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Fazer nada
Como a visita de um pássaro nos fez pensar no tempo.
Conseguimos uns dias de folga e fomos passar um
tempo cuidando um do outro. No hotel, em Itatiba,
deram-nos o quarto 37, que se abre para um mar de morros
verdes, com plantações, pastos, florestas. Fica no piso
superior, tem pé-direito alto e uma varanda abraçada por
árvores repletas de pássaros. À noite, entrou pela janela um
passarinho. Minúsculo, branco no peito e na parte inferior
da face, preto no dorso e na metade de cima da cabeça.
Entrou pelo quarto, acelerado. Voava junto ao teto e não
conseguia baixar até a altura da porta por onde havia
entrado. Temíamos que se machucasse. Apagamos as luzes.
Ele se acalmou e parou para descansar no toucador. Pulou
em pé, no chão. Caminhou um pouco, ofegante. Usamos
um chapéu para levá-lo à varanda, onde ficou ainda um
tempo, refazendo-se.
Depois, vimos que deixou de lembrança um cocozinho
na nossa cama. De onde teria vindo essa ave? Qual o
significado do carimbo de passarinho sobre o lençol? Resisti
à ideia de lembrar que excremento de pássaro é sinal de
boa fortuna em antigas tradições. Augúrio? Sinal? Ali não
havia mistério. Era apenas um bichinho assustado,
acelerado demais. Talvez apenas apavorado por haver
entrado em um lugar de onde parecia impossível sair. Mais
do que um significado oculto, sua visita pode é nos inspirar,
quem sabe, uma analogia. Quantas vezes o homem não se
debate, na ilusão de que está acuado? Quantas vezes sofre
sem perceber que está saturado por estímulos que ele
próprio foi buscar? A sensação de que seu tempo é
estrangulado, sem se dar conta de que é ele quem cultiva
desassossego para si. Um amigo, sobrinho de um sábio do
interior, costuma usar a imagem da trajetória errática e vã
das formigas para ilustrar a ilusão que acomete o homem
em movimentos inócuos e sem sentido, o esforço inútil.
Não é à toa que se fale tanto na necessidade de ir com mais
calma.
Afinal, nós nunca aceleramos tanto. Na ilusão de
anteciparmos o futuro, roubamos o momento seguinte e
deixamos de vivê-lo. Convivemos sem prestar atenção no
outro, respiramos com sofreguidão, comemos sem sentir o
sabor. Fugimos do presente, o único tempo que existe e
sobre o qual criamos a referência para um passado
reconstruído na memória e um futuro sonhado. Como parar
e fazer nada? Como apenas ser, sem se debater por ter
entrado em uma porta estranha? Há quem não consiga
relaxar e, simplesmente, fazer nada. Alguém já disse que
fazer nada não é a completa falta de ação, mas a ação feita
com desapego, sem visar resultado para si mesmo. Há algo
de bom em atingir esse momento em que só se é parte da
paisagem e não um observador separado. Se ainda
quiséssemos procurar um significado para a visita da pequena ave, poderíamos dizer que ela veio trazer o tema
para estas linhas que você lê agora. Como se nos dissesse:
que bom que vocês conseguiram uns dias de folga e vieram
aqui, cuidar um do outro. Sejam bem-vindos a este momento
e esqueçam o resto. Fui.
(NOGUEIRA, Paulo. Vida Simples, ed. 37. São Paulo: Abril, 2006.
Disponível em http://mdemulher.abril.com.br/revistas/vidasimples/.
Edições/037/caminho/conteúdo_237474.shtml. Acesso em:
13/07/2019.)
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- MorfologiaAdjetivos
- MorfologiaPreposições
- MorfologiaPronomesPronomes Possessivos
- MorfologiaSubstantivos
Fazer nada
Como a visita de um pássaro nos fez pensar no tempo.
Conseguimos uns dias de folga e fomos passar um
tempo cuidando um do outro. No hotel, em Itatiba,
deram-nos o quarto 37, que se abre para um mar de morros
verdes, com plantações, pastos, florestas. Fica no piso
superior, tem pé-direito alto e uma varanda abraçada por
árvores repletas de pássaros. À noite, entrou pela janela um
passarinho. Minúsculo, branco no peito e na parte inferior
da face, preto no dorso e na metade de cima da cabeça.
Entrou pelo quarto, acelerado. Voava junto ao teto e não
conseguia baixar até a altura da porta por onde havia
entrado. Temíamos que se machucasse. Apagamos as luzes.
Ele se acalmou e parou para descansar no toucador. Pulou
em pé, no chão. Caminhou um pouco, ofegante. Usamos
um chapéu para levá-lo à varanda, onde ficou ainda um
tempo, refazendo-se.
