Foram encontradas 235 questões.
Chega-me do Japão, por essas correntes que atravessam o mundo mais depressa que
qualquer vírus que já estudei, a notícia de que o psicólogo Hideki Wada escreveu um livro
chamado "A parede dos 80 Anos" e vendeu, num sopro, meio milhão de exemplares. Caminha
para o milhão. O Japão inteiro, ao que parece, quer aprender a envelhecer. Como se já não
fossem experts no assunto.
[...] Fui ler as frases com a desconfiança profissional de quem sempre duvida de gurus. [...]
E eis que descubro que o best-seller japonês foi escrito, na verdade, pela minha avó em Ibiá, por
volta de 1958. Atualmente, contribui para a obra a avó da Joana, Maria Helena Andrés (1
anos) [...].
"Quanto mais você mastigar, mais ativos estarão seu cérebro e seu corpo". Minha avó dizia
isso à mesa, sem cobrar nada, enquanto o frango caipira esfriava no prato. "Tomar sol traz
felicidade" — descoberta que qualquer lagartixa do quintal da fazenda já havia patenteado.
"Continue caminhando" — em Ibiá não havia alternativa: caminhava-se para a escola, para a
missa, para a venda, para lugar nenhum, que era o destino mais frequentado da cidade.
O doutor Wada recomenda ainda: "Estar sozinho não é solidão; é passar o tempo em paz".
Isso, no interior de Minas, chama-se sentar no banco da praça ao entardecer. Não precisou de
livro. Precisou de banco.
[...] Tenho posto em prática o primeiro mandamento — continue caminhando — sob a
supervisão rigorosa do Sushi, meu cãozinho salsicha, personal trainer mais baixo e mais
implacável de que se tem notícia. Todo fim de tarde ele me olha com aqueles olhos de quem já
leu Hideki Wada no original e me arrasta para a rua. Caminhamos os dois, cada um no seu
ritmo, ele farejando o mundo, eu ruminando crônicas. O doutor Wada aprovaria: exercício, sol,
alegria e uma companhia que não discute política.
[...] Se algum dia eu chegar à tal parede dos 80, não pretendo escalá-la, nem derrubá-la.
Pretendo encostar nela como quem encosta no muro da infância ao entardecer, esperando o
vizinho aparecer do outro lado para uma prosa. Porque envelhecer, aprendi com o doutor Wada,
com minha avó de Ibiá, Vó Helena e com nosso presidente, não é bater na parede. É descobrir
que a parede, bem olhada, sempre foi janela.
STARLING, Carlos. Estado de Minas. 04/08/2026. Disponível em: https://www.em.com.br/colunistas/carlos-starling/2026/08/7473216-bem-viver-o-muro-dos-80-anos.html. Acesso em 12 set. 20
Provas
- SintaxeFrase, Oração e PeríodoOração SubordinadaSubordinadas Adverbial
- SintaxeConectivos
- Interpretação de TextosCoesão e Coerência
- Interpretação de TextosSubstituição/Reescritura de Texto
Chega-me do Japão, por essas correntes que atravessam o mundo mais depressa que
qualquer vírus que já estudei, a notícia de que o psicólogo Hideki Wada escreveu um livro
chamado "A parede dos 80 Anos" e vendeu, num sopro, meio milhão de exemplares. Caminha
para o milhão. O Japão inteiro, ao que parece, quer aprender a envelhecer. Como se já não
fossem experts no assunto.
[...] Fui ler as frases com a desconfiança profissional de quem sempre duvida de gurus. [...]
E eis que descubro que o best-seller japonês foi escrito, na verdade, pela minha avó em Ibiá, por
volta de 1958. Atualmente, contribui para a obra a avó da Joana, Maria Helena Andrés (1
anos) [...].
"Quanto mais você mastigar, mais ativos estarão seu cérebro e seu corpo". Minha avó dizia
isso à mesa, sem cobrar nada, enquanto o frango caipira esfriava no prato. "Tomar sol traz
felicidade" — descoberta que qualquer lagartixa do quintal da fazenda já havia patenteado.
