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TEXTO II
Fiu-fiu
Luis Fernando Veríssimo
Existe coisa mais melancólica do que uma mesa de quatro pessoas, num restaurante, em que três estão dedilhando seus smartphones e uma está falando sozinha?
1Lançaram agora um celular à prova d’água, que você pode usar no chuveiro. Ou em qualquer outro lugar embaixo d’água. No mar, por exemplo.
– Bem, não me espere para o jantar...
– Onde você está?
5– Sabe a nossa pesca submarina?
– O que houve?
– Pensei que fosse uma garoupa e era um tubarão. E ele está vindo na minha direção.
– Você ainda está embaixo d’água?!
10– Estou.
– E o seu arpão?
– O tubarão engoliu!
– Ligue para a Guarda Costeira!
São cada vez mais raros os lugares em que você pode se ver livre de celulares,
15e agora nem as piscinas estão seguras.
Os celulares são práticos e se tornaram indispensáveis, eu sei, mas empobreceram a vida social. Existe coisa mais melancólica do que uma mesa de quatro pessoas, num restaurante, em que três estão dedilhando seus smartphones e uma está falando sozinha? Ou um casal em outra mesa, os 20dois mergulhados nos respectivos celulares sem nem se olharem, o que dirá se falarem – a não ser que estejam trocando mensagens silenciosas entre si, o que é ainda mais triste.
Os celulares podem ser perigosos de várias maneiras, mesmo que não derretam o cérebro, como se andou espalhando há algum tempo. Imagino uma velhinha que ganhou um celular dos netos sem 25que estes se dessem ao trabalho de explicar seu funcionamento para a vovó. Não contaram, por exemplo, que o celular dado assobia quando recebe uma mensagem. É um assovio humano, um nítido fiu-fiu avisando que alguém ligou, e que pode soar a qualquer hora do dia ou da noite. E imagino a vovó, que mora sozinha, dormindo e, de repente, acordando com o assovio. Um fiu-fiu no meio da noite! A vovó, se não morrer imediatamente do coração, pode ficar apavorada. Quem está 30lá? Um ladrão ou um fantasma assoviador? E o assovio tem algo de galante. A vovó pode muito bem sair da cama, sem saber se está acordada ou sonhando, e caminhar na direção do fiu-fiu sedutor, como se tivessem vindo buscá-la. Alguém pensou nas vovós solitárias quando inventou o assovio?
O fato é que não há mais refúgio. Nem castelos anti-smartphones com um fosso em volta. Eles 35agora podem atravessar o fosso.
Jornal O Globo, 03/08/2014. Disponível em <https://oglobo.globo.com/opiniao/fiu-fiu-13464128>. Último acesso em 30 de setembro de 2017.
III. Sobre o texto II, responda às questões de 08 a 10.
Na crônica de Veríssimo, o título chama a atenção para uma expressão, usada ao final, em uma exemplificação que
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TEXTO II
Fiu-fiu
Luis Fernando Veríssimo
Existe coisa mais melancólica do que uma mesa de quatro pessoas, num restaurante, em que três estão dedilhando seus smartphones e uma está falando sozinha?
1Lançaram agora um celular à prova d’água, que você pode usar no chuveiro. Ou em qualquer outro lugar embaixo d’água. No mar, por exemplo.
– Bem, não me espere para o jantar...
– Onde você está?
5– Sabe a nossa pesca submarina?
– O que houve?
– Pensei que fosse uma garoupa e era um tubarão. E ele está vindo na minha direção.
– Você ainda está embaixo d’água?!
10– Estou.
– E o seu arpão?
– O tubarão engoliu!
– Ligue para a Guarda Costeira!
São cada vez mais raros os lugares em que você pode se ver livre de celulares,
15e agora nem as piscinas estão seguras.
Os celulares são práticos e se tornaram indispensáveis, eu sei, mas empobreceram a vida social. Existe coisa mais melancólica do que uma mesa de quatro pessoas, num restaurante, em que três estão dedilhando seus smartphones e uma está falando sozinha? Ou um casal em outra mesa, os 20dois mergulhados nos respectivos celulares sem nem se olharem, o que dirá se falarem – a não ser que estejam trocando mensagens silenciosas entre si, o que é ainda mais triste.
Os celulares podem ser perigosos de várias maneiras, mesmo que não derretam o cérebro, como se andou espalhando há algum tempo. Imagino uma velhinha que ganhou um celular dos netos sem 25que estes se dessem ao trabalho de explicar seu funcionamento para a vovó. Não contaram, por exemplo, que o celular dado assobia quando recebe uma mensagem. É um assovio humano, um nítido fiu-fiu avisando que alguém ligou, e que pode soar a qualquer hora do dia ou da noite. E imagino a vovó, que mora sozinha, dormindo e, de repente, acordando com o assovio. Um fiu-fiu no meio da noite! A vovó, se não morrer imediatamente do coração, pode ficar apavorada. Quem está 30lá? Um ladrão ou um fantasma assoviador? E o assovio tem algo de galante. A vovó pode muito bem sair da cama, sem saber se está acordada ou sonhando, e caminhar na direção do fiu-fiu sedutor, como se tivessem vindo buscá-la. Alguém pensou nas vovós solitárias quando inventou o assovio?
