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Farofa, a comida mestiça que está na mesa dos pobres e dos
ricos
Eu vou saudar a farofa! Ela nunca exige protagonismo. Está
ali, na beirada do prato, como quem não quer chamar atenção,
mas, silenciosamente, sustenta toda a estrutura da refeição. Tire
a farofa da mesa e logo surge um desconforto, uma ausência que
ninguém consegue nomear, mas todos sentem. Ela tem a
estranha virtude dos coadjuvantes indispensáveis.
As raízes da farofa estão na mandioca, planta domesticada
pelos povos originários muito antes de qualquer europeu sonhar
em atravessar oceanos. A farinha de mandioca, assim, se tornou
não só base alimentar, mas também uma herança cultural. E sim,
já existia ali uma espécie de farofa — farinha tostada na gordura
da caça, enriquecida com pedaços de peixe, raízes, frutas ou
ervas locais.
Depois veio o choque da colonização. Junto dele, a
presença forçada dos africanos, sequestrados de suas terras, que
trouxeram para a cozinha brasileira um repertório de técnicas e
sabores que mudou tudo. Na mistura ameríndia, entraram as
gorduras generosas, os miúdos, as carnes defumadas, as cebolas
dourando, o dendê, as especiarias. A cozinha virou espaço de
resistência, de criação, de memória e de reinvenção.
Sérgio Buarque fala que as famílias do interior colonial
torravam todos os dias sua mandioca. Era uma “fineza da terra”,
uma sofisticação em meio agreste e rude. Ela viaja no alforje
bandeirante e acompanha a lida do gado. Sobrevive a viagens.
Misturada ao charque, alimenta a colônia.
Os portugueses, sempre pragmáticos, se adaptaram. Sem
trigo para o pão, adotaram a farinha de mandioca como
substituto. Trouxeram carnes curadas, embutidos, métodos de
charcutaria, e acrescentaram novas camadas a esse prato que
nunca se apresenta como prato.
O curioso é que, apesar de carregar toda essa história, a
farofa nunca pede palco. Está ali para servir, para acompanhar,
para dar sentido ao conjunto. Ninguém recebe apenas com um
prato de farofa, mas fica uma lacuna se ela desaparecer.
E há, talvez, algo de profundamente brasileiro nisso. A
farofa é, por definição, a comida mestiça, da adaptação, da
criatividade. É improviso! É nacional e local. Sai do solo como
mandioca/macaxeira/aipim. Torna-se uma “poupança
enterrada” que pode ser sacada quando necessária. Diferente de
uma fruta que amadurece e exige ser colhida imediatamente, a
raiz da mandioca dorme, engrossa e anuncia que aguardará
semanas, meses, anos até ser resgatada e saciar fome.
Geógrafos deterministas dizem que milho e arroz geram
Estado e burocracia. A mandioca é mais libertadora de estruturas
políticas complexas.
Ela está na mesa do pobre e do rico. No almoço apressado
da obra, surge da farinha tostada com um pouco de sal e
gordura. No restaurante estrelado, esconde-se sob a alcunha de
“farofa de panko com manteiga trufada e castanhas”. Ela circula
com a mesma desenvoltura no churrasco de esquina e no brunch
gourmet. Pode ser feita com ovo (adoro!), banana, bacon,
torresmo, cebola, carne-seca, cogumelo, amêndoas ou até
daquela última bolacha esquecida no fundo do armário. O século
dezenove adorava com banha de porco, mas incorpora bem a
manteiga e o azeite de oliva. Metamorfose absoluta: aumenta o que é pouco, engrossa o que é ralo e esfria o que é quente. É um
signo aberto em plena mesa.
A farinha funciona com o luxo e com a escassez. A farofa
não julga. Ela aceita o que há. Vive do que sobra. Sobrevive do
que se oferece. E, ainda assim, nunca é menos. Ela contraria o
zelo nutricional. Você pegou arroz e batatas? Nada como uma
farofinha por cima para unir de forma harmoniosa a cota de
carboidratos. Engordou? O culpado será o pudim e a batata frita.
A farofa é inimputável. A barriga sempre será de “chope”, jamais
de mandioca.
A farofa é única e autoral. Ela nunca sai igual, porque nunca
somos os mesmos.
A farofa é Heráclito puro: tudo flui ou se
esfarela... Cada farofa é uma fotografia daquele dia, uma digital
irrepetível. É feita do que tinha, de quem estava, de como a vida
se apresentou naquela hora. Talvez seja como o vinho. Cada
safra carrega o clima, a terra, o tempo, a mão do produtor, o jeito
da uva naquele ano. E é justamente isso que torna cada garrafa
única. Assim também é a farofa. Nunca se repete. E, por isso, é
tão especial.
No fim, como a vida, farofa não tem receita. E talvez essa
seja a beleza única da planta. No fundo, a vida é feita disso. De
memória, de afeto e de esperança. Esperança de que, enquanto
houver gente, haverá também farofa. E que, afinal, todos somos
“farofeiros da vida” – improvisando, sobrevivendo, rindo e
despejando colheradas da deliciosa farofa sobre o prato. Comida
é afeto e cultura. Vai uma farofinha no seu domingo?
Autor: Leandro Karnal - Estadão (adaptado).
