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1443603 Ano: 2022
Disciplina: Matemática
Banca: VUNESP
Orgão: FICSAE
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Três quintos dos pacientes internados na UTI de um hospital possuem algum tipo de cardiopatia. Dos cardiopatas, cinco sétimos são diabéticos. Sabendo que 75 é a quantidade de cardiopatas diabéticos internados, o total de pacientes internados nessa UTI é igual a

 

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1443602 Ano: 2022
Disciplina: Estatística
Banca: VUNESP
Orgão: FICSAE
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Segundo o Ministério das Relações Exteriores do Brasil (Itamaraty), 4,2 milhões de brasileiros viviam no exterior em 2020, como mostra o gráfico. A comunidade de brasileiros no exterior cresceu 54,9% desde 2015 até 2020.

Enunciado 3000352-1

(www.nexojornal.com.br. Adaptado.)

De acordo com as informações, o valor aproximado de X, indicado no gráfico, é

 

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1443601 Ano: 2022
Disciplina: Português
Banca: VUNESP
Orgão: FICSAE
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Quando discutimos a questão da vida em outros mundos, é essencial fazermos uma distinção clara entre criaturas vivas e criaturas vivas e inteligentes. Muita gente imagina que se houver vida num planeta ou na Lua, será inteligente. Ou, se ainda não for, mais cedo ou mais tarde será. Essa postura supõe que a vida necessariamente leva à inteligência, isto é, que a teoria da evolução de Darwin prevê que a inteligência seja o destino natural da vida: a vida começa simples, microbial, mas, uma vez que germina, eventualmente evolui até chegar a criaturas inteligentes. Essa é uma expectativa razoável. Afinal, foi o que ocorreu aqui. Sabemos que a inteligência oferece uma série de vantagens evolucionárias. Por exemplo, nós, como a espécie mais inteligente do planeta, controlamos o destino das outras espécies. Se quiséssemos, poderíamos matar todos os tigres que existem para fazer tapetes. (Ninguém disse que inteligência e sabedoria são a mesma coisa.) Dado que o objetivo central da vida é se reproduzir, não é óbvio que a inteligência seja o objetivo final na evolução das espécies?

Não é. A vida é um experimento contínuo, em que as espécies tentam sobreviver da melhor forma possível de acordo com a lei da seleção natural. A vida não tem um plano ou um objetivo final. (Em termos mais técnicos, ela não tem uma missão teleológica em que o objetivo final justifica os meios.) Quando uma espécie está bem adaptada ao ambiente em que existe, a maioria das mutações (que é o processo genético que permite que as espécies mudem) tem consequências devastadoras.

As mudanças (as ditas mutações) ocorrem aleatoriamente, quando a informação genética é passada de geração em geração. Como exemplo, considere o que ocorreu na Terra, onde a vida existe há pelo menos 3,5 bilhões de anos. Durante os primeiros 3 bilhões de anos, a vida era relativamente simples, composta apenas de seres unicelulares. Digo relativamente simples porque, mesmo com os seres unicelulares, houve uma mudança radical em complexidade quando as células procariotas sofreram mutações que, gradualmente, deram origem a células eucariotas. Mesmo que a transformação das células procariotas em eucariotas continue sendo um mistério, a vida se restringiu a seres unicelulares durante seus 3 bilhões de anos na Terra.

As mudanças em direção a formas de vida mais complexas começaram com a oxigenação gradual da atmosfera, graças à ação fotossintética de nossos ancestrais procariotas. Nós — assim como todos os animais multicelulares — devemos nossa existência a mutações acidentais que levaram bactérias unicelulares a consumir o gás carbônico que existia em abundância na atmosfera primordial da Terra e expelir oxigênio.

(A simples beleza do inesperado, 2016. Adaptado.)

