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A RAÇA SUPERIOR
Walcyr Carrasco
A espécie humana acredita ser a única inteligente. Puro engano. Há tempos
imemoriais nós, os humanos, fomos derrotados por uma raça superior, muito mais
esperta. Mais que derrotados, fomos domesticados. Pelos cachorros. De fato, sob
qualquer índice de avaliação, a raça canina se mostra superior. Quem convive com um
cão gosta de dizer que é "dono". Como acreditar, se tudo prova que o cachorro é dono do
homem? Na questão da alimentação, por exemplo. Qualquer pessoa gasta dinheiro e
tempo para comprar ração. Analisa os vários tipos e até experimenta uns pedacinhos para
avaliar o sabor. Corre atrás de ossos para proporcionar tardes de degustação ao cachorro.
Compra imitações de borracha. Indústrias pesquisam novas rações nutritivas. Gastam
uma fábula em propaganda. Ou seja: sem levantar uma pata, o cachorro faz com que os
seres humanos trabalhem torrando neurônios, tempo e dinheiro simplesmente para
alimentá-los! Certa vez tive uma cachorrinha que só podia comer arroz com cenoura e
carne moída. Estava sem empregada. Durante um mês levantava uma hora antes,
preparava a comida e saía para trabalhar. Ao voltar, servia uma nova refeição e lavava o
prato. Em troca, ela me lambia os dedos. Eu me sentia no cúmulo da felicidade só de
receber essas lambidinhas! Seja dita a verdade: quem era dono de quem?
E na questão amorosa? Quando gosta de alguém o cão abana o rabo. Pode ser um
desconhecido. Gostou, abanou. Quando está a fim, deita-se de patas para cima e lança
um olhar bem pidoncho. Até o coração mais duro não resiste a dar carinho, coçar as
orelhas, fazer uns afagos. Eu, não. Nunca me deitei de barriga para ficar me oferecendo.
Vontade não faltou, mas e a coragem? Nós, seres humanos, usamos artifícios. Gastamos
dinheiro em perfumes, em cabeleireiros, em dermatologistas. Vamos a happy hours,
jantares, festas, barzinhos da moda, entramos em chats da internet, só para achar quem
nos coce as orelhas. Se alguém faz festa para todo mundo que conhece, rebolando como
um cãozinho, vem o veredicto:
— Ih! Está com carência afetiva.
Toca a procurar terapeuta. Horas e horas dedicadas a analisar a pura vontade de
buscar amor! Revistas dedicam quilômetros de papel a práticas de sedução. Como olhar
de lado, como sorrir, como se oferecer sem dar na vista. Mais: como ter coragem de
expressar os sentimentos. Cachorro, não. Abana o rabo e pronto. Muitas vezes, com
ciúme, já tive vontade de morder alguém. Ao contrário, sorri simpaticamente enquanto o
sangue fervia. Cães não possuem esse tipo de constrangimento. Atiram-se em cima do
rival. Mordem a mão de quem acaricia. Até conseguirem seu quinhão de afeto. Mas
também não guardam raiva. Depois de rosnarem um para o outro, dois cães saem
pulando e brincando juntos. Que espécie sabe lidar melhor com as próprias emoções?
A questão da pele também é importante. Criamos indústrias do vestuário porque
não estamos satisfeitos com a própria pele, e inventamos estratagemas para cobri-la. Boa
parte da humanidade se dedica a fabricar tecidos, a inventar e a vender roupas. Qualquer
pessoa ambiciona se vestir bem. Fortunas são despendidas em novos guarda-roupas. A
moda vira, e toca a gastar tudo outra vez. Cachorro, não. Nasce vestido. Imagine-se
quanto delírio, quanta mão-de-obra seria evitada se o ser humano tivesse a mesma
tranquilidade a respeito da própria aparência.
Chegamos ao X da questão. Criamos filosofias, escrevemos livros. Há quem faça
ioga, meditação. Tudo para aprender a aceitar o fardo da existência. O cão já nasce
aceitando. A vida é e não é, deve pensar o cão, com a sabedoria de um mestre zen. É o
que constato todo dia ao chegar em casa exausto do trabalho, de mau humor com o
chefe, com a fatura do cartão de crédito prestes a me degolar, o cheque especial batendo
as folhas em torno de minhas orelhas como uma ave de rapina.
Sento na varanda e meu cachorro se aproxima. Sem nenhuma preocupação na
vida. Deita-se aos meus pés e prepara-se para receber sua dose cotidiana de carinho. Eu
me submeto. Raça superior é isso aí.
Disponível em: https://comissaodecultura.wordpress.com/wp-content/uploads/2011/06/walcyr-carrasco-pequenos-d elitos-e-outras-crc3b4nicas.pdf (Adaptado).
Todas as alternativas apresentam análises corretas sobre as estratégias humorísticas empregadas, EXCETO:
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A RAÇA SUPERIOR
Walcyr Carrasco
A espécie humana acredita ser a única inteligente. Puro engano. Há tempos
imemoriais nós, os humanos, fomos derrotados por uma raça superior, muito mais
esperta. Mais que derrotados, fomos domesticados. Pelos cachorros. De fato, sob
qualquer índice de avaliação, a raça canina se mostra superior. Quem convive com um
cão gosta de dizer que é "dono". Como acreditar, se tudo prova que o cachorro é dono do
homem? Na questão da alimentação, por exemplo. Qualquer pessoa gasta dinheiro e
tempo para comprar ração. Analisa os vários tipos e até experimenta uns pedacinhos para
avaliar o sabor. Corre atrás de ossos para proporcionar tardes de degustação ao cachorro.
