada uma envelhecia com a
idade, conforme o dia de nascimento — com a vantagem de que a cada ano fenecem, mas também
renascem.
A partir de então passei a olhar as amendoeiras de minha rua com inveja. Fiquei
imaginando como seria bom chegar a cada junho, mês em que nasci, com o cabelo caindo, a pele
enrugada, mas podendo me refugiar em casa aguardando a muda.
Um ano depois faria minha rentrée triunfal, novinho em folha, pronto para admirar as
mulheres que, segundo Rubem, em janeiro, sob a influência do verão, “sentem o coração lânguido,
e se espreguiçam de um modo especial; começam a dizer uma coisa e param no meio, seus olhos
brilham devagar, elas ficam olhando as folhas das amendoeiras como se tivessem acabado de
descobrir um estranho passarinho”.
Meu sonho não seria a imortalidade. Nada de estender a vida, como muitos desejam. Se eu
pudesse escolher, eu preferiria esticar a juventude. Que a existência humana continuasse limitada
aos 70/80 anos, tudo bem, mas que, durante o tempo de duração, eu pudesse compartilhar com as
amendoeiras de minha rua o milagre da renovação — todos os anos.
Disponível em: http://oglobo.globo.com/pais/noblat/posts/2013/01/12/como-tenho-inveja-das-amendoeiras-por-zuenir-ventura-482051.asp Acesso em: 30 abr. 20
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Como tenho inveja das amendoeiras
Enviado por Zuenir Ventura, 12.01.2013, 09h45m
Zuenir Ventura
Telefonei um dia para Rubem — o Velho Braga, que hoje faria 100 anos — perguntando-
lhe por que tinha feito das amendoeiras uma de suas musas inspiradoras, se nem brasileiras elas
eram, mas indianas, como eu acabara de saber.
Discutia-se então a revelação de que, das 600 mil árvores existentes no Rio, 84% eram de
origem exótica, e apenas 16%, nativas. Daí que a Fundação Parques e Jardins, à medida que as
estrangeiras fossem morrendo, iria substituí-las por espécimes da Mata Atlântica. Não se tratava de
xenofobia, como podia parecer; era para poupar o ecossistema da cidade, que, segundo os técnicos,
se ressentia com a invasão estrangeira. O exotismo no caso era nocivo. [...]
Rubem Braga não caía nessas pegadinhas. Não usava as plantas apenas para fazer crônicas
poéticas. Era amante e grande conhecedor de sua alma e humores. Não é à toa que plantou um dos
mais surpreendentes jardins suspensos da cidade que o filho Roberto e a nora Maria do Carmo
fazem questão de manter e cuidar até hoje.
Sua resposta foi que as amendoeiras eram “árvores desentoadas”. Nunca estão de acordo
entre si. Não se vestem nem se despem por igual. Eram como a gente: cada uma envelhecia com a
idade, conforme o dia de nascimento — com a vantagem de que a cada ano fenecem, mas também
renascem.
A partir de então passei a olhar as amendoeiras de minha rua com inveja. Fiquei
imaginando como seria bom chegar a cada junho, mês em que nasci, com o cabelo caindo, a pele
enrugada, mas podendo me refugiar em casa aguardando a muda.
Um ano depois faria minha rentrée triunfal, novinho em folha, pronto para admirar as
mulheres que, segundo Rubem, em janeiro, sob a influência do verão, “sentem o coração lânguido,
e se espreguiçam de um modo especial; começam a dizer uma coisa e param no meio, seus olhos
brilham devagar, elas ficam olhando as folhas das amendoeiras como se tivessem acabado de
descobrir um estranho passarinho”.
Meu sonho não seria a imortalidade. Nada de estender a vida, como muitos desejam. Se eu
pudesse escolher, eu preferiria esticar a juventude. Que a existência humana continuasse limitada
aos 70/80 anos, tudo bem, mas que, durante o tempo de duração, eu pudesse compartilhar com as
amendoeiras de minha rua o milagre da renovação — todos os anos.
Disponível em: http://oglobo.globo.com/pais/noblat/posts/2013/01/12/como-tenho-inveja-das-amendoeiras-por-zuenir-ventura-482051.asp Acesso em: 30 abr. 20
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Como tenho inveja das amendoeiras
Enviado por Zuenir Ventura, 12.01.2013, 09h45m
Zuenir Ventura
Telefonei um dia para Rubem — o Velho Braga, que hoje faria 100 anos — perguntando-
lhe por que tinha feito das amendoeiras uma de suas musas inspiradoras, se nem brasileiras elas
eram, mas indianas, como eu acabara de saber.
Discutia-se então a revelação de que, das 600 mil árvores existentes no Rio, 84% eram de
origem exótica, e apenas 16%, nativas. Daí que a Fundação Parques e Jardins, à medida que as
estrangeiras fossem morrendo, iria substituí-las por espécimes da Mata Atlântica. Não se tratava de
xenofobia, como podia parecer; era para poupar o ecossistema da cidade, que, segundo os técnicos,
se ressentia com a invasão estrangeira. O exotismo no caso era nocivo. [...]