Mesmo que a transformação das células procariotas em eucariotas continue sendo um mistério, a vida se restringiu a seres unicelulares durante seus 3 bilhões de anos na Terra.” (3º parágrafo)

Em relação à oração que a sucede, a oração sublinhada expressa ideia de

 

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1443600 Ano: 2022
Disciplina: Português
Banca: VUNESP
Orgão: FICSAE
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Quando discutimos a questão da vida em outros mundos, é essencial fazermos uma distinção clara entre criaturas vivas e criaturas vivas e inteligentes. Muita gente imagina que se houver vida num planeta ou na Lua, será inteligente. Ou, se ainda não for, mais cedo ou mais tarde será. Essa postura supõe que a vida necessariamente leva à inteligência, isto é, que a teoria da evolução de Darwin prevê que a inteligência seja o destino natural da vida: a vida começa simples, microbial, mas, uma vez que germina, eventualmente evolui até chegar a criaturas inteligentes. Essa é uma expectativa razoável. Afinal, foi o que ocorreu aqui. Sabemos que a inteligência oferece uma série de vantagens evolucionárias. Por exemplo, nós, como a espécie mais inteligente do planeta, controlamos o destino das outras espécies. Se quiséssemos, poderíamos matar todos os tigres que existem para fazer tapetes. (Ninguém disse que inteligência e sabedoria são a mesma coisa.) Dado que o objetivo central da vida é se reproduzir, não é óbvio que a inteligência seja o objetivo final na evolução das espécies?

Não é. A vida é um experimento contínuo, em que as espécies tentam sobreviver da melhor forma possível de acordo com a lei da seleção natural. A vida não tem um plano ou um objetivo final. (Em termos mais técnicos, ela não tem uma missão teleológica em que o objetivo final justifica os meios.) Quando uma espécie está bem adaptada ao ambiente em que existe, a maioria das mutações (que é o processo genético que permite que as espécies mudem) tem consequências devastadoras.

As mudanças (as ditas mutações) ocorrem aleatoriamente, quando a informação genética é passada de geração em geração. Como exemplo, considere o que ocorreu na Terra, onde a vida existe há pelo menos 3,5 bilhões de anos. Durante os primeiros 3 bilhões de anos, a vida era relativamente simples, composta apenas de seres unicelulares. Digo relativamente simples porque, mesmo com os seres unicelulares, houve uma mudança radical em complexidade quando as células procariotas sofreram mutações que, gradualmente, deram origem a células eucariotas. Mesmo que a transformação das células procariotas em eucariotas continue sendo um mistério, a vida se restringiu a seres unicelulares durante seus 3 bilhões de anos na Terra.

As mudanças em direção a formas de vida mais complexas começaram com a oxigenação gradual da atmosfera, graças à ação fotossintética de nossos ancestrais procariotas. Nós — assim como todos os animais multicelulares — devemos nossa existência a mutações acidentais que levaram bactérias unicelulares a consumir o gás carbônico que existia em abundância na atmosfera primordial da Terra e expelir oxigênio.

(A simples beleza do inesperado, 2016. Adaptado.)

“Quando uma espécie está bem adaptada ao ambiente em que existe, a maioria das mutações (que é o processo genético que permite que as espécies mudem) tem consequências devastadoras.” (2º parágrafo)

O conteúdo desse trecho poderia ser expresso, em forma de ditado popular, do seguinte modo:

 

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1443599 Ano: 2022
Disciplina: Português
Banca: VUNESP
Orgão: FICSAE
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Quando discutimos a questão da vida em outros mundos, é essencial fazermos uma distinção clara entre criaturas vivas e criaturas vivas e inteligentes. Muita gente imagina que se houver vida num planeta ou na Lua, será inteligente. Ou, se ainda não for, mais cedo ou mais tarde será. Essa postura supõe que a vida necessariamente leva à inteligência, isto é, que a teoria da evolução de Darwin prevê que a inteligência seja o destino natural da vida: a vida começa simples, microbial, mas, uma vez que germina, eventualmente evolui até chegar a criaturas inteligentes. Essa é uma expectativa razoável. Afinal, foi o que ocorreu aqui. Sabemos que a inteligência oferece uma série de vantagens evolucionárias. Por exemplo, nós, como a espécie mais inteligente do planeta, controlamos o destino das outras espécies. Se quiséssemos, poderíamos matar todos os tigres que existem para fazer tapetes. (Ninguém disse que inteligência e sabedoria são a mesma coisa.) Dado que o objetivo central da vida é se reproduzir, não é óbvio que a inteligência seja o objetivo final na evolução das espécies?

Não é. A vida é um experimento contínuo, em que as espécies tentam sobreviver da melhor forma possível de acordo com a lei da seleção natural. A vida não tem um plano ou um objetivo final. (Em termos mais técnicos, ela não tem uma missão teleológica em que o objetivo final justifica os meios.) Quando uma espécie está bem adaptada ao ambiente em que existe, a maioria das mutações (que é o processo genético que permite que as espécies mudem) tem consequências devastadoras.