I. Em churrasco, há dois dígrafos consonantais, e a palavra apresenta 7 fonemas.
II. Em desenvoltura, há um dígrafo vocálico e a palavra apresenta 11 fonemas.
III. Em enterrada, há dois dígrafos, um vocálico e um consonantal, e a palavra apresenta 7 fonemas.
Está correto o que se afirma em:
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Farofa, a comida mestiça que está na mesa dos pobres e dos
ricos
Eu vou saudar a farofa! Ela nunca exige protagonismo. Está
ali, na beirada do prato, como quem não quer chamar atenção,
mas, silenciosamente, sustenta toda a estrutura da refeição. Tire
a farofa da mesa e logo surge um desconforto, uma ausência que
ninguém consegue nomear, mas todos sentem. Ela tem a
estranha virtude dos coadjuvantes indispensáveis.
As raízes da farofa estão na mandioca, planta domesticada
pelos povos originários muito antes de qualquer europeu sonhar
em atravessar oceanos. A farinha de mandioca, assim, se tornou
não só base alimentar, mas também uma herança cultural. E sim,
já existia ali uma espécie de farofa — farinha tostada na gordura
da caça, enriquecida com pedaços de peixe, raízes, frutas ou
ervas locais.
Depois veio o choque da colonização. Junto dele, a
presença forçada dos africanos, sequestrados de suas terras, que
trouxeram para a cozinha brasileira um repertório de técnicas e
sabores que mudou tudo. Na mistura ameríndia, entraram as
gorduras generosas, os miúdos, as carnes defumadas, as cebolas
dourando, o dendê, as especiarias. A cozinha virou espaço de
resistência, de criação, de memória e de reinvenção.
Sérgio Buarque fala que as famílias do interior colonial
torravam todos os dias sua mandioca. Era uma “fineza da terra”,
uma sofisticação em meio agreste e rude. Ela viaja no alforje
bandeirante e acompanha a lida do gado. Sobrevive a viagens.
Misturada ao charque, alimenta a colônia.
Os portugueses, sempre pragmáticos, se adaptaram. Sem
trigo para o pão, adotaram a farinha de mandioca como
substituto. Trouxeram carnes curadas, embutidos, métodos de
charcutaria, e acrescentaram novas camadas a esse prato que
nunca se apresenta como prato.
O curioso é que, apesar de carregar toda essa história, a
farofa nunca pede palco. Está ali para servir, para acompanhar,
para dar sentido ao conjunto. Ninguém recebe apenas com um
prato de farofa, mas fica uma lacuna se ela desaparecer.
E há, talvez, algo de profundamente brasileiro nisso. A
farofa é, por definição, a comida mestiça, da adaptação, da
criatividade. É improviso! É nacional e local. Sai do solo como
mandioca/macaxeira/aipim. Torna-se uma “poupança
enterrada” que pode ser sacada quando necessária. Diferente de
uma fruta que amadurece e exige ser colhida imediatamente, a
raiz da mandioca dorme, engrossa e anuncia que aguardará
semanas, meses, anos até ser resgatada e saciar fome.
Geógrafos deterministas dizem que milho e arroz geram
Estado e burocracia. A mandioca é mais libertadora de estruturas
políticas complexas.
Ela está na mesa do pobre e do rico. No almoço apressado
da obra, surge da farinha tostada com um pouco de sal e
gordura. No restaurante estrelado, esconde-se sob a alcunha de
“farofa de panko com manteiga trufada e castanhas”. Ela circula
com a mesma desenvoltura no churrasco de esquina e no brunch
gourmet. Pode ser feita com ovo (adoro!), banana, bacon,
torresmo, cebola, carne-seca, cogumelo, amêndoas ou até
daquela última bolacha esquecida no fundo do armário. O século
dezenove adorava com banha de porco, mas incorpora bem a
manteiga e o azeite de oliva. Metamorfose absoluta: aumenta o que é pouco, engrossa o que é ralo e esfria o que é quente. É um
signo aberto em plena mesa.
A farinha funciona com o luxo e com a escassez. A farofa
não julga. Ela aceita o que há. Vive do que sobra. Sobrevive do
que se oferece. E, ainda assim, nunca é menos. Ela contraria o
zelo nutricional. Você pegou arroz e batatas? Nada como uma
farofinha por cima para unir de forma harmoniosa a cota de
carboidratos. Engordou? O culpado será o pudim e a batata frita.
A farofa é inimputável. A barriga sempre será de “chope”, jamais
de mandioca.
A farofa é única e autoral. Ela nunca sai igual, porque nunca
somos os mesmos.
A farofa é Heráclito puro: tudo flui ou se
esfarela... Cada farofa é uma fotografia daquele dia, uma digital
irrepetível. É feita do que tinha, de quem estava, de como a vida
se apresentou naquela hora. Talvez seja como o vinho. Cada
safra carrega o clima, a terra, o tempo, a mão do produtor, o jeito
da uva naquele ano. E é justamente isso que torna cada garrafa
única. Assim também é a farofa. Nunca se repete. E, por isso, é
tão especial.
No fim, como a vida, farofa não tem receita. E talvez essa
seja a beleza única da planta. No fundo, a vida é feita disso. De
memória, de afeto e de esperança. Esperança de que, enquanto
houver gente, haverá também farofa. E que, afinal, todos somos
“farofeiros da vida” – improvisando, sobrevivendo, rindo e
despejando colheradas da deliciosa farofa sobre o prato. Comida
é afeto e cultura. Vai uma farofinha no seu domingo?
