“A educação ética não é uma tarefa de especialistas, mas de
toda a comunidade, não é fruto de um esforço isolado, mas
de uma ação conjunta de todo o entorno social. Disso
decorrem pelo menos dois desafios fundamentais para uma
instituição escolar. O primeiro deles é o caráter
fundamentalmente coletivo desse tipo de trabalho. O
ensino de uma disciplina isolada, como a matemática ou a
história, demanda especialistas que desejavelmente
tenham as informações e capacidades que o habilitam a
ocupar o lugar institucional de um professor. O trabalho
educacional escolar passa pelo ensino de disciplinas
específicas, mas está longe de esgotar-se nele. Não
podemos tomá-lo, nas atuais condições históricas, como
resultante de uma relação pessoal isolada ou como se cada
professor fosse um ‘preceptor’ isolado em sua relação
pessoal com os alunos. Da mesma forma, é um engano
supor que a escola se constitui por uma simples somatória
dessas relações individualizadas. Ela é regida por uma série
de valores, práticas e objetivos institucionais decorrentes da
peculiaridade de sua história e de sua tarefa social de
iniciação dos jovens no mundo público.”
CARVALHO, José Sergio Fonseca de. Educação, cidadania e direitos
humanos. Petrópolis: Vozes, 2004, p. 96-97. O trecho discorre acerca da educação ética e dos
dispositivos a serem postos em prática pela escola a fim de
realizar o intento dessa formação. Nesse sentido, tendo
bem presente o que é enfatizado no enunciado, depreendese que é alvo primordial da escola:
“Esta escola se propõe um trabalho diferente desse confuso
estilo de renovação que, de prático, se resume em
permissões sucessivas e desavisadas, na complacência com
os deveres não cumpridos e na tolerância sistemática com
a indisciplina. O que visamos é o desenvolvimento dos
indivíduos com capacidade de crítica. A capacidade de
criticar a si próprio e a sociedade em que vive é o único
ponto de apoio firme para desenvolvimento de homens
criativos e livres.”
AZANHA, José Mário Pires. Educação: alguns escritos. São Paulo:
Companhia Editora Nacional, 1987, p. 1-2, apud GORDO, Nívia; BOTO,
Carlota. História da Escola de Aplicação da FEUSP [1976-1986]. Revista
Iberoamericana do patrimônio histórico-educativo, v. 7, e021024, 2021,
p. 7.
O enunciado alude à visão do educador José Mário Pires
Azanha acerca do que entendia ser o alvo da Escola de
Aplicação da Faculdade de Educação da Universidade de
São Paulo (EA-FEUSP) face à renovação pedagógica e
educacional e ao desenvolvimento dos(as) alunos(as). No
âmbito desses temas, conforme a avaliação de Azanha e o
que consta da bibliografia básica do concurso, qual das
alternativas a seguir contempla, na integralidade, papéis
esperados a serem desempenhados pela EA-FEUSP?
“Ao ser permeável às tensões da sociedade, entre elas, as
relações sociais de gênero (que podem combinar outros
marcadores sociais como raça, geração, classe…), a escola
também será responsável pela socialização de alunos/as a
partir da forma mais socialmente divulgada de ser homem
e ser mulher. O conceito de gênero foi desenvolvido (e
continua sendo debatido) pelas Ciências Sociais em
oposição aos Estudos de Mulher e aos estudos teóricos
feministas com o objetivo de confrontar as explicações
sobre as diferenças físicas e biológicas ligadas ao sexo que
ainda são utilizadas para justificar as diferentes
hierarquizações de poder, direitos entre os sexos e
classificar as pessoas a partir de sua apresentação corporal.
Dessa forma, gênero é uma categoria relacional e, embora
essa seja uma construção contemporânea, organismos
internacionais, como a Organização das Nações Unidas
(ONU) e suas agências, continuam a relacionar o termo
‘gênero’ também como sinônimo de mulheres, em
decorrência da história do movimento feminista.”
