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229779 Ano: 2012
Disciplina: TI - Gestão e Governança de TI
Banca: CEPERJ
Orgão: PROCON-RJ
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O PROCON mantém um sistema automatizado de controle das ocorrências diárias, que possui duas características, descritas a seguir.

(1) Todas as transações são inseridas no sistema, no momento em que ocorrem, a partir do instante em que o atendente toma conhecimento do fato gerador.

(2) O tempo de resposta do sistema é fator primordial para o desempenho do sistema e das atividades executadas pelo PROCON.

Pelas características descritas, o sistema automatizado é enquadrado na seguinte categoria:
 

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O LENDÁRIO PAÍS DO RECALL

Moacyr Scliar

“MINHA QUERIDA DONA: quem lhe escreve sou eu, a sua fiel

e querida boneca, que você não vê há três meses. Sei que você

sente muitas saudades, porque eu também sinto saudades de você.

Lembro de você me pegando no colo, me chamando de filhinha, me

dando papinha... Você era, e é, minha mãezinha querida, e é por isso

que estou lhe mandando esta carta, por meio do cara que assina

esta coluna e que, sendo escritor, acredita nas coisas da imaginação.

Posso lhe dizer, querida, que vivi uma tremenda aventura, uma

aventura que em vários momentos me deixou apavorada. Porque

tive de viajar para o distante país do recall.

Aposto que você nem sabia da existência desse lugar; eu, pelo

menos, não sabia. Para lá fui enviada. Não só eu: bonecas defei-

tuosas, ursinhos idem, eletrodomésticos que não funcionavam e

peças de automóvel quebradas. Nós todos ali, na traseira de um

gigantesco caminhão que andava, andava sem parar.

Finalmente chegamos, e ali estávamos, no misterioso e, para mim,

assustador país do recall. Um homem nos recebeu e anunciou, muito

secamente, que o nosso destino em breve seria traçado: as bonecas

(e os ursinhos, e outros brinquedos, e objetos vários) que tivessem

conserto seriam consertados e mandados de volta para os donos;

quanto tempo isso levaria era imprevisível, mas três meses era o mí-

nimo. Uma boneca que estava do meu lado, a Liloca, perguntou, com

os olhos arregalados, o que aconteceria a quem não tivesse conserto.

O homem não disse nada, mas seu sorriso sinistro falava por si.

Passamos a noite num enorme pavilhão destinado especialmente

às bonecas. Éramos centenas ali, algumas com probleminhas peque-

nos (um braço fora do lugar, por exemplo), outras já num estado la-

mentável. Estava muito claro que para várias de nós não haveria volta.

Naquela noite conversei muito com minha amiga Liloca -sim,

querida dona, àquela altura já éramos amigas. O infortúnio tinha nos

unido. Outras bonecas juntaram-se a nós e logo formamos um grande

grupo. Estávamos preocupadas com o que poderia nos suceder.

De repente a Liloca gritou: “Mas, gente, nós não somos obri-

gados a aceitar isso! Vamos fazer alguma coisa!”. Nós a olhamos,

espantadas: fazer alguma coisa? Mas fazer o quê?

Liloca tinha uma resposta: vamos tomar o poder. Vamos nos

apossar do país do recall.

No começo, aquilo nos pareceu absurdo. Mas Liloca sabia do

que estava falando. A mãe da dona dela tinha sido uma militante

revolucionária e sempre falava nisso, na necessidade de mudar o

mundo, de dar o poder aos mais fracos.

Ora, dizia Liloca, ninguém mais fraco do que nós, pobres, de-

samparados e defeituosos brinquedos. Não deveríamos aguardar

resignadamente que decidissem o que fazer com a gente.

De modo, querida dona, que estamos aqui preparando a re-

volução. Breve estaremos governando o país do recall. Mas não

se preocupe, eu a convidarei para uma visita. Você poderá vir a

qualquer hora. E não precisará de recall para isso.”