Autor: Leandro Karnal - Estadão (adaptado).
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Farofa, a comida mestiça que está na mesa dos pobres e dos
ricos
Eu vou saudar a farofa! Ela nunca exige protagonismo. Está
ali, na beirada do prato, como quem não quer chamar atenção,
mas, silenciosamente, sustenta toda a estrutura da refeição. Tire
a farofa da mesa e logo surge um desconforto, uma ausência que
ninguém consegue nomear, mas todos sentem. Ela tem a
estranha virtude dos coadjuvantes indispensáveis.
As raízes da farofa estão na mandioca, planta domesticada
pelos povos originários muito antes de qualquer europeu sonhar
em atravessar oceanos. A farinha de mandioca, assim, se tornou
não só base alimentar, mas também uma herança cultural. E sim,
já existia ali uma espécie de farofa — farinha tostada na gordura
da caça, enriquecida com pedaços de peixe, raízes, frutas ou
ervas locais.
Depois veio o choque da colonização. Junto dele, a
presença forçada dos africanos, sequestrados de suas terras, que
trouxeram para a cozinha brasileira um repertório de técnicas e
sabores que mudou tudo. Na mistura ameríndia, entraram as
gorduras generosas, os miúdos, as carnes defumadas, as cebolas
dourando, o dendê, as especiarias. A cozinha virou espaço de
resistência, de criação, de memória e de reinvenção.
Sérgio Buarque fala que as famílias do interior colonial
torravam todos os dias sua mandioca. Era uma “fineza da terra”,
uma sofisticação em meio agreste e rude. Ela viaja no alforje
bandeirante e acompanha a lida do gado. Sobrevive a viagens.
Misturada ao charque, alimenta a colônia.
Os portugueses, sempre pragmáticos, se adaptaram. Sem
trigo para o pão, adotaram a farinha de mandioca como
substituto. Trouxeram carnes curadas, embutidos, métodos de
charcutaria, e acrescentaram novas camadas a esse prato que
nunca se apresenta como prato.
O curioso é que, apesar de carregar toda essa história, a
farofa nunca pede palco. Está ali para servir, para acompanhar,
para dar sentido ao conjunto. Ninguém recebe apenas com um
prato de farofa, mas fica uma lacuna se ela desaparecer.
E há, talvez, algo de profundamente brasileiro nisso. A
farofa é, por definição, a comida mestiça, da adaptação, da
criatividade. É improviso! É nacional e local. Sai do solo como
mandioca/macaxeira/aipim. Torna-se uma “poupança
enterrada” que pode ser sacada quando necessária. Diferente de
uma fruta que amadurece e exige ser colhida imediatamente, a
raiz da mandioca dorme, engrossa e anuncia que aguardará
semanas, meses, anos até ser resgatada e saciar fome.
Geógrafos deterministas dizem que milho e arroz geram
Estado e burocracia. A mandioca é mais libertadora de estruturas
políticas complexas.
Ela está na mesa do pobre e do rico. No almoço apressado
da obra, surge da farinha tostada com um pouco de sal e
gordura. No restaurante estrelado, esconde-se sob a alcunha de
“farofa de panko com manteiga trufada e castanhas”. Ela circula
com a mesma desenvoltura no churrasco de esquina e no brunch
gourmet. Pode ser feita com ovo (adoro!), banana, bacon,
torresmo, cebola, carne-seca, cogumelo, amêndoas ou até
daquela última bolacha esquecida no fundo do armário. O século
dezenove adorava com banha de porco, mas incorpora bem a
manteiga e o azeite de oliva. Metamorfose absoluta: aumenta o que é pouco, engrossa o que é ralo e esfria o que é quente. É um
signo aberto em plena mesa.
A farinha funciona com o luxo e com a escassez. A farofa
não julga. Ela aceita o que há. Vive do que sobra. Sobrevive do
que se oferece. E, ainda assim, nunca é menos. Ela contraria o
zelo nutricional. Você pegou arroz e batatas? Nada como uma
farofinha por cima para unir de forma harmoniosa a cota de
carboidratos. Engordou? O culpado será o pudim e a batata frita.
A farofa é inimputável. A barriga sempre será de “chope”, jamais
de mandioca.
A farofa é única e autoral. Ela nunca sai igual, porque nunca
somos os mesmos.
A farofa é Heráclito puro: tudo flui ou se
esfarela... Cada farofa é uma fotografia daquele dia, uma digital
irrepetível. É feita do que tinha, de quem estava, de como a vida
se apresentou naquela hora. Talvez seja como o vinho. Cada
safra carrega o clima, a terra, o tempo, a mão do produtor, o jeito
da uva naquele ano. E é justamente isso que torna cada garrafa
única. Assim também é a farofa. Nunca se repete. E, por isso, é
tão especial.
No fim, como a vida, farofa não tem receita. E talvez essa
seja a beleza única da planta. No fundo, a vida é feita disso. De
memória, de afeto e de esperança. Esperança de que, enquanto
houver gente, haverá também farofa. E que, afinal, todos somos
“farofeiros da vida” – improvisando, sobrevivendo, rindo e
despejando colheradas da deliciosa farofa sobre o prato. Comida
é afeto e cultura. Vai uma farofinha no seu domingo?
