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A era da desinformação
Não podemos negar que a internet tornou-se um dos
principais meios para a disseminação de informações. Em
2018, a rede cruzou a marca de 4 bilhões de usuários. Mais
da metade da população mundial está conectada a ela. Este
ano, o consumo diário de mídia online passará o de TV. A
tendência é que a diferença se acentue nos próximos anos.
Graças às redes sociais e as plataformas de
comunicação instantânea, a distância entre as pessoas
diminui drasticamente. Já a velocidade de disseminação de
informação aumentou de maneira brutal. Quando uma
informação – um meme, ou uma notícia – cai na malha, ela
é rapidamente replicada e enviada a outros pontos da rede.
Quantas vezes não recebemos a mesma mensagem em
diferentes grupos de Whastsapp ou vemos aquela notícia
repetidas vezes no Twitter e no Facebook?
Mas não é só a escala e a velocidade da internet que
são fatos novos. Ao contrário de seus predecessores – TV e
rádio –, a internet está ao alcance de todos. Qualquer
pessoa pode usá-la para disseminar suas ideias a milhões.
Por outro lado, foi possível dar voz a milhares de pessoas
que não eram representadas e que agora têm como lutar
por seus direitos. Do outro, colocamos um canhão nas mãos
dos que usam a desinformação como ferramenta.
Em 2016, na campanha para a eleição presidencial dos
EUA, vimos o surgimento do termo “fake news”. Notícias
bem elaboradas, com cara de autênticas, mas que não eram
verídicas e foram desenhadas para propagar determinada
linha de pensamento. Elas sempre existiram, mas nunca
alavancadas com uma plataforma como a internet. Com
elas, o arsenal de guerra na era da informação ganhou uma
arma de alto calibre.
Agora, com a popularização da inteligência artificial, as
“fake news” estão passando por um processo bem
perigoso. Uma das maneiras de combater as notícias falsas
era a de trazer ao público evidências claras da manipulação,
como imagens, vídeos e áudios que pudessem tirar
qualquer dúvida. Porém, ferramentas de síntese
computacional estão dando origem ao que chamamos de
“deep fakes”, deixando as “fake news” ainda mais robustas.
Como os “deep fakes”, é possível, a partir de imagens e
vídeos reais, gerar novas imagens e vídeos que colocam as
pessoas do material original fazendo coisas que não
acorreram – a troca do rosto de uma pessoa por outra, a
criação de uma fala completamente fictícia e até a de rostos
realistas, mas de pessoas que não existem.
Esse tipo de manipulação já acontecia. As técnicas,
porém, custavam caro, levavam tempo para serem
produzidas e a qualidade final não era tão boa. Agora, tudo
é feito de maneira cada vez mais automática. Todos sabem
que já passou da hora de não acreditar em tudo que se lê e
recebe pela internet. Agora é bom deixar de lado o “só
acredito vendo”.
(Por Manuel Lemos – O Estado de São Paulo. Disponível em:
https://link.estadao.com.br/noticias/geral,a-era-da-
desinformacao,70002915133.
Acesso em: 10/06/2019.)
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Em quase todas as partes do Brasil, “feira” significa
“reunião de vendedores”. A exceção está na região Norte,
que concebe essa mesma palavra com sendo a “sacola em
que se transportam gêneros”. Na Língua Portuguesa,
portanto, uma mesma palavra pode apresentar sentidos
diferentes. Um mesmo produto, entretanto, também
pode ser expresso por palavras diferentes. É o caso de
“mandioca”, “aipim” e “macaxeira”. Trata-se de
denominações empregadas em localidades brasileiras
distintas para uma mesma espécie de planta. Os exemplos
mencionados corroboram a existência, no Brasil, de um
fenômeno linguístico que leva o nome de variação:
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O futuro da Web
Ao completar 30 anos, a tecnologia que transformou o
mundo moderno enfrenta desafios para continuar sendo
um território livre, democrático e plural.
A Web tornou-se balzaquiana. Em março deste ano, a
World Wide Web, ou simplesmente www, completou três
décadas de existência. Sua invenção mudou a cara da
internet, massificou seu uso e provocou profundas
transformações na maneira pela qual as pessoas se
relacionam e os negócios acontecem. A ideia brotou da
cabeça do físico britânico Tim Berners-Lee, quando tinha 33
anos e era pesquisador da Organização Europeia para a
Pesquisa Nuclear (Cern), na Suíça. Naquela época, a
internet, uma rede conectada de computadores localizados
em diferentes lugares, já operava havia duas décadas, mas
de forma bem diferente. Com recursos restritos, era usada
principalmente para troca de informações entre pesquisadores da área acadêmica. Não existiam sites, redes sociais nem
ferramentas de busca.