Folha de S. Paulo (SP) 25/2/20

O conectivo introduz ideia de modo no seguinte exemplo:
 

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CONSUMISMO INFANTIL, UM PROBLEMA DE TODOS

Ninguém nasce consumista. O consumismo é uma ideologia,

um hábito mental forjado que se tornou umas das características

culturais mais marcantes da sociedade atual. Não importa o gênero,

a faixa etária, a nacionalidade, a crença ou o poder aquisitivo. Hoje,

todos que são impactados pelas mídias de massa são estimulados

a consumir de modo inconsequente. As crianças, ainda em pleno

desenvolvimento e, portanto, mais vulneráveis que os adultos, não

ficam fora dessa lógica e infelizmente sofrem cada vez mais cedo

com as graves consequências relacionadas aos excessos do con-

sumismo: obesidade infantil, erotização precoce, consumo precoce

de tabaco e álcool, estresse familiar, banalização da agressividade

e violência, entre outras. Nesse sentido, o consumismo infantil é

uma questão urgente, de extrema importância e interesse geral.

De pais e educadores a agentes do mercado global, todos vol-

tam os olhares para a infância − os primeiros preocupados com o

futuro das crianças, já os últimos fazem crer que estão preocupados

apenas com a ganância de seus negócios. Para o mercado, antes

de tudo, a criança é um consumidor em formação e uma poderosa

influência nos processos de escolha de produtos ou serviços. As

crianças brasileiras influenciam 80% das decisões de compra de

uma família (TNS/InterScience, outubro de 2003). Carros, roupas,

alimentos, eletrodomésticos, quase tudo dentro de casa tem por

trás o palpite de uma criança, salvo decisões relacionadas a planos

de seguro, combustível e produtos de limpeza. A publicidade na TV

é a principal ferramenta do mercado para a persuasão do público

infantil, que cada vez mais cedo é chamado a participar do universo

adulto quando é diretamente exposto às complexidades das rela-

ções de consumo sem que esteja efetivamente pronto para isso.

As crianças são um alvo importante, não apenas porque esco-

lhem o que seus pais compram e são tratadas como consumidores

mirins, mas também porque impactadas desde muito jovens tendem

a ser mais fiéis a marcas e ao próprio hábito consumista que lhes

é praticamente imposto.

Nada, no meio publicitário, é deliberado sem um estudo detalhado.

Em 2006, os investimentos publicitários destinados à categoria de pro-

dutos infantis foram de R$ 209.700.000,00 (IBOPE Monitor, 2005x2006,

categorias infantis). No entanto, a publicidade não se dirige às crianças

apenas para vender produtos infantis. Elas são assediadas pelo mer-

cado como eficientes promotoras de vendas de produtos direcionados

também aos adultos. Em março de 2007, o IBOPE Mídia divulgou os

dados de investimento publicitário no Brasil. Segundo o levantamento,

esse mercado movimentou cerca de R$ 39 bilhões em 2006. A televisão

permanece a principal mídia utilizada pela publicidade. Ao cruzar essa

informação com o fato de a criança brasileira passar em média quatro

horas 50 minutos e 11 segundos por dia assistindo à programação

televisiva (Painel Nacional de Televisores, IBOPE 2007) é possível

imaginar o impacto da publicidade na infância. No entanto, apesar de

toda essa força, a publicidade veiculada na televisão é apenas um dos

fatores que contribuem para o consumismo infantil. A TNS, instituto de

pesquisa que atua em mais de 70 países, divulgou dados em setembro

de 2007 que evidenciaram outros fatores que influenciam as crianças

brasileiras nas práticas de consumo. Elas sentem-se mais atraídas por

produtos e serviços que sejam associados a personagens famosos,

brindes, jogos e embalagens chamativas. A opinião dos amigos também

foi identificada como uma forte influência.

Não é por acaso que o consumismo está relacionado à ideia de de-

vorar, destruir e extinguir. Se agora, tragédias naturais, como queimadas,

furacões, inundações gigantescas, enchentes e períodos prolongados

de seca, são muito mais comuns e frequentes, foi porque a exploração

irresponsável do meio ambiente prevaleceu ao longo de décadas.

Concentrar todos os esforços no consumo é contribuir, dia após

dia, para o desequilíbrio global. O consumismo infantil, portanto,

é um problema que não está ligado apenas à educação escolar e

doméstica. Embora a questão seja tratada quase sempre como algo

relacionado à esfera familiar, crianças que aprendem a consumir de

forma inconsequente e desenvolvem critérios e valores distorcidos

são de fato um problema de ordem ética, econômica e social.