Autor: Leandro Karnal - Estadão (adaptado).
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Questão presente nas seguintes provas
Farofa, a comida mestiça que está na mesa dos pobres e dos
ricos
Eu vou saudar a farofa! Ela nunca exige protagonismo. Está
ali, na beirada do prato, como quem não quer chamar atenção,
mas, silenciosamente, sustenta toda a estrutura da refeição. Tire
a farofa da mesa e logo surge um desconforto, uma ausência que
ninguém consegue nomear, mas todos sentem. Ela tem a
estranha virtude dos coadjuvantes indispensáveis.
As raízes da farofa estão na mandioca, planta domesticada
pelos povos originários muito antes de qualquer europeu sonhar
em atravessar oceanos. A farinha de mandioca, assim, se tornou
não só base alimentar, mas também uma herança cultural. E sim,
já existia ali uma espécie de farofa — farinha tostada na gordura
da caça, enriquecida com pedaços de peixe, raízes, frutas ou
ervas locais.
Depois veio o choque da colonização. Junto dele, a
presença forçada dos africanos, sequestrados de suas terras, que
trouxeram para a cozinha brasileira um repertório de técnicas e
sabores que mudou tudo. Na mistura ameríndia, entraram as
gorduras generosas, os miúdos, as carnes defumadas, as cebolas
dourando, o dendê, as especiarias. A cozinha virou espaço de
resistência, de criação, de memória e de reinvenção.
Sérgio Buarque fala que as famílias do interior colonial
torravam todos os dias sua mandioca. Era uma “fineza da terra”,
uma sofisticação em meio agreste e rude. Ela viaja no alforje
bandeirante e acompanha a lida do gado. Sobrevive a viagens.
Misturada ao charque, alimenta a colônia.
Os portugueses, sempre pragmáticos, se adaptaram. Sem
trigo para o pão, adotaram a farinha de mandioca como
substituto. Trouxeram carnes curadas, embutidos, métodos de
charcutaria, e acrescentaram novas camadas a esse prato que
nunca se apresenta como prato.
O curioso é que, apesar de carregar toda essa história, a
farofa nunca pede palco. Está ali para servir, para acompanhar,
para dar sentido ao conjunto. Ninguém recebe apenas com um
prato de farofa, mas fica uma lacuna se ela desaparecer.
E há, talvez, algo de profundamente brasileiro nisso. A
farofa é, por definição, a comida mestiça, da adaptação, da
criatividade. É improviso! É nacional e local. Sai do solo como
mandioca/macaxeira/aipim. Torna-se uma “poupança
enterrada” que pode ser sacada quando necessária. Diferente de
uma fruta que amadurece e exige ser colhida imediatamente, a
raiz da mandioca dorme, engrossa e anuncia que aguardará
semanas, meses, anos até ser resgatada e saciar fome.
Geógrafos deterministas dizem que milho e arroz geram
Estado e burocracia. A mandioca é mais libertadora de estruturas
políticas complexas.
Ela está na mesa do pobre e do rico. No almoço apressado
da obra, surge da farinha tostada com um pouco de sal e
gordura. No restaurante estrelado, esconde-se sob a alcunha de
“farofa de panko com manteiga trufada e castanhas”. Ela circula
com a mesma desenvoltura no churrasco de esquina e no brunch
gourmet. Pode ser feita com ovo (adoro!), banana, bacon,
torresmo, cebola, carne-seca, cogumelo, amêndoas ou até
daquela última bolacha esquecida no fundo do armário. O século
dezenove adorava com banha de porco, mas incorpora bem a
manteiga e o azeite de oliva. Metamorfose absoluta: aumenta o que é pouco, engrossa o que é ralo e esfria o que é quente. É um
signo aberto em plena mesa.
A farinha funciona com o luxo e com a escassez. A farofa
não julga. Ela aceita o que há. Vive do que sobra. Sobrevive do
que se oferece. E, ainda assim, nunca é menos. Ela contraria o
zelo nutricional. Você pegou arroz e batatas? Nada como uma
farofinha por cima para unir de forma harmoniosa a cota de
carboidratos. Engordou? O culpado será o pudim e a batata frita.
A farofa é inimputável. A barriga sempre será de “chope”, jamais
de mandioca.
A farofa é única e autoral. Ela nunca sai igual, porque nunca
somos os mesmos.
A farofa é Heráclito puro: tudo flui ou se
esfarela... Cada farofa é uma fotografia daquele dia, uma digital
irrepetível. É feita do que tinha, de quem estava, de como a vida
se apresentou naquela hora. Talvez seja como o vinho. Cada
safra carrega o clima, a terra, o tempo, a mão do produtor, o jeito
da uva naquele ano. E é justamente isso que torna cada garrafa
única. Assim também é a farofa. Nunca se repete. E, por isso, é
tão especial.
No fim, como a vida, farofa não tem receita. E talvez essa
seja a beleza única da planta. No fundo, a vida é feita disso. De
memória, de afeto e de esperança. Esperança de que, enquanto
houver gente, haverá também farofa. E que, afinal, todos somos
“farofeiros da vida” – improvisando, sobrevivendo, rindo e
despejando colheradas da deliciosa farofa sobre o prato. Comida
é afeto e cultura. Vai uma farofinha no seu domingo?
