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4178603 Ano: 2026
Disciplina: Português
Banca: UFLA
Orgão: UFLA

A RAÇA SUPERIOR

Walcyr Carrasco

A espécie humana acredita ser a única inteligente. Puro engano. Há tempos

imemoriais nós, os humanos, fomos derrotados por uma raça superior, muito mais

esperta. Mais que derrotados, fomos domesticados. Pelos cachorros. De fato, sob

qualquer índice de avaliação, a raça canina se mostra superior. Quem convive com um

cão gosta de dizer que é "dono". Como acreditar, se tudo prova que o cachorro é dono do

homem? Na questão da alimentação, por exemplo. Qualquer pessoa gasta dinheiro e

tempo para comprar ração. Analisa os vários tipos e até experimenta uns pedacinhos para

avaliar o sabor. Corre atrás de ossos para proporcionar tardes de degustação ao cachorro.

Compra imitações de borracha. Indústrias pesquisam novas rações nutritivas. Gastam

uma fábula em propaganda. Ou seja: sem levantar uma pata, o cachorro faz com que os

seres humanos trabalhem torrando neurônios, tempo e dinheiro simplesmente para

alimentá-los! Certa vez tive uma cachorrinha que só podia comer arroz com cenoura e

carne moída. Estava sem empregada. Durante um mês levantava uma hora antes,

preparava a comida e saía para trabalhar. Ao voltar, servia uma nova refeição e lavava o

prato. Em troca, ela me lambia os dedos. Eu me sentia no cúmulo da felicidade só de

receber essas lambidinhas! Seja dita a verdade: quem era dono de quem?

E na questão amorosa? Quando gosta de alguém o cão abana o rabo. Pode ser um

desconhecido. Gostou, abanou. Quando está a fim, deita-se de patas para cima e lança

um olhar bem pidoncho. Até o coração mais duro não resiste a dar carinho, coçar as

orelhas, fazer uns afagos. Eu, não. Nunca me deitei de barriga para ficar me oferecendo.

Vontade não faltou, mas e a coragem? Nós, seres humanos, usamos artifícios. Gastamos

dinheiro em perfumes, em cabeleireiros, em dermatologistas. Vamos a happy hours,

jantares, festas, barzinhos da moda, entramos em chats da internet, só para achar quem

nos coce as orelhas. Se alguém faz festa para todo mundo que conhece, rebolando como

um cãozinho, vem o veredicto:

— Ih! Está com carência afetiva.

Toca a procurar terapeuta. Horas e horas dedicadas a analisar a pura vontade de

buscar amor! Revistas dedicam quilômetros de papel a práticas de sedução. Como olhar

de lado, como sorrir, como se oferecer sem dar na vista. Mais: como ter coragem de

expressar os sentimentos. Cachorro, não. Abana o rabo e pronto. Muitas vezes, com

ciúme, já tive vontade de morder alguém. Ao contrário, sorri simpaticamente enquanto o

sangue fervia. Cães não possuem esse tipo de constrangimento. Atiram-se em cima do

rival. Mordem a mão de quem acaricia. Até conseguirem seu quinhão de afeto. Mas

também não guardam raiva. Depois de rosnarem um para o outro, dois cães saem

pulando e brincando juntos. Que espécie sabe lidar melhor com as próprias emoções?

A questão da pele também é importante. Criamos indústrias do vestuário porque

não estamos satisfeitos com a própria pele, e inventamos estratagemas para cobri-la. Boa

parte da humanidade se dedica a fabricar tecidos, a inventar e a vender roupas. Qualquer

pessoa ambiciona se vestir bem. Fortunas são despendidas em novos guarda-roupas. A

moda vira, e toca a gastar tudo outra vez. Cachorro, não. Nasce vestido. Imagine-se

quanto delírio, quanta mão-de-obra seria evitada se o ser humano tivesse a mesma

tranquilidade a respeito da própria aparência.

Chegamos ao X da questão. Criamos filosofias, escrevemos livros. Há quem faça

ioga, meditação. Tudo para aprender a aceitar o fardo da existência. O cão já nasce

aceitando. A vida é e não é, deve pensar o cão, com a sabedoria de um mestre zen. É o

que constato todo dia ao chegar em casa exausto do trabalho, de mau humor com o

chefe, com a fatura do cartão de crédito prestes a me degolar, o cheque especial batendo

as folhas em torno de minhas orelhas como uma ave de rapina.

Sento na varanda e meu cachorro se aproxima. Sem nenhuma preocupação na

vida. Deita-se aos meus pés e prepara-se para receber sua dose cotidiana de carinho. Eu

me submeto. Raça superior é isso aí.

Disponível em: https://comissaodecultura.wordpress.com/wp-content/uploads/2011/06/walcyr-carrasco-pequenos-d elitos-e-outras-crc3b4nicas.pdf (Adaptado).

Todas as alternativas apresentam análises corretas sobre as estratégias humorísticas empregadas, EXCETO:

 

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4178602 Ano: 2026
Disciplina: Português
Banca: UFLA
Orgão: UFLA

A RAÇA SUPERIOR

Walcyr Carrasco

A espécie humana acredita ser a única inteligente. Puro engano. Há tempos

imemoriais nós, os humanos, fomos derrotados por uma raça superior, muito mais

esperta. Mais que derrotados, fomos domesticados. Pelos cachorros. De fato, sob

qualquer índice de avaliação, a raça canina se mostra superior. Quem convive com um

cão gosta de dizer que é "dono". Como acreditar, se tudo prova que o cachorro é dono do

homem? Na questão da alimentação, por exemplo. Qualquer pessoa gasta dinheiro e

tempo para comprar ração. Analisa os vários tipos e até experimenta uns pedacinhos para

avaliar o sabor. Corre atrás de ossos para proporcionar tardes de degustação ao cachorro.

Compra imitações de borracha. Indústrias pesquisam novas rações nutritivas. Gastam

uma fábula em propaganda. Ou seja: sem levantar uma pata, o cachorro faz com que os

seres humanos trabalhem torrando neurônios, tempo e dinheiro simplesmente para

alimentá-los! Certa vez tive uma cachorrinha que só podia comer arroz com cenoura e

carne moída. Estava sem empregada. Durante um mês levantava uma hora antes,

preparava a comida e saía para trabalhar. Ao voltar, servia uma nova refeição e lavava o

prato. Em troca, ela me lambia os dedos. Eu me sentia no cúmulo da felicidade só de

receber essas lambidinhas! Seja dita a verdade: quem era dono de quem?

