Foram encontradas 5.048 questões.
Disciplina: Literatura Brasileira e Estrangeira
Banca: CESPE / CEBRASPE
Orgão: UnB
O emplasto
Um dia de manhã, estando a passear na chácara, pendurou-se-me uma ideia no trapézio que eu tinha no cérebro.
Uma vez pendurada, entrou a bracejar, a pernear, a fazer as mais arrojadas cambalhotas. Eu deixei-me estar a contemplá-la. Súbito, deu um grande salto, estendeu os braços e as pernas, até tomar a forma de um X: decifra-me ou devoro-te.
Essa ideia era nada menos que a invenção de um medicamento sublime, um emplasto anti-hipocondríaco, destinado a aliviar a nossa melancólica humanidade.
Na petição de privilégio que então redigi, chamei a atenção do governo para esse resultado, verdadeiramente cristão. Todavia, não neguei aos amigos as vantagens pecuniárias que deviam resultar da distribuição de um produto de tamanhos e tão profundos efeitos. Agora, porém, que estou cá do outro lado da vida, posso confessar tudo: o que me influiu principalmente foi o gosto de ver impressas nos jornais, mostradores, folhetos, esquinas e, enfim, nas caixinhas do remédio, estas três palavras: Emplasto Brás Cubas. Para que negá-lo? Eu tinha a paixão do arruído, do cartaz, do foguete de lágrimas. Talvez os modestos me arguam esse defeito; fio, porém, que esse talento me hão de reconhecer os hábeis. Assim, a minha ideia trazia duas faces, como as medalhas, uma virada para o público, outra para mim. De um lado, filantropia e lucro; de outro, sede de nomeada. Digamos: — amor da glória.
Um tio meu, cônego de prebenda inteira, costumava dizer que o amor da glória temporal era a perdição das almas, que só devem cobiçar a glória eterna. Ao que retorquia outro tio, oficial de um dos antigos terços de infantaria, que o amor da glória era a coisa mais verdadeiramente humana que há no homem e, consequentemente, a sua mais genuína feição.
Decida o leitor entre o militar e o cônego; eu volto ao emplasto.
Machado de Assis. Memórias póstumas de Brás Cubas. Obra completa, v. I. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1992, p. 514-5 (com adaptações).
Com relação ao texto acima, à obra Memórias Póstumas de Brás Cubas e a aspectos por eles suscitados, julgue o item e assinale a opção correta.
O compromisso do narrador com a verdade dos fatos, honestidade decorrente da vida além- túmulo, e o seu interesse pela ciência e pela filosofia aproximam a narrativa de Memórias Póstumas de Brás Cubas da forma de narrar do Naturalismo, ou seja, da descrição objetiva da realidade.
Provas
Disciplina: Literatura Brasileira e Estrangeira
Banca: CESPE / CEBRASPE
Orgão: UnB


Internet: <www.Illustration 34 of Divine Comedy 400x319:Inferno by Paul Gustave Doré>.
O artista francês Gustave Doré (1832-1883) ficou famoso pelas gravuras que ilustraram grandes clássicos da literatura mundial. Entre elas, incluem-se as que figuraram, em 1857, na obra O Inferno de Dante, trabalho que, pela qualidade das imagens, influenciou o cinema, a fotografia e as histórias em quadrinhos do século XX.
As obras de Sandow Birk (1962), artista contemporâneo norte-americano, privilegiam temas sociais e políticos, como violência urbana, prisões, grafites. Birk ilustrou a obra O Inferno de Dante, em 2005, com base nas ilustrações de Doré, que foram atualizadas com ícones do século XXI.
Tendo como referência essas informações e as das gravuras reproduzidas acima, julgue o item.
Verifica-se que, nas gravuras de Doré apresentadas, o artista mesclou elementos românticos com elementos realistas, em consonância com a maneira de enxergar, no século XIX, os tempos medievais e o Renascimento.
Provas
Disciplina: Literatura Brasileira e Estrangeira
Banca: CESPE / CEBRASPE
Orgão: UnB


Internet: <www.Illustration 34 of Divine Comedy 400x319:Inferno by Paul Gustave Doré>.
O artista francês Gustave Doré (1832-1883) ficou famoso pelas gravuras que ilustraram grandes clássicos da literatura mundial. Entre elas, incluem-se as que figuraram, em 1857, na obra O Inferno de Dante, trabalho que, pela qualidade das imagens, influenciou o cinema, a fotografia e as histórias em quadrinhos do século XX.