Autor: Leandro Karnal - Estadão (adaptado).
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Questão presente nas seguintes provas
A difícil arte de viver entre eras
Apanhei de novo da tecnologia. Tive que trocar o aparelho
celular — e se digo “tive” é porque resisti o quanto pude a isso
— e, nesse processo, terminei perdendo todas as conversas e
contatos do WhatsApp, o conhecido zap. Nunca tinha me
importado em baixar os dados que a cada dia iam se acumulando
no aplicativo, na ilusão de que tudo estaria sempre ali. Mas, ó
tolinho, não existe sempre na voracidade tecnológica de nosso
tempo. Se a coisa não foi para a tal nuvem, não há como chover
em outro aparelho. Perdeste, coroa!
Pior que não é a primeira vez que fico com cara de guri
diante do brinquedo quebrado. Bem lá atrás, quando a novidade
era poder baixar discos raros em vinil vertidos para o digital, fiz
um acervo daqueles com músicas dos meus sonhos de
colecionador. Só que a festa acabou quando o computador “deu
pau”, como se diz hoje, e eu perdi tudinho. Depois disso, apelei
para o velho modo analógico e venho guardando em discos
físicos o que tem valor afetivo. Mas pensam que tive sossego?
Meu antigo computador, que tinha uma providencial
entrada para CD e DVD, já ficou para trás, tombado pelo tempo
do mercado e das inovações. E o novo, todo cheio de memórias
e quetais, não aceita essa mídia. Ou seja, já não posso gravar
mais nada em discos. Sim, há pendrives e HDs externos para isso,
mas que graça tem essas engenhocas quando a memória nos
remete aos doces rituais de pegar um disco e já antecipar a
experiência sonora nele contida? Até hoje reajo mal a streamings
de música. Sou dos que gostam de saber tudo: título,
compositores e até arranjo de cada faixa. E jamais entregarei a
nenhuma Alexa a tarefa de escolher o que quero ouvir.
Reacionário tecnológico, eu? Creio que não. Aprecio
demais as novidades e as facilidades que a tecnologia traz. A cada
fatura que pago pelo celular, em casa, lembro de quando
enfrentava longas filas num banco para quitar uma reles conta
de luz. Zero saudade daquele tempo. Minha bronca é com a
obrigação de me “atualizar” de acordo com o descaramento do
mercado, que decreta a obsolescência precoce do que ainda tem
muito gás para dar. Então, como na famosa canção espanhola,
“¡resistiré, resistiré!”.
A atendente da loja onde comprei o novo celular espantouse ao ver que o meu aparelho antigo já ia completar cinco anos.
Os olhos dela pareciam dizer: cinco anos! Onde já se viu? E ainda
por cima não fez o armazenamento na nuvem! Tome tento, meu
senhor! Ok, assumo que vacilei. É que eu quero usufruir das
facilidades da era virtual sem ter que ceder o precioso tempo que
insisto em dedicar a hábitos antigos. Já basta o sequestro que as
famigeradas redes sociais fazem de nossa atenção.
Dia desses vi numa rede um vídeo de um cara — ou melhor,
um coroa — se orgulhando de pertencer à geração — a mesma
que a minha — que viveu o analógico e soube se adaptar ao
virtual, isso como uma grande vantagem. Sei não, irmão. É mais
um fardo essa condição de viver no limiar entre eras. Por isso,
para seguir leve na vida, vez em quando cometo desatinos, como
esse de peitar os imperativos do mercado tecnológico.
Autor: Nivaldo Pereira - GZH (adaptado).
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A difícil arte de viver entre eras
Apanhei de novo da tecnologia. Tive que trocar o aparelho
celular — e se digo “tive” é porque resisti o quanto pude a isso
— e, nesse processo, terminei perdendo todas as conversas e
contatos do WhatsApp, o conhecido zap. Nunca tinha me
importado em baixar os dados que a cada dia iam se acumulando
no aplicativo, na ilusão de que tudo estaria sempre ali. Mas, ó
tolinho, não existe sempre na voracidade tecnológica de nosso
tempo. Se a coisa não foi para a tal nuvem, não há como chover
em outro aparelho. Perdeste, coroa!
Pior que não é a primeira vez que fico com cara de guri
diante do brinquedo quebrado. Bem lá atrás, quando a novidade
era poder baixar discos raros em vinil vertidos para o digital, fiz
um acervo daqueles com músicas dos meus sonhos de
colecionador. Só que a festa acabou quando o computador “deu
pau”, como se diz hoje, e eu perdi tudinho. Depois disso, apelei
para o velho modo analógico e venho guardando em discos
físicos o que tem valor afetivo. Mas pensam que tive sossego?
Meu antigo computador, que tinha uma providencial
entrada para CD e DVD, já ficou para trás, tombado pelo tempo
do mercado e das inovações. E o novo, todo cheio de memórias
e quetais, não aceita essa mídia. Ou seja, já não posso gravar
mais nada em discos. Sim, há pendrives e HDs externos para isso,
mas que graça tem essas engenhocas quando a memória nos
remete aos doces rituais de pegar um disco e já antecipar a
experiência sonora nele contida? Até hoje reajo mal a streamings
de música. Sou dos que gostam de saber tudo: título,
compositores e até arranjo de cada faixa. E jamais entregarei a
nenhuma Alexa a tarefa de escolher o que quero ouvir.