As mudanças (as ditas mutações) ocorrem aleatoriamente, quando a informação genética é passada de geração em geração. Como exemplo, considere o que ocorreu na Terra, onde a vida existe há pelo menos 3,5 bilhões de anos. Durante os primeiros 3 bilhões de anos, a vida era relativamente simples, composta apenas de seres unicelulares. Digo relativamente simples porque, mesmo com os seres unicelulares, houve uma mudança radical em complexidade quando as células procariotas sofreram mutações que, gradualmente, deram origem a células eucariotas. Mesmo que a transformação das células procariotas em eucariotas continue sendo um mistério, a vida se restringiu a seres unicelulares durante seus 3 bilhões de anos na Terra.

As mudanças em direção a formas de vida mais complexas começaram com a oxigenação gradual da atmosfera, graças à ação fotossintética de nossos ancestrais procariotas. Nós — assim como todos os animais multicelulares — devemos nossa existência a mutações acidentais que levaram bactérias unicelulares a consumir o gás carbônico que existia em abundância na atmosfera primordial da Terra e expelir oxigênio.

(A simples beleza do inesperado, 2016. Adaptado.)

Constitui exemplo de interação do autor com o seu leitor o trecho:

 

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1443596 Ano: 2022
Disciplina: Português
Banca: VUNESP
Orgão: FICSAE
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Quando discutimos a questão da vida em outros mundos, é essencial fazermos uma distinção clara entre criaturas vivas e criaturas vivas e inteligentes. Muita gente imagina que se houver vida num planeta ou na Lua, será inteligente. Ou, se ainda não for, mais cedo ou mais tarde será. Essa postura supõe que a vida necessariamente leva à inteligência, isto é, que a teoria da evolução de Darwin prevê que a inteligência seja o destino natural da vida: a vida começa simples, microbial, mas, uma vez que germina, eventualmente evolui até chegar a criaturas inteligentes. Essa é uma expectativa razoável. Afinal, foi o que ocorreu aqui. Sabemos que a inteligência oferece uma série de vantagens evolucionárias. Por exemplo, nós, como a espécie mais inteligente do planeta, controlamos o destino das outras espécies. Se quiséssemos, poderíamos matar todos os tigres que existem para fazer tapetes. (Ninguém disse que inteligência e sabedoria são a mesma coisa.) Dado que o objetivo central da vida é se reproduzir, não é óbvio que a inteligência seja o objetivo final na evolução das espécies?

Não é. A vida é um experimento contínuo, em que as espécies tentam sobreviver da melhor forma possível de acordo com a lei da seleção natural. A vida não tem um plano ou um objetivo final. (Em termos mais técnicos, ela não tem uma missão teleológica em que o objetivo final justifica os meios.) Quando uma espécie está bem adaptada ao ambiente em que existe, a maioria das mutações (que é o processo genético que permite que as espécies mudem) tem consequências devastadoras.

As mudanças (as ditas mutações) ocorrem aleatoriamente, quando a informação genética é passada de geração em geração. Como exemplo, considere o que ocorreu na Terra, onde a vida existe há pelo menos 3,5 bilhões de anos. Durante os primeiros 3 bilhões de anos, a vida era relativamente simples, composta apenas de seres unicelulares. Digo relativamente simples porque, mesmo com os seres unicelulares, houve uma mudança radical em complexidade quando as células procariotas sofreram mutações que, gradualmente, deram origem a células eucariotas. Mesmo que a transformação das células procariotas em eucariotas continue sendo um mistério, a vida se restringiu a seres unicelulares durante seus 3 bilhões de anos na Terra.

As mudanças em direção a formas de vida mais complexas começaram com a oxigenação gradual da atmosfera, graças à ação fotossintética de nossos ancestrais procariotas. Nós — assim como todos os animais multicelulares — devemos nossa existência a mutações acidentais que levaram bactérias unicelulares a consumir o gás carbônico que existia em abundância na atmosfera primordial da Terra e expelir oxigênio.

(A simples beleza do inesperado, 2016. Adaptado.)