O Projeto Criança e Consumo [...] combate qualquer tipo de

comunicação mercadológica dirigida às crianças por entender que

os danos causados pela lógica insustentável do consumo irracional

podem ser minorados e evitados, se efetivamente a infância for

preservada em sua essência como o tempo indispensável e fun-

damental para a formação da cidadania. Indivíduos conscientes e

responsáveis são a base de uma sociedade mais justa e fraterna,

que tenha a qualidade de vida não apenas como um conceito a

ser perseguido, mas uma prática a ser vivida.

http://www.alana.org.br/CriancaConsumo/ConsumismoInfantil.asp

RECALL DA GULLIVER: BRINQUEDOS PERIGOSOS

A Gulliver recolherá 6 mil brinquedos Magtastik e Magnetix Jr,

da linha Magnetix, que já havia passado por recall [...], em 2007.

Empresa fará comunicado público sobre o perigo dos brinquedos

de montar Magtastik, com bolsa ou conjunto de expansão e de bichi-

nhos e carrinhos de plástico Magnetix Jr, pois as crianças conseguem

desmontar minúsculas partes que podem ser engolidas ou colocadas

no nariz. [...] O recall também está ocorrendo nos Estados Unidos.

[...] Os brinquedos poderão ser trocados por qualquer outro

produto Gulliver de igual valor, nos postos de troca, ou o consumidor

pode solicitar a devolução do dinheiro [...] . No caso de pedir o di-

nheiro de volta o consumidor terá que enviar o brinquedo por sedex

a ser pago pela empresa, que promete ressarcimento em 15 dias.

A PROTESTE Associação de Consumidores alerta que não

basta a retirada de brinquedos remanescentes das lojas, pois

não atinge quem tem os produtos em casa. A empresa também é

obrigada pelo Código de Defesa do Consumidor a fazer um comu-

nicado público nos diversos meios de comunicação, alertando para

os riscos e orientando como pode ser feita a troca ou o reembolso

do que foi pago pelo brinquedo a ser recolhido.

Desta vez a empresa foi mais ágil. No ano passado relutou

em promover um recall. Em setembro do ano passado a Gulliver

anunciou um recall de brinquedos com ímãs que ofereciam perigo

às crianças, só após mobilização [...] . Eram brinquedos com esferas

metálicas e hastes plásticas com ímãs em suas extremidades, que

permitem que as crianças montem objetos. O problema era o imã

do brinquedo, que poderia se soltar e ser engolido pelas crianças.

Mesmo não havendo registro de incidentes no País envolvendo

os brinquedos é importante a retirada imediata dos produtos peri-

gosos para evitar acidentes de consumo. O recall é obrigatório pela

empresa sempre que tomar conhecimento dos riscos [...].

http://www.proteste.org.br

Os textos 1 e 2 podem ser relacionados entre si pela temática. Entretanto, eles apresentam importantes diferenças quanto ao gênero, à linguagem e à estrutura.

Uma diferença essencial entre o texto 1 e o texto 2 baseia-se nas seguintes características, que podem ser identificadas, respectivamente, em cada um:
 

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TEXTO 1:

O LENDÁRIO PAÍS DO RECALL

Moacyr Scliar

“MINHA QUERIDA DONA: quem lhe escreve sou eu, a sua fiel e querida boneca, que você não vê há três meses. Sei que você sente muitas saudades, porque eu também sinto saudades de você. Lembro de você me pegando no colo, me chamando de filhinha, me dando papinha... Você era, e é, minha mãezinha querida, e é por isso que estou lhe mandando esta carta, por meio do cara que assina esta coluna e que, sendo escritor, acredita nas coisas da imaginação.

Posso lhe dizer, querida, que vivi uma tremenda aventura, uma aventura que em vários momentos me deixou apavorada. Porque tive de viajar para o distante país do recall.

Aposto que você nem sabia da existência desse lugar; eu, pelo menos, não sabia. Para lá fui enviada. Não só eu: bonecas defeituosas, ursinhos idem, eletrodomésticos que não funcionavam e peças de automóvel quebradas. Nós todos ali, na traseira de um gigantesco caminhão que andava, andava sem parar.

Finalmente chegamos, e ali estávamos, no misterioso e, para mim, assustador país do recall. Um homem nos recebeu e anunciou, muito secamente, que o nosso destino em breve seria traçado: as bonecas (e os ursinhos, e outros brinquedos, e objetos vários) que tivessem conserto seriam consertados e mandados de volta para os donos; quanto tempo isso levaria era imprevisível, mas três meses era o mínimo. Uma boneca que estava do meu lado, a Liloca, perguntou, com os olhos arregalados, o que aconteceria a quem não tivesse conserto. O homem não disse nada, mas seu sorriso sinistro falava por si.