E na questão amorosa? Quando gosta de alguém o cão abana o rabo. Pode ser um

desconhecido. Gostou, abanou. Quando está a fim, deita-se de patas para cima e lança

um olhar bem pidoncho. Até o coração mais duro não resiste a dar carinho, coçar as

orelhas, fazer uns afagos. Eu, não. Nunca me deitei de barriga para ficar me oferecendo.

Vontade não faltou, mas e a coragem? Nós, seres humanos, usamos artifícios. Gastamos

dinheiro em perfumes, em cabeleireiros, em dermatologistas. Vamos a happy hours,

jantares, festas, barzinhos da moda, entramos em chats da internet, só para achar quem

nos coce as orelhas. Se alguém faz festa para todo mundo que conhece, rebolando como

um cãozinho, vem o veredicto:

— Ih! Está com carência afetiva.

Toca a procurar terapeuta. Horas e horas dedicadas a analisar a pura vontade de

buscar amor! Revistas dedicam quilômetros de papel a práticas de sedução. Como olhar

de lado, como sorrir, como se oferecer sem dar na vista. Mais: como ter coragem de

expressar os sentimentos. Cachorro, não. Abana o rabo e pronto. Muitas vezes, com

ciúme, já tive vontade de morder alguém. Ao contrário, sorri simpaticamente enquanto o

sangue fervia. Cães não possuem esse tipo de constrangimento. Atiram-se em cima do

rival. Mordem a mão de quem acaricia. Até conseguirem seu quinhão de afeto. Mas

também não guardam raiva. Depois de rosnarem um para o outro, dois cães saem

pulando e brincando juntos. Que espécie sabe lidar melhor com as próprias emoções?

A questão da pele também é importante. Criamos indústrias do vestuário porque

não estamos satisfeitos com a própria pele, e inventamos estratagemas para cobri-la. Boa

parte da humanidade se dedica a fabricar tecidos, a inventar e a vender roupas. Qualquer

pessoa ambiciona se vestir bem. Fortunas são despendidas em novos guarda-roupas. A

moda vira, e toca a gastar tudo outra vez. Cachorro, não. Nasce vestido. Imagine-se

quanto delírio, quanta mão-de-obra seria evitada se o ser humano tivesse a mesma

tranquilidade a respeito da própria aparência.

Chegamos ao X da questão. Criamos filosofias, escrevemos livros. Há quem faça

ioga, meditação. Tudo para aprender a aceitar o fardo da existência. O cão já nasce

aceitando. A vida é e não é, deve pensar o cão, com a sabedoria de um mestre zen. É o

que constato todo dia ao chegar em casa exausto do trabalho, de mau humor com o

chefe, com a fatura do cartão de crédito prestes a me degolar, o cheque especial batendo

as folhas em torno de minhas orelhas como uma ave de rapina.

Sento na varanda e meu cachorro se aproxima. Sem nenhuma preocupação na

vida. Deita-se aos meus pés e prepara-se para receber sua dose cotidiana de carinho. Eu

me submeto. Raça superior é isso aí.

Disponível em: https://comissaodecultura.wordpress.com/wp-content/uploads/2011/06/walcyr-carrasco-pequenos-d elitos-e-outras-crc3b4nicas.pdf (Adaptado).

Leia o excerto:

“Chegamos ao X da questão. Criamos filosofias, escrevemos livros. Há quem faça ioga, meditação. Tudo para aprender a aceitar o fardo da existência. O cão já nasce aceitando. A vida é e não é, deve pensar o cão, com a sabedoria de um mestre zen. É o que constato todo dia ao chegar em casa exausto do trabalho, de mau humor com o chefe, com a fatura do cartão de crédito prestes a me degolar, o cheque especial batendo as folhas em torno de minhas orelhas como uma ave de rapina.” (linhas 43 a 48)

Assinale a alternativa que expressa CORRETAMENTE a ideia central desenvolvida no parágrafo:

 

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4178601 Ano: 2026
Disciplina: Português
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A RAÇA SUPERIOR

Walcyr Carrasco

A espécie humana acredita ser a única inteligente. Puro engano. Há tempos

imemoriais nós, os humanos, fomos derrotados por uma raça superior, muito mais

esperta. Mais que derrotados, fomos domesticados. Pelos cachorros. De fato, sob

qualquer índice de avaliação, a raça canina se mostra superior. Quem convive com um

cão gosta de dizer que é "dono". Como acreditar, se tudo prova que o cachorro é dono do

homem? Na questão da alimentação, por exemplo. Qualquer pessoa gasta dinheiro e

tempo para comprar ração. Analisa os vários tipos e até experimenta uns pedacinhos para

avaliar o sabor. Corre atrás de ossos para proporcionar tardes de degustação ao cachorro.

Compra imitações de borracha. Indústrias pesquisam novas rações nutritivas. Gastam

uma fábula em propaganda. Ou seja: sem levantar uma pata, o cachorro faz com que os

seres humanos trabalhem torrando neurônios, tempo e dinheiro simplesmente para

alimentá-los! Certa vez tive uma cachorrinha que só podia comer arroz com cenoura e

carne moída. Estava sem empregada. Durante um mês levantava uma hora antes,

preparava a comida e saía para trabalhar. Ao voltar, servia uma nova refeição e lavava o

prato. Em troca, ela me lambia os dedos. Eu me sentia no cúmulo da felicidade só de

receber essas lambidinhas! Seja dita a verdade: quem era dono de quem?

E na questão amorosa? Quando gosta de alguém o cão abana o rabo. Pode ser um

desconhecido. Gostou, abanou. Quando está a fim, deita-se de patas para cima e lança

um olhar bem pidoncho. Até o coração mais duro não resiste a dar carinho, coçar as

orelhas, fazer uns afagos. Eu, não. Nunca me deitei de barriga para ficar me oferecendo.