Rubem Braga não caía nessas pegadinhas. Não usava as plantas apenas para fazer crônicas
poéticas. Era amante e grande conhecedor de sua alma e humores. Não é à toa que plantou um dos
mais surpreendentes jardins suspensos da cidade que o filho Roberto e a nora Maria do Carmo
fazem questão de manter e cuidar até hoje.
Sua resposta foi que as amendoeiras eram “árvores desentoadas”. Nunca estão de acordo
entre si. Não se vestem nem se despem por igual. Eram como a gente: cada uma envelhecia com a
idade, conforme o dia de nascimento — com a vantagem de que a cada ano fenecem, mas também
renascem.
A partir de então passei a olhar as amendoeiras de minha rua com inveja. Fiquei
imaginando como seria bom chegar a cada junho, mês em que nasci, com o cabelo caindo, a pele
enrugada, mas podendo me refugiar em casa aguardando a muda.
Um ano depois faria minha rentrée triunfal, novinho em folha, pronto para admirar as
mulheres que, segundo Rubem, em janeiro, sob a influência do verão, “sentem o coração lânguido,
e se espreguiçam de um modo especial; começam a dizer uma coisa e param no meio, seus olhos
brilham devagar, elas ficam olhando as folhas das amendoeiras como se tivessem acabado de
descobrir um estranho passarinho”.
Meu sonho não seria a imortalidade. Nada de estender a vida, como muitos desejam. Se eu
pudesse escolher, eu preferiria esticar a juventude. Que a existência humana continuasse limitada
aos 70/80 anos, tudo bem, mas que, durante o tempo de duração, eu pudesse compartilhar com as
amendoeiras de minha rua o milagre da renovação — todos os anos.
Disponível em: http://oglobo.globo.com/pais/noblat/posts/2013/01/12/como-tenho-inveja-das-amendoeiras-por-zuenir-ventura-482051.asp Acesso em: 30 abr. 20
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Como tenho inveja das amendoeiras
Enviado por Zuenir Ventura, 12.01.2013, 09h45m
Zuenir Ventura
Telefonei um dia para Rubem — o Velho Braga, que hoje faria 100 anos — perguntando-
lhe por que tinha feito das amendoeiras uma de suas musas inspiradoras, se nem brasileiras elas
eram, mas indianas, como eu acabara de saber.
Discutia-se então a revelação de que, das 600 mil árvores existentes no Rio, 84% eram de
origem exótica, e apenas 16%, nativas. Daí que a Fundação Parques e Jardins, à medida que as
estrangeiras fossem morrendo, iria substituí-las por espécimes da Mata Atlântica. Não se tratava de
xenofobia, como podia parecer; era para poupar o ecossistema da cidade, que, segundo os técnicos,
se ressentia com a invasão estrangeira. O exotismo no caso era nocivo. [...]
Rubem Braga não caía nessas pegadinhas. Não usava as plantas apenas para fazer crônicas
poéticas. Era amante e grande conhecedor de sua alma e humores. Não é à toa que plantou um dos
mais surpreendentes jardins suspensos da cidade que o filho Roberto e a nora Maria do Carmo
fazem questão de manter e cuidar até hoje.
Sua resposta foi que as amendoeiras eram “árvores desentoadas”. Nunca estão de acordo
entre si. Não se vestem nem se despem por igual. Eram como a gente: cada uma envelhecia com a
idade, conforme o dia de nascimento — com a vantagem de que a cada ano fenecem, mas também
renascem.
A partir de então passei a olhar as amendoeiras de minha rua com inveja. Fiquei
imaginando como seria bom chegar a cada junho, mês em que nasci, com o cabelo caindo, a pele
enrugada, mas podendo me refugiar em casa aguardando a muda.
Um ano depois faria minha rentrée triunfal, novinho em folha, pronto para admirar as
mulheres que, segundo Rubem, em janeiro, sob a influência do verão, “sentem o coração lânguido,
e se espreguiçam de um modo especial; começam a dizer uma coisa e param no meio, seus olhos
brilham devagar, elas ficam olhando as folhas das amendoeiras como se tivessem acabado de
descobrir um estranho passarinho”.
Meu sonho não seria a imortalidade. Nada de estender a vida, como muitos desejam. Se eu
pudesse escolher, eu preferiria esticar a juventude. Que a existência humana continuasse limitada
aos 70/80 anos, tudo bem, mas que, durante o tempo de duração, eu pudesse compartilhar com as
amendoeiras de minha rua o milagre da renovação — todos os anos.