De acordo com o autor,

 

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1443595 Ano: 2022
Disciplina: Português
Banca: VUNESP
Orgão: FICSAE
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Quando eu era soldado, o terror do quartel era o vice-comandante, o Major Eufrásio. Era um homem de meia-altura, atarracado, braços curtos, cara quadrada, de nariz e óculos enormes. Não sorria nunca. Mais que isso, estava sempre de cara amarrada, como se temesse punhalada pelas costas. Não perdoava nada, vivia vasculhando as nossas faltas, mandava prender os subordinados por causa de um botão na túnica ou de uma perneira mal engraxada. Nós lhe votávamos todos um santo ódio, sobretudo porque o próprio comandante era a mais civil das criaturas e poderia dirigir sem irrisão um colégio de meninas. O contraste entre os dois chefes supremos serviria para levar-nos ao eterno pensamento sobre a diversidade dos seres humanos — mas não pensávamos naquela época. Reagíamos, condicionados pouco a pouco, ao estímulo de ordinário marche, à esquerda, à direita, alto, fórmulas que nos poupam o incômodo exercício do pensamento. E cultivávamos o medo e a raiva: sobretudo quando o Major Eufrásio, de cima de um cavalo, virava o próprio monumento equestre do inimigo da humanidade. [...]

Agora o leitor faça transcorrer vinte anos. Estou na companhia de amigos em um bar na cidade quando sinto, não propriamente medo, mas uma vaga sensação de mal-estar, ao ver na mesa ao lado o terrível do Eufrásio. Tinha cabelos escassos e brancos, mas era o mesmo homem robusto, feio e atarracado. O major bebia sozinho o seu uísque. Estava entre nós alguém que o conhecia dos tempos da Escola Militar: palavra vai, palavra vem, o antigo colega e eu fomos convidados para beber um rápido com o major. A situação me empolgava. Afinal, vinte anos depois ia eu conhecer de perto o fero e intransponível major. O ódio antigo se transformou instantaneamente em curiosidade humana: como seria a fera por dentro? A ideia de que o major fosse a favor da bomba atômica causou-me alvoroço. Seria um fim de carreira em harmonia com o princípio.

Contou-me que se reformara há pouco tempo no posto de general e gozava o ócio depois de tantos anos de trabalho. Puxando a conversa para onde me interessava, disse-lhe do terror que ele me inspirava no meu tempo de soldado. O general pôs-se a sorrir e me falou que, no fundo, sempre fora um sentimental.

Cinco minutos depois, estava a narrar-nos uma história de amor. Ainda o coronel, pouco antes de reformar-se, tivera em Porto Alegre a grande paixão de sua existência. Era a mulher mais bela do mundo, de incomparáveis olhos azuis e francesa. E que voz suave! que delicadeza de gestos! que educação! que finura!

Era casada e muito bem casada. Não, jamais pudéssemos pensar que ele fosse perturbar a felicidade do casal. Frequentou-lhes a casa durante quatro anos em devoção ardente mas coberta pela máscara serena de uma vontade de ferro. Nunca deixou transparecer o que lhe ia no coração! Nunca! A não ser uma vez. Foi quando o casal lhe ofereceu uma grande festa de despedida. Os olhos da fera estavam umedecidos. Ela estava mais deslumbrante do que nunca. Ele, o homenageado, à véspera da partida, às vezes tinha de esconder-se pelos cantos para enxugar com o lenço a emoção. Foi uma coisa indescritível, que só não o levou ao desespero porque de há muito decidira pela resignação.

Houve só um momento de fraqueza. Um só! Foi quando os dois se encontraram sozinhos na sacada, sob um céu maravilhosamente estrelado. Ela confessou a saudade que ele deixava.

– Aí, meu caro amigo, este velho coração não suportou mais. Segurei de leve as mãos dela e disse, em francês: Madame, je vous aime.1

O general tirou o lenço, levantou os óculos, limpou os olhos.

– Ela me apertou a mão com força e me disse... Que coisa linda ela me disse! que simplicidade! que dignidade!... Ela me disse: Merci, mon colonel! 2

1 Madame, je vous aime.: Senhora, eu a amo.

2 Merci, mon colonel!: Obrigada, meu coronel!

(Paulo Mendes Campos. Balé do pato, 2012.)