“A www permitiu a fácil interconexão de dados
distribuídos ao redor do globo e transformou-se em um
componente fundamental da internet moderna”, afirma o
cientista da computação Fabio Kon, professor do Instituto
de Matemática e Estatística da Universidade de São Paulo
(IME-USP) e editor-chefe do Journal of Internet Services and
Applications. A ferramenta idealizada pelo cientista britânico, segundo Kon, foi decisiva para a popularização da
internet, que tem hoje 4,4 bilhões de usuários, quase 60%
da população global. “A rede trouxe muitas coisas boas e
praticamente não conseguimos mais viver sem as
comodidades que ela nos proporciona”, opina. “Mas, por
outro lado, ela amplifica alguns fenômenos negativos e
indesejados que já existiam na sociedade.”
A ideia que originou a Web, destaca o cientista da
computação Roberto Marcondes César Júnior, do grupo
Ciência de Dados do IME-USP, tem uma gênese
interessante que revela a importância da pesquisa básica
para consolidação de grandes projetos científicos. “Ao ler a
sugestão de Berners-Lee para criação de um sistema de
compartilhamento de dados de pesquisa, seu superior
imediato no Cern, Mike Sendal, destacou no documento
que a proposta era ‘vaga, mas estimulante’”, conta
Marcondes. “Para ele, a ideia ainda não estava muito clara,
e foi preciso mais alguns anos de pesquisa em laboratório
para que o www se concretizasse e se transformasse na
ferramenta que viria a revolucionar o mundo.”
Outro aspecto apontado pelo pesquisador é a
importância da Web para o avanço das pesquisas em
inteligência artificial (IA). “Alguns dos algoritmos de IA
existentes hoje têm raiz em estudos iniciados muitos anos
atrás. A criação da World Wide Web disponibilizou na rede
uma grande quantidade de informações, permitindo que os
algoritmos trabalhassem numa escala de dados muito
superior, processo essencial para o refinamento deles. Sem a
invenção de Berners-Lee, talvez estivéssemos bem atrasados
em relação à revolução de IA”, destaca Marcondes.
Nas comemorações dos 30 anos da Web, Berners-Lee
expressou preocupação com os rumos que a internet está
tomando e fez um apelo para o estabelecimento de uma
nova ética para lidar com os problemas surgidos a partir dela.
Em entrevista à rede britânica BBC, ele externou o temor de
que ela caminhe para um futuro disfuncional. De acordo com
o cientista, o escândalo envolvendo a consultoria Cambridge
Analytica, do Reino Unido, acusada de usar dados privados
de 87 milhões de usuários do Facebook para finalidades
políticas durante a campanha presidencial dos Estados
Unidos em 2016, revelou quão frágil é a privacidade dos
usuários na rede mundial de computadores.
(Yuri Vasconcelos. Disponível em: https://revistapesquisa.fapesp.br/2019/06/07/o-futuro-da-web/. Fragmento.)
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Texto para responder à questão:
ONU pede que barcos de ONGs humanitárias não sejam
punidos
A ONU solicitou nesta quinta-feira (11) que os barcos
humanitários que socorrem os migrantes em risco no mar
Mediterrâneo não sejam punidos.
Em uma declaração conjunta, o diretor do Alto
Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados
(Acnur), Antonio Grandi, e o diretor-geral da Organização
Internacional para as Migrações (OIM), Antonio Vitorino,
ressaltam o “papel-chave” dos navios das ONGs no
Mediterrâneo.
“Não deveriam ser punidas por salvarem vidas no
mar”, afirmam, enquanto a Itália, por iniciativa do ministro
do Interior, o ultradireitista Matteo Salvini, fechou seus
portos a esses navios, acusando-os de cumplicidade com os
traficantes de seres humanos.
Grandi e Vitorino pedem ainda que os navios
mercantes “não sejam dirigidos de volta à Líbia para
desembarcar os passageiros resgatados” e que os
migrantes não sejam mais detidos no país, respeitando-se
os direitos humanos.