O fato é que não há mais refúgio. Nem castelos anti-smartphones com um fosso em volta. Eles 35agora podem atravessar o fosso.
Jornal O Globo, 03/08/2014. Disponível em <https://oglobo.globo.com/opiniao/fiu-fiu-13464128>. Último acesso em 30 de setembro de 2017.
III. Sobre o texto II, responda às questões de 08 a 10.
O termo “fiu-fiu” aparece três vezes no penúltimo parágrafo do texto. Que recurso estilístico ele representa e que funções sintáticas assume nas três ocorrências, respectivamente?
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TEXTO II
Fiu-fiu
Luis Fernando Veríssimo
Existe coisa mais melancólica do que uma mesa de quatro pessoas, num restaurante, em que três estão dedilhando seus smartphones e uma está falando sozinha?
1Lançaram agora um celular à prova d’água, que você pode usar no chuveiro. Ou em qualquer outro lugar embaixo d’água. No mar, por exemplo.
– Bem, não me espere para o jantar...
– Onde você está?
5– Sabe a nossa pesca submarina?
– O que houve?
– Pensei que fosse uma garoupa e era um tubarão. E ele está vindo na minha direção.
– Você ainda está embaixo d’água?!
10– Estou.
– E o seu arpão?
– O tubarão engoliu!
– Ligue para a Guarda Costeira!
São cada vez mais raros os lugares em que você pode se ver livre de celulares,
15e agora nem as piscinas estão seguras.
Os celulares são práticos e se tornaram indispensáveis, eu sei, mas empobreceram a vida social. Existe coisa mais melancólica do que uma mesa de quatro pessoas, num restaurante, em que três estão dedilhando seus smartphones e uma está falando sozinha? Ou um casal em outra mesa, os 20dois mergulhados nos respectivos celulares sem nem se olharem, o que dirá se falarem – a não ser que estejam trocando mensagens silenciosas entre si, o que é ainda mais triste.
Os celulares podem ser perigosos de várias maneiras, mesmo que não derretam o cérebro, como se andou espalhando há algum tempo. Imagino uma velhinha que ganhou um celular dos netos sem 25que estes se dessem ao trabalho de explicar seu funcionamento para a vovó. Não contaram, por exemplo, que o celular dado assobia quando recebe uma mensagem. É um assovio humano, um nítido fiu-fiu avisando que alguém ligou, e que pode soar a qualquer hora do dia ou da noite. E imagino a vovó, que mora sozinha, dormindo e, de repente, acordando com o assovio. Um fiu-fiu no meio da noite! A vovó, se não morrer imediatamente do coração, pode ficar apavorada. Quem está 30lá? Um ladrão ou um fantasma assoviador? E o assovio tem algo de galante. A vovó pode muito bem sair da cama, sem saber se está acordada ou sonhando, e caminhar na direção do fiu-fiu sedutor, como se tivessem vindo buscá-la. Alguém pensou nas vovós solitárias quando inventou o assovio?
O fato é que não há mais refúgio. Nem castelos anti-smartphones com um fosso em volta. Eles 35agora podem atravessar o fosso.
Jornal O Globo, 03/08/2014. Disponível em <https://oglobo.globo.com/opiniao/fiu-fiu-13464128>. Último acesso em 30 de setembro de 2017.
III. Sobre o texto II, responda às questões de 08 a 10.
Marque a alternativa que expressa relação inadequada entre o conectivo destacado e o valor semântico que ele denota.
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TEXTO I
Só o homem entediado terá chance de salvação num futuro de smartphones
João Pereira Coutinho
1Assisto a conferências e a moda não engana: metade da sala (no mínimo) está
com a cabeça enfiada em smartphones. Como seriam as conferências antigamente? O
que fazia a audiência enquanto alguém falava no palanque?
Provavelmente, escutava. Ou dormia. Ou dormia e escutava, em intervalos
5saudáveis.
Hoje, ninguém dorme. Duvido que alguém escute. O smartphone é o inimigo do
tédio, ou da reflexão, proporcionando uma festa permanente.
Este seria o momento ideal para eu vestir a toga1 do moralista vulgar, lançando
raios homéricos sobre a nefasta2 tecnologia. A data, aliás, seria a mais apropriada: o
10iPhone nasceu dez anos atrás e o dilúvio começou.
Infelizmente, não posso pregar. Eu também faço parte do clube que prefere o
smartphone ao velho e bom cochilo.
Especialistas diversos gostam de explicar a compulsão. É como uma droga, dizem
eles: quando espreitamos3 as mensagens, o e-mail, as redes sociais, procuramos uma
15espécie de recompensa neurobiológica muito semelhante a um viciado.
O problema se agrava quando somos privados da nossa dose – e eu sei, o leitor
sabe, todos sabemos dessa miserável privação.
Tempos atrás, esqueci-me do celular em casa e parti em viagem. Quando dei conta
do estrago, uma inquietude foi crescendo com o passar das horas.
20Ainda pensei em pedir ao companheiro do lado para me emprestar o smartphone
dele. Só para eu ler as minhas mensagens. Ou até, sei lá, as mensagens dele. Qualquer
coisa servia. Eu era como alguns alcoólatras que, na ausência de bebidas legais,
começam a despejar perfume pela goela.