Passamos a noite num enorme pavilhão destinado especialmente às bonecas. Éramos centenas ali, algumas com probleminhas pequenos (um braço fora do lugar, por exemplo), outras já num estado lamentável. Estava muito claro que para várias de nós não haveria volta.

Naquela noite conversei muito com minha amiga Liloca -sim, querida dona, àquela altura já éramos amigas. O infortúnio tinha nos unido. Outras bonecas juntaram-se a nós e logo formamos um grande grupo. Estávamos preocupadas com o que poderia nos suceder.

De repente a Liloca gritou: “Mas, gente, nós não somos obrigados a aceitar isso! Vamos fazer alguma coisa!”. Nós a olhamos, espantadas: fazer alguma coisa? Mas fazer o quê?

Liloca tinha uma resposta: vamos tomar o poder. Vamos nos apossar do país do recall.

No começo, aquilo nos pareceu absurdo. Mas Liloca sabia do que estava falando. A mãe da dona dela tinha sido uma militante revolucionária e sempre falava nisso, na necessidade de mudar o mundo, de dar o poder aos mais fracos.

Ora, dizia Liloca, ninguém mais fraco do que nós, pobres, desamparados e defeituosos brinquedos. Não deveríamos aguardar resignadamente que decidissem o que fazer com a gente.

De modo, querida dona, que estamos aqui preparando a revolução. Breve estaremos governando o país do recall. Mas não se preocupe, eu a convidarei para uma visita. Você poderá vir a qualquer hora. E não precisará de recall para isso.”

Folha de S. Paulo (SP) 25/2/2008

Dentre os verbos irregulares há aqueles que apresentam alguma variação no radical, ou seja, na “base” da palavra.

Um exemplo de verbo irregular encontra-se no seguinte exemplo do texto:
 

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TEXTO 1:

O LENDÁRIO PAÍS DO RECALL

Moacyr Scliar

“MINHA QUERIDA DONA: quem lhe escreve sou eu, a sua fiel e querida boneca, que você não vê há três meses. Sei que você sente muitas saudades, porque eu também sinto saudades de você. Lembro de você me pegando no colo, me chamando de filhinha, me dando papinha... Você era, e é, minha mãezinha querida, e é por isso que estou lhe mandando esta carta, por meio do cara que assina esta coluna e que, sendo escritor, acredita nas coisas da imaginação.

Posso lhe dizer, querida, que vivi uma tremenda aventura, uma aventura que em vários momentos me deixou apavorada. Porque tive de viajar para o distante país do recall.

Aposto que você nem sabia da existência desse lugar; eu, pelo menos, não sabia. Para lá fui enviada. Não só eu: bonecas defeituosas, ursinhos idem, eletrodomésticos que não funcionavam e peças de automóvel quebradas. Nós todos ali, na traseira de um gigantesco caminhão que andava, andava sem parar.

Finalmente chegamos, e ali estávamos, no misterioso e, para mim, assustador país do recall. Um homem nos recebeu e anunciou, muito secamente, que o nosso destino em breve seria traçado: as bonecas (e os ursinhos, e outros brinquedos, e objetos vários) que tivessem conserto seriam consertados e mandados de volta para os donos; quanto tempo isso levaria era imprevisível, mas três meses era o mínimo. Uma boneca que estava do meu lado, a Liloca, perguntou, com os olhos arregalados, o que aconteceria a quem não tivesse conserto. O homem não disse nada, mas seu sorriso sinistro falava por si.

Passamos a noite num enorme pavilhão destinado especialmente às bonecas. Éramos centenas ali, algumas com probleminhas pequenos (um braço fora do lugar, por exemplo), outras já num estado lamentável. Estava muito claro que para várias de nós não haveria volta.

Naquela noite conversei muito com minha amiga Liloca -sim, querida dona, àquela altura já éramos amigas. O infortúnio tinha nos unido. Outras bonecas juntaram-se a nós e logo formamos um grande grupo. Estávamos preocupadas com o que poderia nos suceder.