"Continue caminhando" — em Ibiá não havia alternativa: caminhava-se para a escola, para a
missa, para a venda, para lugar nenhum, que era o destino mais frequentado da cidade.
O doutor Wada recomenda ainda: "Estar sozinho não é solidão; é passar o tempo em paz".
Isso, no interior de Minas, chama-se sentar no banco da praça ao entardecer. Não precisou de
livro. Precisou de banco.
[...] Tenho posto em prática o primeiro mandamento — continue caminhando — sob a
supervisão rigorosa do Sushi, meu cãozinho salsicha, personal trainer mais baixo e mais
implacável de que se tem notícia. Todo fim de tarde ele me olha com aqueles olhos de quem já
leu Hideki Wada no original e me arrasta para a rua. Caminhamos os dois, cada um no seu
ritmo, ele farejando o mundo, eu ruminando crônicas. O doutor Wada aprovaria: exercício, sol,
alegria e uma companhia que não discute política.
[...] Se algum dia eu chegar à tal parede dos 80, não pretendo escalá-la, nem derrubá-la.
Pretendo encostar nela como quem encosta no muro da infância ao entardecer, esperando o
vizinho aparecer do outro lado para uma prosa. Porque envelhecer, aprendi com o doutor Wada,
com minha avó de Ibiá, Vó Helena e com nosso presidente, não é bater na parede. É descobrir
que a parede, bem olhada, sempre foi janela.
STARLING, Carlos. Estado de Minas. 04/08/2026. Disponível em: https://www.em.com.br/colunistas/carlos-starling/2026/08/7473216-bem-viver-o-muro-dos-80-anos.html. Acesso em 12 set. 20
Provas
Chega-me do Japão, por essas correntes que atravessam o mundo mais depressa que
qualquer vírus que já estudei, a notícia de que o psicólogo Hideki Wada escreveu um livro
chamado "A parede dos 80 Anos" e vendeu, num sopro, meio milhão de exemplares. Caminha
para o milhão. O Japão inteiro, ao que parece, quer aprender a envelhecer. Como se já não
fossem experts no assunto.
[...] Fui ler as frases com a desconfiança profissional de quem sempre duvida de gurus. [...]
E eis que descubro que o best-seller japonês foi escrito, na verdade, pela minha avó em Ibiá, por
volta de 1958. Atualmente, contribui para a obra a avó da Joana, Maria Helena Andrés (1
anos) [...].
"Quanto mais você mastigar, mais ativos estarão seu cérebro e seu corpo". Minha avó dizia
isso à mesa, sem cobrar nada, enquanto o frango caipira esfriava no prato. "Tomar sol traz
felicidade" — descoberta que qualquer lagartixa do quintal da fazenda já havia patenteado.
"Continue caminhando" — em Ibiá não havia alternativa: caminhava-se para a escola, para a
missa, para a venda, para lugar nenhum, que era o destino mais frequentado da cidade.
O doutor Wada recomenda ainda: "Estar sozinho não é solidão; é passar o tempo em paz".
Isso, no interior de Minas, chama-se sentar no banco da praça ao entardecer. Não precisou de
livro. Precisou de banco.
[...] Tenho posto em prática o primeiro mandamento — continue caminhando — sob a
supervisão rigorosa do Sushi, meu cãozinho salsicha, personal trainer mais baixo e mais
implacável de que se tem notícia. Todo fim de tarde ele me olha com aqueles olhos de quem já
leu Hideki Wada no original e me arrasta para a rua. Caminhamos os dois, cada um no seu
ritmo, ele farejando o mundo, eu ruminando crônicas. O doutor Wada aprovaria: exercício, sol,
alegria e uma companhia que não discute política.
[...] Se algum dia eu chegar à tal parede dos 80, não pretendo escalá-la, nem derrubá-la.