Controlei-me. Telefonei para casa – de um telefone fixo, entenda – e pedi, com um
25último fôlego, que me lessem as novidades. Nenhuma delas era urgente, sequer
interessante. Mas o corpo sossegou e mergulhou naquele estranho torpor4 que Thomas
de Quincey relatou nas suas "Confissões de um Comedor de Ópio5". Como se chegou
até aqui?
Verdade: o tédio sempre foi o grande terror dos homens modernos. Ter no bolso
30um aparelho que garante distração permanente é a melhor forma de afastar o fantasma.
Acontece que o tédio tem as suas vantagens. O filósofo Mark Kingwell tem escrito
sobre a matéria (...) Só o tédio, escreve ele, é capaz de sinalizar a existência de um
problema entre nós e o mundo. O tédio é a "suspensão da suspensão" em que vivemos
– uma forma terapêutica, e até brutal, de olharmos para a realidade sem fugas. E de
35agirmos em conformidade.
Quando abolimos o tédio, e o "dom da escuta" que só ele oferece, desaparece uma
parte da nossa humanidade – aquela parte que reflete, imagina ou cria. E que
problematiza, critica, propõe.
No futuro, não será apenas a audiência que estará mergulhada nas telas dos
40smartphones. Também suspeito que os próprios conferencistas, privados de pensar e
sem nada para dizer, terão o mesmo comportamento.
Imagino um encontro de silêncios, onde todos os presentes estarão ausentes – e
só o homem entediado terá chance de salvação.
Disponível em <http://www1.folha.uol.com.br/colunas/joaopereiracoutinho/2017/06/1897093-so-o-homem-entediado-tera-chance-de-salvacao-num-futuro-de-smartphones.shtml>. Último acesso em 06 de julho de 2017. (Adaptado).
VOCABULÁRIO:
1. Toga – traje preto e comprido, usado por advogados e por professores catedráticos e doutorados em ocasiões especiais.
2. Nefasto – nocivo, prejudicial, perverso, trágico, mau.
3. Espreitar – espiar, olhar demorada e fixamente.
4. Torpor – indiferença ou apatia moral; indolência, prostração.
5. Ópio – narcótico, droga que provoca adormecimento.
TEXTO II
Fiu-fiu
Luis Fernando Veríssimo
Existe coisa mais melancólica do que uma mesa de quatro pessoas, num restaurante, em que três estão dedilhando seus smartphones e uma está falando sozinha?
1Lançaram agora um celular à prova d’água, que você pode usar no chuveiro. Ou em qualquer outro lugar embaixo d’água. No mar, por exemplo.
– Bem, não me espere para o jantar...
– Onde você está?
5– Sabe a nossa pesca submarina?
– O que houve?
– Pensei que fosse uma garoupa e era um tubarão. E ele está vindo na minha direção.
– Você ainda está embaixo d’água?!
10– Estou.
– E o seu arpão?
– O tubarão engoliu!
– Ligue para a Guarda Costeira!
São cada vez mais raros os lugares em que você pode se ver livre de celulares,
15e agora nem as piscinas estão seguras.
Os celulares são práticos e se tornaram indispensáveis, eu sei, mas empobreceram a vida social. Existe coisa mais melancólica do que uma mesa de quatro pessoas, num restaurante, em que três estão dedilhando seus smartphones e uma está falando sozinha? Ou um casal em outra mesa, os 20dois mergulhados nos respectivos celulares sem nem se olharem, o que dirá se falarem – a não ser que estejam trocando mensagens silenciosas entre si, o que é ainda mais triste.
Os celulares podem ser perigosos de várias maneiras, mesmo que não derretam o cérebro, como se andou espalhando há algum tempo. Imagino uma velhinha que ganhou um celular dos netos sem 25que estes se dessem ao trabalho de explicar seu funcionamento para a vovó. Não contaram, por exemplo, que o celular dado assobia quando recebe uma mensagem. É um assovio humano, um nítido fiu-fiu avisando que alguém ligou, e que pode soar a qualquer hora do dia ou da noite. E imagino a vovó, que mora sozinha, dormindo e, de repente, acordando com o assovio. Um fiu-fiu no meio da noite! A vovó, se não morrer imediatamente do coração, pode ficar apavorada. Quem está 30lá? Um ladrão ou um fantasma assoviador? E o assovio tem algo de galante. A vovó pode muito bem sair da cama, sem saber se está acordada ou sonhando, e caminhar na direção do fiu-fiu sedutor, como se tivessem vindo buscá-la. Alguém pensou nas vovós solitárias quando inventou o assovio?
O fato é que não há mais refúgio. Nem castelos anti-smartphones com um fosso em volta. Eles 35agora podem atravessar o fosso.
Jornal O Globo, 03/08/2014. Disponível em <https://oglobo.globo.com/opiniao/fiu-fiu-13464128>. Último acesso em 30 de setembro de 2017.
Sobre os textos I e II, responda à questão 07.
Os textos I e II tratam os smartphones como os itens da contemporaneidade que têm levado as pessoas em geral a lidar (ou a não saberem lidar) com o hábito cotidiano.