De repente a Liloca gritou: “Mas, gente, nós não somos obrigados a aceitar isso! Vamos fazer alguma coisa!”. Nós a olhamos, espantadas: fazer alguma coisa? Mas fazer o quê?

Liloca tinha uma resposta: vamos tomar o poder. Vamos nos apossar do país do recall.

No começo, aquilo nos pareceu absurdo. Mas Liloca sabia do que estava falando. A mãe da dona dela tinha sido uma militante revolucionária e sempre falava nisso, na necessidade de mudar o mundo, de dar o poder aos mais fracos.

Ora, dizia Liloca, ninguém mais fraco do que nós, pobres, desamparados e defeituosos brinquedos. Não deveríamos aguardar resignadamente que decidissem o que fazer com a gente.

De modo, querida dona, que estamos aqui preparando a revolução. Breve estaremos governando o país do recall. Mas não se preocupe, eu a convidarei para uma visita. Você poderá vir a qualquer hora. E não precisará de recall para isso.”

Folha de S. Paulo (SP) 25/2/2008

Os verbos considerados impessoais devem se manter invariáveis, no singular, segundo as normas de concordância verbal.

Há um caso de verbo impessoal no seguinte exemplo do texto:
 

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TEXTO 1:

O LENDÁRIO PAÍS DO RECALL

Moacyr Scliar

“MINHA QUERIDA DONA: quem lhe escreve sou eu, a sua fiel e querida boneca, que você não vê há três meses. Sei que você sente muitas saudades, porque eu também sinto saudades de você. Lembro de você me pegando no colo, me chamando de filhinha, me dando papinha... Você era, e é, minha mãezinha querida, e é por isso que estou lhe mandando esta carta, por meio do cara que assina esta coluna e que, sendo escritor, acredita nas coisas da imaginação.

Posso lhe dizer, querida, que vivi uma tremenda aventura, uma aventura que em vários momentos me deixou apavorada. Porque tive de viajar para o distante país do recall.

Aposto que você nem sabia da existência desse lugar; eu, pelo menos, não sabia. Para lá fui enviada. Não só eu: bonecas defeituosas, ursinhos idem, eletrodomésticos que não funcionavam e peças de automóvel quebradas. Nós todos ali, na traseira de um gigantesco caminhão que andava, andava sem parar.

Finalmente chegamos, e ali estávamos, no misterioso e, para mim, assustador país do recall. Um homem nos recebeu e anunciou, muito secamente, que o nosso destino em breve seria traçado: as bonecas (e os ursinhos, e outros brinquedos, e objetos vários) que tivessem conserto seriam consertados e mandados de volta para os donos; quanto tempo isso levaria era imprevisível, mas três meses era o mínimo. Uma boneca que estava do meu lado, a Liloca, perguntou, com os olhos arregalados, o que aconteceria a quem não tivesse conserto. O homem não disse nada, mas seu sorriso sinistro falava por si.

Passamos a noite num enorme pavilhão destinado especialmente às bonecas. Éramos centenas ali, algumas com probleminhas pequenos (um braço fora do lugar, por exemplo), outras já num estado lamentável. Estava muito claro que para várias de nós não haveria volta.

Naquela noite conversei muito com minha amiga Liloca -sim, querida dona, àquela altura já éramos amigas. O infortúnio tinha nos unido. Outras bonecas juntaram-se a nós e logo formamos um grande grupo. Estávamos preocupadas com o que poderia nos suceder.

De repente a Liloca gritou: “Mas, gente, nós não somos obrigados a aceitar isso! Vamos fazer alguma coisa!”. Nós a olhamos, espantadas: fazer alguma coisa? Mas fazer o quê?

Liloca tinha uma resposta: vamos tomar o poder. Vamos nos apossar do país do recall.

No começo, aquilo nos pareceu absurdo. Mas Liloca sabia do que estava falando. A mãe da dona dela tinha sido uma militante revolucionária e sempre falava nisso, na necessidade de mudar o mundo, de dar o poder aos mais fracos.

Ora, dizia Liloca, ninguém mais fraco do que nós, pobres, desamparados e defeituosos brinquedos. Não deveríamos aguardar resignadamente que decidissem o que fazer com a gente.

De modo, querida dona, que estamos aqui preparando a revolução. Breve estaremos governando o país do recall. Mas não se preocupe, eu a convidarei para uma visita. Você poderá vir a qualquer hora. E não precisará de recall para isso.”