Pretendo encostar nela como quem encosta no muro da infância ao entardecer, esperando o
vizinho aparecer do outro lado para uma prosa. Porque envelhecer, aprendi com o doutor Wada,
com minha avó de Ibiá, Vó Helena e com nosso presidente, não é bater na parede. É descobrir
que a parede, bem olhada, sempre foi janela.
STARLING, Carlos. Estado de Minas. 04/08/2026. Disponível em: https://www.em.com.br/colunistas/carlos-starling/2026/08/7473216-bem-viver-o-muro-dos-80-anos.html. Acesso em 12 set. 20
Provas
Chega-me do Japão, por essas correntes que atravessam o mundo mais depressa que
qualquer vírus que já estudei, a notícia de que o psicólogo Hideki Wada escreveu um livro
chamado "A parede dos 80 Anos" e vendeu, num sopro, meio milhão de exemplares. Caminha
para o milhão. O Japão inteiro, ao que parece, quer aprender a envelhecer. Como se já não
fossem experts no assunto.
[...] Fui ler as frases com a desconfiança profissional de quem sempre duvida de gurus. [...]
E eis que descubro que o best-seller japonês foi escrito, na verdade, pela minha avó em Ibiá, por
volta de 1958. Atualmente, contribui para a obra a avó da Joana, Maria Helena Andrés (1
anos) [...].
"Quanto mais você mastigar, mais ativos estarão seu cérebro e seu corpo". Minha avó dizia
isso à mesa, sem cobrar nada, enquanto o frango caipira esfriava no prato. "Tomar sol traz
felicidade" — descoberta que qualquer lagartixa do quintal da fazenda já havia patenteado.
"Continue caminhando" — em Ibiá não havia alternativa: caminhava-se para a escola, para a
missa, para a venda, para lugar nenhum, que era o destino mais frequentado da cidade.
O doutor Wada recomenda ainda: "Estar sozinho não é solidão; é passar o tempo em paz".
Isso, no interior de Minas, chama-se sentar no banco da praça ao entardecer. Não precisou de
livro. Precisou de banco.
[...] Tenho posto em prática o primeiro mandamento — continue caminhando — sob a
supervisão rigorosa do Sushi, meu cãozinho salsicha, personal trainer mais baixo e mais
implacável de que se tem notícia. Todo fim de tarde ele me olha com aqueles olhos de quem já
leu Hideki Wada no original e me arrasta para a rua. Caminhamos os dois, cada um no seu
ritmo, ele farejando o mundo, eu ruminando crônicas. O doutor Wada aprovaria: exercício, sol,
alegria e uma companhia que não discute política.
[...] Se algum dia eu chegar à tal parede dos 80, não pretendo escalá-la, nem derrubá-la.
Pretendo encostar nela como quem encosta no muro da infância ao entardecer, esperando o
vizinho aparecer do outro lado para uma prosa. Porque envelhecer, aprendi com o doutor Wada,
com minha avó de Ibiá, Vó Helena e com nosso presidente, não é bater na parede. É descobrir
que a parede, bem olhada, sempre foi janela.
STARLING, Carlos. Estado de Minas. 04/08/2026. Disponível em: https://www.em.com.br/colunistas/carlos-starling/2026/08/7473216-bem-viver-o-muro-dos-80-anos.html. Acesso em 12 set. 20
Provas
Chega-me do Japão, por essas correntes que atravessam o mundo mais depressa que
qualquer vírus que já estudei, a notícia de que o psicólogo Hideki Wada escreveu um livro
chamado "A parede dos 80 Anos" e vendeu, num sopro, meio milhão de exemplares. Caminha
para o milhão. O Japão inteiro, ao que parece, quer aprender a envelhecer. Como se já não
fossem experts no assunto.
[...] Fui ler as frases com a desconfiança profissional de quem sempre duvida de gurus. [...]