Depois, vimos que deixou de lembrança um cocozinho
na nossa cama. De onde teria vindo essa ave? Qual o
significado do carimbo de passarinho sobre o lençol? Resisti
à ideia de lembrar que excremento de pássaro é sinal de
boa fortuna em antigas tradições. Augúrio? Sinal? Ali não
havia mistério. Era apenas um bichinho assustado,
acelerado demais. Talvez apenas apavorado por haver
entrado em um lugar de onde parecia impossível sair. Mais
do que um significado oculto, sua visita pode é nos inspirar,
quem sabe, uma analogia. Quantas vezes o homem não se
debate, na ilusão de que está acuado? Quantas vezes sofre
sem perceber que está saturado por estímulos que ele
próprio foi buscar? A sensação de que seu tempo é
estrangulado, sem se dar conta de que é ele quem cultiva
desassossego para si. Um amigo, sobrinho de um sábio do
interior, costuma usar a imagem da trajetória errática e vã
das formigas para ilustrar a ilusão que acomete o homem
em movimentos inócuos e sem sentido, o esforço inútil.
Não é à toa que se fale tanto na necessidade de ir com mais
calma.
Afinal, nós nunca aceleramos tanto. Na ilusão de
anteciparmos o futuro, roubamos o momento seguinte e
deixamos de vivê-lo. Convivemos sem prestar atenção no
outro, respiramos com sofreguidão, comemos sem sentir o
sabor. Fugimos do presente, o único tempo que existe e
sobre o qual criamos a referência para um passado
reconstruído na memória e um futuro sonhado. Como parar
e fazer nada? Como apenas ser, sem se debater por ter
entrado em uma porta estranha? Há quem não consiga
relaxar e, simplesmente, fazer nada. Alguém já disse que
fazer nada não é a completa falta de ação, mas a ação feita
com desapego, sem visar resultado para si mesmo. Há algo
de bom em atingir esse momento em que só se é parte da
paisagem e não um observador separado. Se ainda
quiséssemos procurar um significado para a visita da pequena ave, poderíamos dizer que ela veio trazer o tema
para estas linhas que você lê agora. Como se nos dissesse:
que bom que vocês conseguiram uns dias de folga e vieram
aqui, cuidar um do outro. Sejam bem-vindos a este momento
e esqueçam o resto. Fui.
(NOGUEIRA, Paulo. Vida Simples, ed. 37. São Paulo: Abril, 2006.
Disponível em http://mdemulher.abril.com.br/revistas/vidasimples/.
Edições/037/caminho/conteúdo_237474.shtml. Acesso em:
13/07/2019.)
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Como a visita de um pássaro nos fez pensar no tempo.
Conseguimos uns dias de folga e fomos passar um
tempo cuidando um do outro. No hotel, em Itatiba,
deram-nos o quarto 37, que se abre para um mar de morros
verdes, com plantações, pastos, florestas. Fica no piso
superior, tem pé-direito alto e uma varanda abraçada por
árvores repletas de pássaros. À noite, entrou pela janela um
passarinho. Minúsculo, branco no peito e na parte inferior
da face, preto no dorso e na metade de cima da cabeça.
Entrou pelo quarto, acelerado. Voava junto ao teto e não
conseguia baixar até a altura da porta por onde havia
entrado. Temíamos que se machucasse. Apagamos as luzes.
Ele se acalmou e parou para descansar no toucador. Pulou
em pé, no chão. Caminhou um pouco, ofegante. Usamos
um chapéu para levá-lo à varanda, onde ficou ainda um
tempo, refazendo-se.
Depois, vimos que deixou de lembrança um cocozinho
na nossa cama. De onde teria vindo essa ave? Qual o
significado do carimbo de passarinho sobre o lençol? Resisti
à ideia de lembrar que excremento de pássaro é sinal de
boa fortuna em antigas tradições. Augúrio? Sinal? Ali não
havia mistério. Era apenas um bichinho assustado,
acelerado demais. Talvez apenas apavorado por haver
entrado em um lugar de onde parecia impossível sair. Mais
do que um significado oculto, sua visita pode é nos inspirar,
quem sabe, uma analogia. Quantas vezes o homem não se
debate, na ilusão de que está acuado? Quantas vezes sofre
sem perceber que está saturado por estímulos que ele
próprio foi buscar? A sensação de que seu tempo é
estrangulado, sem se dar conta de que é ele quem cultiva
desassossego para si. Um amigo, sobrinho de um sábio do
interior, costuma usar a imagem da trajetória errática e vã
das formigas para ilustrar a ilusão que acomete o homem
em movimentos inócuos e sem sentido, o esforço inútil.