NEVES, Paulo Rogério da Cconceição. “Quando elas batem: relações sociais de gênero e a violência escolar”. In: VIANNA, Cláudia; CARVALHO, Marília (org.). Gênero e educação: 20 anos construindo conhecimento. Belo Horizonte: Autêntica, 2020, s./p. Ao se cotejar a literatura especializada, observa-se que as
definições do conceito de gênero, entendido este quando
expressa distinções biológicas e culturais relacionadas ao
sexo, apresentam-se sob um quadro consideravelmente
polissêmico. Considerando-se a bibliografia indicada para o
concurso, dentre alguns dos significados possíveis, qual das
alternativas contempla uma formulação pertinente?
“Os currículos não são apenas o que é elaborado e prescrito,
mas o que é adotado e implementado. Elaborar e
implementar novas formas de currículos, baseadas em
conhecimento aberto e compartilhado, depende muito do
trabalho dos professores. Embora a tecnologia digital ofereça
um mundo de possibilidades, as inovações têm maior
probabilidade de serem bem-sucedidas quando são
elaboradas para atender às necessidades e características
particulares dos estudantes em contextos específicos. Os
professores têm um papel importante a desempenhar na
personalização da aprendizagem para que seja autêntica e
relevante. Eles precisam de liberdade, preparação adequada,
recursos instrucionais e suporte para adaptar, construir,
elaborar e criar as melhores oportunidades de aprendizagem
para seus estudantes. Os currículos do futuro devem proporcionar aos professores uma ampla margem de
autonomia, complementada com fortes apoios, incluindo o
que é oferecido pela tecnologia, e o que vem de uma rica
colaboração com seus pares e de parcerias com especialistas
no assunto, como professores universitários e cientistas.”
Comissão Internacional sobre os futuros da educação. Reimaginar nossos
futuros juntos: um novo contrato social para a educação. Brasília: UNESCO
e Fundação SM, 2022, p. 81.
De acordo com o texto, no que diz respeito ao currículo, é
possível afirmar que o papel do professor
“Expressada de forma muito sintética (...), a aprendizagem
é uma construção pessoal que cada menino e cada menina
realizam graças à ajuda que recebem de outras pessoas.
Esta construção, através da qual podem atribuir significado
a um determinado objeto de ensino, implica a contribuição
por parte da pessoa que aprende, de seu interesse e
disponibilidade, de seus conhecimentos prévios e de sua
experiência. Em tudo isto desempenha um papel essencial
a pessoa especializada, que ajuda a detectar um conflito
inicial entre o que já se conhece e o que se deve saber, que
contribui para que o aluno se sinta capaz e com vontade de
resolvê-lo, que propõe o novo conteúdo como um desafio
interessante, cuja resolução terá alguma utilidade, que
intervém de forma adequada nos progressos e nas
dificuldades que o aluno manifesta, apoiando-o e prevendo,
ao mesmo tempo, a atuação autônoma do aluno. É um
processo que não só contribui para que o aluno aprenda
certos conteúdos, mas também faz com que aprenda a
aprender e que aprenda que pode aprender. Sua
repercussão não se limita ao que o aluno sabe, igualmente
influi no que sabe fazer e na imagem que tem de si mesmo.”
ZABALA, Antoni. A prática pedagógica: como ensinar. Porto Alegre:
Artmed. 1998, p. 63.
A partir do excerto, pode-se afirmar que, nas sequências
didáticas que se proponham a seguir o que foi indicado no
texto, será necessário incluir:
“Eis o paradoxo da relação educativa: ela requer que o
Educador seja percebido como estando ao mesmo tempo
muito próximo e muito distante: próximo o bastante para
que se possa ser como ele um dia, distante o suficiente para
que se tenha a vontade de ser como ele um dia. Eis a
dificuldade de sua ação: manifestar, sem escrúpulos, sua
diferença, mostrar-se na posição mais bem sucedida e,
nesse mesmo momento, manifestar sua extrema
proximidade, deixar penetrar a emoção compartilhada, a
inquietação ou o medo, sinal tangível de sua humanidade.
Mas também, no momento da mais respeitosa escuta, na
mais empática compreensão, quando se esforça para estar
o mais próximo do outro e quando parece disposto a juntar-se a ele, não esquece que sempre faz "como se" e que
esconder isso seria a pior das ilusões. E quando se tratar de
ensinar, encontrará ainda esta dupla exigência: anunciar
seus objetivos, apresentar o saber com a convicção de quem
sabe e quer ganhar a adesão, mas projetar-se também nos
bancos de sua sala de aula, tornar-se aluno de seu próprio
saber para compreender as tentativas e os erros daquele
que ainda não sabe.”