Os altos funcionários da ONU também solicitam à
comunidade internacional que aja para prevenir tragédias
como a de Tajura, no leste de Trípoli. Neste episódio, mais
50 migrantes mantidos em um centro de detenção nesta
localidade morreram após um ataque aéreo.
O centro de detenção em Tajura está fechado desde a
quarta-feira, de acordo com agências da ONU, que indicaram
que cerca de 400 sobreviventes do bombardeio foram
levados para outro centro “superlotado”. Os mais
vulneráveis entre esses sobreviventes estão sendo retirados
da Líbia.
(Por AFP. 11/07/2019. Disponível em:
https://exame.abril.com.br/mundo/onu-pede-que-barcos-de-ongshumanitarias-nao-sejam-punidos/.)
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Fazer nada
Como a visita de um pássaro nos fez pensar no tempo.
Conseguimos uns dias de folga e fomos passar um
tempo cuidando um do outro. No hotel, em Itatiba,
deram-nos o quarto 37, que se abre para um mar de morros
verdes, com plantações, pastos, florestas. Fica no piso
superior, tem pé-direito alto e uma varanda abraçada por
árvores repletas de pássaros. À noite, entrou pela janela um
passarinho. Minúsculo, branco no peito e na parte inferior
da face, preto no dorso e na metade de cima da cabeça.
Entrou pelo quarto, acelerado. Voava junto ao teto e não
conseguia baixar até a altura da porta por onde havia
entrado. Temíamos que se machucasse. Apagamos as luzes.
Ele se acalmou e parou para descansar no toucador. Pulou
em pé, no chão. Caminhou um pouco, ofegante. Usamos
um chapéu para levá-lo à varanda, onde ficou ainda um
tempo, refazendo-se.
Depois, vimos que deixou de lembrança um cocozinho
na nossa cama. De onde teria vindo essa ave? Qual o
significado do carimbo de passarinho sobre o lençol? Resisti
à ideia de lembrar que excremento de pássaro é sinal de
boa fortuna em antigas tradições. Augúrio? Sinal? Ali não
havia mistério. Era apenas um bichinho assustado,
acelerado demais. Talvez apenas apavorado por haver
entrado em um lugar de onde parecia impossível sair. Mais
do que um significado oculto, sua visita pode é nos inspirar,
quem sabe, uma analogia. Quantas vezes o homem não se
debate, na ilusão de que está acuado? Quantas vezes sofre
sem perceber que está saturado por estímulos que ele
próprio foi buscar? A sensação de que seu tempo é
estrangulado, sem se dar conta de que é ele quem cultiva
desassossego para si. Um amigo, sobrinho de um sábio do
interior, costuma usar a imagem da trajetória errática e vã
das formigas para ilustrar a ilusão que acomete o homem
em movimentos inócuos e sem sentido, o esforço inútil.
Não é à toa que se fale tanto na necessidade de ir com mais
calma.
Afinal, nós nunca aceleramos tanto. Na ilusão de
anteciparmos o futuro, roubamos o momento seguinte e
deixamos de vivê-lo. Convivemos sem prestar atenção no
outro, respiramos com sofreguidão, comemos sem sentir o
sabor. Fugimos do presente, o único tempo que existe e
sobre o qual criamos a referência para um passado
reconstruído na memória e um futuro sonhado. Como parar
e fazer nada? Como apenas ser, sem se debater por ter
entrado em uma porta estranha? Há quem não consiga
relaxar e, simplesmente, fazer nada. Alguém já disse que
fazer nada não é a completa falta de ação, mas a ação feita
com desapego, sem visar resultado para si mesmo. Há algo
de bom em atingir esse momento em que só se é parte da
paisagem e não um observador separado. Se ainda
quiséssemos procurar um significado para a visita da pequena ave, poderíamos dizer que ela veio trazer o tema
para estas linhas que você lê agora. Como se nos dissesse:
que bom que vocês conseguiram uns dias de folga e vieram
aqui, cuidar um do outro. Sejam bem-vindos a este momento
e esqueçam o resto. Fui.
(NOGUEIRA, Paulo. Vida Simples, ed. 37. São Paulo: Abril, 2006.
Disponível em http://mdemulher.abril.com.br/revistas/vidasimples/.
Edições/037/caminho/conteúdo_237474.shtml. Acesso em:
13/07/2019.)