Na transposição da frase “E cultivávamos o medo e a raiva” (1º parágrafo) para a voz passiva, a forma verbal resultante será:

 

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1443594 Ano: 2022
Disciplina: Português
Banca: VUNESP
Orgão: FICSAE
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Quando eu era soldado, o terror do quartel era o vice-comandante, o Major Eufrásio. Era um homem de meia-altura, atarracado, braços curtos, cara quadrada, de nariz e óculos enormes. Não sorria nunca. Mais que isso, estava sempre de cara amarrada, como se temesse punhalada pelas costas. Não perdoava nada, vivia vasculhando as nossas faltas, mandava prender os subordinados por causa de um botão na túnica ou de uma perneira mal engraxada. Nós lhe votávamos todos um santo ódio, sobretudo porque o próprio comandante era a mais civil das criaturas e poderia dirigir sem irrisão um colégio de meninas. O contraste entre os dois chefes supremos serviria para levar-nos ao eterno pensamento sobre a diversidade dos seres humanos — mas não pensávamos naquela época. Reagíamos, condicionados pouco a pouco, ao estímulo de ordinário marche, à esquerda, à direita, alto, fórmulas que nos poupam o incômodo exercício do pensamento. E cultivávamos o medo e a raiva: sobretudo quando o Major Eufrásio, de cima de um cavalo, virava o próprio monumento equestre do inimigo da humanidade. [...]

Agora o leitor faça transcorrer vinte anos. Estou na companhia de amigos em um bar na cidade quando sinto, não propriamente medo, mas uma vaga sensação de mal-estar, ao ver na mesa ao lado o terrível do Eufrásio. Tinha cabelos escassos e brancos, mas era o mesmo homem robusto, feio e atarracado. O major bebia sozinho o seu uísque. Estava entre nós alguém que o conhecia dos tempos da Escola Militar: palavra vai, palavra vem, o antigo colega e eu fomos convidados para beber um rápido com o major. A situação me empolgava. Afinal, vinte anos depois ia eu conhecer de perto o fero e intransponível major. O ódio antigo se transformou instantaneamente em curiosidade humana: como seria a fera por dentro? A ideia de que o major fosse a favor da bomba atômica causou-me alvoroço. Seria um fim de carreira em harmonia com o princípio.

Contou-me que se reformara há pouco tempo no posto de general e gozava o ócio depois de tantos anos de trabalho. Puxando a conversa para onde me interessava, disse-lhe do terror que ele me inspirava no meu tempo de soldado. O general pôs-se a sorrir e me falou que, no fundo, sempre fora um sentimental.

Cinco minutos depois, estava a narrar-nos uma história de amor. Ainda o coronel, pouco antes de reformar-se, tivera em Porto Alegre a grande paixão de sua existência. Era a mulher mais bela do mundo, de incomparáveis olhos azuis e francesa. E que voz suave! que delicadeza de gestos! que educação! que finura!

Era casada e muito bem casada. Não, jamais pudéssemos pensar que ele fosse perturbar a felicidade do casal. Frequentou-lhes a casa durante quatro anos em devoção ardente mas coberta pela máscara serena de uma vontade de ferro. Nunca deixou transparecer o que lhe ia no coração! Nunca! A não ser uma vez. Foi quando o casal lhe ofereceu uma grande festa de despedida. Os olhos da fera estavam umedecidos. Ela estava mais deslumbrante do que nunca. Ele, o homenageado, à véspera da partida, às vezes tinha de esconder-se pelos cantos para enxugar com o lenço a emoção. Foi uma coisa indescritível, que só não o levou ao desespero porque de há muito decidira pela resignação.

Houve só um momento de fraqueza. Um só! Foi quando os dois se encontraram sozinhos na sacada, sob um céu maravilhosamente estrelado. Ela confessou a saudade que ele deixava.

– Aí, meu caro amigo, este velho coração não suportou mais. Segurei de leve as mãos dela e disse, em francês: Madame, je vous aime.1

O general tirou o lenço, levantou os óculos, limpou os olhos.

– Ela me apertou a mão com força e me disse... Que coisa linda ela me disse! que simplicidade! que dignidade!... Ela me disse: Merci, mon colonel! 2

1 Madame, je vous aime.: Senhora, eu a amo.

2 Merci, mon colonel!: Obrigada, meu coronel!

(Paulo Mendes Campos. Balé do pato, 2012.)