Folha de S. Paulo (SP) 25/2/2008

A palavra “pobres” não sofre flexão de gênero; a variação entre feminino e masculino é indicada por outras palavras que a acompanham.

O mesmo ocorre com a seguinte palavra do texto:
 

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RECALL DA GULLIVER: BRINQUEDOS PERIGOSOS

A Gulliver recolherá 6 mil brinquedos Magtastik e Magnetix Jr,

da linha Magnetix, que já havia passado por recall [...], em 2007.

Empresa fará comunicado público sobre o perigo dos brinquedos

de montar Magtastik, com bolsa ou conjunto de expansão e de bichi-

nhos e carrinhos de plástico Magnetix Jr, pois as crianças conseguem

desmontar minúsculas partes que podem ser engolidas ou colocadas

no nariz. [...] O recall também está ocorrendo nos Estados Unidos.

[...] Os brinquedos poderão ser trocados por qualquer outro

produto Gulliver de igual valor, nos postos de troca, ou o consumidor

pode solicitar a devolução do dinheiro [...] . No caso de pedir o di-

nheiro de volta o consumidor terá que enviar o brinquedo por sedex

a ser pago pela empresa, que promete ressarcimento em 15 dias.

A PROTESTE Associação de Consumidores alerta que não

basta a retirada de brinquedos remanescentes das lojas, pois

não atinge quem tem os produtos em casa. A empresa também é

obrigada pelo Código de Defesa do Consumidor a fazer um comu-

nicado público nos diversos meios de comunicação, alertando para

os riscos e orientando como pode ser feita a troca ou o reembolso

do que foi pago pelo brinquedo a ser recolhido.

Desta vez a empresa foi mais ágil. No ano passado relutou

em promover um recall. Em setembro do ano passado a Gulliver

anunciou um recall de brinquedos com ímãs que ofereciam perigo

às crianças, só após mobilização [...] . Eram brinquedos com esferas

metálicas e hastes plásticas com ímãs em suas extremidades, que

permitem que as crianças montem objetos. O problema era o imã

do brinquedo, que poderia se soltar e ser engolido pelas crianças.

Mesmo não havendo registro de incidentes no País envolvendo

os brinquedos é importante a retirada imediata dos produtos peri-

gosos para evitar acidentes de consumo. O recall é obrigatório pela

empresa sempre que tomar conhecimento dos riscos [...].

http://www.proteste.org.br

Um exemplo de construção na voz passiva presente no texto 2 está em:
 

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TEXTO 1:

O LENDÁRIO PAÍS DO RECALL

Moacyr Scliar

“MINHA QUERIDA DONA: quem lhe escreve sou eu, a sua fiel e querida boneca, que você não vê há três meses. Sei que você sente muitas saudades, porque eu também sinto saudades de você. Lembro de você me pegando no colo, me chamando de filhinha, me dando papinha... Você era, e é, minha mãezinha querida, e é por isso que estou lhe mandando esta carta, por meio do cara que assina esta coluna e que, sendo escritor, acredita nas coisas da imaginação.

Posso lhe dizer, querida, que vivi uma tremenda aventura, uma aventura que em vários momentos me deixou apavorada. Porque tive de viajar para o distante país do recall.

Aposto que você nem sabia da existência desse lugar; eu, pelo menos, não sabia. Para lá fui enviada. Não só eu: bonecas defeituosas, ursinhos idem, eletrodomésticos que não funcionavam e peças de automóvel quebradas. Nós todos ali, na traseira de um gigantesco caminhão que andava, andava sem parar.

Finalmente chegamos, e ali estávamos, no misterioso e, para mim, assustador país do recall. Um homem nos recebeu e anunciou, muito secamente, que o nosso destino em breve seria traçado: as bonecas (e os ursinhos, e outros brinquedos, e objetos vários) que tivessem conserto seriam consertados e mandados de volta para os donos; quanto tempo isso levaria era imprevisível, mas três meses era o mínimo. Uma boneca que estava do meu lado, a Liloca, perguntou, com os olhos arregalados, o que aconteceria a quem não tivesse conserto. O homem não disse nada, mas seu sorriso sinistro falava por si.