Disponível em: http://oglobo.globo.com/pais/noblat/posts/2013/01/12/como-tenho-inveja-das-amendoeiras-por-zuenir-ventura-482051.asp Acesso em: 30 abr. 20
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TEMPOS MODERNOS
Prazeres na “nuvem”
Por Ruy Castro, em 02/10/2012, na edição 7
CDs, DVDs, câmeras digitais, telefones fixos, controle remoto e até PCs de mesa com
teclado, mouse e disco rígido̶ pelo que li há dias no “Globo”, tudo isso tende a ser história nos
próximos anos. Por história, entenda-se o grande lixão a que se destinam os cadáveres da
eletrônica. Parece que, na próxima década, só os maiores de 30 anos ainda terão uma vaga
lembrança de para que serviam esses equipamentos, aos quais ficamos hoje atracados o dia
inteiro.
A ideia é a de que as mídias físicas, palpáveis, irão literalmente para o espaço. Tudo
estará na chamada “nuvem” ̶ que, até agora, ninguém conseguiu me explicar onde fica, como
funciona e se fecha quando chove. O acesso aos conteúdos se dará por smartphones, downloads
ou com o usuário plantando bananeira contra a parede e se concentrando.
A “nuvem” é infinita e conterá tudo o que puder ser exibido, alugado, vendido,
emprestado ou copiado, e isso dispensará as cidades de manter museus, galerias, cinemas,
bibliotecas, livrarias, sebos, arquivos públicos etc. Quer dizer, os acervos destes continuarão
existindo, mas “na nuvem”, sem despesas com funcionários, material de limpeza ou energia
elétrica.
Cá entre nós, não estou com a menor pressa de aderir à “nuvem”. Ainda gosto de
manusear, apalpar, acariciar. Hoje, por exemplo, minha coleção de LPs, em edições raras,
originais, lindíssimas, é a melhor que já tive (vitrolas e agulhas não faltam̶ estou estocado). O
mesmo quanto às coleções de CDs e DVDs que acumulei̶ só espero que não interrompam logo
a fabricação dos aparelhos para tocá-los. E continuo a frequentar sebos, bibliotecas e arquivos -
gosto até do cheiro de mofo.
Meu consolo é que, um dia, quando tudo isso tiver acabado e só estiver disponível na
“nuvem”, eu também estarei nas proximidades̶ em alguma nuvem
Disponível em: http://www.observatoriodaimprensa.com.br/news/view/_ed714_prazeres_na_nuvem Acesso em 22 abr. 20
I. É obrigatório o uso das vírgulas na locução “por exemplo” (linha 17).
II. Os parênteses (linha 18) são utilizados para isolar uma digressão.
III. O travessão (linha 23) marca uma interrupção no pensamento do autor.
IV. As aspas em “nuvem” destacam um emprego novo do termo, de sentido não usual.
V. O uso das vírgulas que separam os complementos do verbo “manter” (linhas 12-13) é facultativo.
Está correto o que se afirma em
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REDES SOCIAIS
Antissocial
Por Ruy Castro, em 22/05/20
No mínimo, três ou quatro por dia. São os convites eletrônicos que recebo para me
tornar “amigo” de fulano ou para “fazer parte de sua rede profissional”. São convites amáveis,
endereçados a mim pelo primeiro nome. Mas, apesar do tratamento personalizado, têm um ar
de mensagem disparada a 100 ou 200 pessoas ao mesmo tempo. Sempre que recebo esses
convites, embatuco. Não tenho Facebook, nem sei como funciona, e as únicas redes profissionais
a que pertenço são as empresas a que presto serviços como escritor ou jornalista. Não sei, por
exemplo, qual é a “rede profissional” de um querido amigo que, aos 70 anos, nunca teve uma
carteira de trabalho assinada, nem acordou como assalariado um único dia em sua vida – e ele
me convidou a me juntar à sua “rede”.
Como não sei para que servem essas redes, também não sei o que responder e, pior,
temo que tais mensagens sejam pegadinhas marotas contendo vírus. Assim, ou as apago ou
deixo que morram de velhice na lista de mensagens. O problema é que, com isso, posso estar
passando por esnobe ou antissocial para quem se deu ao trabalho de me convidar a ser seu
“amigo” ou juntar-me à sua “rede”. O ridículo é que os que me convidam a tornar-me “amigo”
deles já são meus amigos. Têm meu telefone, sabem onde moro, já saímos juntos para
pândegas, discutimos futebol, fomos até sócios no passado e, se calhar, um tomou a namorada
do outro e vice-versa. Então, por que tal formalismo engessado?
Acredito que os programadores dessas maravilhas eletrônicas tenham pouca prática de
vida real. Por serem muito jovens e já terem nascido com um mouse na mão, talvez não saibam
que as relações humanas podem se formar a partir de um encontro casual, um aperto de mão,
um brilho no olhar.
Disponível em: http://www.observatoriodaimprensa.com.br/news/view/_ed695_antissocial Acesso em 22 abr. 20
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