Que fragmento do texto II pode servir de exemplo para a seguinte reflexão retirada do texto I: “Imagino um encontro de silêncios, onde todos os presentes estarão ausentes” (l.42)?
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- OrtografiaProblemas da Norma Culta
- SintaxeRegênciaRegência Verbal
- SintaxeRegênciaRegência Nominal
- Interpretação de Textos
TEXTO I
Só o homem entediado terá chance de salvação num futuro de smartphones
João Pereira Coutinho
1Assisto a conferências e a moda não engana: metade da sala (no mínimo) está
com a cabeça enfiada em smartphones. Como seriam as conferências antigamente? O
que fazia a audiência enquanto alguém falava no palanque?
Provavelmente, escutava. Ou dormia. Ou dormia e escutava, em intervalos
5saudáveis.
Hoje, ninguém dorme. Duvido que alguém escute. O smartphone é o inimigo do
tédio, ou da reflexão, proporcionando uma festa permanente.
Este seria o momento ideal para eu vestir a toga1 do moralista vulgar, lançando
raios homéricos sobre a nefasta2 tecnologia. A data, aliás, seria a mais apropriada: o
10iPhone nasceu dez anos atrás e o dilúvio começou.
Infelizmente, não posso pregar. Eu também faço parte do clube que prefere o
smartphone ao velho e bom cochilo.
Especialistas diversos gostam de explicar a compulsão. É como uma droga, dizem
eles: quando espreitamos3 as mensagens, o e-mail, as redes sociais, procuramos uma
15espécie de recompensa neurobiológica muito semelhante a um viciado.
O problema se agrava quando somos privados da nossa dose – e eu sei, o leitor
sabe, todos sabemos dessa miserável privação.
Tempos atrás, esqueci-me do celular em casa e parti em viagem. Quando dei conta
do estrago, uma inquietude foi crescendo com o passar das horas.
20Ainda pensei em pedir ao companheiro do lado para me emprestar o smartphone
dele. Só para eu ler as minhas mensagens. Ou até, sei lá, as mensagens dele. Qualquer
coisa servia. Eu era como alguns alcoólatras que, na ausência de bebidas legais,
começam a despejar perfume pela goela.
Controlei-me. Telefonei para casa – de um telefone fixo, entenda – e pedi, com um
25último fôlego, que me lessem as novidades. Nenhuma delas era urgente, sequer
interessante. Mas o corpo sossegou e mergulhou naquele estranho torpor4 que Thomas
de Quincey relatou nas suas "Confissões de um Comedor de Ópio5". Como se chegou
até aqui?
Verdade: o tédio sempre foi o grande terror dos homens modernos. Ter no bolso
30um aparelho que garante distração permanente é a melhor forma de afastar o fantasma.
Acontece que o tédio tem as suas vantagens. O filósofo Mark Kingwell tem escrito
sobre a matéria (...) Só o tédio, escreve ele, é capaz de sinalizar a existência de um
problema entre nós e o mundo. O tédio é a "suspensão da suspensão" em que vivemos
– uma forma terapêutica, e até brutal, de olharmos para a realidade sem fugas. E de
35agirmos em conformidade.
Quando abolimos o tédio, e o "dom da escuta" que só ele oferece, desaparece uma
parte da nossa humanidade – aquela parte que reflete, imagina ou cria. E que
problematiza, critica, propõe.
No futuro, não será apenas a audiência que estará mergulhada nas telas dos
40smartphones. Também suspeito que os próprios conferencistas, privados de pensar e
sem nada para dizer, terão o mesmo comportamento.
Imagino um encontro de silêncios, onde todos os presentes estarão ausentes – e
só o homem entediado terá chance de salvação.
Disponível em <http://www1.folha.uol.com.br/colunas/joaopereiracoutinho/2017/06/1897093-so-o-homem-entediado-tera-chance-de-salvacao-num-futuro-de-smartphones.shtml>. Último acesso em 06 de julho de 2017. (Adaptado).
VOCABULÁRIO:
1. Toga – traje preto e comprido, usado por advogados e por professores catedráticos e doutorados em ocasiões especiais.
2. Nefasto – nocivo, prejudicial, perverso, trágico, mau.
3. Espreitar – espiar, olhar demorada e fixamente.
4. Torpor – indiferença ou apatia moral; indolência, prostração.
5. Ópio – narcótico, droga que provoca adormecimento.
O autor do texto I escreve sua crônica praticamente toda de acordo com a norma padrão da Língua Portuguesa. Um exemplo claro é a regência do verbo assistir, adequadamente aplicada na frase transcrita abaixo:
“Assisto a conferências e a moda não engana”. (l. 1)
Marque a única opção que obedece à norma padrão quanto à regência verbal ou nominal nas frases que seguem.
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TEXTO I
Só o homem entediado terá chance de salvação num futuro de smartphones
João Pereira Coutinho
1Assisto a conferências e a moda não engana: metade da sala (no mínimo) está
com a cabeça enfiada em smartphones. Como seriam as conferências antigamente? O
que fazia a audiência enquanto alguém falava no palanque?
Provavelmente, escutava. Ou dormia. Ou dormia e escutava, em intervalos
5saudáveis.