Compra imitações de borracha. Indústrias pesquisam novas rações nutritivas. Gastam
uma fábula em propaganda. Ou seja: sem levantar uma pata, o cachorro faz com que os
seres humanos trabalhem torrando neurônios, tempo e dinheiro simplesmente para
alimentá-los! Certa vez tive uma cachorrinha que só podia comer arroz com cenoura e
carne moída. Estava sem empregada. Durante um mês levantava uma hora antes,
preparava a comida e saía para trabalhar. Ao voltar, servia uma nova refeição e lavava o
prato. Em troca, ela me lambia os dedos. Eu me sentia no cúmulo da felicidade só de
receber essas lambidinhas! Seja dita a verdade: quem era dono de quem?
E na questão amorosa? Quando gosta de alguém o cão abana o rabo. Pode ser um
desconhecido. Gostou, abanou. Quando está a fim, deita-se de patas para cima e lança
um olhar bem pidoncho. Até o coração mais duro não resiste a dar carinho, coçar as
orelhas, fazer uns afagos. Eu, não. Nunca me deitei de barriga para ficar me oferecendo.
Vontade não faltou, mas e a coragem? Nós, seres humanos, usamos artifícios. Gastamos
dinheiro em perfumes, em cabeleireiros, em dermatologistas. Vamos a happy hours,
jantares, festas, barzinhos da moda, entramos em chats da internet, só para achar quem
nos coce as orelhas. Se alguém faz festa para todo mundo que conhece, rebolando como
um cãozinho, vem o veredicto:
— Ih! Está com carência afetiva.
Toca a procurar terapeuta. Horas e horas dedicadas a analisar a pura vontade de
buscar amor! Revistas dedicam quilômetros de papel a práticas de sedução. Como olhar
de lado, como sorrir, como se oferecer sem dar na vista. Mais: como ter coragem de
expressar os sentimentos. Cachorro, não. Abana o rabo e pronto. Muitas vezes, com
ciúme, já tive vontade de morder alguém. Ao contrário, sorri simpaticamente enquanto o
sangue fervia. Cães não possuem esse tipo de constrangimento. Atiram-se em cima do
rival. Mordem a mão de quem acaricia. Até conseguirem seu quinhão de afeto. Mas
também não guardam raiva. Depois de rosnarem um para o outro, dois cães saem
pulando e brincando juntos. Que espécie sabe lidar melhor com as próprias emoções?
A questão da pele também é importante. Criamos indústrias do vestuário porque
não estamos satisfeitos com a própria pele, e inventamos estratagemas para cobri-la. Boa
parte da humanidade se dedica a fabricar tecidos, a inventar e a vender roupas. Qualquer
pessoa ambiciona se vestir bem. Fortunas são despendidas em novos guarda-roupas. A
moda vira, e toca a gastar tudo outra vez. Cachorro, não. Nasce vestido. Imagine-se
quanto delírio, quanta mão-de-obra seria evitada se o ser humano tivesse a mesma
tranquilidade a respeito da própria aparência.
Chegamos ao X da questão. Criamos filosofias, escrevemos livros. Há quem faça
ioga, meditação. Tudo para aprender a aceitar o fardo da existência. O cão já nasce
aceitando. A vida é e não é, deve pensar o cão, com a sabedoria de um mestre zen. É o
que constato todo dia ao chegar em casa exausto do trabalho, de mau humor com o
chefe, com a fatura do cartão de crédito prestes a me degolar, o cheque especial batendo
as folhas em torno de minhas orelhas como uma ave de rapina.
Sento na varanda e meu cachorro se aproxima. Sem nenhuma preocupação na
vida. Deita-se aos meus pés e prepara-se para receber sua dose cotidiana de carinho. Eu
me submeto. Raça superior é isso aí.
Disponível em: https://comissaodecultura.wordpress.com/wp-content/uploads/2011/06/walcyr-carrasco-pequenos-d elitos-e-outras-crc3b4nicas.pdf (Adaptado).
Leia o excerto:
“Chegamos ao X da questão. Criamos filosofias, escrevemos livros. Há quem faça ioga, meditação. Tudo para aprender a aceitar o fardo da existência. O cão já nasce aceitando. A vida é e não é, deve pensar o cão, com a sabedoria de um mestre zen. É o que constato todo dia ao chegar em casa exausto do trabalho, de mau humor com o chefe, com a fatura do cartão de crédito prestes a me degolar, o cheque especial batendo as folhas em torno de minhas orelhas como uma ave de rapina.” (linhas 43 a 48)
Assinale a alternativa que expressa CORRETAMENTE a ideia central desenvolvida no parágrafo:
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A RAÇA SUPERIOR
Walcyr Carrasco
A espécie humana acredita ser a única inteligente. Puro engano. Há tempos
imemoriais nós, os humanos, fomos derrotados por uma raça superior, muito mais
esperta. Mais que derrotados, fomos domesticados. Pelos cachorros. De fato, sob
qualquer índice de avaliação, a raça canina se mostra superior. Quem convive com um
cão gosta de dizer que é "dono". Como acreditar, se tudo prova que o cachorro é dono do
homem? Na questão da alimentação, por exemplo. Qualquer pessoa gasta dinheiro e
tempo para comprar ração. Analisa os vários tipos e até experimenta uns pedacinhos para
avaliar o sabor. Corre atrás de ossos para proporcionar tardes de degustação ao cachorro.