E eis que descubro que o best-seller japonês foi escrito, na verdade, pela minha avó em Ibiá, por
volta de 1958. Atualmente, contribui para a obra a avó da Joana, Maria Helena Andrés (1
anos) [...].
"Quanto mais você mastigar, mais ativos estarão seu cérebro e seu corpo". Minha avó dizia
isso à mesa, sem cobrar nada, enquanto o frango caipira esfriava no prato. "Tomar sol traz
felicidade" — descoberta que qualquer lagartixa do quintal da fazenda já havia patenteado.
"Continue caminhando" — em Ibiá não havia alternativa: caminhava-se para a escola, para a
missa, para a venda, para lugar nenhum, que era o destino mais frequentado da cidade.
O doutor Wada recomenda ainda: "Estar sozinho não é solidão; é passar o tempo em paz".
Isso, no interior de Minas, chama-se sentar no banco da praça ao entardecer. Não precisou de
livro. Precisou de banco.
[...] Tenho posto em prática o primeiro mandamento — continue caminhando — sob a
supervisão rigorosa do Sushi, meu cãozinho salsicha, personal trainer mais baixo e mais
implacável de que se tem notícia. Todo fim de tarde ele me olha com aqueles olhos de quem já
leu Hideki Wada no original e me arrasta para a rua. Caminhamos os dois, cada um no seu
ritmo, ele farejando o mundo, eu ruminando crônicas. O doutor Wada aprovaria: exercício, sol,
alegria e uma companhia que não discute política.
[...] Se algum dia eu chegar à tal parede dos 80, não pretendo escalá-la, nem derrubá-la.
Pretendo encostar nela como quem encosta no muro da infância ao entardecer, esperando o
vizinho aparecer do outro lado para uma prosa. Porque envelhecer, aprendi com o doutor Wada,
com minha avó de Ibiá, Vó Helena e com nosso presidente, não é bater na parede. É descobrir
que a parede, bem olhada, sempre foi janela.
STARLING, Carlos. Estado de Minas. 04/08/2026. Disponível em: https://www.em.com.br/colunistas/carlos-starling/2026/08/7473216-bem-viver-o-muro-dos-80-anos.html. Acesso em 12 set. 20
Provas
Durante toda a minha vida recebi apenas amor condicional. Desde criança, para me sentir
amada, intuía que precisava “brilhar”. Não sei por qual razão, ou talvez até saiba, nunca me
pareceu que seria amada por ser exatamente quem eu era e, por isso, não media esforços para
superar as expectativas que as pessoas tinham sobre mim. Eu simplesmente não suportava ver
alguém dos meus precisando de algo que eu, ainda que não fosse solicitada, já estava a postos
para oferecer ajuda. De ouvido amigo à pintura de apartamento ou faxina, eu sempre estava
lá. A princípio eu não sabia, mas esse era o meu jeito de me fazer presente e, quem sabe, de
também me sentir amada.
Demorei muitos anos para notar o detalhe mais relevante dessa história que narro: ninguém
pedia. Eu sempre chegava antes do pedido, me antecipando e me fazendo imprescindível ou,
pelo menos, eu acreditava nisso. Foi lendo o livro 'O Ser e o Nada', de Sartre, que notei que eu
era como o garçom que o filósofo descreve no livro.
Sartre narra que, ao observar um garçom em um café parisiense, notou que seus gestos
eram precisos demais: o passo era um pouco apressado, a bandeja era equilibrada com o que o
autor chamou de virtuosismo desnecessário, e a voz solícita demais ao anotar o pedido.
Olhando para a cena, o filósofo se perguntou, afinal, o que aquele homem estava fazendo e
conclui que ele estava brincando de ser garçom. Ele estava representando para si mesmo e para
os demais o garçom ideal, num papel que precisa ser encenado o tempo inteiro, com zelo e com
sobra. Naquele caso, percebeu Sartre, o exagero era a prova de que se tratava de uma atuação.