Hoje, ninguém dorme. Duvido que alguém escute. O smartphone é o inimigo do
tédio, ou da reflexão, proporcionando uma festa permanente.
Este seria o momento ideal para eu vestir a toga1 do moralista vulgar, lançando
raios homéricos sobre a nefasta2 tecnologia. A data, aliás, seria a mais apropriada: o
10iPhone nasceu dez anos atrás e o dilúvio começou.
Infelizmente, não posso pregar. Eu também faço parte do clube que prefere o
smartphone ao velho e bom cochilo.
Especialistas diversos gostam de explicar a compulsão. É como uma droga, dizem
eles: quando espreitamos3 as mensagens, o e-mail, as redes sociais, procuramos uma
15espécie de recompensa neurobiológica muito semelhante a um viciado.
O problema se agrava quando somos privados da nossa dose – e eu sei, o leitor
sabe, todos sabemos dessa miserável privação.
Tempos atrás, esqueci-me do celular em casa e parti em viagem. Quando dei conta
do estrago, uma inquietude foi crescendo com o passar das horas.
20Ainda pensei em pedir ao companheiro do lado para me emprestar o smartphone
dele. Só para eu ler as minhas mensagens. Ou até, sei lá, as mensagens dele. Qualquer
coisa servia. Eu era como alguns alcoólatras que, na ausência de bebidas legais,
começam a despejar perfume pela goela.
Controlei-me. Telefonei para casa – de um telefone fixo, entenda – e pedi, com um
25último fôlego, que me lessem as novidades. Nenhuma delas era urgente, sequer
interessante. Mas o corpo sossegou e mergulhou naquele estranho torpor4 que Thomas
de Quincey relatou nas suas "Confissões de um Comedor de Ópio5". Como se chegou
até aqui?
Verdade: o tédio sempre foi o grande terror dos homens modernos. Ter no bolso
30um aparelho que garante distração permanente é a melhor forma de afastar o fantasma.
Acontece que o tédio tem as suas vantagens. O filósofo Mark Kingwell tem escrito
sobre a matéria (...) Só o tédio, escreve ele, é capaz de sinalizar a existência de um
problema entre nós e o mundo. O tédio é a "suspensão da suspensão" em que vivemos
– uma forma terapêutica, e até brutal, de olharmos para a realidade sem fugas. E de
35agirmos em conformidade.
Quando abolimos o tédio, e o "dom da escuta" que só ele oferece, desaparece uma
parte da nossa humanidade – aquela parte que reflete, imagina ou cria. E que
problematiza, critica, propõe.
No futuro, não será apenas a audiência que estará mergulhada nas telas dos
40smartphones. Também suspeito que os próprios conferencistas, privados de pensar e
sem nada para dizer, terão o mesmo comportamento.
Imagino um encontro de silêncios, onde todos os presentes estarão ausentes – e
só o homem entediado terá chance de salvação.
Disponível em <http://www1.folha.uol.com.br/colunas/joaopereiracoutinho/2017/06/1897093-so-o-homem-entediado-tera-chance-de-salvacao-num-futuro-de-smartphones.shtml>. Último acesso em 06 de julho de 2017. (Adaptado).
VOCABULÁRIO:
1. Toga – traje preto e comprido, usado por advogados e por professores catedráticos e doutorados em ocasiões especiais.
2. Nefasto – nocivo, prejudicial, perverso, trágico, mau.
3. Espreitar – espiar, olhar demorada e fixamente.
4. Torpor – indiferença ou apatia moral; indolência, prostração.
5. Ópio – narcótico, droga que provoca adormecimento.
O texto I, de João Pereira Coutinho, é uma crônica. Enquadra-se afinado, pois, tanto com os gêneros jornalísticos quanto com os artísticos. Em relação às especificidades destes últimos, cronistas costumam-se valer de recursos estilísticos que enriqueçam seu texto. Indique a alternativa que demonstra adequada associação entre exemplo destacado e recurso utilizado na crônica.
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- Interpretação de TextosCoesão e CoerênciaCoesãoUso de Conectivos
- Interpretação de TextosSubstituição/Reescritura de Texto
TEXTO I
Só o homem entediado terá chance de salvação num futuro de smartphones
João Pereira Coutinho
1Assisto a conferências e a moda não engana: metade da sala (no mínimo) está
com a cabeça enfiada em smartphones. Como seriam as conferências antigamente? O
que fazia a audiência enquanto alguém falava no palanque?
Provavelmente, escutava. Ou dormia. Ou dormia e escutava, em intervalos
5saudáveis.
Hoje, ninguém dorme. Duvido que alguém escute. O smartphone é o inimigo do
tédio, ou da reflexão, proporcionando uma festa permanente.
Este seria o momento ideal para eu vestir a toga1 do moralista vulgar, lançando
raios homéricos sobre a nefasta2 tecnologia. A data, aliás, seria a mais apropriada: o
10iPhone nasceu dez anos atrás e o dilúvio começou.
Infelizmente, não posso pregar. Eu também faço parte do clube que prefere o
smartphone ao velho e bom cochilo.
Especialistas diversos gostam de explicar a compulsão. É como uma droga, dizem
eles: quando espreitamos3 as mensagens, o e-mail, as redes sociais, procuramos uma
15espécie de recompensa neurobiológica muito semelhante a um viciado.