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Fazer nada
Como a visita de um pássaro nos fez pensar no tempo.
Conseguimos uns dias de folga e fomos passar um
tempo cuidando um do outro. No hotel, em Itatiba,
deram-nos o quarto 37, que se abre para um mar de morros
verdes, com plantações, pastos, florestas. Fica no piso
superior, tem pé-direito alto e uma varanda abraçada por
árvores repletas de pássaros. À noite, entrou pela janela um
passarinho. Minúsculo, branco no peito e na parte inferior
da face, preto no dorso e na metade de cima da cabeça.
Entrou pelo quarto, acelerado. Voava junto ao teto e não
conseguia baixar até a altura da porta por onde havia
entrado. Temíamos que se machucasse. Apagamos as luzes.
Ele se acalmou e parou para descansar no toucador. Pulou
em pé, no chão. Caminhou um pouco, ofegante. Usamos
um chapéu para levá-lo à varanda, onde ficou ainda um
tempo, refazendo-se.
Depois, vimos que deixou de lembrança um cocozinho
na nossa cama. De onde teria vindo essa ave? Qual o
significado do carimbo de passarinho sobre o lençol? Resisti
à ideia de lembrar que excremento de pássaro é sinal de
boa fortuna em antigas tradições. Augúrio? Sinal? Ali não
havia mistério. Era apenas um bichinho assustado,
acelerado demais. Talvez apenas apavorado por haver
entrado em um lugar de onde parecia impossível sair. Mais
do que um significado oculto, sua visita pode é nos inspirar,
quem sabe, uma analogia. Quantas vezes o homem não se
debate, na ilusão de que está acuado? Quantas vezes sofre
sem perceber que está saturado por estímulos que ele
próprio foi buscar? A sensação de que seu tempo é
estrangulado, sem se dar conta de que é ele quem cultiva
desassossego para si. Um amigo, sobrinho de um sábio do
interior, costuma usar a imagem da trajetória errática e vã
das formigas para ilustrar a ilusão que acomete o homem
em movimentos inócuos e sem sentido, o esforço inútil.
Não é à toa que se fale tanto na necessidade de ir com mais
calma.
Afinal, nós nunca aceleramos tanto. Na ilusão de
anteciparmos o futuro, roubamos o momento seguinte e
deixamos de vivê-lo. Convivemos sem prestar atenção no
outro, respiramos com sofreguidão, comemos sem sentir o
sabor. Fugimos do presente, o único tempo que existe e
sobre o qual criamos a referência para um passado
reconstruído na memória e um futuro sonhado. Como parar
e fazer nada? Como apenas ser, sem se debater por ter
entrado em uma porta estranha? Há quem não consiga
relaxar e, simplesmente, fazer nada. Alguém já disse que
fazer nada não é a completa falta de ação, mas a ação feita
com desapego, sem visar resultado para si mesmo. Há algo
de bom em atingir esse momento em que só se é parte da
paisagem e não um observador separado. Se ainda
quiséssemos procurar um significado para a visita da pequena ave, poderíamos dizer que ela veio trazer o tema
para estas linhas que você lê agora. Como se nos dissesse:
que bom que vocês conseguiram uns dias de folga e vieram
aqui, cuidar um do outro. Sejam bem-vindos a este momento
e esqueçam o resto. Fui.
(NOGUEIRA, Paulo. Vida Simples, ed. 37. São Paulo: Abril, 2006.
Disponível em http://mdemulher.abril.com.br/revistas/vidasimples/.
Edições/037/caminho/conteúdo_237474.shtml. Acesso em:
13/07/2019.)
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Como a visita de um pássaro nos fez pensar no tempo.
Conseguimos uns dias de folga e fomos passar um
tempo cuidando um do outro. No hotel, em Itatiba,
deram-nos o quarto 37, que se abre para um mar de morros
verdes, com plantações, pastos, florestas. Fica no piso
superior, tem pé-direito alto e uma varanda abraçada por
árvores repletas de pássaros. À noite, entrou pela janela um
passarinho. Minúsculo, branco no peito e na parte inferior
da face, preto no dorso e na metade de cima da cabeça.
Entrou pelo quarto, acelerado. Voava junto ao teto e não
conseguia baixar até a altura da porta por onde havia
entrado. Temíamos que se machucasse. Apagamos as luzes.