Me identifiquei nessa narrativa de um modo desconcertante. O meu excesso era o mesmo
do garçom: chegar antes do pedido, antecipar a necessidade, estar a postos sem ser chamada,
nada disso é exigência de quem ajuda, mas sim de quem representa. O ajudar genuíno admite
pausa, ausência e até mesmo dizer não de vez em quando. Mas quem está atuando não pode se
recusar nunca, pois o papel precisa ser reafirmado diariamente diante do olhar dos outros,
senão desmancha. A conclusão, de todo amarga, era que eu não estava apenas ajudando os
meus, mas provando que eu era útil, para eles e para mim. Hoje não quero mais ser amada por
ser útil. Quero ser amada por quem eu sou [...].
CARDOSO, Juraciara Vieira. A vida útil. Estado de Minas. 20/07/2026. Disponível em: https://www.em.com.br/colunistas/vitalidade/2026/07/7463360-a-vida-util.html. Acesso em 12 set. 2026.
Provas
Durante toda a minha vida recebi apenas amor condicional. Desde criança, para me sentir
amada, intuía que precisava “brilhar”. Não sei por qual razão, ou talvez até saiba, nunca me
pareceu que seria amada por ser exatamente quem eu era e, por isso, não media esforços para
superar as expectativas que as pessoas tinham sobre mim. Eu simplesmente não suportava ver
alguém dos meus precisando de algo que eu, ainda que não fosse solicitada, já estava a postos
para oferecer ajuda. De ouvido amigo à pintura de apartamento ou faxina, eu sempre estava
lá. A princípio eu não sabia, mas esse era o meu jeito de me fazer presente e, quem sabe, de
também me sentir amada.
Demorei muitos anos para notar o detalhe mais relevante dessa história que narro: ninguém
pedia. Eu sempre chegava antes do pedido, me antecipando e me fazendo imprescindível ou,
pelo menos, eu acreditava nisso. Foi lendo o livro 'O Ser e o Nada', de Sartre, que notei que eu
era como o garçom que o filósofo descreve no livro.
Sartre narra que, ao observar um garçom em um café parisiense, notou que seus gestos
eram precisos demais: o passo era um pouco apressado, a bandeja era equilibrada com o que o
autor chamou de virtuosismo desnecessário, e a voz solícita demais ao anotar o pedido.
Olhando para a cena, o filósofo se perguntou, afinal, o que aquele homem estava fazendo e
conclui que ele estava brincando de ser garçom. Ele estava representando para si mesmo e para
os demais o garçom ideal, num papel que precisa ser encenado o tempo inteiro, com zelo e com
sobra. Naquele caso, percebeu Sartre, o exagero era a prova de que se tratava de uma atuação.
Me identifiquei nessa narrativa de um modo desconcertante. O meu excesso era o mesmo
do garçom: chegar antes do pedido, antecipar a necessidade, estar a postos sem ser chamada,
nada disso é exigência de quem ajuda, mas sim de quem representa. O ajudar genuíno admite
pausa, ausência e até mesmo dizer não de vez em quando. Mas quem está atuando não pode se
recusar nunca, pois o papel precisa ser reafirmado diariamente diante do olhar dos outros,
senão desmancha. A conclusão, de todo amarga, era que eu não estava apenas ajudando os
meus, mas provando que eu era útil, para eles e para mim. Hoje não quero mais ser amada por
ser útil. Quero ser amada por quem eu sou [...].
CARDOSO, Juraciara Vieira. A vida útil. Estado de Minas. 20/07/2026. Disponível em: https://www.em.com.br/colunistas/vitalidade/2026/07/7463360-a-vida-util.html. Acesso em 12 set. 2026.