As obras de Sandow Birk (1962), artista contemporâneo norte-americano, privilegiam temas sociais e políticos, como violência urbana, prisões, grafites. Birk ilustrou a obra O Inferno de Dante, em 2005, com base nas ilustrações de Doré, que foram atualizadas com ícones do século XXI.
Tendo como referência essas informações e as das gravuras reproduzidas acima, julgue o item.
As formas idealizadas por Doré, tanto as humanas quanto as dos demônios, assemelham-se, em suas proporções, ao modelo dos corpos dos super-heróis das histórias em quadrinhos do século XX.
Provas
Disciplina: Literatura Brasileira e Estrangeira
Banca: CESPE / CEBRASPE
Orgão: UnB


Internet: <www.Illustration 34 of Divine Comedy 400x319:Inferno by Paul Gustave Doré>.
O artista francês Gustave Doré (1832-1883) ficou famoso pelas gravuras que ilustraram grandes clássicos da literatura mundial. Entre elas, incluem-se as que figuraram, em 1857, na obra O Inferno de Dante, trabalho que, pela qualidade das imagens, influenciou o cinema, a fotografia e as histórias em quadrinhos do século XX.
As obras de Sandow Birk (1962), artista contemporâneo norte-americano, privilegiam temas sociais e políticos, como violência urbana, prisões, grafites. Birk ilustrou a obra O Inferno de Dante, em 2005, com base nas ilustrações de Doré, que foram atualizadas com ícones do século XXI.
Tendo como referência essas informações e as das gravuras reproduzidas acima, julgue o item.
A utilização por Birk, na contemporaneidade, da imagem de Lúcifer, de autoria de Doré, atesta que a tradição artística, nesse caso, não é mera reprodução de modelos do passado.
Provas
Disciplina: Literatura Brasileira e Estrangeira
Banca: CESPE / CEBRASPE
Orgão: UnB


Internet: <www.Illustration 34 of Divine Comedy 400x319:Inferno by Paul Gustave Doré>.
O artista francês Gustave Doré (1832-1883) ficou famoso pelas gravuras que ilustraram grandes clássicos da literatura mundial. Entre elas, incluem-se as que figuraram, em 1857, na obra O Inferno de Dante, trabalho que, pela qualidade das imagens, influenciou o cinema, a fotografia e as histórias em quadrinhos do século XX.
As obras de Sandow Birk (1962), artista contemporâneo norte-americano, privilegiam temas sociais e políticos, como violência urbana, prisões, grafites. Birk ilustrou a obra O Inferno de Dante, em 2005, com base nas ilustrações de Doré, que foram atualizadas com ícones do século XXI.
Tendo como referência essas informações e as das gravuras reproduzidas acima, julgue o item.
Ao comparar as obras apresentadas, conclui-se que, em relação à época da produção artística de Doré, a obra de Birk revela transformações econômicas e sociais resultantes do processo de industrialização.
Provas
Disciplina: Literatura Brasileira e Estrangeira
Banca: CESPE / CEBRASPE
Orgão: UnB
Preste atenção por favor
na história que vou contar
ela explica o que é cordel
grande manifestação popular.
Paulo Araújo. Internet: <www.bibceuguarapiranga.blogs.com>.
Manifestação popular caracterizada por poesias escritas em folhetos, a literatura de cordel originou-se na Europa em meados do século XII. Em Portugal, escritores amadores usavam cordões para pendurarem e divulgarem suas produções em lugares públicos. Com a vinda dos portugueses ao Brasil, a tradição de contar histórias disseminou-se pela região Nordeste, tornando-se um dos símbolos da cultura e memória nordestina.
No início, como a maioria das pessoas não sabia ler e escrever, as poesias eram apenas decoradas e recitadas em feiras e praças. Mais tarde, passaram a ser impressas em folhetos, cujas capas eram ilustradas em xilogravura, e afirmaram-se como manifestação artística e popular nas décadas 60 e 70 do século passado.
A importância do cordel não se limita à literatura. O cordel se expande como registro histórico da cultura nordestina, reverberando nas manifestações artísticas, tais como teatro, dança, cinema, música e artes visuais.

Tendo como referências iniciais o texto e as figuras acima, julgue o item.
Forma poética rica em situações dramatúrgicas e linguagem imagética, a literatura de cordel, além de influenciar outras manifestações artísticas, presta-se facilmente a adaptações para teatro, cinema e televisão.