Compra imitações de borracha. Indústrias pesquisam novas rações nutritivas. Gastam
uma fábula em propaganda. Ou seja: sem levantar uma pata, o cachorro faz com que os
seres humanos trabalhem torrando neurônios, tempo e dinheiro simplesmente para
alimentá-los! Certa vez tive uma cachorrinha que só podia comer arroz com cenoura e
carne moída. Estava sem empregada. Durante um mês levantava uma hora antes,
preparava a comida e saía para trabalhar. Ao voltar, servia uma nova refeição e lavava o
prato. Em troca, ela me lambia os dedos. Eu me sentia no cúmulo da felicidade só de
receber essas lambidinhas! Seja dita a verdade: quem era dono de quem?
E na questão amorosa? Quando gosta de alguém o cão abana o rabo. Pode ser um
desconhecido. Gostou, abanou. Quando está a fim, deita-se de patas para cima e lança
um olhar bem pidoncho. Até o coração mais duro não resiste a dar carinho, coçar as
orelhas, fazer uns afagos. Eu, não. Nunca me deitei de barriga para ficar me oferecendo.
Vontade não faltou, mas e a coragem? Nós, seres humanos, usamos artifícios. Gastamos
dinheiro em perfumes, em cabeleireiros, em dermatologistas. Vamos a happy hours,
jantares, festas, barzinhos da moda, entramos em chats da internet, só para achar quem
nos coce as orelhas. Se alguém faz festa para todo mundo que conhece, rebolando como
um cãozinho, vem o veredicto:
— Ih! Está com carência afetiva.
Toca a procurar terapeuta. Horas e horas dedicadas a analisar a pura vontade de
buscar amor! Revistas dedicam quilômetros de papel a práticas de sedução. Como olhar
de lado, como sorrir, como se oferecer sem dar na vista. Mais: como ter coragem de
expressar os sentimentos. Cachorro, não. Abana o rabo e pronto. Muitas vezes, com
ciúme, já tive vontade de morder alguém. Ao contrário, sorri simpaticamente enquanto o
sangue fervia. Cães não possuem esse tipo de constrangimento. Atiram-se em cima do
rival. Mordem a mão de quem acaricia. Até conseguirem seu quinhão de afeto. Mas
também não guardam raiva. Depois de rosnarem um para o outro, dois cães saem
pulando e brincando juntos. Que espécie sabe lidar melhor com as próprias emoções?
A questão da pele também é importante. Criamos indústrias do vestuário porque
não estamos satisfeitos com a própria pele, e inventamos estratagemas para cobri-la. Boa
parte da humanidade se dedica a fabricar tecidos, a inventar e a vender roupas. Qualquer
pessoa ambiciona se vestir bem. Fortunas são despendidas em novos guarda-roupas. A
moda vira, e toca a gastar tudo outra vez. Cachorro, não. Nasce vestido. Imagine-se
quanto delírio, quanta mão-de-obra seria evitada se o ser humano tivesse a mesma
tranquilidade a respeito da própria aparência.
Chegamos ao X da questão. Criamos filosofias, escrevemos livros. Há quem faça
ioga, meditação. Tudo para aprender a aceitar o fardo da existência. O cão já nasce
aceitando. A vida é e não é, deve pensar o cão, com a sabedoria de um mestre zen. É o
que constato todo dia ao chegar em casa exausto do trabalho, de mau humor com o
chefe, com a fatura do cartão de crédito prestes a me degolar, o cheque especial batendo
as folhas em torno de minhas orelhas como uma ave de rapina.
Sento na varanda e meu cachorro se aproxima. Sem nenhuma preocupação na
vida. Deita-se aos meus pés e prepara-se para receber sua dose cotidiana de carinho. Eu
me submeto. Raça superior é isso aí.
Disponível em: https://comissaodecultura.wordpress.com/wp-content/uploads/2011/06/walcyr-carrasco-pequenos-d elitos-e-outras-crc3b4nicas.pdf (Adaptado).
Considerando as construções sintático-semânticas, analise as alternativas e assinale a INCORRETA:
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A RAÇA SUPERIOR
Walcyr Carrasco
A espécie humana acredita ser a única inteligente. Puro engano. Há tempos
imemoriais nós, os humanos, fomos derrotados por uma raça superior, muito mais
esperta. Mais que derrotados, fomos domesticados. Pelos cachorros. De fato, sob
qualquer índice de avaliação, a raça canina se mostra superior. Quem convive com um
cão gosta de dizer que é "dono". Como acreditar, se tudo prova que o cachorro é dono do
homem? Na questão da alimentação, por exemplo. Qualquer pessoa gasta dinheiro e
tempo para comprar ração. Analisa os vários tipos e até experimenta uns pedacinhos para
avaliar o sabor. Corre atrás de ossos para proporcionar tardes de degustação ao cachorro.
Compra imitações de borracha. Indústrias pesquisam novas rações nutritivas. Gastam
uma fábula em propaganda. Ou seja: sem levantar uma pata, o cachorro faz com que os
seres humanos trabalhem torrando neurônios, tempo e dinheiro simplesmente para
alimentá-los! Certa vez tive uma cachorrinha que só podia comer arroz com cenoura e
carne moída. Estava sem empregada. Durante um mês levantava uma hora antes,
preparava a comida e saía para trabalhar. Ao voltar, servia uma nova refeição e lavava o
prato. Em troca, ela me lambia os dedos. Eu me sentia no cúmulo da felicidade só de
receber essas lambidinhas! Seja dita a verdade: quem era dono de quem?