Não é à toa que se fale tanto na necessidade de ir com mais
calma.
Afinal, nós nunca aceleramos tanto. Na ilusão de
anteciparmos o futuro, roubamos o momento seguinte e
deixamos de vivê-lo. Convivemos sem prestar atenção no
outro, respiramos com sofreguidão, comemos sem sentir o
sabor. Fugimos do presente, o único tempo que existe e
sobre o qual criamos a referência para um passado
reconstruído na memória e um futuro sonhado. Como parar
e fazer nada? Como apenas ser, sem se debater por ter
entrado em uma porta estranha? Há quem não consiga
relaxar e, simplesmente, fazer nada. Alguém já disse que
fazer nada não é a completa falta de ação, mas a ação feita
com desapego, sem visar resultado para si mesmo. Há algo
de bom em atingir esse momento em que só se é parte da
paisagem e não um observador separado. Se ainda
quiséssemos procurar um significado para a visita da pequena ave, poderíamos dizer que ela veio trazer o tema
para estas linhas que você lê agora. Como se nos dissesse:
que bom que vocês conseguiram uns dias de folga e vieram
aqui, cuidar um do outro. Sejam bem-vindos a este momento
e esqueçam o resto. Fui.
(NOGUEIRA, Paulo. Vida Simples, ed. 37. São Paulo: Abril, 2006.
Disponível em http://mdemulher.abril.com.br/revistas/vidasimples/.
Edições/037/caminho/conteúdo_237474.shtml. Acesso em:
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Como a visita de um pássaro nos fez pensar no tempo.
Conseguimos uns dias de folga e fomos passar um
tempo cuidando um do outro. No hotel, em Itatiba,
deram-nos o quarto 37, que se abre para um mar de morros
verdes, com plantações, pastos, florestas. Fica no piso
superior, tem pé-direito alto e uma varanda abraçada por
árvores repletas de pássaros. À noite, entrou pela janela um
passarinho. Minúsculo, branco no peito e na parte inferior
da face, preto no dorso e na metade de cima da cabeça.
Entrou pelo quarto, acelerado. Voava junto ao teto e não
conseguia baixar até a altura da porta por onde havia
entrado. Temíamos que se machucasse. Apagamos as luzes.
Ele se acalmou e parou para descansar no toucador. Pulou
em pé, no chão. Caminhou um pouco, ofegante. Usamos
um chapéu para levá-lo à varanda, onde ficou ainda um
tempo, refazendo-se.
Depois, vimos que deixou de lembrança um cocozinho
na nossa cama. De onde teria vindo essa ave? Qual o
significado do carimbo de passarinho sobre o lençol? Resisti
à ideia de lembrar que excremento de pássaro é sinal de
boa fortuna em antigas tradições. Augúrio? Sinal? Ali não
havia mistério. Era apenas um bichinho assustado,
acelerado demais. Talvez apenas apavorado por haver
entrado em um lugar de onde parecia impossível sair. Mais
do que um significado oculto, sua visita pode é nos inspirar,
quem sabe, uma analogia. Quantas vezes o homem não se
debate, na ilusão de que está acuado? Quantas vezes sofre
sem perceber que está saturado por estímulos que ele
próprio foi buscar? A sensação de que seu tempo é
estrangulado, sem se dar conta de que é ele quem cultiva
desassossego para si. Um amigo, sobrinho de um sábio do
interior, costuma usar a imagem da trajetória errática e vã
das formigas para ilustrar a ilusão que acomete o homem
em movimentos inócuos e sem sentido, o esforço inútil.
Não é à toa que se fale tanto na necessidade de ir com mais
calma.
Afinal, nós nunca aceleramos tanto. Na ilusão de
anteciparmos o futuro, roubamos o momento seguinte e
deixamos de vivê-lo. Convivemos sem prestar atenção no
outro, respiramos com sofreguidão, comemos sem sentir o
sabor. Fugimos do presente, o único tempo que existe e
sobre o qual criamos a referência para um passado
reconstruído na memória e um futuro sonhado. Como parar
e fazer nada? Como apenas ser, sem se debater por ter
entrado em uma porta estranha? Há quem não consiga
relaxar e, simplesmente, fazer nada. Alguém já disse que
fazer nada não é a completa falta de ação, mas a ação feita
com desapego, sem visar resultado para si mesmo. Há algo
de bom em atingir esse momento em que só se é parte da
paisagem e não um observador separado. Se ainda
quiséssemos procurar um significado para a visita da pequena ave, poderíamos dizer que ela veio trazer o tema
para estas linhas que você lê agora. Como se nos dissesse:
que bom que vocês conseguiram uns dias de folga e vieram
aqui, cuidar um do outro. Sejam bem-vindos a este momento
e esqueçam o resto. Fui.