Provas
Durante toda a minha vida recebi apenas amor condicional. Desde criança, para me sentir
amada, intuía que precisava “brilhar”. Não sei por qual razão, ou talvez até saiba, nunca me
pareceu que seria amada por ser exatamente quem eu era e, por isso, não media esforços para
superar as expectativas que as pessoas tinham sobre mim. Eu simplesmente não suportava ver
alguém dos meus precisando de algo que eu, ainda que não fosse solicitada, já estava a postos
para oferecer ajuda. De ouvido amigo à pintura de apartamento ou faxina, eu sempre estava
lá. A princípio eu não sabia, mas esse era o meu jeito de me fazer presente e, quem sabe, de
também me sentir amada.
Demorei muitos anos para notar o detalhe mais relevante dessa história que narro: ninguém
pedia. Eu sempre chegava antes do pedido, me antecipando e me fazendo imprescindível ou,
pelo menos, eu acreditava nisso. Foi lendo o livro 'O Ser e o Nada', de Sartre, que notei que eu
era como o garçom que o filósofo descreve no livro.
Sartre narra que, ao observar um garçom em um café parisiense, notou que seus gestos
eram precisos demais: o passo era um pouco apressado, a bandeja era equilibrada com o que o
autor chamou de virtuosismo desnecessário, e a voz solícita demais ao anotar o pedido.
Olhando para a cena, o filósofo se perguntou, afinal, o que aquele homem estava fazendo e
conclui que ele estava brincando de ser garçom. Ele estava representando para si mesmo e para
os demais o garçom ideal, num papel que precisa ser encenado o tempo inteiro, com zelo e com
sobra. Naquele caso, percebeu Sartre, o exagero era a prova de que se tratava de uma atuação.
Me identifiquei nessa narrativa de um modo desconcertante. O meu excesso era o mesmo
do garçom: chegar antes do pedido, antecipar a necessidade, estar a postos sem ser chamada,
nada disso é exigência de quem ajuda, mas sim de quem representa. O ajudar genuíno admite
pausa, ausência e até mesmo dizer não de vez em quando. Mas quem está atuando não pode se
recusar nunca, pois o papel precisa ser reafirmado diariamente diante do olhar dos outros,
senão desmancha. A conclusão, de todo amarga, era que eu não estava apenas ajudando os
meus, mas provando que eu era útil, para eles e para mim. Hoje não quero mais ser amada por
ser útil. Quero ser amada por quem eu sou [...].
CARDOSO, Juraciara Vieira. A vida útil. Estado de Minas. 20/07/2026. Disponível em: https://www.em.com.br/colunistas/vitalidade/2026/07/7463360-a-vida-util.html. Acesso em 12 set. 2026.
Provas
Durante toda a minha vida recebi apenas amor condicional. Desde criança, para me sentir
amada, intuía que precisava “brilhar”. Não sei por qual razão, ou talvez até saiba, nunca me
pareceu que seria amada por ser exatamente quem eu era e, por isso, não media esforços para
superar as expectativas que as pessoas tinham sobre mim. Eu simplesmente não suportava ver
alguém dos meus precisando de algo que eu, ainda que não fosse solicitada, já estava a postos
para oferecer ajuda. De ouvido amigo à pintura de apartamento ou faxina, eu sempre estava
lá. A princípio eu não sabia, mas esse era o meu jeito de me fazer presente e, quem sabe, de
também me sentir amada.
Demorei muitos anos para notar o detalhe mais relevante dessa história que narro: ninguém
pedia. Eu sempre chegava antes do pedido, me antecipando e me fazendo imprescindível ou,
pelo menos, eu acreditava nisso. Foi lendo o livro 'O Ser e o Nada', de Sartre, que notei que eu
era como o garçom que o filósofo descreve no livro.
Sartre narra que, ao observar um garçom em um café parisiense, notou que seus gestos
eram precisos demais: o passo era um pouco apressado, a bandeja era equilibrada com o que o
autor chamou de virtuosismo desnecessário, e a voz solícita demais ao anotar o pedido.