E na questão amorosa? Quando gosta de alguém o cão abana o rabo. Pode ser um
desconhecido. Gostou, abanou. Quando está a fim, deita-se de patas para cima e lança
um olhar bem pidoncho. Até o coração mais duro não resiste a dar carinho, coçar as
orelhas, fazer uns afagos. Eu, não. Nunca me deitei de barriga para ficar me oferecendo.
Vontade não faltou, mas e a coragem? Nós, seres humanos, usamos artifícios. Gastamos
dinheiro em perfumes, em cabeleireiros, em dermatologistas. Vamos a happy hours,
jantares, festas, barzinhos da moda, entramos em chats da internet, só para achar quem
nos coce as orelhas. Se alguém faz festa para todo mundo que conhece, rebolando como
um cãozinho, vem o veredicto:
— Ih! Está com carência afetiva.
Toca a procurar terapeuta. Horas e horas dedicadas a analisar a pura vontade de
buscar amor! Revistas dedicam quilômetros de papel a práticas de sedução. Como olhar
de lado, como sorrir, como se oferecer sem dar na vista. Mais: como ter coragem de
expressar os sentimentos. Cachorro, não. Abana o rabo e pronto. Muitas vezes, com
ciúme, já tive vontade de morder alguém. Ao contrário, sorri simpaticamente enquanto o
sangue fervia. Cães não possuem esse tipo de constrangimento. Atiram-se em cima do
rival. Mordem a mão de quem acaricia. Até conseguirem seu quinhão de afeto. Mas
também não guardam raiva. Depois de rosnarem um para o outro, dois cães saem
pulando e brincando juntos. Que espécie sabe lidar melhor com as próprias emoções?
A questão da pele também é importante. Criamos indústrias do vestuário porque
não estamos satisfeitos com a própria pele, e inventamos estratagemas para cobri-la. Boa
parte da humanidade se dedica a fabricar tecidos, a inventar e a vender roupas. Qualquer
pessoa ambiciona se vestir bem. Fortunas são despendidas em novos guarda-roupas. A
moda vira, e toca a gastar tudo outra vez. Cachorro, não. Nasce vestido. Imagine-se
quanto delírio, quanta mão-de-obra seria evitada se o ser humano tivesse a mesma
tranquilidade a respeito da própria aparência.
Chegamos ao X da questão. Criamos filosofias, escrevemos livros. Há quem faça
ioga, meditação. Tudo para aprender a aceitar o fardo da existência. O cão já nasce
aceitando. A vida é e não é, deve pensar o cão, com a sabedoria de um mestre zen. É o
que constato todo dia ao chegar em casa exausto do trabalho, de mau humor com o
chefe, com a fatura do cartão de crédito prestes a me degolar, o cheque especial batendo
as folhas em torno de minhas orelhas como uma ave de rapina.
Sento na varanda e meu cachorro se aproxima. Sem nenhuma preocupação na
vida. Deita-se aos meus pés e prepara-se para receber sua dose cotidiana de carinho. Eu
me submeto. Raça superior é isso aí.
Disponível em: https://comissaodecultura.wordpress.com/wp-content/uploads/2011/06/walcyr-carrasco-pequenos-d elitos-e-outras-crc3b4nicas.pdf (Adaptado).
Leia os excertos e analise o uso da linguagem informal:
I - “Quando está a fim, deita-se de patas para cima e lança um olhar bem pidoncho.” (linhas 18 e 19)
II - “sem levantar uma pata, o cachorro faz com que os seres humanos trabalhem torrando neurônios, tempo e dinheiro simplesmente para alimentá-los!” (linhas 10 a 12)
III - “Eu me sentia no cúmulo da felicidade só de receber essas lambidinhas!” (linha 15 e 16)
IV - “Se alguém faz festa para todo mundo que conhece, rebolando como um cãozinho, vem o veredicto: — Ih! Está com carência afetiva.” (linhas 24 a 26)
V - “Chegamos ao X da questão.” (linha 43)
Considerando as marcas de oralidade e informalidade presentes nos excertos, assinale a alternativa CORRETA:
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A RAÇA SUPERIOR
Walcyr Carrasco
A espécie humana acredita ser a única inteligente. Puro engano. Há tempos
imemoriais nós, os humanos, fomos derrotados por uma raça superior, muito mais
esperta. Mais que derrotados, fomos domesticados. Pelos cachorros. De fato, sob
qualquer índice de avaliação, a raça canina se mostra superior. Quem convive com um
cão gosta de dizer que é "dono". Como acreditar, se tudo prova que o cachorro é dono do
homem? Na questão da alimentação, por exemplo. Qualquer pessoa gasta dinheiro e
tempo para comprar ração. Analisa os vários tipos e até experimenta uns pedacinhos para
avaliar o sabor. Corre atrás de ossos para proporcionar tardes de degustação ao cachorro.
Compra imitações de borracha. Indústrias pesquisam novas rações nutritivas. Gastam
uma fábula em propaganda. Ou seja: sem levantar uma pata, o cachorro faz com que os
seres humanos trabalhem torrando neurônios, tempo e dinheiro simplesmente para
alimentá-los! Certa vez tive uma cachorrinha que só podia comer arroz com cenoura e
carne moída. Estava sem empregada. Durante um mês levantava uma hora antes,
preparava a comida e saía para trabalhar. Ao voltar, servia uma nova refeição e lavava o
prato. Em troca, ela me lambia os dedos. Eu me sentia no cúmulo da felicidade só de
receber essas lambidinhas! Seja dita a verdade: quem era dono de quem?