Reacionário tecnológico, eu? Creio que não. Aprecio
demais as novidades e as facilidades que a tecnologia traz. A cada
fatura que pago pelo celular, em casa, lembro de quando
enfrentava longas filas num banco para quitar uma reles conta
de luz. Zero saudade daquele tempo. Minha bronca é com a
obrigação de me “atualizar” de acordo com o descaramento do
mercado, que decreta a obsolescência precoce do que ainda tem
muito gás para dar. Então, como na famosa canção espanhola,
“¡resistiré, resistiré!”.
A atendente da loja onde comprei o novo celular espantouse ao ver que o meu aparelho antigo já ia completar cinco anos.
Os olhos dela pareciam dizer: cinco anos! Onde já se viu? E ainda
por cima não fez o armazenamento na nuvem! Tome tento, meu
senhor! Ok, assumo que vacilei. É que eu quero usufruir das
facilidades da era virtual sem ter que ceder o precioso tempo que
insisto em dedicar a hábitos antigos. Já basta o sequestro que as
famigeradas redes sociais fazem de nossa atenção.
Dia desses vi numa rede um vídeo de um cara — ou melhor,
um coroa — se orgulhando de pertencer à geração — a mesma
que a minha — que viveu o analógico e soube se adaptar ao
virtual, isso como uma grande vantagem. Sei não, irmão. É mais
um fardo essa condição de viver no limiar entre eras. Por isso,
para seguir leve na vida, vez em quando cometo desatinos, como
esse de peitar os imperativos do mercado tecnológico.
Autor: Nivaldo Pereira - GZH (adaptado).
Provas
Questão presente nas seguintes provas
A difícil arte de viver entre eras
Apanhei de novo da tecnologia. Tive que trocar o aparelho
celular — e se digo “tive” é porque resisti o quanto pude a isso
— e, nesse processo, terminei perdendo todas as conversas e
contatos do WhatsApp, o conhecido zap. Nunca tinha me
importado em baixar os dados que a cada dia iam se acumulando
no aplicativo, na ilusão de que tudo estaria sempre ali. Mas, ó
tolinho, não existe sempre na voracidade tecnológica de nosso
tempo. Se a coisa não foi para a tal nuvem, não há como chover
em outro aparelho. Perdeste, coroa!
Pior que não é a primeira vez que fico com cara de guri
diante do brinquedo quebrado. Bem lá atrás, quando a novidade
era poder baixar discos raros em vinil vertidos para o digital, fiz
um acervo daqueles com músicas dos meus sonhos de
colecionador. Só que a festa acabou quando o computador “deu
pau”, como se diz hoje, e eu perdi tudinho. Depois disso, apelei
para o velho modo analógico e venho guardando em discos
físicos o que tem valor afetivo. Mas pensam que tive sossego?
Meu antigo computador, que tinha uma providencial
entrada para CD e DVD, já ficou para trás, tombado pelo tempo
do mercado e das inovações. E o novo, todo cheio de memórias
e quetais, não aceita essa mídia. Ou seja, já não posso gravar
mais nada em discos. Sim, há pendrives e HDs externos para isso,
mas que graça tem essas engenhocas quando a memória nos
remete aos doces rituais de pegar um disco e já antecipar a
experiência sonora nele contida? Até hoje reajo mal a streamings
de música. Sou dos que gostam de saber tudo: título,
compositores e até arranjo de cada faixa. E jamais entregarei a
nenhuma Alexa a tarefa de escolher o que quero ouvir.
Reacionário tecnológico, eu? Creio que não. Aprecio
demais as novidades e as facilidades que a tecnologia traz. A cada
fatura que pago pelo celular, em casa, lembro de quando
enfrentava longas filas num banco para quitar uma reles conta
de luz. Zero saudade daquele tempo. Minha bronca é com a
obrigação de me “atualizar” de acordo com o descaramento do
mercado, que decreta a obsolescência precoce do que ainda tem
muito gás para dar. Então, como na famosa canção espanhola,
“¡resistiré, resistiré!”.
A atendente da loja onde comprei o novo celular espantouse ao ver que o meu aparelho antigo já ia completar cinco anos.
Os olhos dela pareciam dizer: cinco anos! Onde já se viu? E ainda
por cima não fez o armazenamento na nuvem! Tome tento, meu
senhor! Ok, assumo que vacilei. É que eu quero usufruir das
facilidades da era virtual sem ter que ceder o precioso tempo que
insisto em dedicar a hábitos antigos. Já basta o sequestro que as
famigeradas redes sociais fazem de nossa atenção.
Dia desses vi numa rede um vídeo de um cara — ou melhor,
um coroa — se orgulhando de pertencer à geração — a mesma
que a minha — que viveu o analógico e soube se adaptar ao
virtual, isso como uma grande vantagem. Sei não, irmão. É mais
um fardo essa condição de viver no limiar entre eras. Por isso,
para seguir leve na vida, vez em quando cometo desatinos, como
esse de peitar os imperativos do mercado tecnológico.
Autor: Nivaldo Pereira - GZH (adaptado).