Vontade não faltou, mas e a coragem? Nós, seres humanos, usamos artifícios. Gastamos

dinheiro em perfumes, em cabeleireiros, em dermatologistas. Vamos a happy hours,

jantares, festas, barzinhos da moda, entramos em chats da internet, só para achar quem

nos coce as orelhas. Se alguém faz festa para todo mundo que conhece, rebolando como

um cãozinho, vem o veredicto:

— Ih! Está com carência afetiva.

Toca a procurar terapeuta. Horas e horas dedicadas a analisar a pura vontade de

buscar amor! Revistas dedicam quilômetros de papel a práticas de sedução. Como olhar

de lado, como sorrir, como se oferecer sem dar na vista. Mais: como ter coragem de

expressar os sentimentos. Cachorro, não. Abana o rabo e pronto. Muitas vezes, com

ciúme, já tive vontade de morder alguém. Ao contrário, sorri simpaticamente enquanto o

sangue fervia. Cães não possuem esse tipo de constrangimento. Atiram-se em cima do

rival. Mordem a mão de quem acaricia. Até conseguirem seu quinhão de afeto. Mas

também não guardam raiva. Depois de rosnarem um para o outro, dois cães saem

pulando e brincando juntos. Que espécie sabe lidar melhor com as próprias emoções?

A questão da pele também é importante. Criamos indústrias do vestuário porque

não estamos satisfeitos com a própria pele, e inventamos estratagemas para cobri-la. Boa

parte da humanidade se dedica a fabricar tecidos, a inventar e a vender roupas. Qualquer

pessoa ambiciona se vestir bem. Fortunas são despendidas em novos guarda-roupas. A

moda vira, e toca a gastar tudo outra vez. Cachorro, não. Nasce vestido. Imagine-se

quanto delírio, quanta mão-de-obra seria evitada se o ser humano tivesse a mesma

tranquilidade a respeito da própria aparência.

Chegamos ao X da questão. Criamos filosofias, escrevemos livros. Há quem faça

ioga, meditação. Tudo para aprender a aceitar o fardo da existência. O cão já nasce

aceitando. A vida é e não é, deve pensar o cão, com a sabedoria de um mestre zen. É o

que constato todo dia ao chegar em casa exausto do trabalho, de mau humor com o

chefe, com a fatura do cartão de crédito prestes a me degolar, o cheque especial batendo

as folhas em torno de minhas orelhas como uma ave de rapina.

Sento na varanda e meu cachorro se aproxima. Sem nenhuma preocupação na

vida. Deita-se aos meus pés e prepara-se para receber sua dose cotidiana de carinho. Eu

me submeto. Raça superior é isso aí.

Disponível em: https://comissaodecultura.wordpress.com/wp-content/uploads/2011/06/walcyr-carrasco-pequenos-d elitos-e-outras-crc3b4nicas.pdf (Adaptado).

Considerando as construções sintático-semânticas, analise as alternativas e assinale a INCORRETA: 

 

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4178600 Ano: 2026
Disciplina: Português
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A RAÇA SUPERIOR

Walcyr Carrasco

A espécie humana acredita ser a única inteligente. Puro engano. Há tempos

imemoriais nós, os humanos, fomos derrotados por uma raça superior, muito mais

esperta. Mais que derrotados, fomos domesticados. Pelos cachorros. De fato, sob

qualquer índice de avaliação, a raça canina se mostra superior. Quem convive com um

cão gosta de dizer que é "dono". Como acreditar, se tudo prova que o cachorro é dono do

homem? Na questão da alimentação, por exemplo. Qualquer pessoa gasta dinheiro e

tempo para comprar ração. Analisa os vários tipos e até experimenta uns pedacinhos para

avaliar o sabor. Corre atrás de ossos para proporcionar tardes de degustação ao cachorro.

Compra imitações de borracha. Indústrias pesquisam novas rações nutritivas. Gastam

uma fábula em propaganda. Ou seja: sem levantar uma pata, o cachorro faz com que os

seres humanos trabalhem torrando neurônios, tempo e dinheiro simplesmente para

alimentá-los! Certa vez tive uma cachorrinha que só podia comer arroz com cenoura e

carne moída. Estava sem empregada. Durante um mês levantava uma hora antes,

preparava a comida e saía para trabalhar. Ao voltar, servia uma nova refeição e lavava o

prato. Em troca, ela me lambia os dedos. Eu me sentia no cúmulo da felicidade só de

receber essas lambidinhas! Seja dita a verdade: quem era dono de quem?

E na questão amorosa? Quando gosta de alguém o cão abana o rabo. Pode ser um

desconhecido. Gostou, abanou. Quando está a fim, deita-se de patas para cima e lança

um olhar bem pidoncho. Até o coração mais duro não resiste a dar carinho, coçar as

orelhas, fazer uns afagos. Eu, não. Nunca me deitei de barriga para ficar me oferecendo.

Vontade não faltou, mas e a coragem? Nós, seres humanos, usamos artifícios. Gastamos

dinheiro em perfumes, em cabeleireiros, em dermatologistas. Vamos a happy hours,

jantares, festas, barzinhos da moda, entramos em chats da internet, só para achar quem

nos coce as orelhas. Se alguém faz festa para todo mundo que conhece, rebolando como

um cãozinho, vem o veredicto:

— Ih! Está com carência afetiva.

Toca a procurar terapeuta. Horas e horas dedicadas a analisar a pura vontade de

buscar amor! Revistas dedicam quilômetros de papel a práticas de sedução. Como olhar

de lado, como sorrir, como se oferecer sem dar na vista. Mais: como ter coragem de

expressar os sentimentos. Cachorro, não. Abana o rabo e pronto. Muitas vezes, com

ciúme, já tive vontade de morder alguém. Ao contrário, sorri simpaticamente enquanto o

sangue fervia. Cães não possuem esse tipo de constrangimento. Atiram-se em cima do

rival. Mordem a mão de quem acaricia. Até conseguirem seu quinhão de afeto. Mas

também não guardam raiva. Depois de rosnarem um para o outro, dois cães saem

pulando e brincando juntos. Que espécie sabe lidar melhor com as próprias emoções?