E na questão amorosa? Quando gosta de alguém o cão abana o rabo. Pode ser um
desconhecido. Gostou, abanou. Quando está a fim, deita-se de patas para cima e lança
um olhar bem pidoncho. Até o coração mais duro não resiste a dar carinho, coçar as
orelhas, fazer uns afagos. Eu, não. Nunca me deitei de barriga para ficar me oferecendo.
Vontade não faltou, mas e a coragem? Nós, seres humanos, usamos artifícios. Gastamos
dinheiro em perfumes, em cabeleireiros, em dermatologistas. Vamos a happy hours,
jantares, festas, barzinhos da moda, entramos em chats da internet, só para achar quem
nos coce as orelhas. Se alguém faz festa para todo mundo que conhece, rebolando como
um cãozinho, vem o veredicto:
— Ih! Está com carência afetiva.
Toca a procurar terapeuta. Horas e horas dedicadas a analisar a pura vontade de
buscar amor! Revistas dedicam quilômetros de papel a práticas de sedução. Como olhar
de lado, como sorrir, como se oferecer sem dar na vista. Mais: como ter coragem de
expressar os sentimentos. Cachorro, não. Abana o rabo e pronto. Muitas vezes, com
ciúme, já tive vontade de morder alguém. Ao contrário, sorri simpaticamente enquanto o
sangue fervia. Cães não possuem esse tipo de constrangimento. Atiram-se em cima do
rival. Mordem a mão de quem acaricia. Até conseguirem seu quinhão de afeto. Mas
também não guardam raiva. Depois de rosnarem um para o outro, dois cães saem
pulando e brincando juntos. Que espécie sabe lidar melhor com as próprias emoções?
A questão da pele também é importante. Criamos indústrias do vestuário porque
não estamos satisfeitos com a própria pele, e inventamos estratagemas para cobri-la. Boa
parte da humanidade se dedica a fabricar tecidos, a inventar e a vender roupas. Qualquer
pessoa ambiciona se vestir bem. Fortunas são despendidas em novos guarda-roupas. A
moda vira, e toca a gastar tudo outra vez. Cachorro, não. Nasce vestido. Imagine-se
quanto delírio, quanta mão-de-obra seria evitada se o ser humano tivesse a mesma
tranquilidade a respeito da própria aparência.
Chegamos ao X da questão. Criamos filosofias, escrevemos livros. Há quem faça
ioga, meditação. Tudo para aprender a aceitar o fardo da existência. O cão já nasce
aceitando. A vida é e não é, deve pensar o cão, com a sabedoria de um mestre zen. É o
que constato todo dia ao chegar em casa exausto do trabalho, de mau humor com o
chefe, com a fatura do cartão de crédito prestes a me degolar, o cheque especial batendo
as folhas em torno de minhas orelhas como uma ave de rapina.
Sento na varanda e meu cachorro se aproxima. Sem nenhuma preocupação na
vida. Deita-se aos meus pés e prepara-se para receber sua dose cotidiana de carinho. Eu
me submeto. Raça superior é isso aí.
Disponível em: https://comissaodecultura.wordpress.com/wp-content/uploads/2011/06/walcyr-carrasco-pequenos-d elitos-e-outras-crc3b4nicas.pdf (Adaptado).
Considerando a ideia central da crônica “A Raça Superior”, assinale a alternativa CORRETA:
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A ESTABILIDADE
"Nenhum servidor público pode ser coagido a realizar um malfeito por medo de perder seu sustento"
Nasci em Manaus, em 1971. A Zona Franca tinha apenas 14 anos de existência e
começava a produzir seus efeitos benéficos na cidade. Mesmo sendo muito pobre, desde
que me entendo por gente sempre quis ser cientista. Sonhava em estudar na Unicamp. O
sonho tornou-se realidade em 1991. Como não tinha como pagar aluguel, consegui uma
vaga na Moradia Estudantil da Unicamp, na casa H2. Fazia minhas compras em uma
pequena mercearia. Ia e voltava a pé, com as sacolas contendo, basicamente, miojo,
atum enlatado, leite, achocolatado e bolachas recheadas para o café da manhã. Vida
simples. O dinheiro era literalmente contado para o transporte, a alimentação nos finais de
semana (miojo com atum ou cachorro-quente) e os tíquetes do bandejão. Às vezes,
sobravam alguns trocados, que eu gastava comprando livros nas extintas livrarias do
centro de Campinas.
Como cada centavo fazia diferença, eu sempre prestava muita atenção em onde e
como gastava meus cruzeiros. Lembro-me de uma ocasião em que, ao passar os
produtos pelo caixa do supermercado, acabei perdendo a paciência com a funcionária,
pois, pela milésima vez (obviamente uma hipérbole), precisava reclamar do preço errado.
Porém, o que realmente me tirou do sério foi que a diferença era sempre para mais, nunca
para menos. Erros genuínos têm padrão aleatório: uns para mais; outros, para menos.
Aquilo parecia intencional. Num rompante de raiva, perguntei: “Por que o preço sempre
sai mais caro?”. A moça do caixa não me respondeu. Seus olhos, angustiados e tristes,
encontraram os meus e, em silêncio, ela corrigiu o valor do produto.