O problema se agrava quando somos privados da nossa dose – e eu sei, o leitor
sabe, todos sabemos dessa miserável privação.
Tempos atrás, esqueci-me do celular em casa e parti em viagem. Quando dei conta
do estrago, uma inquietude foi crescendo com o passar das horas.
20Ainda pensei em pedir ao companheiro do lado para me emprestar o smartphone
dele. Só para eu ler as minhas mensagens. Ou até, sei lá, as mensagens dele. Qualquer
coisa servia. Eu era como alguns alcoólatras que, na ausência de bebidas legais,
começam a despejar perfume pela goela.
Controlei-me. Telefonei para casa – de um telefone fixo, entenda – e pedi, com um
25último fôlego, que me lessem as novidades. Nenhuma delas era urgente, sequer
interessante. Mas o corpo sossegou e mergulhou naquele estranho torpor4 que Thomas
de Quincey relatou nas suas "Confissões de um Comedor de Ópio5". Como se chegou
até aqui?
Verdade: o tédio sempre foi o grande terror dos homens modernos. Ter no bolso
30um aparelho que garante distração permanente é a melhor forma de afastar o fantasma.
Acontece que o tédio tem as suas vantagens. O filósofo Mark Kingwell tem escrito
sobre a matéria (...) Só o tédio, escreve ele, é capaz de sinalizar a existência de um
problema entre nós e o mundo. O tédio é a "suspensão da suspensão" em que vivemos
– uma forma terapêutica, e até brutal, de olharmos para a realidade sem fugas. E de
35agirmos em conformidade.
Quando abolimos o tédio, e o "dom da escuta" que só ele oferece, desaparece uma
parte da nossa humanidade – aquela parte que reflete, imagina ou cria. E que
problematiza, critica, propõe.
No futuro, não será apenas a audiência que estará mergulhada nas telas dos
40smartphones. Também suspeito que os próprios conferencistas, privados de pensar e
sem nada para dizer, terão o mesmo comportamento.
Imagino um encontro de silêncios, onde todos os presentes estarão ausentes – e
só o homem entediado terá chance de salvação.
Disponível em <http://www1.folha.uol.com.br/colunas/joaopereiracoutinho/2017/06/1897093-so-o-homem-entediado-tera-chance-de-salvacao-num-futuro-de-smartphones.shtml>. Último acesso em 06 de julho de 2017. (Adaptado).
VOCABULÁRIO:
1. Toga – traje preto e comprido, usado por advogados e por professores catedráticos e doutorados em ocasiões especiais.
2. Nefasto – nocivo, prejudicial, perverso, trágico, mau.
3. Espreitar – espiar, olhar demorada e fixamente.
4. Torpor – indiferença ou apatia moral; indolência, prostração.
5. Ópio – narcótico, droga que provoca adormecimento.
Considere o fragmento: “Infelizmente, não posso pregar. Eu também faço parte do clube que prefere o smartphone ao velho e bom cochilo.” (l. 11-12). Para que se estabeleça uma relação coesiva explícita entre os períodos, que conectivo poderia figurar entre eles sem perda de sentido original?
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TEXTO I
Só o homem entediado terá chance de salvação num futuro de smartphones
João Pereira Coutinho
1Assisto a conferências e a moda não engana: metade da sala (no mínimo) está
com a cabeça enfiada em smartphones. Como seriam as conferências antigamente? O
que fazia a audiência enquanto alguém falava no palanque?
Provavelmente, escutava. Ou dormia. Ou dormia e escutava, em intervalos
5saudáveis.
Hoje, ninguém dorme. Duvido que alguém escute. O smartphone é o inimigo do
tédio, ou da reflexão, proporcionando uma festa permanente.
Este seria o momento ideal para eu vestir a toga1 do moralista vulgar, lançando
raios homéricos sobre a nefasta2 tecnologia. A data, aliás, seria a mais apropriada: o
10iPhone nasceu dez anos atrás e o dilúvio começou.
Infelizmente, não posso pregar. Eu também faço parte do clube que prefere o
smartphone ao velho e bom cochilo.
Especialistas diversos gostam de explicar a compulsão. É como uma droga, dizem
eles: quando espreitamos3 as mensagens, o e-mail, as redes sociais, procuramos uma
15espécie de recompensa neurobiológica muito semelhante a um viciado.
O problema se agrava quando somos privados da nossa dose – e eu sei, o leitor
sabe, todos sabemos dessa miserável privação.
Tempos atrás, esqueci-me do celular em casa e parti em viagem. Quando dei conta
do estrago, uma inquietude foi crescendo com o passar das horas.
20Ainda pensei em pedir ao companheiro do lado para me emprestar o smartphone
dele. Só para eu ler as minhas mensagens. Ou até, sei lá, as mensagens dele. Qualquer
coisa servia. Eu era como alguns alcoólatras que, na ausência de bebidas legais,
começam a despejar perfume pela goela.