Passamos a noite num enorme pavilhão destinado especialmente às bonecas. Éramos centenas ali, algumas com probleminhas pequenos (um braço fora do lugar, por exemplo), outras já num estado lamentável. Estava muito claro que para várias de nós não haveria volta.

Naquela noite conversei muito com minha amiga Liloca -sim, querida dona, àquela altura já éramos amigas. O infortúnio tinha nos unido. Outras bonecas juntaram-se a nós e logo formamos um grande grupo. Estávamos preocupadas com o que poderia nos suceder.

De repente a Liloca gritou: “Mas, gente, nós não somos obrigados a aceitar isso! Vamos fazer alguma coisa!”. Nós a olhamos, espantadas: fazer alguma coisa? Mas fazer o quê?

Liloca tinha uma resposta: vamos tomar o poder. Vamos nos apossar do país do recall.

No começo, aquilo nos pareceu absurdo. Mas Liloca sabia do que estava falando. A mãe da dona dela tinha sido uma militante revolucionária e sempre falava nisso, na necessidade de mudar o mundo, de dar o poder aos mais fracos.

Ora, dizia Liloca, ninguém mais fraco do que nós, pobres, desamparados e defeituosos brinquedos. Não deveríamos aguardar resignadamente que decidissem o que fazer com a gente.

De modo, querida dona, que estamos aqui preparando a revolução. Breve estaremos governando o país do recall. Mas não se preocupe, eu a convidarei para uma visita. Você poderá vir a qualquer hora. E não precisará de recall para isso.”

Folha de S. Paulo (SP) 25/2/2008

De acordo com as regras gramaticais, em alguns casos é obrigatória a próclise, ou seja, a colocação do pronome antes do verbo.

Um exemplo de próclise obrigatória, segundo a chamada norma culta da língua, está em:
 

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TEXTO 1:

O LENDÁRIO PAÍS DO RECALL

Moacyr Scliar

“MINHA QUERIDA DONA: quem lhe escreve sou eu, a sua fiel e querida boneca, que você não vê há três meses. Sei que você sente muitas saudades, porque eu também sinto saudades de você. Lembro de você me pegando no colo, me chamando de filhinha, me dando papinha... Você era, e é, minha mãezinha querida, e é por isso que estou lhe mandando esta carta, por meio do cara que assina esta coluna e que, sendo escritor, acredita nas coisas da imaginação.

Posso lhe dizer, querida, que vivi uma tremenda aventura, uma aventura que em vários momentos me deixou apavorada. Porque tive de viajar para o distante país do recall.

Aposto que você nem sabia da existência desse lugar; eu, pelo menos, não sabia. Para lá fui enviada. Não só eu: bonecas defeituosas, ursinhos idem, eletrodomésticos que não funcionavam e peças de automóvel quebradas. Nós todos ali, na traseira de um gigantesco caminhão que andava, andava sem parar.

Finalmente chegamos, e ali estávamos, no misterioso e, para mim, assustador país do recall. Um homem nos recebeu e anunciou, muito secamente, que o nosso destino em breve seria traçado: as bonecas (e os ursinhos, e outros brinquedos, e objetos vários) que tivessem conserto seriam consertados e mandados de volta para os donos; quanto tempo isso levaria era imprevisível, mas três meses era o mínimo. Uma boneca que estava do meu lado, a Liloca, perguntou, com os olhos arregalados, o que aconteceria a quem não tivesse conserto. O homem não disse nada, mas seu sorriso sinistro falava por si.

Passamos a noite num enorme pavilhão destinado especialmente às bonecas. Éramos centenas ali, algumas com probleminhas pequenos (um braço fora do lugar, por exemplo), outras já num estado lamentável. Estava muito claro que para várias de nós não haveria volta.

Naquela noite conversei muito com minha amiga Liloca -sim, querida dona, àquela altura já éramos amigas. O infortúnio tinha nos unido. Outras bonecas juntaram-se a nós e logo formamos um grande grupo. Estávamos preocupadas com o que poderia nos suceder.

De repente a Liloca gritou: “Mas, gente, nós não somos obrigados a aceitar isso! Vamos fazer alguma coisa!”. Nós a olhamos, espantadas: fazer alguma coisa? Mas fazer o quê?

Liloca tinha uma resposta: vamos tomar o poder. Vamos nos apossar do país do recall.