Na volta para casa, carregando minhas compras, não parava de pensar no absurdo
daquela situação. Errar o preço para mais, consistentemente, era um tipo de roubo. Por
que ela faria aquilo? Eu era tão pobre quanto ela. Certamente, aquele “roubo” não iria
para o seu bolso, pois estava registrado, e uma rápida conferência contábil apontaria a
falta, caso ela se apropriasse da quantia surrupiada. Para mim, aquilo simplesmente não
fazia sentido. Minha raiva só aumentava a cada passo que dava. Já quase chegando à
Moradia, lembrei-me do olhar que trocamos. Um frio percorreu-me a espinha! E se ela
fosse obrigada a proceder assim? Não — pensei —, ninguém me forçaria a fazer aquilo.
Se alguém tentasse, eu pediria demissão na hora. Não trabalharia em um local onde o
padrão moral fosse tão baixo!
Meus pensamentos já iam se dispersando quando me ocorreu outra dúvida, ainda
mais incômoda: e se eu fosse casado e tivesse filhos? Será que a decisão seria tão fácil?
Aquela moça deveria ter uns trinta anos. Provavelmente, era casada. Teria filhos? Não sei.
Porém, se aquela fosse sua única fonte de renda, um pedido do patrão, por mais
indecente que fosse, soaria como uma ordem irrecusável. É, a vida não é simples, não.
Naquela altura, como estudante, minhas responsabilidades eram limitadas. Eu podia fazer
escolhas radicais, e o único afetado seria eu mesmo. Talvez aquela funcionária tivesse
que optar entre o certo e o errado, tendo como pano de fundo a sobrevivência dos
próprios filhos. O que eu faria naquela situação?
Gosto de fantasiar que optaria pelo certo. Ah, o autoengano! Sempre imaginamos
ser melhores do que realmente somos. Foi refletindo sobre esse acontecimento, décadas
depois, que compreendi uma das principais razões para a estabilidade dos servidores
públicos de todas as esferas governamentais. Sei que, para muitos cidadãos, a
estabilidade parece um privilégio injustificável. Entretanto, sem ela, multiplicam-se os
incentivos para que servidores cedam a pressões políticas e econômicas. Nenhum
servidor público pode ser coagido a realizar um malfeito por medo de perder seu sustento.
Na eventualidade de um superior hierárquico (ou qualquer indivíduo) assediá-lo para que
cometa um ato ilícito, ele pode simplesmente se recusar. Obviamente, não sejamos
ingênuos: sofrerá outros tipos de retaliação, mas não perderá o emprego e, portanto, não
exporá a família a privações. A estabilidade permite que o servidor público faça sempre o
certo. Quiçá usassem mais esse “superpoder”! Aquela atendente do caixa poderia
racionalizar seu desvio de conduta e até dormir em paz, mas nenhum servidor público
com estabilidade terá aquele atenuante — não lhe restando alternativa senão encarar a
própria pusilanimidade ou mau-caratismo.
Michel Yamagishi
Disponível em: https://jornal.unicamp.br/artigo/2025/12/01/a-estabilidade/.
Considerando os mecanismos de coesão referencial empregados no texto lido, leia os excertos a seguir, avalie as análises apresentadas e assinale a alternativa INCORRETA:
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A ESTABILIDADE
"Nenhum servidor público pode ser coagido a realizar um malfeito por medo de perder seu sustento"
Nasci em Manaus, em 1971. A Zona Franca tinha apenas 14 anos de existência e
começava a produzir seus efeitos benéficos na cidade. Mesmo sendo muito pobre, desde
que me entendo por gente sempre quis ser cientista. Sonhava em estudar na Unicamp. O
sonho tornou-se realidade em 1991. Como não tinha como pagar aluguel, consegui uma
vaga na Moradia Estudantil da Unicamp, na casa H2. Fazia minhas compras em uma
pequena mercearia. Ia e voltava a pé, com as sacolas contendo, basicamente, miojo,
atum enlatado, leite, achocolatado e bolachas recheadas para o café da manhã. Vida
simples. O dinheiro era literalmente contado para o transporte, a alimentação nos finais de
semana (miojo com atum ou cachorro-quente) e os tíquetes do bandejão. Às vezes,
sobravam alguns trocados, que eu gastava comprando livros nas extintas livrarias do
centro de Campinas.
Como cada centavo fazia diferença, eu sempre prestava muita atenção em onde e
como gastava meus cruzeiros. Lembro-me de uma ocasião em que, ao passar os
produtos pelo caixa do supermercado, acabei perdendo a paciência com a funcionária,
pois, pela milésima vez (obviamente uma hipérbole), precisava reclamar do preço errado.
Porém, o que realmente me tirou do sério foi que a diferença era sempre para mais, nunca
para menos. Erros genuínos têm padrão aleatório: uns para mais; outros, para menos.
Aquilo parecia intencional. Num rompante de raiva, perguntei: “Por que o preço sempre
sai mais caro?”. A moça do caixa não me respondeu. Seus olhos, angustiados e tristes,
encontraram os meus e, em silêncio, ela corrigiu o valor do produto.