A questão da pele também é importante. Criamos indústrias do vestuário porque

não estamos satisfeitos com a própria pele, e inventamos estratagemas para cobri-la. Boa

parte da humanidade se dedica a fabricar tecidos, a inventar e a vender roupas. Qualquer

pessoa ambiciona se vestir bem. Fortunas são despendidas em novos guarda-roupas. A

moda vira, e toca a gastar tudo outra vez. Cachorro, não. Nasce vestido. Imagine-se

quanto delírio, quanta mão-de-obra seria evitada se o ser humano tivesse a mesma

tranquilidade a respeito da própria aparência.

Chegamos ao X da questão. Criamos filosofias, escrevemos livros. Há quem faça

ioga, meditação. Tudo para aprender a aceitar o fardo da existência. O cão já nasce

aceitando. A vida é e não é, deve pensar o cão, com a sabedoria de um mestre zen. É o

que constato todo dia ao chegar em casa exausto do trabalho, de mau humor com o

chefe, com a fatura do cartão de crédito prestes a me degolar, o cheque especial batendo

as folhas em torno de minhas orelhas como uma ave de rapina.

Sento na varanda e meu cachorro se aproxima. Sem nenhuma preocupação na

vida. Deita-se aos meus pés e prepara-se para receber sua dose cotidiana de carinho. Eu

me submeto. Raça superior é isso aí.

Disponível em: https://comissaodecultura.wordpress.com/wp-content/uploads/2011/06/walcyr-carrasco-pequenos-d elitos-e-outras-crc3b4nicas.pdf (Adaptado).

Leia os excertos e analise o uso da linguagem informal:

I - “Quando está a fim, deita-se de patas para cima e lança um olhar bem pidoncho.” (linhas 18 e 19)
II - “sem levantar uma pata, o cachorro faz com que os seres humanos trabalhem torrando neurônios, tempo e dinheiro simplesmente para alimentá-los!” (linhas 10 a 12)
III - “Eu me sentia no cúmulo da felicidade só de receber essas lambidinhas!” (linha 15 e 16)
IV - “Se alguém faz festa para todo mundo que conhece, rebolando como um cãozinho, vem o veredicto: — Ih! Está com carência afetiva.” (linhas 24 a 26)
V - “Chegamos ao X da questão.” (linha 43)

Considerando as marcas de oralidade e informalidade presentes nos excertos, assinale a alternativa CORRETA:

 

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4178599 Ano: 2026
Disciplina: Português
Banca: UFLA
Orgão: UFLA

A RAÇA SUPERIOR

Walcyr Carrasco

A espécie humana acredita ser a única inteligente. Puro engano. Há tempos

imemoriais nós, os humanos, fomos derrotados por uma raça superior, muito mais

esperta. Mais que derrotados, fomos domesticados. Pelos cachorros. De fato, sob

qualquer índice de avaliação, a raça canina se mostra superior. Quem convive com um

cão gosta de dizer que é "dono". Como acreditar, se tudo prova que o cachorro é dono do

homem? Na questão da alimentação, por exemplo. Qualquer pessoa gasta dinheiro e

tempo para comprar ração. Analisa os vários tipos e até experimenta uns pedacinhos para

avaliar o sabor. Corre atrás de ossos para proporcionar tardes de degustação ao cachorro.

Compra imitações de borracha. Indústrias pesquisam novas rações nutritivas. Gastam

uma fábula em propaganda. Ou seja: sem levantar uma pata, o cachorro faz com que os

seres humanos trabalhem torrando neurônios, tempo e dinheiro simplesmente para

alimentá-los! Certa vez tive uma cachorrinha que só podia comer arroz com cenoura e

carne moída. Estava sem empregada. Durante um mês levantava uma hora antes,

preparava a comida e saía para trabalhar. Ao voltar, servia uma nova refeição e lavava o

prato. Em troca, ela me lambia os dedos. Eu me sentia no cúmulo da felicidade só de

receber essas lambidinhas! Seja dita a verdade: quem era dono de quem?

E na questão amorosa? Quando gosta de alguém o cão abana o rabo. Pode ser um

desconhecido. Gostou, abanou. Quando está a fim, deita-se de patas para cima e lança

um olhar bem pidoncho. Até o coração mais duro não resiste a dar carinho, coçar as

orelhas, fazer uns afagos. Eu, não. Nunca me deitei de barriga para ficar me oferecendo.

Vontade não faltou, mas e a coragem? Nós, seres humanos, usamos artifícios. Gastamos

dinheiro em perfumes, em cabeleireiros, em dermatologistas. Vamos a happy hours,

jantares, festas, barzinhos da moda, entramos em chats da internet, só para achar quem

nos coce as orelhas. Se alguém faz festa para todo mundo que conhece, rebolando como

um cãozinho, vem o veredicto:

— Ih! Está com carência afetiva.

Toca a procurar terapeuta. Horas e horas dedicadas a analisar a pura vontade de

buscar amor! Revistas dedicam quilômetros de papel a práticas de sedução. Como olhar

de lado, como sorrir, como se oferecer sem dar na vista. Mais: como ter coragem de

expressar os sentimentos. Cachorro, não. Abana o rabo e pronto. Muitas vezes, com

ciúme, já tive vontade de morder alguém. Ao contrário, sorri simpaticamente enquanto o

sangue fervia. Cães não possuem esse tipo de constrangimento. Atiram-se em cima do

rival. Mordem a mão de quem acaricia. Até conseguirem seu quinhão de afeto. Mas

também não guardam raiva. Depois de rosnarem um para o outro, dois cães saem

pulando e brincando juntos. Que espécie sabe lidar melhor com as próprias emoções?

A questão da pele também é importante. Criamos indústrias do vestuário porque

não estamos satisfeitos com a própria pele, e inventamos estratagemas para cobri-la. Boa

parte da humanidade se dedica a fabricar tecidos, a inventar e a vender roupas. Qualquer

pessoa ambiciona se vestir bem. Fortunas são despendidas em novos guarda-roupas. A

moda vira, e toca a gastar tudo outra vez. Cachorro, não. Nasce vestido. Imagine-se

quanto delírio, quanta mão-de-obra seria evitada se o ser humano tivesse a mesma

tranquilidade a respeito da própria aparência.

