Texto para a questão.
Ser sofista é insulto na filosofia. Mas você escolheria um
deles ou Sócrates para te defender?
Ser um sofista é um insulto no meio filosófico.
Por quê? Consideramos a filosofia que vale a pena como
a derivada de Sócrates e de Platão, inimigos declarados
dos sofistas. Assim, aprendemos sobre um time pela
visão de torcedores inimigos. Sofismas/sofistas
equivalem a um pensamento ardiloso, sem compromisso
com a verdade.
Nosso termo “escola” deriva de uma palavra
grega para ócio. Se você fosse um escravizado na Atenas
do século 5 a.C., trabalharia o dia todo e nunca teria
tempo para uma educação elaborada. Ter ócio era ter
renda e bens suficientes que permitissem atividades
como leitura e debates. Um bom exemplo é Platão,
membro da elite ateniense que não apenas conseguiu
uma excelente educação, mas ainda podia passar tempo
fazendo atividades físicas que permitissem ao jovem ser
chamado pelo apelido de “ombros largos”, em grego,
Platão.
E Sócrates? Não era rico, pelo que sabemos,
mas vivia em banquetes ofertados por seus alunos
eupátridas (os “bem-nascidos”), como Alcebíades e
Platão.
Educados, atletas, debatedores em banquetes
fartos, o grupo nunca cobraria para pensar. Nunca
precisaram. Estavam acima dos boletos. Seus olivais e
vinhedos eram cultivados por muitos braços e eles se
dedicavam ao debate por diálogos.
A expansão comercial ateniense (e das outras
cidades) fez crescer um grupo ligado ao comércio,
manufaturas, engenharia naval e outras atividades
menos tradicionais. Estes “novos ricos” tinham posses,
mas careciam de tradição. Precisavam educar filhos e ter
formação para os debates públicos na fervilhante política
ática. Surgem os sofistas.
Eram “pensadores de aluguel”, advogados,
professores, escritores que cobravam pelos seus
serviços. Viviam deles. Não tendo terras como a família
de Platão, comiam a partir do que conseguiam em troca
do treino da retórica. Muitos advogados sofistas
defendiam um cliente e não um “logos” supremo.
Vejam a frase do sofista Protágoras: “o homem é
a medida de todas as coisas”. Parece puro
antropocentrismo helênico. Porém, ela introduz um
relativismo interpretativo (hermenêutico, se preferirem)
importante. Se o homem é a medida, cada homem
determina uma nova medida, cada caso é um caso, cada
verdade pertence ao sujeito.
Para a elite tradicional, eram “cérebros de
aluguel”, falantes hábeis a peso de ouro. Para os
sofistas, talvez, Platão tivesse uma liberdade que não
vinha da sua convicção ética, todavia dos seus bens.
Sócrates, o amigo de gente rica, aceitou a pena
capital. O quadro famoso de David mostra o velho mestre
cercado por apoiadores e há treze pessoas na imagem,
como Jesus na Santa Ceia. Morreu por aquilo que
acreditava. Sócrates foi associado à virtude e à
coerência. Foi oferecida a ele a chance de fugir e o
homem mais sábio da Grécia (segundo o oráculo), disse
que precisava morrer para cumprir a lei e para mostrar
que suas ideias valiam mais do que sua vida. Quem,
simbolicamente, teria amassado a cicuta que Sócrates
bebeu? Demagogos e, claro, sofistas.
De vendidos e venais, os sofistas passaram a
assassinos calculistas. Platão nunca os perdoou e fez
um diálogo importante chamado “Sofista”. Dali em
diante, com anuência do Cristianismo, sofistas eram os
amigos da mentira, astutos, e, como Lúcifer,
enganadores.
É difícil imaginar quem seriam os herdeiros de
Sócrates e de Jesus no mundo de hoje. Eu apontaria com
mais facilidade quem seria filho do realismo sofista: é o
algoritmo. Ele determina que cada usuário é a medida de
todas as coisas. Ele indica produtos sem preconceito, de
livros sofisticados a cremes depilatórios, tudo a partir do
seu perfil de compras. Ele mostra vídeos da cena que
você, há pouco, viu com atenção.
O algoritmo não tem valores prévios senão a
sobrevivência do mercado. O internauta é a medida de
todas as coisas e seu histórico de navegação determina
a verdade que o algoritmo reforça. Nossa esperança é
gente que pensa fora das redes, mas... como serão
analisados? Aliás, seriam vistos?
Leandro Karnal.
I. O ócio é apresentado como disponibilidade socialmente condicionada, vinculada a renda e bens que permitem leitura e debates.
II. A condição de escravizado é descrita como rotina extenuante, incompatível com uma educação elaborada e contínua.
III. O ócio é definido como efeito do desinteresse ateniense por política, o que explica a marginalização do estudo sistemático.
Está correto o que se afirma em:
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