Na volta para casa, carregando minhas compras, não parava de pensar no absurdo
daquela situação. Errar o preço para mais, consistentemente, era um tipo de roubo. Por
que ela faria aquilo? Eu era tão pobre quanto ela. Certamente, aquele “roubo” não iria
para o seu bolso, pois estava registrado, e uma rápida conferência contábil apontaria a
falta, caso ela se apropriasse da quantia surrupiada. Para mim, aquilo simplesmente não
fazia sentido. Minha raiva só aumentava a cada passo que dava. Já quase chegando à
Moradia, lembrei-me do olhar que trocamos. Um frio percorreu-me a espinha! E se ela
fosse obrigada a proceder assim? Não — pensei —, ninguém me forçaria a fazer aquilo.
Se alguém tentasse, eu pediria demissão na hora. Não trabalharia em um local onde o
padrão moral fosse tão baixo!
Meus pensamentos já iam se dispersando quando me ocorreu outra dúvida, ainda
mais incômoda: e se eu fosse casado e tivesse filhos? Será que a decisão seria tão fácil?
Aquela moça deveria ter uns trinta anos. Provavelmente, era casada. Teria filhos? Não sei.
Porém, se aquela fosse sua única fonte de renda, um pedido do patrão, por mais
indecente que fosse, soaria como uma ordem irrecusável. É, a vida não é simples, não.
Naquela altura, como estudante, minhas responsabilidades eram limitadas. Eu podia fazer
escolhas radicais, e o único afetado seria eu mesmo. Talvez aquela funcionária tivesse
que optar entre o certo e o errado, tendo como pano de fundo a sobrevivência dos
próprios filhos. O que eu faria naquela situação?
Gosto de fantasiar que optaria pelo certo. Ah, o autoengano! Sempre imaginamos
ser melhores do que realmente somos. Foi refletindo sobre esse acontecimento, décadas
depois, que compreendi uma das principais razões para a estabilidade dos servidores
públicos de todas as esferas governamentais. Sei que, para muitos cidadãos, a
estabilidade parece um privilégio injustificável. Entretanto, sem ela, multiplicam-se os
incentivos para que servidores cedam a pressões políticas e econômicas. Nenhum
servidor público pode ser coagido a realizar um malfeito por medo de perder seu sustento.
Na eventualidade de um superior hierárquico (ou qualquer indivíduo) assediá-lo para que
cometa um ato ilícito, ele pode simplesmente se recusar. Obviamente, não sejamos
ingênuos: sofrerá outros tipos de retaliação, mas não perderá o emprego e, portanto, não
exporá a família a privações. A estabilidade permite que o servidor público faça sempre o
certo. Quiçá usassem mais esse “superpoder”! Aquela atendente do caixa poderia
racionalizar seu desvio de conduta e até dormir em paz, mas nenhum servidor público
com estabilidade terá aquele atenuante — não lhe restando alternativa senão encarar a
própria pusilanimidade ou mau-caratismo.
Michel Yamagishi
Disponível em: https://jornal.unicamp.br/artigo/2025/12/01/a-estabilidade/.
À luz das estratégias argumentativas utilizadas para sustentar o posicionamento do autor em defesa da estabilidade, leia os excertos a seguir e avalie as análises apresentadas:
I – “Nasci em Manaus, em 1971. A Zona Franca tinha apenas 14 anos de existência e começava a produzir seus efeitos benéficos na cidade. Mesmo sendo muito pobre, desde que me entendo por gente sempre quis ser cientista. Sonhava em estudar na Unicamp. O sonho tornou-se realidade em 1991.” (linhas 1 a 4) ⇒ Argumento de autoridade: o narrador-autor, com base no prestígio associado ao fato de ter estudado na Unicamp e de ser cientista, busca legitimar o seu ponto de vista, fazendo de sua formação acadêmica o principal fundamento da tese sobre a estabilidade.
II – “Lembro-me de uma ocasião em que, ao passar os produtos pelo caixa do supermercado, acabei perdendo a paciência com a funcionária, pois, pela milésima vez (obviamente uma hipérbole), precisava reclamar do preço errado.” (linhas 13 a 15) ⇒ Argumento por exemplificação: o episódio relatado é um caso, que ilustra a situação de trabalhadores submetidos a ordens questionáveis, servindo de base para a reflexão sobre coação econômica e para a defesa da estabilidade como mecanismo de proteção da ética no serviço público.
III – “Meus pensamentos já iam se dispersando quando me ocorreu outra dúvida, ainda mais incômoda: e se eu fosse casado e tivesse filhos? Será que a decisão seria tão fácil?” (linhas 31 e 32) ⇒ Raciocínio hipotético/contrafactual: ao se imaginar em outra condição (casado, com filhos), o narrador complexifica seu juízo inicial e introduz um cenário hipotético que evidencia o peso das responsabilidades familiares nas decisões éticas.
IV – “Sei que, para muitos cidadãos, a estabilidade parece um privilégio injustificável. Entretanto, sem ela, multiplicam-se os incentivos para que servidores cedam a pressões políticas e econômicas.” (linhas 43 a 45) ⇒ Argumento de causa e consequência: o autor menciona uma objeção à estabilidade e, em seguida, relaciona a ausência desse direito ao aumento de pressões indevidas sobre o servidor, estabelecendo um nexo causal entre falta de estabilidade e vulnerabilidade ética.
V – “Na volta para casa, carregando minhas compras, não parava de pensar no absurdo daquela situação. Errar o preço para mais, consistentemente, era um tipo de roubo. Por que ela faria aquilo? Eu era tão pobre quanto ela.” (linhas 21 a 23) ⇒ Argumento por generalização: ao considerar que o erro constante “para mais” configura “um tipo de roubo” e lembrar que também era pobre, o narrador formula uma conclusão geral sobre a desonestidade da funcionária, estendendo aquele caso específico a um julgamento amplo sobre o comportamento de trabalhadores em situação semelhante.