Provas
Texto 2
Antes de Rosa ser Rosa
Esse é o título de uma matéria publicada na seção “Mente Aberta”, da revista Época, de 29 de agosto de 2011, sobre Guimarães Rosa, mais especificamente sobre a obra Antes das Primeiras Histórias. A obra reúne quatro contos de horror, fantasia e suspense publicados em revistas, de 1929 a 1930. Em 1946, o escritor mineiro publica Sagarana, considerada sua primeira grande obra.
O título da matéria — Antes de Rosa ser Rosa — é muito curioso. Abaixo são feitas algumas afirmações sobre ele. Marque com V o que for verdadeiro e com F o que for falso.
( ) Faz referência a um pseudônimo que Guimarães Rosa usava no início de sua vida literária.
( ) Sugere que Guimarães Rosa tinha um outro sobrenome.
( ) Aponta para duas fases diferentes na obra de Guimarães Rosa.
( ) Pode ser traduzido pela seguinte frase: Guimarães Rosa antes de ser famoso, antes de ser considerado um grande escritor.
( ) Permite-nos inferir que a obra de Guimarães Rosa recém-publicada não tem a mesma dimensão das outras.
( ) Deve-se considerar o segundo Rosa como um elemento que recategoriza (modifica o primeiro Rosa, acrescentando-lhe algum atributo). Esse trabalho de recategorização se realiza cognitivamente, sem deixar marcas linguísticas.
Está correta, de cima para baixo, a sequência seguinte:
Provas
Texto 1
Um novo A B C
Aquela velha carta de A B C dava arrepios. Três faixas verticais borravam a capa, duras, antipáticas; e, fugindo a elas, encontrávamos num papel de embrulho o alfabeto, sílabas, frases soltas e afinal máximas sisudas.
Suportávamos esses horrores como um castigo e inutilizávamos as folhas percorridas, esperando sempre que as coisas melhorassem. Engano: as letras eram pequeninas e feias; o exercício da soletração, cantado, embrutecia a gente; os provérbios, os graves conselhos morais ficavam impenetráveis, apesar dos esforços dos mestres arreliados, dos puxavantes de orelhas e da palmatória.
“A preguiça é a chave da pobreza”, afirmava-se ali. Que espécie de chave seria aquela? Aos seis anos, eu e os meus companheiros de infelicidade escolar, quase todos pobres, não conhecíamos a pobreza pelo nome e tínhamos poucas chaves, de gavetas, de armários e de portas. Chave de pobreza para uma criança de seis anos é terrível.
Nessa medonha carta, que rasgávamos com prazer, salvam-se algumas linhas. “Paulina mastigou pimenta.” Bem. Conhecíamos pimenta e achávamos natural que a língua de Paulina estivesse ardendo. Mas que teria acontecido depois? Essa história contada em três palavras não nos satisfazia, precisávamos saber mais alguma coisa a respeito da aventura de Paulina.
O que ofereciam, porém, à nossa curiosidade infantil eram conceitos idiotas: “Fala pouco e bem: ter-te-ão por alguém”. Ter-te-ão! Esse Terteão para mim era um homem, e nunca pude compreender o que ele fazia na última página do odioso folheto. Éramos realmente uns pirralhos bastante desgraçados.
Marques Rebelo enviou-me há dias um A B C novo. Recebendo-o, lembrei-me com amargura da chave da pobreza e do Terteão, que ainda circulam no interior.
A capa da brochura que hoje me aparece tem uns balões — e logo aí o futuro cidadão aprende algumas letras. Na primeira folha, em tabuleiros de xadrez de casas brancas e vermelhas, procurou-se a melhor maneira de impingir aos inocentes essa coisa desagradável que é o alfabeto. O resto do livro encerra pedaços de vida de um casal de crianças. João e Maria regam flores, bebem leite, brincam na praia, jogam bola, passeiam em bicicleta, nadam, apanham legumes, vão ao Jardim Zoológico.
Tudo isso é dito em poucas palavras, como na história de Paulina, que mastigava pimentas na velha carta de A B C. Mas enquanto ali o caso se narrava com letras miúdas e safadas, em papel de embrulho, aqui as brincadeiras e as ocupações das personagens se contam em bonitas legendas e principalmente em desenhos cheios de pormenores que a narração curta não poderia conter.
(............................................................) Abril, 1938.