Ele se acalmou e parou para descansar no toucador. Pulou
em pé, no chão. Caminhou um pouco, ofegante. Usamos
um chapéu para levá-lo à varanda, onde ficou ainda um
tempo, refazendo-se.
Depois, vimos que deixou de lembrança um cocozinho
na nossa cama. De onde teria vindo essa ave? Qual o
significado do carimbo de passarinho sobre o lençol? Resisti
à ideia de lembrar que excremento de pássaro é sinal de
boa fortuna em antigas tradições. Augúrio? Sinal? Ali não
havia mistério. Era apenas um bichinho assustado,
acelerado demais. Talvez apenas apavorado por haver
entrado em um lugar de onde parecia impossível sair. Mais
do que um significado oculto, sua visita pode é nos inspirar,
quem sabe, uma analogia. Quantas vezes o homem não se
debate, na ilusão de que está acuado? Quantas vezes sofre
sem perceber que está saturado por estímulos que ele
próprio foi buscar? A sensação de que seu tempo é
estrangulado, sem se dar conta de que é ele quem cultiva
desassossego para si. Um amigo, sobrinho de um sábio do
interior, costuma usar a imagem da trajetória errática e vã
das formigas para ilustrar a ilusão que acomete o homem
em movimentos inócuos e sem sentido, o esforço inútil.
Não é à toa que se fale tanto na necessidade de ir com mais
calma.
Afinal, nós nunca aceleramos tanto. Na ilusão de
anteciparmos o futuro, roubamos o momento seguinte e
deixamos de vivê-lo. Convivemos sem prestar atenção no
outro, respiramos com sofreguidão, comemos sem sentir o
sabor. Fugimos do presente, o único tempo que existe e
sobre o qual criamos a referência para um passado
reconstruído na memória e um futuro sonhado. Como parar
e fazer nada? Como apenas ser, sem se debater por ter
entrado em uma porta estranha? Há quem não consiga
relaxar e, simplesmente, fazer nada. Alguém já disse que
fazer nada não é a completa falta de ação, mas a ação feita
com desapego, sem visar resultado para si mesmo. Há algo
de bom em atingir esse momento em que só se é parte da
paisagem e não um observador separado. Se ainda
quiséssemos procurar um significado para a visita da pequena ave, poderíamos dizer que ela veio trazer o tema
para estas linhas que você lê agora. Como se nos dissesse:
que bom que vocês conseguiram uns dias de folga e vieram
aqui, cuidar um do outro. Sejam bem-vindos a este momento
e esqueçam o resto. Fui.
(NOGUEIRA, Paulo. Vida Simples, ed. 37. São Paulo: Abril, 2006.
Disponível em http://mdemulher.abril.com.br/revistas/vidasimples/.
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Conseguimos uns dias de folga e fomos passar um
tempo cuidando um do outro. No hotel, em Itatiba,
deram-nos o quarto 37, que se abre para um mar de morros
verdes, com plantações, pastos, florestas. Fica no piso
superior, tem pé-direito alto e uma varanda abraçada por
árvores repletas de pássaros. À noite, entrou pela janela um
passarinho. Minúsculo, branco no peito e na parte inferior
da face, preto no dorso e na metade de cima da cabeça.
Entrou pelo quarto, acelerado. Voava junto ao teto e não
conseguia baixar até a altura da porta por onde havia
entrado. Temíamos que se machucasse. Apagamos as luzes.
Ele se acalmou e parou para descansar no toucador. Pulou
em pé, no chão. Caminhou um pouco, ofegante. Usamos
um chapéu para levá-lo à varanda, onde ficou ainda um
tempo, refazendo-se.
Depois, vimos que deixou de lembrança um cocozinho
na nossa cama. De onde teria vindo essa ave? Qual o
significado do carimbo de passarinho sobre o lençol? Resisti
à ideia de lembrar que excremento de pássaro é sinal de
boa fortuna em antigas tradições. Augúrio? Sinal? Ali não
havia mistério. Era apenas um bichinho assustado,
acelerado demais. Talvez apenas apavorado por haver
entrado em um lugar de onde parecia impossível sair. Mais
do que um significado oculto, sua visita pode é nos inspirar,
quem sabe, uma analogia. Quantas vezes o homem não se
debate, na ilusão de que está acuado? Quantas vezes sofre
sem perceber que está saturado por estímulos que ele
próprio foi buscar? A sensação de que seu tempo é
estrangulado, sem se dar conta de que é ele quem cultiva
desassossego para si. Um amigo, sobrinho de um sábio do
interior, costuma usar a imagem da trajetória errática e vã
das formigas para ilustrar a ilusão que acomete o homem
em movimentos inócuos e sem sentido, o esforço inútil.