No começo, aquilo nos pareceu absurdo. Mas Liloca sabia do que estava falando. A mãe da dona dela tinha sido uma militante revolucionária e sempre falava nisso, na necessidade de mudar o mundo, de dar o poder aos mais fracos.

Ora, dizia Liloca, ninguém mais fraco do que nós, pobres, desamparados e defeituosos brinquedos. Não deveríamos aguardar resignadamente que decidissem o que fazer com a gente.

De modo, querida dona, que estamos aqui preparando a revolução. Breve estaremos governando o país do recall. Mas não se preocupe, eu a convidarei para uma visita. Você poderá vir a qualquer hora. E não precisará de recall para isso.”

Folha de S. Paulo (SP) 25/2/2008

O texto enquadra-se no gênero carta, o que pode ser percebido, dentre outros traços, pela seguinte marca linguística:
 

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TEXTO 1:

O LENDÁRIO PAÍS DO RECALL

Moacyr Scliar

“MINHA QUERIDA DONA: quem lhe escreve sou eu, a sua fiel e querida boneca, que você não vê há três meses. Sei que você sente muitas saudades, porque eu também sinto saudades de você. Lembro de você me pegando no colo, me chamando de filhinha, me dando papinha... Você era, e é, minha mãezinha querida, e é por isso que estou lhe mandando esta carta, por meio do cara que assina esta coluna e que, sendo escritor, acredita nas coisas da imaginação.

Posso lhe dizer, querida, que vivi uma tremenda aventura, uma aventura que em vários momentos me deixou apavorada. Porque tive de viajar para o distante país do recall.

Aposto que você nem sabia da existência desse lugar; eu, pelo menos, não sabia. Para lá fui enviada. Não só eu: bonecas defeituosas, ursinhos idem, eletrodomésticos que não funcionavam e peças de automóvel quebradas. Nós todos ali, na traseira de um gigantesco caminhão que andava, andava sem parar.

Finalmente chegamos, e ali estávamos, no misterioso e, para mim, assustador país do recall. Um homem nos recebeu e anunciou, muito secamente, que o nosso destino em breve seria traçado: as bonecas (e os ursinhos, e outros brinquedos, e objetos vários) que tivessem conserto seriam consertados e mandados de volta para os donos; quanto tempo isso levaria era imprevisível, mas três meses era o mínimo. Uma boneca que estava do meu lado, a Liloca, perguntou, com os olhos arregalados, o que aconteceria a quem não tivesse conserto. O homem não disse nada, mas seu sorriso sinistro falava por si.

Passamos a noite num enorme pavilhão destinado especialmente às bonecas. Éramos centenas ali, algumas com probleminhas pequenos (um braço fora do lugar, por exemplo), outras já num estado lamentável. Estava muito claro que para várias de nós não haveria volta.

Naquela noite conversei muito com minha amiga Liloca -sim, querida dona, àquela altura já éramos amigas. O infortúnio tinha nos unido. Outras bonecas juntaram-se a nós e logo formamos um grande grupo. Estávamos preocupadas com o que poderia nos suceder.

De repente a Liloca gritou: “Mas, gente, nós não somos obrigados a aceitar isso! Vamos fazer alguma coisa!”. Nós a olhamos, espantadas: fazer alguma coisa? Mas fazer o quê?

Liloca tinha uma resposta: vamos tomar o poder. Vamos nos apossar do país do recall.

No começo, aquilo nos pareceu absurdo. Mas Liloca sabia do que estava falando. A mãe da dona dela tinha sido uma militante revolucionária e sempre falava nisso, na necessidade de mudar o mundo, de dar o poder aos mais fracos.

Ora, dizia Liloca, ninguém mais fraco do que nós, pobres, desamparados e defeituosos brinquedos. Não deveríamos aguardar resignadamente que decidissem o que fazer com a gente.

De modo, querida dona, que estamos aqui preparando a revolução. Breve estaremos governando o país do recall. Mas não se preocupe, eu a convidarei para uma visita. Você poderá vir a qualquer hora. E não precisará de recall para isso.”

Folha de S. Paulo (SP) 25/2/2008

“a sua fiel e querida boneca, que você não vê há três meses” No exemplo acima, o vocábulo “que” substitui um termo antecedente (“boneca”) e é classificado, por isso, como pronome relativo.

Outro exemplo no qual o vocábulo “que” funciona como pronome relativo está em:
 

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