(NOGUEIRA, Paulo. Vida Simples, ed. 37. São Paulo: Abril, 2006.
Disponível em http://mdemulher.abril.com.br/revistas/vidasimples/.
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13/07/2019.)
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Todo filho é pai da morte de seu pai
Há uma quebra na história familiar onde as idades se
acumulam e se sobrepõem e a ordem natural não tem
sentido: é quando o filho se torna pai de seu pai.
É quando o pai envelhece e começa a trotear como se
estivesse dentro de uma névoa. Lento, devagar, impreciso.
É quando aquele pai que segurava com força nossa mão já
não tem como se levantar sozinho.
É quando aquele pai, outrora firme e intransponível,
enfraquece de vez e demora o dobro da respiração para sair
de seu lugar. É quando aquele pai, que antigamente
mandava e ordenava, hoje só suspira, só geme, só procura
onde é a porta e onde é a janela – tudo é corredor, tudo é
longe.
É quando aquele pai, antes disposto e trabalhador,
fracassa ao tirar sua própria roupa e não lembrará de seus
remédios.
E nós, como filhos, não faremos outra coisa senão
trocar de papel e aceitar que somos responsáveis por
aquela vida. Aquela vida que nos gerou depende de nossa
vida para morrer em paz.
Todo filho é pai da morte de seu pai.
Ou, quem sabe, a velhice do pai e da mãe seja
curiosamente nossa última gravidez. Nosso último
ensinamento. Fase para devolver os cuidados que nos
foram confiados ao longo de décadas, de retribuir o amor
com a amizade da escolta.
E assim como mudamos a casa para atender nossos
bebês, tapando tomadas e colocando cercadinhos, vamos
alterar a rotina dos móveis para criar os nossos pais.
Uma das primeiras transformações acontece no
banheiro.
Seremos pais de nossos pais na hora de pôr uma barra
no box do chuveiro.
A barra é emblemática. A barra é simbólica. A barra é
inaugurar um cotovelo das águas.
Porque o chuveiro, simples e refrescante, agora é um
temporal para os pés idosos de nossos protetores. Não
podemos abandoná-los em nenhum momento, inventaremos nossos braços nas paredes.
A casa de quem cuida dos pais tem braços dos filhos
pelas paredes. Nossos braços estarão espalhados, sob a
forma de corrimões.
Pois envelhecer é andar de mãos dadas com os
objetos, envelhecer é subir escada mesmo sem degraus.
Seremos estranhos em nossa residência. Observaremos
cada detalhe com pavor e desconhecimento, com dúvida e
preocupação. Seremos arquitetos, decoradores, engenheiros
frustrados. Como não previmos que os pais adoecem e
precisariam da gente?
Nos arrependeremos dos sofás, das estátuas e do
acesso caracol, nos arrependeremos de cada obstáculo e
tapete.
E feliz do filho que é pai de seu pai antes da morte, e
triste do filho que aparece somente no enterro e não se
despede um pouco por dia.
Meu amigo José Klein acompanhou o pai até seus
derradeiros minutos.
No hospital, a enfermeira fazia a manobra da cama
para a maca, buscando repor os lençóis, quando Zé gritou
de sua cadeira:
— Deixa que eu ajudo.
Reuniu suas forças e pegou pela primeira vez seu pai
no colo.
Colocou o rosto de seu pai contra seu peito.
Ajeitou em seus ombros o pai consumido pelo câncer:
pequeno, enrugado, frágil, tremendo.
Ficou segurando um bom tempo, um tempo
equivalente à sua infância, um tempo equivalente à sua
adolescência, um bom tempo, um tempo interminável.
Embalou o pai de um lado para o outro.
Aninhou o pai.
Acalmou o pai.
E apenas dizia, sussurrado:
— Estou aqui, estou aqui, pai!
O que um pai quer apenas ouvir no fim de sua vida é
que seu filho está ali.
(Autor desconhecido. Disponível em:
http://www.contioutra.com/todo-filho-e-pai-da-morte-de-seu-pai/.
Dezembro de 2016.)
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Todo filho é pai da morte de seu pai
Há uma quebra na história familiar onde as idades se
acumulam e se sobrepõem e a ordem natural não tem
sentido: é quando o filho se torna pai de seu pai.
É quando o pai envelhece e começa a trotear como se
estivesse dentro de uma névoa. Lento, devagar, impreciso.
É quando aquele pai que segurava com força nossa mão já
não tem como se levantar sozinho.