Controlei-me. Telefonei para casa – de um telefone fixo, entenda – e pedi, com um
25último fôlego, que me lessem as novidades. Nenhuma delas era urgente, sequer
interessante. Mas o corpo sossegou e mergulhou naquele estranho torpor4 que Thomas
de Quincey relatou nas suas "Confissões de um Comedor de Ópio5". Como se chegou
até aqui?
Verdade: o tédio sempre foi o grande terror dos homens modernos. Ter no bolso
30um aparelho que garante distração permanente é a melhor forma de afastar o fantasma.
Acontece que o tédio tem as suas vantagens. O filósofo Mark Kingwell tem escrito
sobre a matéria (...) Só o tédio, escreve ele, é capaz de sinalizar a existência de um
problema entre nós e o mundo. O tédio é a "suspensão da suspensão" em que vivemos
– uma forma terapêutica, e até brutal, de olharmos para a realidade sem fugas. E de
35agirmos em conformidade.
Quando abolimos o tédio, e o "dom da escuta" que só ele oferece, desaparece uma
parte da nossa humanidade – aquela parte que reflete, imagina ou cria. E que
problematiza, critica, propõe.
No futuro, não será apenas a audiência que estará mergulhada nas telas dos
40smartphones. Também suspeito que os próprios conferencistas, privados de pensar e
sem nada para dizer, terão o mesmo comportamento.
Imagino um encontro de silêncios, onde todos os presentes estarão ausentes – e
só o homem entediado terá chance de salvação.
Disponível em <http://www1.folha.uol.com.br/colunas/joaopereiracoutinho/2017/06/1897093-so-o-homem-entediado-tera-chance-de-salvacao-num-futuro-de-smartphones.shtml>. Último acesso em 06 de julho de 2017. (Adaptado).
VOCABULÁRIO:
1. Toga – traje preto e comprido, usado por advogados e por professores catedráticos e doutorados em ocasiões especiais.
2. Nefasto – nocivo, prejudicial, perverso, trágico, mau.
3. Espreitar – espiar, olhar demorada e fixamente.
4. Torpor – indiferença ou apatia moral; indolência, prostração.
5. Ópio – narcótico, droga que provoca adormecimento.
Ao longo do texto I, o autor relata um episódio segundo o qual, saindo em viagem, teria ficado sem seu celular. Esse evento provocou nele
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TEXTO I
Só o homem entediado terá chance de salvação num futuro de smartphones
João Pereira Coutinho
1Assisto a conferências e a moda não engana: metade da sala (no mínimo) está
com a cabeça enfiada em smartphones. Como seriam as conferências antigamente? O
que fazia a audiência enquanto alguém falava no palanque?
Provavelmente, escutava. Ou dormia. Ou dormia e escutava, em intervalos
5saudáveis.
Hoje, ninguém dorme. Duvido que alguém escute. O smartphone é o inimigo do
tédio, ou da reflexão, proporcionando uma festa permanente.
Este seria o momento ideal para eu vestir a toga1 do moralista vulgar, lançando
raios homéricos sobre a nefasta2 tecnologia. A data, aliás, seria a mais apropriada: o
10iPhone nasceu dez anos atrás e o dilúvio começou.
Infelizmente, não posso pregar. Eu também faço parte do clube que prefere o
smartphone ao velho e bom cochilo.
Especialistas diversos gostam de explicar a compulsão. É como uma droga, dizem
eles: quando espreitamos3 as mensagens, o e-mail, as redes sociais, procuramos uma
15espécie de recompensa neurobiológica muito semelhante a um viciado.
O problema se agrava quando somos privados da nossa dose – e eu sei, o leitor
sabe, todos sabemos dessa miserável privação.
Tempos atrás, esqueci-me do celular em casa e parti em viagem. Quando dei conta
do estrago, uma inquietude foi crescendo com o passar das horas.
20Ainda pensei em pedir ao companheiro do lado para me emprestar o smartphone
dele. Só para eu ler as minhas mensagens. Ou até, sei lá, as mensagens dele. Qualquer
coisa servia. Eu era como alguns alcoólatras que, na ausência de bebidas legais,
começam a despejar perfume pela goela.
Controlei-me. Telefonei para casa – de um telefone fixo, entenda – e pedi, com um
25último fôlego, que me lessem as novidades. Nenhuma delas era urgente, sequer
interessante. Mas o corpo sossegou e mergulhou naquele estranho torpor4 que Thomas
de Quincey relatou nas suas "Confissões de um Comedor de Ópio5". Como se chegou
até aqui?
Verdade: o tédio sempre foi o grande terror dos homens modernos. Ter no bolso
30um aparelho que garante distração permanente é a melhor forma de afastar o fantasma.
Acontece que o tédio tem as suas vantagens. O filósofo Mark Kingwell tem escrito
sobre a matéria (...) Só o tédio, escreve ele, é capaz de sinalizar a existência de um
problema entre nós e o mundo. O tédio é a "suspensão da suspensão" em que vivemos
– uma forma terapêutica, e até brutal, de olharmos para a realidade sem fugas. E de
35agirmos em conformidade.
Quando abolimos o tédio, e o "dom da escuta" que só ele oferece, desaparece uma
parte da nossa humanidade – aquela parte que reflete, imagina ou cria. E que
problematiza, critica, propõe.