(Graciliano Ramos. Linhas tortas. Obra póstuma. p.174-175.)
Assinale V ou F, conforme se afirme abaixo algo verdadeiro ou falso sobre Graciliano Ramos.
( ) Para alguns críticos foi o maior nome do chamado Romance de 30.
( ) Foi da mesma geração literária de Rachel de Queiroz, Jorge Amado e José Lins do Rego.
( ) Suas obras apresentam um estilo muito parecido com o estilo de Jorge Amado.
( ) É mais conhecido como romancista. São dele as obras Vidas secas, São Bernardo e Angústia, dentre outras.
( ) Sua obra é caracterizada, principalmente, pelo chamado realismo crítico.
( ) Outras características de sua obra podem ser apontadas: adjetivação contida, sintaxe clássica, frase enxuta e em ordem direta.
Está correta, de cima para baixo, a sequência
Provas
Tempo Incerto
Os homens têm complicado tanto o mecanismo da vida que já ninguém tem certeza de nada: para se fazer alguma coisa é preciso aliar a um impulso de aventura grandes sombras de dúvida. Não se acredita mais nem na existência de gente honesta; e os bons têm medo de exercitarem sua bondade, para não serem tratados de hipócritas ou de ingênuos.
Chegamos a um ponto em que a virtude é ridícula e os mais vis sentimentos se mascaram de grandiosidade, simpatia, benevolência. A observação do presente leva-nos até a descer dos exemplos do passado: os varões ilustres de outras eras terão sido realmente ilustres? Ou a História nos está contando as coisas ao contrário, pagando com dinheiros dos testamentos a opinião dos escribas?
Se prestarmos atenção ao que nos dizem sobre as coisas que nós mesmos presenciamos — ou temos que aceitar a mentira como a arte mais desenvolvida do nosso tempo, ou desconfiaremos do nosso próprio testemunho, e acabamos no hospício!
Pois assim é, meus senhores! Prestai atenção às coisas que vos contam, em família, na rua, nos cafés, em várias letras de forma, e dizei-me se não estão incertos os tempos e se não devemos todos andar de pulga atrás da orelha! A minha esperança estava no fim do mundo, com anjos descendo do céu; anjos suaves e anjos terríveis; os suaves para conduzirem os que se sentarão à direita de Deus, e os terríveis para os que se dirigem ao lado oposto. Mas até o fim do mundo falhou; até os profetas se enganam, a menos que as rezas dos justos tenham podido adiar a catástrofe que, afinal, seria também uma apoteose. E assim continuaremos a quebrar a cabeça com estes enigmas cotidianos. No tempo de Molière, quando um criado dava para pensar, atrapalhava tudo. Mas agora, além dos criados, pensam os patrões, as patroas, os amigos e inimigos de uns e de outros e todo o resto da massa humana. E não só pensam, como também pensam que pensam! E além de pensarem que pensam, pensam que têm razão! E cada um é o detentor exclusivo da razão!
Pois de tal abundância de razão é que se faz a loucura. Os pedestres pensam que devem andar pelo meio da rua. Os motoristas pensam que devem pôr os veículos nas calçadas. Até os bondes, que mereciam a minha confiança, deram para sair dos trilhos. Os analfabetos, que deviam aprender, ensinam! Os ladrões vestem-se de policiais, e saem por aí a prender os inocentes! Os revólveres, que eram considerados armas perigosas, e para os quais se olhava a distância, como quem contempla a Revolução Francesa ou a Guerra do Paraguai — pois os revólveres andam agora em todos os bolsos, como troco miúdo. E a vocação das pessoas, hoje em dia, não é para o diálogo com ou sem palavras, mas para balas de diversos calibres. Perto disso, a carestia da vida é um ramo de flores. O que anda mesmo caro é a alma. E o Demônio passeia pelo mundo, glorioso e impune.
(Cecília Meireles. In: Escolha o seu sonho. p. 48-49.)