“Contou-me que se reformara há pouco tempo no posto de general e gozava o ócio depois de tantos anos de trabalho.” (3º parágrafo)

Ao ser transposto para o discurso direto, o trecho assume a seguinte redação:

 

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Questão presente nas seguintes provas
1443593 Ano: 2022
Disciplina: Português
Banca: VUNESP
Orgão: FICSAE
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Quando eu era soldado, o terror do quartel era o vice-comandante, o Major Eufrásio. Era um homem de meia-altura, atarracado, braços curtos, cara quadrada, de nariz e óculos enormes. Não sorria nunca. Mais que isso, estava sempre de cara amarrada, como se temesse punhalada pelas costas. Não perdoava nada, vivia vasculhando as nossas faltas, mandava prender os subordinados por causa de um botão na túnica ou de uma perneira mal engraxada. Nós lhe votávamos todos um santo ódio, sobretudo porque o próprio comandante era a mais civil das criaturas e poderia dirigir sem irrisão um colégio de meninas. O contraste entre os dois chefes supremos serviria para levar-nos ao eterno pensamento sobre a diversidade dos seres humanos — mas não pensávamos naquela época. Reagíamos, condicionados pouco a pouco, ao estímulo de ordinário marche, à esquerda, à direita, alto, fórmulas que nos poupam o incômodo exercício do pensamento. E cultivávamos o medo e a raiva: sobretudo quando o Major Eufrásio, de cima de um cavalo, virava o próprio monumento equestre do inimigo da humanidade. [...]

Agora o leitor faça transcorrer vinte anos. Estou na companhia de amigos em um bar na cidade quando sinto, não propriamente medo, mas uma vaga sensação de mal-estar, ao ver na mesa ao lado o terrível do Eufrásio. Tinha cabelos escassos e brancos, mas era o mesmo homem robusto, feio e atarracado. O major bebia sozinho o seu uísque. Estava entre nós alguém que o conhecia dos tempos da Escola Militar: palavra vai, palavra vem, o antigo colega e eu fomos convidados para beber um rápido com o major. A situação me empolgava. Afinal, vinte anos depois ia eu conhecer de perto o fero e intransponível major. O ódio antigo se transformou instantaneamente em curiosidade humana: como seria a fera por dentro? A ideia de que o major fosse a favor da bomba atômica causou-me alvoroço. Seria um fim de carreira em harmonia com o princípio.

Contou-me que se reformara há pouco tempo no posto de general e gozava o ócio depois de tantos anos de trabalho. Puxando a conversa para onde me interessava, disse-lhe do terror que ele me inspirava no meu tempo de soldado. O general pôs-se a sorrir e me falou que, no fundo, sempre fora um sentimental.

Cinco minutos depois, estava a narrar-nos uma história de amor. Ainda o coronel, pouco antes de reformar-se, tivera em Porto Alegre a grande paixão de sua existência. Era a mulher mais bela do mundo, de incomparáveis olhos azuis e francesa. E que voz suave! que delicadeza de gestos! que educação! que finura!

Era casada e muito bem casada. Não, jamais pudéssemos pensar que ele fosse perturbar a felicidade do casal. Frequentou-lhes a casa durante quatro anos em devoção ardente mas coberta pela máscara serena de uma vontade de ferro. Nunca deixou transparecer o que lhe ia no coração! Nunca! A não ser uma vez. Foi quando o casal lhe ofereceu uma grande festa de despedida. Os olhos da fera estavam umedecidos. Ela estava mais deslumbrante do que nunca. Ele, o homenageado, à véspera da partida, às vezes tinha de esconder-se pelos cantos para enxugar com o lenço a emoção. Foi uma coisa indescritível, que só não o levou ao desespero porque de há muito decidira pela resignação.

Houve só um momento de fraqueza. Um só! Foi quando os dois se encontraram sozinhos na sacada, sob um céu maravilhosamente estrelado. Ela confessou a saudade que ele deixava.

– Aí, meu caro amigo, este velho coração não suportou mais. Segurei de leve as mãos dela e disse, em francês: Madame, je vous aime.1

O general tirou o lenço, levantou os óculos, limpou os olhos.

– Ela me apertou a mão com força e me disse... Que coisa linda ela me disse! que simplicidade! que dignidade!... Ela me disse: Merci, mon colonel! 2

1 Madame, je vous aime.: Senhora, eu a amo.

2 Merci, mon colonel!: Obrigada, meu coronel!

(Paulo Mendes Campos. Balé do pato, 2012.)