É quando aquele pai, outrora firme e intransponível,
enfraquece de vez e demora o dobro da respiração para sair
de seu lugar. É quando aquele pai, que antigamente
mandava e ordenava, hoje só suspira, só geme, só procura
onde é a porta e onde é a janela – tudo é corredor, tudo é
longe.
É quando aquele pai, antes disposto e trabalhador,
fracassa ao tirar sua própria roupa e não lembrará de seus
remédios.
E nós, como filhos, não faremos outra coisa senão
trocar de papel e aceitar que somos responsáveis por
aquela vida. Aquela vida que nos gerou depende de nossa
vida para morrer em paz.
Todo filho é pai da morte de seu pai.
Ou, quem sabe, a velhice do pai e da mãe seja
curiosamente nossa última gravidez. Nosso último
ensinamento. Fase para devolver os cuidados que nos
foram confiados ao longo de décadas, de retribuir o amor
com a amizade da escolta.
E assim como mudamos a casa para atender nossos
bebês, tapando tomadas e colocando cercadinhos, vamos
alterar a rotina dos móveis para criar os nossos pais.
Uma das primeiras transformações acontece no
banheiro.
Seremos pais de nossos pais na hora de pôr uma barra
no box do chuveiro.
A barra é emblemática. A barra é simbólica. A barra é
inaugurar um cotovelo das águas.
Porque o chuveiro, simples e refrescante, agora é um
temporal para os pés idosos de nossos protetores. Não
podemos abandoná-los em nenhum momento, inventaremos nossos braços nas paredes.
A casa de quem cuida dos pais tem braços dos filhos
pelas paredes. Nossos braços estarão espalhados, sob a
forma de corrimões.
Pois envelhecer é andar de mãos dadas com os
objetos, envelhecer é subir escada mesmo sem degraus.
Seremos estranhos em nossa residência. Observaremos
cada detalhe com pavor e desconhecimento, com dúvida e
preocupação. Seremos arquitetos, decoradores, engenheiros
frustrados. Como não previmos que os pais adoecem e
precisariam da gente?
Nos arrependeremos dos sofás, das estátuas e do
acesso caracol, nos arrependeremos de cada obstáculo e
tapete.
E feliz do filho que é pai de seu pai antes da morte, e
triste do filho que aparece somente no enterro e não se
despede um pouco por dia.
Meu amigo José Klein acompanhou o pai até seus
derradeiros minutos.
No hospital, a enfermeira fazia a manobra da cama
para a maca, buscando repor os lençóis, quando Zé gritou
de sua cadeira:
— Deixa que eu ajudo.
Reuniu suas forças e pegou pela primeira vez seu pai
no colo.
Colocou o rosto de seu pai contra seu peito.
Ajeitou em seus ombros o pai consumido pelo câncer:
pequeno, enrugado, frágil, tremendo.
Ficou segurando um bom tempo, um tempo
equivalente à sua infância, um tempo equivalente à sua
adolescência, um bom tempo, um tempo interminável.
Embalou o pai de um lado para o outro.
Aninhou o pai.
Acalmou o pai.
E apenas dizia, sussurrado:
— Estou aqui, estou aqui, pai!
O que um pai quer apenas ouvir no fim de sua vida é
que seu filho está ali.
(Autor desconhecido. Disponível em:
http://www.contioutra.com/todo-filho-e-pai-da-morte-de-seu-pai/.
Dezembro de 2016.)
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Todo filho é pai da morte de seu pai
Há uma quebra na história familiar onde as idades se
acumulam e se sobrepõem e a ordem natural não tem
sentido: é quando o filho se torna pai de seu pai.
É quando o pai envelhece e começa a trotear como se
estivesse dentro de uma névoa. Lento, devagar, impreciso.
É quando aquele pai que segurava com força nossa mão já
não tem como se levantar sozinho.
É quando aquele pai, outrora firme e intransponível,
enfraquece de vez e demora o dobro da respiração para sair
de seu lugar. É quando aquele pai, que antigamente
mandava e ordenava, hoje só suspira, só geme, só procura
onde é a porta e onde é a janela – tudo é corredor, tudo é
longe.
É quando aquele pai, antes disposto e trabalhador,
fracassa ao tirar sua própria roupa e não lembrará de seus
remédios.
E nós, como filhos, não faremos outra coisa senão
trocar de papel e aceitar que somos responsáveis por
aquela vida. Aquela vida que nos gerou depende de nossa
vida para morrer em paz.
Todo filho é pai da morte de seu pai.
Ou, quem sabe, a velhice do pai e da mãe seja
curiosamente nossa última gravidez. Nosso último
ensinamento. Fase para devolver os cuidados que nos
foram confiados ao longo de décadas, de retribuir o amor
com a amizade da escolta.