Considere o seguinte excerto retirado de uma entrevista concedida por Cecília Meireles, na qual ela responde a uma pergunta da entrevistadora sobre o binômio expressão poética/forma: ―[...] desde 1920, com o chamado modernismo, o interesse voltou-se para a expressão, livre da forma. O movimento dessa alternativa é conhecido: o excesso de interesse pela forma pode chegar a inutilizar a expressão e vice-versa. Todos sabem que um poema perfeito é o que apresenta forma e expressão num ajustamento exato. Não sei se as condições atuais do mundo permitem esse equilíbrio, porque serão raros os poetas tão em estado de vivência puramente poética, livres do atordoamento do tempo, que consigam fazer do grito música. [...] Porque afinal se sente que o grito é o grito; e a poesia já é o grito (com toda a sua força) mas transfigurado‖. Considerando o que diz e/ou sugere o texto e, considerando ainda as associações que podem ser feitas entre o texto e os estudos literários, atente para as seguintes afirmações:
I. Para a autora, a poesia independe do contexto histórico em que é produzida.
II. Infere-se, pelo último enunciado, que a realidade e a literatura são coisas diferentes. A poesia é a recriação da realidade pela palavra.
III. O Parnasianismo levado às últimas consequências se contrapõe à concepção de poesia da autora.
Está correto o que se afirma em
Provas
Tempo Incerto
Os homens têm complicado tanto o mecanismo da vida que já ninguém tem certeza de nada: para se fazer alguma coisa é preciso aliar a um impulso de aventura grandes sombras de dúvida. Não se acredita mais nem na existência de gente honesta; e os bons têm medo de exercitarem sua bondade, para não serem tratados de hipócritas ou de ingênuos.
Chegamos a um ponto em que a virtude é ridícula e os mais vis sentimentos se mascaram de grandiosidade, simpatia, benevolência. A observação do presente leva-nos até a descer dos exemplos do passado: os varões ilustres de outras eras terão sido realmente ilustres? Ou a História nos está contando as coisas ao contrário, pagando com dinheiros dos testamentos a opinião dos escribas?
Se prestarmos atenção ao que nos dizem sobre as coisas que nós mesmos presenciamos — ou temos que aceitar a mentira como a arte mais desenvolvida do nosso tempo, ou desconfiaremos do nosso próprio testemunho, e acabamos no hospício!
Pois assim é, meus senhores! Prestai atenção às coisas que vos contam, em família, na rua, nos cafés, em várias letras de forma, e dizei-me se não estão incertos os tempos e se não devemos todos andar de pulga atrás da orelha! A minha esperança estava no fim do mundo, com anjos descendo do céu; anjos suaves e anjos terríveis; os suaves para conduzirem os que se sentarão à direita de Deus, e os terríveis para os que se dirigem ao lado oposto. Mas até o fim do mundo falhou; até os profetas se enganam, a menos que as rezas dos justos tenham podido adiar a catástrofe que, afinal, seria também uma apoteose. E assim continuaremos a quebrar a cabeça com estes enigmas cotidianos. No tempo de Molière, quando um criado dava para pensar, atrapalhava tudo. Mas agora, além dos criados, pensam os patrões, as patroas, os amigos e inimigos de uns e de outros e todo o resto da massa humana. E não só pensam, como também pensam que pensam! E além de pensarem que pensam, pensam que têm razão! E cada um é o detentor exclusivo da razão!
Pois de tal abundância de razão é que se faz a loucura. Os pedestres pensam que devem andar pelo meio da rua. Os motoristas pensam que devem pôr os veículos nas calçadas. Até os bondes, que mereciam a minha confiança, deram para sair dos trilhos. Os analfabetos, que deviam aprender, ensinam! Os ladrões vestem-se de policiais, e saem por aí a prender os inocentes! Os revólveres, que eram considerados armas perigosas, e para os quais se olhava a distância, como quem contempla a Revolução Francesa ou a Guerra do Paraguai — pois os revólveres andam agora em todos os bolsos, como troco miúdo. E a vocação das pessoas, hoje em dia, não é para o diálogo com ou sem palavras, mas para balas de diversos calibres. Perto disso, a carestia da vida é um ramo de flores. O que anda mesmo caro é a alma. E o Demônio passeia pelo mundo, glorioso e impune.
(Cecília Meireles. In: Escolha o seu sonho. p. 48-49.)
Tomando por base o enunciado destacado, analise as afirmações a seguir:
I. O jogo entre formas verbais quebra a correlação esperada entre os tempos verbais.
II. Pode-se justificar essa passagem estilisticamente: o locutor parte de uma situação provável, de uma incerteza, para uma situação de certeza.
III. A conjunção aditiva e liga duas orações coordenadas, mas pode-se dela "extrair um conteúdo suplementar" (Bechara). No caso do excerto acima, um conteúdo de consequência.
Está correto o que se afirma em
Provas
Caderno Container