MEIRIEU, Philippe. Aprender... sim, mas como? Porto Alegre: Artmed,
1998, p. 94.
A partir do trecho selecionado, pode-se afirmar:
“A própria essência da democracia envolve uma nota
fundamental, que lhe é intrínseca — a mudança. Os regimes
democráticos se nutrem na verdade de termos em mudança
constante. São flexíveis, inquietos, devido a isso mesmo,
deve corresponder ao homem desses regimes, maior
flexibilidade de consciência. A falta desta permeabilidade
parece vir sendo dos mais sérios descompassos dos regimes
democráticos atuais, pela ausência, dela decorrente, de
correspondência entre o sentido da mudança, característico
não só da democracia, mas da civilização tecnológica e uma
certa rigidez mental do homem que, massificando-se, deixa
de assumir postura conscientemente crítica diante da vida.
Excluído da órbita das decisões, cada vez mais adstritas a
pequenas minorias, é comandado pelos meios de
publicidade, a tal ponto que, em nada confia ou acredita, se
não ouviu no rádio, na televisão ou se não leu nos jornais.
Daí a sua identificação com formas míticas de explicação do
seu mundo. Seu comportamento é o do homem que perde
dolorosamente o seu endereço. É o homem desenraizado. ”
FREIRE, Paulo. Educação como prática para a liberdade. São Paulo: Paz e
Terra, 2003, p. 90-91.
A primeira edição do livro em que consta esse trecho é de
1967.A ideia de ser humano desenraizado se caracteriza, no
trecho citado, como a de uma pessoa que confia, antes de
tudo, em meios de comunicação que seriam, conforme a
argumentação, determinados pela publicidade que os
financia. A partir disso, é possível afirmar:
“Com efeito, disciplinar os hábitos das crianças, pensar a
aprendizagem com o desdobrar inelutável de um programa
e sustentar a tese da existência de capacidades psicológicas
maturacionais justificam-se necessariamente em torno da
ideia da criança como um adulto-em-desenvolvimento. Em
outras palavras, se não se pensasse que na criança de hoje
reside a chave do amanhã do adulto, não teria sentido
dispor o cotidiano escolar em função de um dever-ser
infantil. Mais ainda, hoje em dia, à criança cabe dar,
sistematicamente, prova de que ao adulto do futuro nada
vai faltar, pois assim o adulto do presente usufrui de uma
certa felicidade. Como sabemos, quando um adulto olha
nos olhos de uma criança, e enfoca de fato os olhos da
criança ideal, recupera a felicidade que acredita ter perdido,
uma vez que lhe retorna do fundo desse olhar sua imagem
às avessas. Ou seja, na forma educada que hoje temos de
tratar a infância está em jogo uma operação importante do
ponto de vista da economia gozosa do adulto. Assim, não
deve nos surpreender que a imagem de uma criança ideal
tire, obcecadamente, o sono dos espíritos pedagógicos. O
que se almeja na atualidade não é mais que uma criança
aprenda aquilo que ela não sabe e o adulto sim (cavalgar,
dançar, fazer pão ou decorar o Organon de Aristóteles),
porém fazer dela esse ao menos um adulto que, no futuro,
não padeça das nossas impotências atuais. Em outras
palavras, se antes se pedia, com ou sem chicotes, à criança
que fosse um adulto mais ou menos educado, com o tempo
passou-se a almejar cada vez mais que possuísse no futuro
toda a potência imaginária que o adulto pensa que lhe falta
e que, portanto, não o deixa ser feliz. Entretanto, se o que
agora passa a se demandar é algo tão impossível quanto o
era, em última instância, o anterior, isso deve ser
necessariamente de uma outra qualidade a tal ponto que o
cotidiano escolar não só em nada se parece às pequenas
escolas do século XV, como também passou a justificar-se a
partir de uma singular ligação entre disciplina,
aprendizagem e psicologia infantil. Se na atualidade esperase que as crianças venham a ser adultos possuidores de tudo
aquilo que hoje nós não temos imaginariamente, bem
como, por cima, trata-se de consegui-lo graças à metódica
observância de um programa tanto moral quanto natural,
então, por um lado, toda empresa pedagógica acaba se
revelando pouco eficaz, e, por outro, os alunos acabam se
transformando em crianças mais ou menos indisciplinadas.