No futuro, não será apenas a audiência que estará mergulhada nas telas dos
40smartphones. Também suspeito que os próprios conferencistas, privados de pensar e
sem nada para dizer, terão o mesmo comportamento.
Imagino um encontro de silêncios, onde todos os presentes estarão ausentes – e
só o homem entediado terá chance de salvação.
Disponível em <http://www1.folha.uol.com.br/colunas/joaopereiracoutinho/2017/06/1897093-so-o-homem-entediado-tera-chance-de-salvacao-num-futuro-de-smartphones.shtml>. Último acesso em 06 de julho de 2017. (Adaptado).
VOCABULÁRIO:
1. Toga – traje preto e comprido, usado por advogados e por professores catedráticos e doutorados em ocasiões especiais.
2. Nefasto – nocivo, prejudicial, perverso, trágico, mau.
3. Espreitar – espiar, olhar demorada e fixamente.
4. Torpor – indiferença ou apatia moral; indolência, prostração.
5. Ópio – narcótico, droga que provoca adormecimento.
Coutinho traz uma reflexão crítica sobre o uso dos smartphones. Em sua visão, de todas as informações abaixo uma não está em consonância com o que ele afirma. Marque-a.
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TEXTO I
Só o homem entediado terá chance de salvação num futuro de smartphones
João Pereira Coutinho
1Assisto a conferências e a moda não engana: metade da sala (no mínimo) está
com a cabeça enfiada em smartphones. Como seriam as conferências antigamente? O
que fazia a audiência enquanto alguém falava no palanque?
Provavelmente, escutava. Ou dormia. Ou dormia e escutava, em intervalos
5saudáveis.
Hoje, ninguém dorme. Duvido que alguém escute. O smartphone é o inimigo do
tédio, ou da reflexão, proporcionando uma festa permanente.
Este seria o momento ideal para eu vestir a toga1 do moralista vulgar, lançando
raios homéricos sobre a nefasta2 tecnologia. A data, aliás, seria a mais apropriada: o
10iPhone nasceu dez anos atrás e o dilúvio começou.
Infelizmente, não posso pregar. Eu também faço parte do clube que prefere o
smartphone ao velho e bom cochilo.
Especialistas diversos gostam de explicar a compulsão. É como uma droga, dizem
eles: quando espreitamos3 as mensagens, o e-mail, as redes sociais, procuramos uma
15espécie de recompensa neurobiológica muito semelhante a um viciado.
O problema se agrava quando somos privados da nossa dose – e eu sei, o leitor
sabe, todos sabemos dessa miserável privação.
Tempos atrás, esqueci-me do celular em casa e parti em viagem. Quando dei conta
do estrago, uma inquietude foi crescendo com o passar das horas.
20Ainda pensei em pedir ao companheiro do lado para me emprestar o smartphone
dele. Só para eu ler as minhas mensagens. Ou até, sei lá, as mensagens dele. Qualquer
coisa servia. Eu era como alguns alcoólatras que, na ausência de bebidas legais,
começam a despejar perfume pela goela.
Controlei-me. Telefonei para casa – de um telefone fixo, entenda – e pedi, com um
25último fôlego, que me lessem as novidades. Nenhuma delas era urgente, sequer
interessante. Mas o corpo sossegou e mergulhou naquele estranho torpor4 que Thomas
de Quincey relatou nas suas "Confissões de um Comedor de Ópio5". Como se chegou
até aqui?
Verdade: o tédio sempre foi o grande terror dos homens modernos. Ter no bolso
30um aparelho que garante distração permanente é a melhor forma de afastar o fantasma.
Acontece que o tédio tem as suas vantagens. O filósofo Mark Kingwell tem escrito
sobre a matéria (...) Só o tédio, escreve ele, é capaz de sinalizar a existência de um
problema entre nós e o mundo. O tédio é a "suspensão da suspensão" em que vivemos
– uma forma terapêutica, e até brutal, de olharmos para a realidade sem fugas. E de
35agirmos em conformidade.
Quando abolimos o tédio, e o "dom da escuta" que só ele oferece, desaparece uma
parte da nossa humanidade – aquela parte que reflete, imagina ou cria. E que
problematiza, critica, propõe.
No futuro, não será apenas a audiência que estará mergulhada nas telas dos
40smartphones. Também suspeito que os próprios conferencistas, privados de pensar e
sem nada para dizer, terão o mesmo comportamento.
Imagino um encontro de silêncios, onde todos os presentes estarão ausentes – e
só o homem entediado terá chance de salvação.
Disponível em <http://www1.folha.uol.com.br/colunas/joaopereiracoutinho/2017/06/1897093-so-o-homem-entediado-tera-chance-de-salvacao-num-futuro-de-smartphones.shtml>. Último acesso em 06 de julho de 2017. (Adaptado).
VOCABULÁRIO:
1. Toga – traje preto e comprido, usado por advogados e por professores catedráticos e doutorados em ocasiões especiais.
2. Nefasto – nocivo, prejudicial, perverso, trágico, mau.
3. Espreitar – espiar, olhar demorada e fixamente.
4. Torpor – indiferença ou apatia moral; indolência, prostração.
5. Ópio – narcótico, droga que provoca adormecimento.
De acordo com a reflexão de João Pereira Coutinho,
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