Não é à toa que se fale tanto na necessidade de ir com mais
calma.
Afinal, nós nunca aceleramos tanto. Na ilusão de
anteciparmos o futuro, roubamos o momento seguinte e
deixamos de vivê-lo. Convivemos sem prestar atenção no
outro, respiramos com sofreguidão, comemos sem sentir o
sabor. Fugimos do presente, o único tempo que existe e
sobre o qual criamos a referência para um passado
reconstruído na memória e um futuro sonhado. Como parar
e fazer nada? Como apenas ser, sem se debater por ter
entrado em uma porta estranha? Há quem não consiga
relaxar e, simplesmente, fazer nada. Alguém já disse que
fazer nada não é a completa falta de ação, mas a ação feita
com desapego, sem visar resultado para si mesmo. Há algo
de bom em atingir esse momento em que só se é parte da
paisagem e não um observador separado. Se ainda
quiséssemos procurar um significado para a visita da pequena ave, poderíamos dizer que ela veio trazer o tema
para estas linhas que você lê agora. Como se nos dissesse:
que bom que vocês conseguiram uns dias de folga e vieram
aqui, cuidar um do outro. Sejam bem-vindos a este momento
e esqueçam o resto. Fui.
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Conseguimos uns dias de folga e fomos passar um
tempo cuidando um do outro. No hotel, em Itatiba,
deram-nos o quarto 37, que se abre para um mar de morros
verdes, com plantações, pastos, florestas. Fica no piso
superior, tem pé-direito alto e uma varanda abraçada por
árvores repletas de pássaros. À noite, entrou pela janela um
passarinho. Minúsculo, branco no peito e na parte inferior
da face, preto no dorso e na metade de cima da cabeça.
Entrou pelo quarto, acelerado. Voava junto ao teto e não
conseguia baixar até a altura da porta por onde havia
entrado. Temíamos que se machucasse. Apagamos as luzes.
Ele se acalmou e parou para descansar no toucador. Pulou
em pé, no chão. Caminhou um pouco, ofegante. Usamos
um chapéu para levá-lo à varanda, onde ficou ainda um
tempo, refazendo-se.
Depois, vimos que deixou de lembrança um cocozinho
na nossa cama. De onde teria vindo essa ave? Qual o
significado do carimbo de passarinho sobre o lençol? Resisti
à ideia de lembrar que excremento de pássaro é sinal de
boa fortuna em antigas tradições. Augúrio? Sinal? Ali não
havia mistério. Era apenas um bichinho assustado,
acelerado demais. Talvez apenas apavorado por haver
entrado em um lugar de onde parecia impossível sair. Mais
do que um significado oculto, sua visita pode é nos inspirar,
quem sabe, uma analogia. Quantas vezes o homem não se
debate, na ilusão de que está acuado? Quantas vezes sofre
sem perceber que está saturado por estímulos que ele
próprio foi buscar? A sensação de que seu tempo é
estrangulado, sem se dar conta de que é ele quem cultiva
desassossego para si. Um amigo, sobrinho de um sábio do
interior, costuma usar a imagem da trajetória errática e vã
das formigas para ilustrar a ilusão que acomete o homem
em movimentos inócuos e sem sentido, o esforço inútil.
Não é à toa que se fale tanto na necessidade de ir com mais
calma.
Afinal, nós nunca aceleramos tanto. Na ilusão de
anteciparmos o futuro, roubamos o momento seguinte e
deixamos de vivê-lo. Convivemos sem prestar atenção no
outro, respiramos com sofreguidão, comemos sem sentir o
sabor. Fugimos do presente, o único tempo que existe e
sobre o qual criamos a referência para um passado
reconstruído na memória e um futuro sonhado. Como parar
e fazer nada? Como apenas ser, sem se debater por ter
entrado em uma porta estranha? Há quem não consiga
relaxar e, simplesmente, fazer nada. Alguém já disse que
fazer nada não é a completa falta de ação, mas a ação feita
com desapego, sem visar resultado para si mesmo. Há algo
de bom em atingir esse momento em que só se é parte da
paisagem e não um observador separado. Se ainda
quiséssemos procurar um significado para a visita da pequena ave, poderíamos dizer que ela veio trazer o tema
para estas linhas que você lê agora. Como se nos dissesse:
que bom que vocês conseguiram uns dias de folga e vieram
aqui, cuidar um do outro. Sejam bem-vindos a este momento
e esqueçam o resto. Fui.