Chegamos ao X da questão. Criamos filosofias, escrevemos livros. Há quem faça

ioga, meditação. Tudo para aprender a aceitar o fardo da existência. O cão já nasce

aceitando. A vida é e não é, deve pensar o cão, com a sabedoria de um mestre zen. É o

que constato todo dia ao chegar em casa exausto do trabalho, de mau humor com o

chefe, com a fatura do cartão de crédito prestes a me degolar, o cheque especial batendo

as folhas em torno de minhas orelhas como uma ave de rapina.

Sento na varanda e meu cachorro se aproxima. Sem nenhuma preocupação na

vida. Deita-se aos meus pés e prepara-se para receber sua dose cotidiana de carinho. Eu

me submeto. Raça superior é isso aí.

Disponível em: https://comissaodecultura.wordpress.com/wp-content/uploads/2011/06/walcyr-carrasco-pequenos-d elitos-e-outras-crc3b4nicas.pdf (Adaptado).

Considerando a ideia central da crônica “A Raça Superior”, assinale a alternativa CORRETA:

 

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4178598 Ano: 2026
Disciplina: Português
Banca: UFLA
Orgão: UFLA

A ESTABILIDADE

"Nenhum servidor público pode ser coagido a realizar um malfeito por medo de perder seu sustento"

Nasci em Manaus, em 1971. A Zona Franca tinha apenas 14 anos de existência e

começava a produzir seus efeitos benéficos na cidade. Mesmo sendo muito pobre, desde

que me entendo por gente sempre quis ser cientista. Sonhava em estudar na Unicamp. O

sonho tornou-se realidade em 1991. Como não tinha como pagar aluguel, consegui uma

vaga na Moradia Estudantil da Unicamp, na casa H2. Fazia minhas compras em uma

pequena mercearia. Ia e voltava a pé, com as sacolas contendo, basicamente, miojo,

atum enlatado, leite, achocolatado e bolachas recheadas para o café da manhã. Vida

simples. O dinheiro era literalmente contado para o transporte, a alimentação nos finais de

semana (miojo com atum ou cachorro-quente) e os tíquetes do bandejão. Às vezes,

sobravam alguns trocados, que eu gastava comprando livros nas extintas livrarias do

centro de Campinas.

Como cada centavo fazia diferença, eu sempre prestava muita atenção em onde e

como gastava meus cruzeiros. Lembro-me de uma ocasião em que, ao passar os

produtos pelo caixa do supermercado, acabei perdendo a paciência com a funcionária,

pois, pela milésima vez (obviamente uma hipérbole), precisava reclamar do preço errado.

Porém, o que realmente me tirou do sério foi que a diferença era sempre para mais, nunca

para menos. Erros genuínos têm padrão aleatório: uns para mais; outros, para menos.

Aquilo parecia intencional. Num rompante de raiva, perguntei: “Por que o preço sempre

sai mais caro?”. A moça do caixa não me respondeu. Seus olhos, angustiados e tristes,

encontraram os meus e, em silêncio, ela corrigiu o valor do produto.

Na volta para casa, carregando minhas compras, não parava de pensar no absurdo

daquela situação. Errar o preço para mais, consistentemente, era um tipo de roubo. Por

que ela faria aquilo? Eu era tão pobre quanto ela. Certamente, aquele “roubo” não iria

para o seu bolso, pois estava registrado, e uma rápida conferência contábil apontaria a

falta, caso ela se apropriasse da quantia surrupiada. Para mim, aquilo simplesmente não

fazia sentido. Minha raiva só aumentava a cada passo que dava. Já quase chegando à

Moradia, lembrei-me do olhar que trocamos. Um frio percorreu-me a espinha! E se ela

fosse obrigada a proceder assim? Não — pensei —, ninguém me forçaria a fazer aquilo.

Se alguém tentasse, eu pediria demissão na hora. Não trabalharia em um local onde o

padrão moral fosse tão baixo!

Meus pensamentos já iam se dispersando quando me ocorreu outra dúvida, ainda

mais incômoda: e se eu fosse casado e tivesse filhos? Será que a decisão seria tão fácil?

Aquela moça deveria ter uns trinta anos. Provavelmente, era casada. Teria filhos? Não sei.

Porém, se aquela fosse sua única fonte de renda, um pedido do patrão, por mais

indecente que fosse, soaria como uma ordem irrecusável. É, a vida não é simples, não.

Naquela altura, como estudante, minhas responsabilidades eram limitadas. Eu podia fazer

escolhas radicais, e o único afetado seria eu mesmo. Talvez aquela funcionária tivesse

que optar entre o certo e o errado, tendo como pano de fundo a sobrevivência dos

próprios filhos. O que eu faria naquela situação?

Gosto de fantasiar que optaria pelo certo. Ah, o autoengano! Sempre imaginamos

ser melhores do que realmente somos. Foi refletindo sobre esse acontecimento, décadas

depois, que compreendi uma das principais razões para a estabilidade dos servidores

públicos de todas as esferas governamentais. Sei que, para muitos cidadãos, a

estabilidade parece um privilégio injustificável. Entretanto, sem ela, multiplicam-se os

incentivos para que servidores cedam a pressões políticas e econômicas. Nenhum

servidor público pode ser coagido a realizar um malfeito por medo de perder seu sustento.

Na eventualidade de um superior hierárquico (ou qualquer indivíduo) assediá-lo para que

cometa um ato ilícito, ele pode simplesmente se recusar. Obviamente, não sejamos

ingênuos: sofrerá outros tipos de retaliação, mas não perderá o emprego e, portanto, não

exporá a família a privações. A estabilidade permite que o servidor público faça sempre o

certo. Quiçá usassem mais esse “superpoder”! Aquela atendente do caixa poderia

racionalizar seu desvio de conduta e até dormir em paz, mas nenhum servidor público

com estabilidade terá aquele atenuante — não lhe restando alternativa senão encarar a

própria pusilanimidade ou mau-caratismo.

Michel Yamagishi

Disponível em: https://jornal.unicamp.br/artigo/2025/12/01/a-estabilidade/.