O termo que qualifica o substantivo na expressão “devoção ardente” (5º parágrafo) tem sentido oposto ao termo que qualifica o substantivo em:

 

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1443592 Ano: 2022
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Quando eu era soldado, o terror do quartel era o vice-comandante, o Major Eufrásio. Era um homem de meia-altura, atarracado, braços curtos, cara quadrada, de nariz e óculos enormes. Não sorria nunca. Mais que isso, estava sempre de cara amarrada, como se temesse punhalada pelas costas. Não perdoava nada, vivia vasculhando as nossas faltas, mandava prender os subordinados por causa de um botão na túnica ou de uma perneira mal engraxada. Nós lhe votávamos todos um santo ódio, sobretudo porque o próprio comandante era a mais civil das criaturas e poderia dirigir sem irrisão um colégio de meninas. O contraste entre os dois chefes supremos serviria para levar-nos ao eterno pensamento sobre a diversidade dos seres humanos — mas não pensávamos naquela época. Reagíamos, condicionados pouco a pouco, ao estímulo de ordinário marche, à esquerda, à direita, alto, fórmulas que nos poupam o incômodo exercício do pensamento. E cultivávamos o medo e a raiva: sobretudo quando o Major Eufrásio, de cima de um cavalo, virava o próprio monumento equestre do inimigo da humanidade. [...]

Agora o leitor faça transcorrer vinte anos. Estou na companhia de amigos em um bar na cidade quando sinto, não propriamente medo, mas uma vaga sensação de mal-estar, ao ver na mesa ao lado o terrível do Eufrásio. Tinha cabelos escassos e brancos, mas era o mesmo homem robusto, feio e atarracado. O major bebia sozinho o seu uísque. Estava entre nós alguém que o conhecia dos tempos da Escola Militar: palavra vai, palavra vem, o antigo colega e eu fomos convidados para beber um rápido com o major. A situação me empolgava. Afinal, vinte anos depois ia eu conhecer de perto o fero e intransponível major. O ódio antigo se transformou instantaneamente em curiosidade humana: como seria a fera por dentro? A ideia de que o major fosse a favor da bomba atômica causou-me alvoroço. Seria um fim de carreira em harmonia com o princípio.

Contou-me que se reformara há pouco tempo no posto de general e gozava o ócio depois de tantos anos de trabalho. Puxando a conversa para onde me interessava, disse-lhe do terror que ele me inspirava no meu tempo de soldado. O general pôs-se a sorrir e me falou que, no fundo, sempre fora um sentimental.

Cinco minutos depois, estava a narrar-nos uma história de amor. Ainda o coronel, pouco antes de reformar-se, tivera em Porto Alegre a grande paixão de sua existência. Era a mulher mais bela do mundo, de incomparáveis olhos azuis e francesa. E que voz suave! que delicadeza de gestos! que educação! que finura!

Era casada e muito bem casada. Não, jamais pudéssemos pensar que ele fosse perturbar a felicidade do casal. Frequentou-lhes a casa durante quatro anos em devoção ardente mas coberta pela máscara serena de uma vontade de ferro. Nunca deixou transparecer o que lhe ia no coração! Nunca! A não ser uma vez. Foi quando o casal lhe ofereceu uma grande festa de despedida. Os olhos da fera estavam umedecidos. Ela estava mais deslumbrante do que nunca. Ele, o homenageado, à véspera da partida, às vezes tinha de esconder-se pelos cantos para enxugar com o lenço a emoção. Foi uma coisa indescritível, que só não o levou ao desespero porque de há muito decidira pela resignação.

Houve só um momento de fraqueza. Um só! Foi quando os dois se encontraram sozinhos na sacada, sob um céu maravilhosamente estrelado. Ela confessou a saudade que ele deixava.

– Aí, meu caro amigo, este velho coração não suportou mais. Segurei de leve as mãos dela e disse, em francês: Madame, je vous aime.1

O general tirou o lenço, levantou os óculos, limpou os olhos.

– Ela me apertou a mão com força e me disse... Que coisa linda ela me disse! que simplicidade! que dignidade!... Ela me disse: Merci, mon colonel! 2

1 Madame, je vous aime.: Senhora, eu a amo.

2 Merci, mon colonel!: Obrigada, meu coronel!

(Paulo Mendes Campos. Balé do pato, 2012.)

No primeiro parágrafo, em oposição ao major, o cronista caracteriza o comandante do quartel como

 

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