E assim como mudamos a casa para atender nossos
bebês, tapando tomadas e colocando cercadinhos, vamos
alterar a rotina dos móveis para criar os nossos pais.
Uma das primeiras transformações acontece no
banheiro.
Seremos pais de nossos pais na hora de pôr uma barra
no box do chuveiro.
A barra é emblemática. A barra é simbólica. A barra é
inaugurar um cotovelo das águas.
Porque o chuveiro, simples e refrescante, agora é um
temporal para os pés idosos de nossos protetores. Não
podemos abandoná-los em nenhum momento, inventaremos nossos braços nas paredes.
A casa de quem cuida dos pais tem braços dos filhos
pelas paredes. Nossos braços estarão espalhados, sob a
forma de corrimões.
Pois envelhecer é andar de mãos dadas com os
objetos, envelhecer é subir escada mesmo sem degraus.
Seremos estranhos em nossa residência. Observaremos
cada detalhe com pavor e desconhecimento, com dúvida e
preocupação. Seremos arquitetos, decoradores, engenheiros
frustrados. Como não previmos que os pais adoecem e
precisariam da gente?
Nos arrependeremos dos sofás, das estátuas e do
acesso caracol, nos arrependeremos de cada obstáculo e
tapete.
E feliz do filho que é pai de seu pai antes da morte, e
triste do filho que aparece somente no enterro e não se
despede um pouco por dia.
Meu amigo José Klein acompanhou o pai até seus
derradeiros minutos.
No hospital, a enfermeira fazia a manobra da cama
para a maca, buscando repor os lençóis, quando Zé gritou
de sua cadeira:
— Deixa que eu ajudo.
Reuniu suas forças e pegou pela primeira vez seu pai
no colo.
Colocou o rosto de seu pai contra seu peito.
Ajeitou em seus ombros o pai consumido pelo câncer:
pequeno, enrugado, frágil, tremendo.
Ficou segurando um bom tempo, um tempo
equivalente à sua infância, um tempo equivalente à sua
adolescência, um bom tempo, um tempo interminável.
Embalou o pai de um lado para o outro.
Aninhou o pai.
Acalmou o pai.
E apenas dizia, sussurrado:
— Estou aqui, estou aqui, pai!
O que um pai quer apenas ouvir no fim de sua vida é
que seu filho está ali.
(Autor desconhecido. Disponível em:
http://www.contioutra.com/todo-filho-e-pai-da-morte-de-seu-pai/.
Dezembro de 2016.)
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Questão presente nas seguintes provas
Todo filho é pai da morte de seu pai
Há uma quebra na história familiar onde as idades se
acumulam e se sobrepõem e a ordem natural não tem
sentido: é quando o filho se torna pai de seu pai.
É quando o pai envelhece e começa a trotear como se
estivesse dentro de uma névoa. Lento, devagar, impreciso.
É quando aquele pai que segurava com força nossa mão já
não tem como se levantar sozinho.
É quando aquele pai, outrora firme e intransponível,
enfraquece de vez e demora o dobro da respiração para sair
de seu lugar. É quando aquele pai, que antigamente
mandava e ordenava, hoje só suspira, só geme, só procura
onde é a porta e onde é a janela – tudo é corredor, tudo é
longe.
É quando aquele pai, antes disposto e trabalhador,
fracassa ao tirar sua própria roupa e não lembrará de seus
remédios.
E nós, como filhos, não faremos outra coisa senão
trocar de papel e aceitar que somos responsáveis por
aquela vida. Aquela vida que nos gerou depende de nossa
vida para morrer em paz.
Todo filho é pai da morte de seu pai.
Ou, quem sabe, a velhice do pai e da mãe seja
curiosamente nossa última gravidez. Nosso último
ensinamento. Fase para devolver os cuidados que nos
foram confiados ao longo de décadas, de retribuir o amor
com a amizade da escolta.
E assim como mudamos a casa para atender nossos
bebês, tapando tomadas e colocando cercadinhos, vamos
alterar a rotina dos móveis para criar os nossos pais.
Uma das primeiras transformações acontece no
banheiro.
Seremos pais de nossos pais na hora de pôr uma barra
no box do chuveiro.
A barra é emblemática. A barra é simbólica. A barra é
inaugurar um cotovelo das águas.
Porque o chuveiro, simples e refrescante, agora é um
temporal para os pés idosos de nossos protetores. Não
podemos abandoná-los em nenhum momento, inventaremos nossos braços nas paredes.
A casa de quem cuida dos pais tem braços dos filhos
pelas paredes. Nossos braços estarão espalhados, sob a
forma de corrimões.
Pois envelhecer é andar de mãos dadas com os
objetos, envelhecer é subir escada mesmo sem degraus.