I. Em “Apanhei de novo da tecnologia”, a expressão “da tecnologia” funciona como complemento da forma verbal “apanhei”.
II. Em “Meu antigo computador, que tinha uma providencial entrada para CD e DVD, já ficou para trás”, a oração “que tinha uma providencial entrada para CD e DVD” caracteriza “computador”, acrescentando uma informação sobre esse termo.
Está correto o que se afirma em:
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A difícil arte de viver entre eras
Apanhei de novo da tecnologia. Tive que trocar o aparelho
celular — e se digo “tive” é porque resisti o quanto pude a isso
— e, nesse processo, terminei perdendo todas as conversas e
contatos do WhatsApp, o conhecido zap. Nunca tinha me
importado em baixar os dados que a cada dia iam se acumulando
no aplicativo, na ilusão de que tudo estaria sempre ali. Mas, ó
tolinho, não existe sempre na voracidade tecnológica de nosso
tempo. Se a coisa não foi para a tal nuvem, não há como chover
em outro aparelho. Perdeste, coroa!
Pior que não é a primeira vez que fico com cara de guri
diante do brinquedo quebrado. Bem lá atrás, quando a novidade
era poder baixar discos raros em vinil vertidos para o digital, fiz
um acervo daqueles com músicas dos meus sonhos de
colecionador. Só que a festa acabou quando o computador “deu
pau”, como se diz hoje, e eu perdi tudinho. Depois disso, apelei
para o velho modo analógico e venho guardando em discos
físicos o que tem valor afetivo. Mas pensam que tive sossego?
Meu antigo computador, que tinha uma providencial
entrada para CD e DVD, já ficou para trás, tombado pelo tempo
do mercado e das inovações. E o novo, todo cheio de memórias
e quetais, não aceita essa mídia. Ou seja, já não posso gravar
mais nada em discos. Sim, há pendrives e HDs externos para isso,
mas que graça tem essas engenhocas quando a memória nos
remete aos doces rituais de pegar um disco e já antecipar a
experiência sonora nele contida? Até hoje reajo mal a streamings
de música. Sou dos que gostam de saber tudo: título,
compositores e até arranjo de cada faixa. E jamais entregarei a
nenhuma Alexa a tarefa de escolher o que quero ouvir.
Reacionário tecnológico, eu? Creio que não. Aprecio
demais as novidades e as facilidades que a tecnologia traz. A cada
fatura que pago pelo celular, em casa, lembro de quando
enfrentava longas filas num banco para quitar uma reles conta
de luz. Zero saudade daquele tempo. Minha bronca é com a
obrigação de me “atualizar” de acordo com o descaramento do
mercado, que decreta a obsolescência precoce do que ainda tem
muito gás para dar. Então, como na famosa canção espanhola,
“¡resistiré, resistiré!”.
A atendente da loja onde comprei o novo celular espantouse ao ver que o meu aparelho antigo já ia completar cinco anos.
Os olhos dela pareciam dizer: cinco anos! Onde já se viu? E ainda
por cima não fez o armazenamento na nuvem! Tome tento, meu
senhor! Ok, assumo que vacilei. É que eu quero usufruir das
facilidades da era virtual sem ter que ceder o precioso tempo que
insisto em dedicar a hábitos antigos. Já basta o sequestro que as
famigeradas redes sociais fazem de nossa atenção.
Dia desses vi numa rede um vídeo de um cara — ou melhor,
um coroa — se orgulhando de pertencer à geração — a mesma
que a minha — que viveu o analógico e soube se adaptar ao
virtual, isso como uma grande vantagem. Sei não, irmão. É mais
um fardo essa condição de viver no limiar entre eras. Por isso,
para seguir leve na vida, vez em quando cometo desatinos, como
esse de peitar os imperativos do mercado tecnológico.
Autor: Nivaldo Pereira - GZH (adaptado).
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A difícil arte de viver entre eras
Apanhei de novo da tecnologia. Tive que trocar o aparelho
celular — e se digo “tive” é porque resisti o quanto pude a isso
— e, nesse processo, terminei perdendo todas as conversas e
contatos do WhatsApp, o conhecido zap. Nunca tinha me
importado em baixar os dados que a cada dia iam se acumulando
no aplicativo, na ilusão de que tudo estaria sempre ali. Mas, ó
tolinho, não existe sempre na voracidade tecnológica de nosso
tempo. Se a coisa não foi para a tal nuvem, não há como chover
em outro aparelho. Perdeste, coroa!
Pior que não é a primeira vez que fico com cara de guri
diante do brinquedo quebrado. Bem lá atrás, quando a novidade
era poder baixar discos raros em vinil vertidos para o digital, fiz
um acervo daqueles com músicas dos meus sonhos de
colecionador. Só que a festa acabou quando o computador “deu
pau”, como se diz hoje, e eu perdi tudinho. Depois disso, apelei
para o velho modo analógico e venho guardando em discos
físicos o que tem valor afetivo. Mas pensam que tive sossego?