Isso acontece uma vez que o norte da moderna empresa
pedagógica é uma criança feita de um puro estofo
imaginário. Tanto a pretensa eficácia pedagógica quanto a
disciplina perfeita não podem menos que implicar a
desaparição da distância entre um aluno real e a criança
ideal. Em outras palavras, o cotidiano escolar se articula em
torno da tentativa de vir a apagar a diferença que habita no
campo subjetivo.”
LAJONQUIÈRE, Leandro de. A criança, “sua” (in)disciplina e a psicanálise.
In: AQUINO, Júlio Groppa (org). Indisciplina na escola: alternativas
teóricas e práticas. SP: Summus, 1996, p. 32. Podemos concluir, a partir da leitura do texto, que nele se
defende a seguinte ideia:
(...) O direito à educação está intimamente ligado ao
direito à informação, à cultura e à ciência; ele requer um
profundo compromisso com a construção de capacidades
humanas. Além disso, esse direito está intimamente ligado
ao direito de ter acesso e contribuir para os conhecimentos
comuns da humanidade e seus recursos de informação,
conhecimento e sabedoria compartilhados e em contínua
expansão.
O ciclo contínuo de criação de conhecimento que ocorre
por meio de contestação, diálogo e debate é o que ajuda a
coordenar a ação, produzir verdades científicas e incentivar a
inovação. É um dos recursos mais valiosos e inesgotáveis da
humanidade e um aspecto fundamental da educação.
Quanto mais pessoas têm acesso aos conhecimentos
comuns, mais abundantes eles se tornam. O
desenvolvimento da linguagem, do numeramento e dos
sistemas de escrita facilitou a disseminação do conhecimento
ao longo do tempo e do espaço. Isso, por sua vez, permitiu
que as sociedades humanas atingissem níveis extraordinários
de crescimento coletivo e construção de civilizações. As
possibilidades dos conhecimentos comuns são teoricamente
infinitas. A diversidade e a inovação desencadeadas pelos
conhecimentos comuns originam-se de empréstimos e
experimentações que atravessam fronteiras disciplinares,
bem como da reinterpretação do antigo e da criação do novo.
Infelizmente, as barreiras impedem a equidade no
acesso e na contribuição para os conhecimentos comuns.
Existem lacunas e distorções significativas no conhecimento
acumulado da humanidade que necessitam ser abordadas
e corrigidas. Perspectivas, linguagens e conhecimentos
indígenas têm sido marginalizados há muito tempo.
Mulheres, meninas, minorias e grupos de baixa renda
também são severamente sub-representados. As limitações
de acesso a conhecimentos comuns ocorrem como
resultado de comercialização e leis de propriedade
intelectual excessivamente restritivas, da ausência de
regulamentação e da falta de suporte adequado para as
comunidades e os sistemas que gerenciam os
conhecimentos comuns.(..)
Um direito ampliado à educação ao longo da vida requer
o compromisso em derrubar barreiras e garantir que os
conhecimentos comuns sejam um recurso aberto e
duradouro que reflita as diversas formas de conhecer e
estar no mundo.
Comissão Internacional sobre os futuros da educação. Reimaginar nossos
futuros juntos: um novo contrato social para a educação. Brasília: UNESCO
e Fundação SM, 2022, p. 10 e 11. A partir da leitura do texto, pode-se afirmar:
Diz Murray Schafer no capítulo “O Rinoceronte em sala de aula”:
“Vivemos num entreato de épocas. Enquanto países como o Irã estão entrando na era da alfabetização, o Ocidente está mergulhando na fase do segundo analfabetismo.
A televisão substitui o livro-texto, e o gravador, a partitura.
Ainda não sabemos se a notação convencional vai sobreviver a esse golpe, porém a rápida ruptura que está passando nas mãos dos atuais compositores de vanguarda nos sugere que é preciso uma revisão total. No momento, entretanto, devemos lidar com uma multiplicidade de sistemas, e todo esse assunto deve dar muito o que pensar ao educador”. (SCHAFER, 1991, p. 308)
Após examinar as afirmações a seguir, assinale a alternativa que está de acordo com o que o autor está discutindo.