Seremos estranhos em nossa residência. Observaremos
cada detalhe com pavor e desconhecimento, com dúvida e
preocupação. Seremos arquitetos, decoradores, engenheiros
frustrados. Como não previmos que os pais adoecem e
precisariam da gente?
Nos arrependeremos dos sofás, das estátuas e do
acesso caracol, nos arrependeremos de cada obstáculo e
tapete.
E feliz do filho que é pai de seu pai antes da morte, e
triste do filho que aparece somente no enterro e não se
despede um pouco por dia.
Meu amigo José Klein acompanhou o pai até seus
derradeiros minutos.
No hospital, a enfermeira fazia a manobra da cama
para a maca, buscando repor os lençóis, quando Zé gritou
de sua cadeira:
— Deixa que eu ajudo.
Reuniu suas forças e pegou pela primeira vez seu pai
no colo.
Colocou o rosto de seu pai contra seu peito.
Ajeitou em seus ombros o pai consumido pelo câncer:
pequeno, enrugado, frágil, tremendo.
Ficou segurando um bom tempo, um tempo
equivalente à sua infância, um tempo equivalente à sua
adolescência, um bom tempo, um tempo interminável.
Embalou o pai de um lado para o outro.
Aninhou o pai.
Acalmou o pai.
E apenas dizia, sussurrado:
— Estou aqui, estou aqui, pai!
O que um pai quer apenas ouvir no fim de sua vida é
que seu filho está ali.
(Autor desconhecido. Disponível em:
http://www.contioutra.com/todo-filho-e-pai-da-morte-de-seu-pai/.
Dezembro de 2016.)
Provas
Questão presente nas seguintes provas
Todo filho é pai da morte de seu pai
Há uma quebra na história familiar onde as idades se
acumulam e se sobrepõem e a ordem natural não tem
sentido: é quando o filho se torna pai de seu pai.
É quando o pai envelhece e começa a trotear como se
estivesse dentro de uma névoa. Lento, devagar, impreciso.
É quando aquele pai que segurava com força nossa mão já
não tem como se levantar sozinho.
É quando aquele pai, outrora firme e intransponível,
enfraquece de vez e demora o dobro da respiração para sair
de seu lugar. É quando aquele pai, que antigamente
mandava e ordenava, hoje só suspira, só geme, só procura
onde é a porta e onde é a janela – tudo é corredor, tudo é
longe.
É quando aquele pai, antes disposto e trabalhador,
fracassa ao tirar sua própria roupa e não lembrará de seus
remédios.
E nós, como filhos, não faremos outra coisa senão
trocar de papel e aceitar que somos responsáveis por
aquela vida. Aquela vida que nos gerou depende de nossa
vida para morrer em paz.
Todo filho é pai da morte de seu pai.
Ou, quem sabe, a velhice do pai e da mãe seja
curiosamente nossa última gravidez. Nosso último
ensinamento. Fase para devolver os cuidados que nos
foram confiados ao longo de décadas, de retribuir o amor
com a amizade da escolta.
E assim como mudamos a casa para atender nossos
bebês, tapando tomadas e colocando cercadinhos, vamos
alterar a rotina dos móveis para criar os nossos pais.
Uma das primeiras transformações acontece no
banheiro.
Seremos pais de nossos pais na hora de pôr uma barra
no box do chuveiro.
A barra é emblemática. A barra é simbólica. A barra é
inaugurar um cotovelo das águas.
Porque o chuveiro, simples e refrescante, agora é um
temporal para os pés idosos de nossos protetores. Não
podemos abandoná-los em nenhum momento, inventaremos nossos braços nas paredes.
A casa de quem cuida dos pais tem braços dos filhos
pelas paredes. Nossos braços estarão espalhados, sob a
forma de corrimões.
Pois envelhecer é andar de mãos dadas com os
objetos, envelhecer é subir escada mesmo sem degraus.
Seremos estranhos em nossa residência. Observaremos
cada detalhe com pavor e desconhecimento, com dúvida e
preocupação. Seremos arquitetos, decoradores, engenheiros
frustrados. Como não previmos que os pais adoecem e
precisariam da gente?
Nos arrependeremos dos sofás, das estátuas e do
acesso caracol, nos arrependeremos de cada obstáculo e
tapete.
E feliz do filho que é pai de seu pai antes da morte, e
triste do filho que aparece somente no enterro e não se
despede um pouco por dia.
Meu amigo José Klein acompanhou o pai até seus
derradeiros minutos.
No hospital, a enfermeira fazia a manobra da cama
para a maca, buscando repor os lençóis, quando Zé gritou
de sua cadeira:
— Deixa que eu ajudo.