Olhando para a cena, o filósofo se perguntou, afinal, o que aquele homem estava fazendo e
conclui que ele estava brincando de ser garçom. Ele estava representando para si mesmo e para
os demais o garçom ideal, num papel que precisa ser encenado o tempo inteiro, com zelo e com
sobra. Naquele caso, percebeu Sartre, o exagero era a prova de que se tratava de uma atuação.
Me identifiquei nessa narrativa de um modo desconcertante. O meu excesso era o mesmo
do garçom: chegar antes do pedido, antecipar a necessidade, estar a postos sem ser chamada,
nada disso é exigência de quem ajuda, mas sim de quem representa. O ajudar genuíno admite
pausa, ausência e até mesmo dizer não de vez em quando. Mas quem está atuando não pode se
recusar nunca, pois o papel precisa ser reafirmado diariamente diante do olhar dos outros,
senão desmancha. A conclusão, de todo amarga, era que eu não estava apenas ajudando os
meus, mas provando que eu era útil, para eles e para mim. Hoje não quero mais ser amada por
ser útil. Quero ser amada por quem eu sou [...].
CARDOSO, Juraciara Vieira. A vida útil. Estado de Minas. 20/07/2026. Disponível em: https://www.em.com.br/colunistas/vitalidade/2026/07/7463360-a-vida-util.html. Acesso em 12 set. 2026.
Provas
Durante toda a minha vida recebi apenas amor condicional. Desde criança, para me sentir
amada, intuía que precisava “brilhar”. Não sei por qual razão, ou talvez até saiba, nunca me
pareceu que seria amada por ser exatamente quem eu era e, por isso, não media esforços para
superar as expectativas que as pessoas tinham sobre mim. Eu simplesmente não suportava ver
alguém dos meus precisando de algo que eu, ainda que não fosse solicitada, já estava a postos
para oferecer ajuda. De ouvido amigo à pintura de apartamento ou faxina, eu sempre estava
lá. A princípio eu não sabia, mas esse era o meu jeito de me fazer presente e, quem sabe, de
também me sentir amada.
Demorei muitos anos para notar o detalhe mais relevante dessa história que narro: ninguém
pedia. Eu sempre chegava antes do pedido, me antecipando e me fazendo imprescindível ou,
pelo menos, eu acreditava nisso. Foi lendo o livro 'O Ser e o Nada', de Sartre, que notei que eu
era como o garçom que o filósofo descreve no livro.
Sartre narra que, ao observar um garçom em um café parisiense, notou que seus gestos
eram precisos demais: o passo era um pouco apressado, a bandeja era equilibrada com o que o
autor chamou de virtuosismo desnecessário, e a voz solícita demais ao anotar o pedido.
Olhando para a cena, o filósofo se perguntou, afinal, o que aquele homem estava fazendo e
conclui que ele estava brincando de ser garçom. Ele estava representando para si mesmo e para
os demais o garçom ideal, num papel que precisa ser encenado o tempo inteiro, com zelo e com
sobra. Naquele caso, percebeu Sartre, o exagero era a prova de que se tratava de uma atuação.
Me identifiquei nessa narrativa de um modo desconcertante. O meu excesso era o mesmo
do garçom: chegar antes do pedido, antecipar a necessidade, estar a postos sem ser chamada,
nada disso é exigência de quem ajuda, mas sim de quem representa. O ajudar genuíno admite
pausa, ausência e até mesmo dizer não de vez em quando. Mas quem está atuando não pode se
recusar nunca, pois o papel precisa ser reafirmado diariamente diante do olhar dos outros,
senão desmancha. A conclusão, de todo amarga, era que eu não estava apenas ajudando os
meus, mas provando que eu era útil, para eles e para mim. Hoje não quero mais ser amada por
ser útil. Quero ser amada por quem eu sou [...].
CARDOSO, Juraciara Vieira. A vida útil. Estado de Minas. 20/07/2026. Disponível em: https://www.em.com.br/colunistas/vitalidade/2026/07/7463360-a-vida-util.html. Acesso em 12 set. 2026.
Provas
Caderno Container