Considerando os mecanismos de coesão referencial empregados no texto lido, leia os excertos a seguir, avalie as análises apresentadas e assinale a alternativa INCORRETA:

 

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4178597 Ano: 2026
Disciplina: Português
Banca: UFLA
Orgão: UFLA

A ESTABILIDADE

"Nenhum servidor público pode ser coagido a realizar um malfeito por medo de perder seu sustento"

Nasci em Manaus, em 1971. A Zona Franca tinha apenas 14 anos de existência e

começava a produzir seus efeitos benéficos na cidade. Mesmo sendo muito pobre, desde

que me entendo por gente sempre quis ser cientista. Sonhava em estudar na Unicamp. O

sonho tornou-se realidade em 1991. Como não tinha como pagar aluguel, consegui uma

vaga na Moradia Estudantil da Unicamp, na casa H2. Fazia minhas compras em uma

pequena mercearia. Ia e voltava a pé, com as sacolas contendo, basicamente, miojo,

atum enlatado, leite, achocolatado e bolachas recheadas para o café da manhã. Vida

simples. O dinheiro era literalmente contado para o transporte, a alimentação nos finais de

semana (miojo com atum ou cachorro-quente) e os tíquetes do bandejão. Às vezes,

sobravam alguns trocados, que eu gastava comprando livros nas extintas livrarias do

centro de Campinas.

Como cada centavo fazia diferença, eu sempre prestava muita atenção em onde e

como gastava meus cruzeiros. Lembro-me de uma ocasião em que, ao passar os

produtos pelo caixa do supermercado, acabei perdendo a paciência com a funcionária,

pois, pela milésima vez (obviamente uma hipérbole), precisava reclamar do preço errado.

Porém, o que realmente me tirou do sério foi que a diferença era sempre para mais, nunca

para menos. Erros genuínos têm padrão aleatório: uns para mais; outros, para menos.

Aquilo parecia intencional. Num rompante de raiva, perguntei: “Por que o preço sempre

sai mais caro?”. A moça do caixa não me respondeu. Seus olhos, angustiados e tristes,

encontraram os meus e, em silêncio, ela corrigiu o valor do produto.

Na volta para casa, carregando minhas compras, não parava de pensar no absurdo

daquela situação. Errar o preço para mais, consistentemente, era um tipo de roubo. Por

que ela faria aquilo? Eu era tão pobre quanto ela. Certamente, aquele “roubo” não iria

para o seu bolso, pois estava registrado, e uma rápida conferência contábil apontaria a

falta, caso ela se apropriasse da quantia surrupiada. Para mim, aquilo simplesmente não

fazia sentido. Minha raiva só aumentava a cada passo que dava. Já quase chegando à

Moradia, lembrei-me do olhar que trocamos. Um frio percorreu-me a espinha! E se ela

fosse obrigada a proceder assim? Não — pensei —, ninguém me forçaria a fazer aquilo.

Se alguém tentasse, eu pediria demissão na hora. Não trabalharia em um local onde o

padrão moral fosse tão baixo!

Meus pensamentos já iam se dispersando quando me ocorreu outra dúvida, ainda

mais incômoda: e se eu fosse casado e tivesse filhos? Será que a decisão seria tão fácil?

Aquela moça deveria ter uns trinta anos. Provavelmente, era casada. Teria filhos? Não sei.

Porém, se aquela fosse sua única fonte de renda, um pedido do patrão, por mais

indecente que fosse, soaria como uma ordem irrecusável. É, a vida não é simples, não.

Naquela altura, como estudante, minhas responsabilidades eram limitadas. Eu podia fazer

escolhas radicais, e o único afetado seria eu mesmo. Talvez aquela funcionária tivesse

que optar entre o certo e o errado, tendo como pano de fundo a sobrevivência dos

próprios filhos. O que eu faria naquela situação?

Gosto de fantasiar que optaria pelo certo. Ah, o autoengano! Sempre imaginamos

ser melhores do que realmente somos. Foi refletindo sobre esse acontecimento, décadas

depois, que compreendi uma das principais razões para a estabilidade dos servidores

públicos de todas as esferas governamentais. Sei que, para muitos cidadãos, a

estabilidade parece um privilégio injustificável. Entretanto, sem ela, multiplicam-se os

incentivos para que servidores cedam a pressões políticas e econômicas. Nenhum

servidor público pode ser coagido a realizar um malfeito por medo de perder seu sustento.

Na eventualidade de um superior hierárquico (ou qualquer indivíduo) assediá-lo para que

cometa um ato ilícito, ele pode simplesmente se recusar. Obviamente, não sejamos

ingênuos: sofrerá outros tipos de retaliação, mas não perderá o emprego e, portanto, não

exporá a família a privações. A estabilidade permite que o servidor público faça sempre o

certo. Quiçá usassem mais esse “superpoder”! Aquela atendente do caixa poderia

racionalizar seu desvio de conduta e até dormir em paz, mas nenhum servidor público

com estabilidade terá aquele atenuante — não lhe restando alternativa senão encarar a

própria pusilanimidade ou mau-caratismo.

Michel Yamagishi

Disponível em: https://jornal.unicamp.br/artigo/2025/12/01/a-estabilidade/.

À luz das estratégias argumentativas utilizadas para sustentar o posicionamento do autor em defesa da estabilidade, leia os excertos a seguir e avalie as análises apresentadas:

I – “Nasci em Manaus, em 1971. A Zona Franca tinha apenas 14 anos de existência e começava a produzir seus efeitos benéficos na cidade. Mesmo sendo muito pobre, desde que me entendo por gente sempre quis ser cientista. Sonhava em estudar na Unicamp. O sonho tornou-se realidade em 1991.” (linhas 1 a 4) ⇒ Argumento de autoridade: o narrador-autor, com base no prestígio associado ao fato de ter estudado na Unicamp e de ser cientista, busca legitimar o seu ponto de vista, fazendo de sua formação acadêmica o principal fundamento da tese sobre a estabilidade.
II – “Lembro-me de uma ocasião em que, ao passar os produtos pelo caixa do supermercado, acabei perdendo a paciência com a funcionária, pois, pela milésima vez (obviamente uma hipérbole), precisava reclamar do preço errado.” (linhas 13 a 15) ⇒ Argumento por exemplificação: o episódio relatado é um caso, que ilustra a situação de trabalhadores submetidos a ordens questionáveis, servindo de base para a reflexão sobre coação econômica e para a defesa da estabilidade como mecanismo de proteção da ética no serviço público.
III – “Meus pensamentos já iam se dispersando quando me ocorreu outra dúvida, ainda mais incômoda: e se eu fosse casado e tivesse filhos? Será que a decisão seria tão fácil?” (linhas 31 e 32) ⇒ Raciocínio hipotético/contrafactual: ao se imaginar em outra condição (casado, com filhos), o narrador complexifica seu juízo inicial e introduz um cenário hipotético que evidencia o peso das responsabilidades familiares nas decisões éticas.
IV – “Sei que, para muitos cidadãos, a estabilidade parece um privilégio injustificável. Entretanto, sem ela, multiplicam-se os incentivos para que servidores cedam a pressões políticas e econômicas.” (linhas 43 a 45) ⇒ Argumento de causa e consequência: o autor menciona uma objeção à estabilidade e, em seguida, relaciona a ausência desse direito ao aumento de pressões indevidas sobre o servidor, estabelecendo um nexo causal entre falta de estabilidade e vulnerabilidade ética.
V – “Na volta para casa, carregando minhas compras, não parava de pensar no absurdo daquela situação. Errar o preço para mais, consistentemente, era um tipo de roubo. Por que ela faria aquilo? Eu era tão pobre quanto ela.” (linhas 21 a 23) ⇒ Argumento por generalização: ao considerar que o erro constante “para mais” configura “um tipo de roubo” e lembrar que também era pobre, o narrador formula uma conclusão geral sobre a desonestidade da funcionária, estendendo aquele caso específico a um julgamento amplo sobre o comportamento de trabalhadores em situação semelhante.

Assinale a alternativa CORRETA:

 

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4178596 Ano: 2026
Disciplina: Português
Banca: UFLA
Orgão: UFLA

A ESTABILIDADE

"Nenhum servidor público pode ser coagido a realizar um malfeito por medo de perder seu sustento"

Nasci em Manaus, em 1971. A Zona Franca tinha apenas 14 anos de existência e

começava a produzir seus efeitos benéficos na cidade. Mesmo sendo muito pobre, desde

que me entendo por gente sempre quis ser cientista. Sonhava em estudar na Unicamp. O

sonho tornou-se realidade em 1991. Como não tinha como pagar aluguel, consegui uma

vaga na Moradia Estudantil da Unicamp, na casa H2. Fazia minhas compras em uma

pequena mercearia. Ia e voltava a pé, com as sacolas contendo, basicamente, miojo,

atum enlatado, leite, achocolatado e bolachas recheadas para o café da manhã. Vida

simples. O dinheiro era literalmente contado para o transporte, a alimentação nos finais de

semana (miojo com atum ou cachorro-quente) e os tíquetes do bandejão. Às vezes,

sobravam alguns trocados, que eu gastava comprando livros nas extintas livrarias do

centro de Campinas.

Como cada centavo fazia diferença, eu sempre prestava muita atenção em onde e

como gastava meus cruzeiros. Lembro-me de uma ocasião em que, ao passar os

produtos pelo caixa do supermercado, acabei perdendo a paciência com a funcionária,

pois, pela milésima vez (obviamente uma hipérbole), precisava reclamar do preço errado.

Porém, o que realmente me tirou do sério foi que a diferença era sempre para mais, nunca

para menos. Erros genuínos têm padrão aleatório: uns para mais; outros, para menos.

Aquilo parecia intencional. Num rompante de raiva, perguntei: “Por que o preço sempre

sai mais caro?”. A moça do caixa não me respondeu. Seus olhos, angustiados e tristes,

encontraram os meus e, em silêncio, ela corrigiu o valor do produto.

Na volta para casa, carregando minhas compras, não parava de pensar no absurdo

daquela situação. Errar o preço para mais, consistentemente, era um tipo de roubo. Por

que ela faria aquilo? Eu era tão pobre quanto ela. Certamente, aquele “roubo” não iria

para o seu bolso, pois estava registrado, e uma rápida conferência contábil apontaria a

falta, caso ela se apropriasse da quantia surrupiada. Para mim, aquilo simplesmente não

fazia sentido. Minha raiva só aumentava a cada passo que dava. Já quase chegando à

Moradia, lembrei-me do olhar que trocamos. Um frio percorreu-me a espinha! E se ela

fosse obrigada a proceder assim? Não — pensei —, ninguém me forçaria a fazer aquilo.

Se alguém tentasse, eu pediria demissão na hora. Não trabalharia em um local onde o

padrão moral fosse tão baixo!

Meus pensamentos já iam se dispersando quando me ocorreu outra dúvida, ainda

mais incômoda: e se eu fosse casado e tivesse filhos? Será que a decisão seria tão fácil?

Aquela moça deveria ter uns trinta anos. Provavelmente, era casada. Teria filhos? Não sei.

Porém, se aquela fosse sua única fonte de renda, um pedido do patrão, por mais

indecente que fosse, soaria como uma ordem irrecusável. É, a vida não é simples, não.

Naquela altura, como estudante, minhas responsabilidades eram limitadas. Eu podia fazer

escolhas radicais, e o único afetado seria eu mesmo. Talvez aquela funcionária tivesse

que optar entre o certo e o errado, tendo como pano de fundo a sobrevivência dos

próprios filhos. O que eu faria naquela situação?

Gosto de fantasiar que optaria pelo certo. Ah, o autoengano! Sempre imaginamos

ser melhores do que realmente somos. Foi refletindo sobre esse acontecimento, décadas

depois, que compreendi uma das principais razões para a estabilidade dos servidores

públicos de todas as esferas governamentais. Sei que, para muitos cidadãos, a

estabilidade parece um privilégio injustificável. Entretanto, sem ela, multiplicam-se os

incentivos para que servidores cedam a pressões políticas e econômicas. Nenhum

servidor público pode ser coagido a realizar um malfeito por medo de perder seu sustento.

Na eventualidade de um superior hierárquico (ou qualquer indivíduo) assediá-lo para que

cometa um ato ilícito, ele pode simplesmente se recusar. Obviamente, não sejamos

ingênuos: sofrerá outros tipos de retaliação, mas não perderá o emprego e, portanto, não

exporá a família a privações. A estabilidade permite que o servidor público faça sempre o

certo. Quiçá usassem mais esse “superpoder”! Aquela atendente do caixa poderia

racionalizar seu desvio de conduta e até dormir em paz, mas nenhum servidor público

com estabilidade terá aquele atenuante — não lhe restando alternativa senão encarar a

própria pusilanimidade ou mau-caratismo.