Reuniu suas forças e pegou pela primeira vez seu pai
no colo.
Colocou o rosto de seu pai contra seu peito.
Ajeitou em seus ombros o pai consumido pelo câncer:
pequeno, enrugado, frágil, tremendo.
Ficou segurando um bom tempo, um tempo
equivalente à sua infância, um tempo equivalente à sua
adolescência, um bom tempo, um tempo interminável.
Embalou o pai de um lado para o outro.
Aninhou o pai.
Acalmou o pai.
E apenas dizia, sussurrado:
— Estou aqui, estou aqui, pai!
O que um pai quer apenas ouvir no fim de sua vida é
que seu filho está ali.
(Autor desconhecido. Disponível em:
http://www.contioutra.com/todo-filho-e-pai-da-morte-de-seu-pai/.
Dezembro de 2016.)
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Todo filho é pai da morte de seu pai
Há uma quebra na história familiar onde as idades se
acumulam e se sobrepõem e a ordem natural não tem
sentido: é quando o filho se torna pai de seu pai.
É quando o pai envelhece e começa a trotear como se
estivesse dentro de uma névoa. Lento, devagar, impreciso.
É quando aquele pai que segurava com força nossa mão já
não tem como se levantar sozinho.
É quando aquele pai, outrora firme e intransponível,
enfraquece de vez e demora o dobro da respiração para sair
de seu lugar. É quando aquele pai, que antigamente
mandava e ordenava, hoje só suspira, só geme, só procura
onde é a porta e onde é a janela – tudo é corredor, tudo é
longe.
É quando aquele pai, antes disposto e trabalhador,
fracassa ao tirar sua própria roupa e não lembrará de seus
remédios.
E nós, como filhos, não faremos outra coisa senão
trocar de papel e aceitar que somos responsáveis por
aquela vida. Aquela vida que nos gerou depende de nossa
vida para morrer em paz.
Todo filho é pai da morte de seu pai.
Ou, quem sabe, a velhice do pai e da mãe seja
curiosamente nossa última gravidez. Nosso último
ensinamento. Fase para devolver os cuidados que nos
foram confiados ao longo de décadas, de retribuir o amor
com a amizade da escolta.
E assim como mudamos a casa para atender nossos
bebês, tapando tomadas e colocando cercadinhos, vamos
alterar a rotina dos móveis para criar os nossos pais.
Uma das primeiras transformações acontece no
banheiro.
Seremos pais de nossos pais na hora de pôr uma barra
no box do chuveiro.
A barra é emblemática. A barra é simbólica. A barra é
inaugurar um cotovelo das águas.
Porque o chuveiro, simples e refrescante, agora é um
temporal para os pés idosos de nossos protetores. Não
podemos abandoná-los em nenhum momento, inventaremos nossos braços nas paredes.
A casa de quem cuida dos pais tem braços dos filhos
pelas paredes. Nossos braços estarão espalhados, sob a
forma de corrimões.
Pois envelhecer é andar de mãos dadas com os
objetos, envelhecer é subir escada mesmo sem degraus.
Seremos estranhos em nossa residência. Observaremos
cada detalhe com pavor e desconhecimento, com dúvida e
preocupação. Seremos arquitetos, decoradores, engenheiros
frustrados. Como não previmos que os pais adoecem e
precisariam da gente?
Nos arrependeremos dos sofás, das estátuas e do
acesso caracol, nos arrependeremos de cada obstáculo e
tapete.
E feliz do filho que é pai de seu pai antes da morte, e
triste do filho que aparece somente no enterro e não se
despede um pouco por dia.
Meu amigo José Klein acompanhou o pai até seus
derradeiros minutos.
No hospital, a enfermeira fazia a manobra da cama
para a maca, buscando repor os lençóis, quando Zé gritou
de sua cadeira:
— Deixa que eu ajudo.
Reuniu suas forças e pegou pela primeira vez seu pai
no colo.
Colocou o rosto de seu pai contra seu peito.
Ajeitou em seus ombros o pai consumido pelo câncer:
pequeno, enrugado, frágil, tremendo.
Ficou segurando um bom tempo, um tempo
equivalente à sua infância, um tempo equivalente à sua
adolescência, um bom tempo, um tempo interminável.
Embalou o pai de um lado para o outro.
Aninhou o pai.
Acalmou o pai.
E apenas dizia, sussurrado:
— Estou aqui, estou aqui, pai!
O que um pai quer apenas ouvir no fim de sua vida é
que seu filho está ali.
(Autor desconhecido. Disponível em:
http://www.contioutra.com/todo-filho-e-pai-da-morte-de-seu-pai/.
Dezembro de 2016.)
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