Meu antigo computador, que tinha uma providencial
entrada para CD e DVD, já ficou para trás, tombado pelo tempo
do mercado e das inovações. E o novo, todo cheio de memórias
e quetais, não aceita essa mídia. Ou seja, já não posso gravar
mais nada em discos. Sim, há pendrives e HDs externos para isso,
mas que graça tem essas engenhocas quando a memória nos
remete aos doces rituais de pegar um disco e já antecipar a
experiência sonora nele contida? Até hoje reajo mal a streamings
de música. Sou dos que gostam de saber tudo: título,
compositores e até arranjo de cada faixa. E jamais entregarei a
nenhuma Alexa a tarefa de escolher o que quero ouvir.
Reacionário tecnológico, eu? Creio que não. Aprecio
demais as novidades e as facilidades que a tecnologia traz. A cada
fatura que pago pelo celular, em casa, lembro de quando
enfrentava longas filas num banco para quitar uma reles conta
de luz. Zero saudade daquele tempo. Minha bronca é com a
obrigação de me “atualizar” de acordo com o descaramento do
mercado, que decreta a obsolescência precoce do que ainda tem
muito gás para dar. Então, como na famosa canção espanhola,
“¡resistiré, resistiré!”.
A atendente da loja onde comprei o novo celular espantouse ao ver que o meu aparelho antigo já ia completar cinco anos.
Os olhos dela pareciam dizer: cinco anos! Onde já se viu? E ainda
por cima não fez o armazenamento na nuvem! Tome tento, meu
senhor! Ok, assumo que vacilei. É que eu quero usufruir das
facilidades da era virtual sem ter que ceder o precioso tempo que
insisto em dedicar a hábitos antigos. Já basta o sequestro que as
famigeradas redes sociais fazem de nossa atenção.
Dia desses vi numa rede um vídeo de um cara — ou melhor,
um coroa — se orgulhando de pertencer à geração — a mesma
que a minha — que viveu o analógico e soube se adaptar ao
virtual, isso como uma grande vantagem. Sei não, irmão. É mais
um fardo essa condição de viver no limiar entre eras. Por isso,
para seguir leve na vida, vez em quando cometo desatinos, como
esse de peitar os imperativos do mercado tecnológico.
Autor: Nivaldo Pereira - GZH (adaptado).
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Os dentinhos da espiral comiam as notas
O capricho na escola não só se mostrava na caligrafia.
Havia dois tipos de alunos na hora de entregar o trabalho
para o professor: os que ofereciam o papel com a borda picotada
da espiral, arrancado do caderno com violência, e os que
destacavam os dentinhos minuciosamente com uma régua.
O primeiro grupo se revelava mais rebelde, contrariado,
desaforado, nem aí para as expectativas. O segundo se
caracterizava como organizado e metódico, querendo agradar.
Eu fazia parte do time do esmero e do cuidado. Sem
tesoura, eu umedecia a lateral com a saliva, guilhotinava com
calma e transformava a página cortada na inteireza de um ofício.
Não suportava devolver as provas com as serrilhas. Acreditava
que aqueles furinhos me tirariam nota. Não sei se influenciavam
o conceito, mas ajudavam na apresentação. Sequer para traficar
bilhetes secretamente, por baixo das classes, eu me permitia o
desleixo.
Todo CDF na infância vai exibir TOC na vida adulta. É uma
evolução natural das siglas.
Durante quinze anos, convivi com cadernos. Constituíam a
minha fonte de conhecimento. Não havia celular, tablet,
computador. Anotava-se tudo com lápis e caneta.
Fui criado na escassez. Lembro que economizávamos o
número de folhas. Porque o caderno de capa dura, espiral,
custava caro. Cada página equivalia a dinheiro vivo. Chegávamos
a contar as que faltavam e checar se resistiriam até o fim do ano.
Estudávamos no limite. Nem sempre podíamos emprestar uma
folhinha para os colegas. Seguíamos um planejamento, um
racionamento extremo. Um dia sim, outro não. Evitávamos que
a bíblia de uma disciplina emagrecesse velozmente, a ponto de
beirar a inanição. Então, passávamos a demanda adiante: “não
tenho como, pede hoje para fulano”.
No cumprimento da lista do material escolar, lutávamos
para escolhê-los, tanto pela ilustração da capa quanto pelo seu
volume. Persuadíamos os pais em longa negociação.
Existia o de 48 folhas, para cargas horárias menores, como
a de Religião; o de 96 folhas, o clássico absoluto, o mais
comprado; o de 120 folhas, destinado aos mais abastados; e o
inacessível de 200 folhas, de caráter universitário, um
trambolho, um luxo, que vinha com adesivos e divisórias
coloridas para várias matérias.
O peso da mochila representava status. Quanto mais tijolo,
maior o poder aquisitivo do estudante. Quanto mais leve, menos
cadernos ele tinha conseguido adquirir.
Não me arriscava a montar aviõezinhos ou barquinhos e
gastar o meu futuro. Bem que eu desejava acompanhar os
perdulários da turma e me dedicar à arte das dobraduras.
Ficava sem jeito quando a garota de quem eu gostava
inventava de deixar um rabisco no miolo de uma página: meu
coração acelerava, com a culpa de que ela consumiria o espaço
de muitas lições a ser copiadas do quadro. Como explicar o
desperdício em casa? Tratava-se de uma jura precoce, de uma
corajosa renúncia.
Restava-me diminuir a letra para que coubesse o meu
amor.
Autor: Fabrício Carpinejar - GZH (adaptado).
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Cadernos
Caderno Container