Michel Yamagishi

Disponível em: https://jornal.unicamp.br/artigo/2025/12/01/a-estabilidade/.

À luz da norma-padrão e considerando o valor semântico-discursivo dos sinais de pontuação, leia os excertos a seguir, avalie as análises apresentadas e assinale a alternativa INCORRETA:

 

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4178595 Ano: 2026
Disciplina: Português
Banca: UFLA
Orgão: UFLA

A ESTABILIDADE

"Nenhum servidor público pode ser coagido a realizar um malfeito por medo de perder seu sustento"

Nasci em Manaus, em 1971. A Zona Franca tinha apenas 14 anos de existência e

começava a produzir seus efeitos benéficos na cidade. Mesmo sendo muito pobre, desde

que me entendo por gente sempre quis ser cientista. Sonhava em estudar na Unicamp. O

sonho tornou-se realidade em 1991. Como não tinha como pagar aluguel, consegui uma

vaga na Moradia Estudantil da Unicamp, na casa H2. Fazia minhas compras em uma

pequena mercearia. Ia e voltava a pé, com as sacolas contendo, basicamente, miojo,

atum enlatado, leite, achocolatado e bolachas recheadas para o café da manhã. Vida

simples. O dinheiro era literalmente contado para o transporte, a alimentação nos finais de

semana (miojo com atum ou cachorro-quente) e os tíquetes do bandejão. Às vezes,

sobravam alguns trocados, que eu gastava comprando livros nas extintas livrarias do

centro de Campinas.

Como cada centavo fazia diferença, eu sempre prestava muita atenção em onde e

como gastava meus cruzeiros. Lembro-me de uma ocasião em que, ao passar os

produtos pelo caixa do supermercado, acabei perdendo a paciência com a funcionária,

pois, pela milésima vez (obviamente uma hipérbole), precisava reclamar do preço errado.

Porém, o que realmente me tirou do sério foi que a diferença era sempre para mais, nunca

para menos. Erros genuínos têm padrão aleatório: uns para mais; outros, para menos.

Aquilo parecia intencional. Num rompante de raiva, perguntei: “Por que o preço sempre

sai mais caro?”. A moça do caixa não me respondeu. Seus olhos, angustiados e tristes,

encontraram os meus e, em silêncio, ela corrigiu o valor do produto.

Na volta para casa, carregando minhas compras, não parava de pensar no absurdo

daquela situação. Errar o preço para mais, consistentemente, era um tipo de roubo. Por

que ela faria aquilo? Eu era tão pobre quanto ela. Certamente, aquele “roubo” não iria

para o seu bolso, pois estava registrado, e uma rápida conferência contábil apontaria a

falta, caso ela se apropriasse da quantia surrupiada. Para mim, aquilo simplesmente não

fazia sentido. Minha raiva só aumentava a cada passo que dava. Já quase chegando à

Moradia, lembrei-me do olhar que trocamos. Um frio percorreu-me a espinha! E se ela

fosse obrigada a proceder assim? Não — pensei —, ninguém me forçaria a fazer aquilo.

Se alguém tentasse, eu pediria demissão na hora. Não trabalharia em um local onde o

padrão moral fosse tão baixo!

Meus pensamentos já iam se dispersando quando me ocorreu outra dúvida, ainda

mais incômoda: e se eu fosse casado e tivesse filhos? Será que a decisão seria tão fácil?

Aquela moça deveria ter uns trinta anos. Provavelmente, era casada. Teria filhos? Não sei.

Porém, se aquela fosse sua única fonte de renda, um pedido do patrão, por mais

indecente que fosse, soaria como uma ordem irrecusável. É, a vida não é simples, não.

Naquela altura, como estudante, minhas responsabilidades eram limitadas. Eu podia fazer

escolhas radicais, e o único afetado seria eu mesmo. Talvez aquela funcionária tivesse

que optar entre o certo e o errado, tendo como pano de fundo a sobrevivência dos

próprios filhos. O que eu faria naquela situação?

Gosto de fantasiar que optaria pelo certo. Ah, o autoengano! Sempre imaginamos

ser melhores do que realmente somos. Foi refletindo sobre esse acontecimento, décadas

depois, que compreendi uma das principais razões para a estabilidade dos servidores

públicos de todas as esferas governamentais. Sei que, para muitos cidadãos, a

estabilidade parece um privilégio injustificável. Entretanto, sem ela, multiplicam-se os

incentivos para que servidores cedam a pressões políticas e econômicas. Nenhum

servidor público pode ser coagido a realizar um malfeito por medo de perder seu sustento.

Na eventualidade de um superior hierárquico (ou qualquer indivíduo) assediá-lo para que

cometa um ato ilícito, ele pode simplesmente se recusar. Obviamente, não sejamos

ingênuos: sofrerá outros tipos de retaliação, mas não perderá o emprego e, portanto, não

exporá a família a privações. A estabilidade permite que o servidor público faça sempre o

certo. Quiçá usassem mais esse “superpoder”! Aquela atendente do caixa poderia

racionalizar seu desvio de conduta e até dormir em paz, mas nenhum servidor público

com estabilidade terá aquele atenuante — não lhe restando alternativa senão encarar a

própria pusilanimidade ou mau-caratismo.

Michel Yamagishi

Disponível em: https://jornal.unicamp.br/artigo/2025/12/01/a-estabilidade/.

No excerto: “Aquela atendente do caixa poderia racionalizar seu desvio de conduta e até dormir em paz, mas nenhum servidor público com estabilidade terá aquele atenuante — não lhe restando alternativa senão encarar a própria pusilanimidade ou mau-caratismo.” (linhas 51 a 54), o termo ”pusilanimidade” assume o sentido de

 

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4178802 Ano: 2026
Disciplina: Direito Administrativo
Banca: UFLA
Orgão: UFLA
Provas:
A Lei nº 14.133/2021, dispõe acerca das infrações e das sanções administrativas que podem ser impostas a licitante ou a contratado. Considerando essa lei, assinale a alternativa CORRETA:
Questão Anulada

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