(NOGUEIRA, Paulo. Vida Simples, ed. 37. São Paulo: Abril, 2006.
Disponível em http://mdemulher.abril.com.br/revistas/vidasimples/.
Edições/037/caminho/conteúdo_237474.shtml. Acesso em:
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Fazer nada
Como a visita de um pássaro nos fez pensar no tempo.
Conseguimos uns dias de folga e fomos passar um
tempo cuidando um do outro. No hotel, em Itatiba,
deram-nos o quarto 37, que se abre para um mar de morros
verdes, com plantações, pastos, florestas. Fica no piso
superior, tem pé-direito alto e uma varanda abraçada por
árvores repletas de pássaros. À noite, entrou pela janela um
passarinho. Minúsculo, branco no peito e na parte inferior
da face, preto no dorso e na metade de cima da cabeça.
Entrou pelo quarto, acelerado. Voava junto ao teto e não
conseguia baixar até a altura da porta por onde havia
entrado. Temíamos que se machucasse. Apagamos as luzes.
Ele se acalmou e parou para descansar no toucador. Pulou
em pé, no chão. Caminhou um pouco, ofegante. Usamos
um chapéu para levá-lo à varanda, onde ficou ainda um
tempo, refazendo-se.
Depois, vimos que deixou de lembrança um cocozinho
na nossa cama. De onde teria vindo essa ave? Qual o
significado do carimbo de passarinho sobre o lençol? Resisti
à ideia de lembrar que excremento de pássaro é sinal de
boa fortuna em antigas tradições. Augúrio? Sinal? Ali não
havia mistério. Era apenas um bichinho assustado,
acelerado demais. Talvez apenas apavorado por haver
entrado em um lugar de onde parecia impossível sair. Mais
do que um significado oculto, sua visita pode é nos inspirar,
quem sabe, uma analogia. Quantas vezes o homem não se
debate, na ilusão de que está acuado? Quantas vezes sofre
sem perceber que está saturado por estímulos que ele
próprio foi buscar? A sensação de que seu tempo é
estrangulado, sem se dar conta de que é ele quem cultiva
desassossego para si. Um amigo, sobrinho de um sábio do
interior, costuma usar a imagem da trajetória errática e vã
das formigas para ilustrar a ilusão que acomete o homem
em movimentos inócuos e sem sentido, o esforço inútil.
Não é à toa que se fale tanto na necessidade de ir com mais
calma.
Afinal, nós nunca aceleramos tanto. Na ilusão de
anteciparmos o futuro, roubamos o momento seguinte e
deixamos de vivê-lo. Convivemos sem prestar atenção no
outro, respiramos com sofreguidão, comemos sem sentir o
sabor. Fugimos do presente, o único tempo que existe e
sobre o qual criamos a referência para um passado
reconstruído na memória e um futuro sonhado. Como parar
e fazer nada? Como apenas ser, sem se debater por ter
entrado em uma porta estranha? Há quem não consiga
relaxar e, simplesmente, fazer nada. Alguém já disse que
fazer nada não é a completa falta de ação, mas a ação feita
com desapego, sem visar resultado para si mesmo. Há algo
de bom em atingir esse momento em que só se é parte da
paisagem e não um observador separado. Se ainda
quiséssemos procurar um significado para a visita da pequena ave, poderíamos dizer que ela veio trazer o tema
para estas linhas que você lê agora. Como se nos dissesse:
que bom que vocês conseguiram uns dias de folga e vieram
aqui, cuidar um do outro. Sejam bem-vindos a este momento
e esqueçam o resto. Fui.
(NOGUEIRA, Paulo. Vida Simples, ed. 37. São Paulo: Abril, 2006.
Disponível em http://mdemulher.abril.com.br/revistas/vidasimples/.
Edições/037/caminho/conteúdo_237474.shtml. Acesso em:
13/07/2019.)
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