Assinale a alternativa CORRETA:
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A ESTABILIDADE
"Nenhum servidor público pode ser coagido a realizar um malfeito por medo de perder seu sustento"
Nasci em Manaus, em 1971. A Zona Franca tinha apenas 14 anos de existência e
começava a produzir seus efeitos benéficos na cidade. Mesmo sendo muito pobre, desde
que me entendo por gente sempre quis ser cientista. Sonhava em estudar na Unicamp. O
sonho tornou-se realidade em 1991. Como não tinha como pagar aluguel, consegui uma
vaga na Moradia Estudantil da Unicamp, na casa H2. Fazia minhas compras em uma
pequena mercearia. Ia e voltava a pé, com as sacolas contendo, basicamente, miojo,
atum enlatado, leite, achocolatado e bolachas recheadas para o café da manhã. Vida
simples. O dinheiro era literalmente contado para o transporte, a alimentação nos finais de
semana (miojo com atum ou cachorro-quente) e os tíquetes do bandejão. Às vezes,
sobravam alguns trocados, que eu gastava comprando livros nas extintas livrarias do
centro de Campinas.
Como cada centavo fazia diferença, eu sempre prestava muita atenção em onde e
como gastava meus cruzeiros. Lembro-me de uma ocasião em que, ao passar os
produtos pelo caixa do supermercado, acabei perdendo a paciência com a funcionária,
pois, pela milésima vez (obviamente uma hipérbole), precisava reclamar do preço errado.
Porém, o que realmente me tirou do sério foi que a diferença era sempre para mais, nunca
para menos. Erros genuínos têm padrão aleatório: uns para mais; outros, para menos.
Aquilo parecia intencional. Num rompante de raiva, perguntei: “Por que o preço sempre
sai mais caro?”. A moça do caixa não me respondeu. Seus olhos, angustiados e tristes,
encontraram os meus e, em silêncio, ela corrigiu o valor do produto.
Na volta para casa, carregando minhas compras, não parava de pensar no absurdo
daquela situação. Errar o preço para mais, consistentemente, era um tipo de roubo. Por
que ela faria aquilo? Eu era tão pobre quanto ela. Certamente, aquele “roubo” não iria
para o seu bolso, pois estava registrado, e uma rápida conferência contábil apontaria a
falta, caso ela se apropriasse da quantia surrupiada. Para mim, aquilo simplesmente não
fazia sentido. Minha raiva só aumentava a cada passo que dava. Já quase chegando à
Moradia, lembrei-me do olhar que trocamos. Um frio percorreu-me a espinha! E se ela
fosse obrigada a proceder assim? Não — pensei —, ninguém me forçaria a fazer aquilo.
Se alguém tentasse, eu pediria demissão na hora. Não trabalharia em um local onde o
padrão moral fosse tão baixo!
Meus pensamentos já iam se dispersando quando me ocorreu outra dúvida, ainda
mais incômoda: e se eu fosse casado e tivesse filhos? Será que a decisão seria tão fácil?
Aquela moça deveria ter uns trinta anos. Provavelmente, era casada. Teria filhos? Não sei.
Porém, se aquela fosse sua única fonte de renda, um pedido do patrão, por mais
indecente que fosse, soaria como uma ordem irrecusável. É, a vida não é simples, não.
Naquela altura, como estudante, minhas responsabilidades eram limitadas. Eu podia fazer
escolhas radicais, e o único afetado seria eu mesmo. Talvez aquela funcionária tivesse
que optar entre o certo e o errado, tendo como pano de fundo a sobrevivência dos
próprios filhos. O que eu faria naquela situação?
Gosto de fantasiar que optaria pelo certo. Ah, o autoengano! Sempre imaginamos
ser melhores do que realmente somos. Foi refletindo sobre esse acontecimento, décadas
depois, que compreendi uma das principais razões para a estabilidade dos servidores
públicos de todas as esferas governamentais. Sei que, para muitos cidadãos, a
estabilidade parece um privilégio injustificável. Entretanto, sem ela, multiplicam-se os
incentivos para que servidores cedam a pressões políticas e econômicas. Nenhum
servidor público pode ser coagido a realizar um malfeito por medo de perder seu sustento.
Na eventualidade de um superior hierárquico (ou qualquer indivíduo) assediá-lo para que
cometa um ato ilícito, ele pode simplesmente se recusar. Obviamente, não sejamos
ingênuos: sofrerá outros tipos de retaliação, mas não perderá o emprego e, portanto, não
exporá a família a privações. A estabilidade permite que o servidor público faça sempre o
certo. Quiçá usassem mais esse “superpoder”! Aquela atendente do caixa poderia
racionalizar seu desvio de conduta e até dormir em paz, mas nenhum servidor público
com estabilidade terá aquele atenuante — não lhe restando alternativa senão encarar a
própria pusilanimidade ou mau-caratismo.
Michel Yamagishi
Disponível em: https://jornal.unicamp.br/artigo/2025/12/01/a-estabilidade/.
À luz da norma-padrão e considerando o valor semântico-discursivo dos sinais de pontuação, leia os excertos a seguir, avalie as análises apresentadas e assinale a alternativa INCORRETA:
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A ESTABILIDADE
"Nenhum servidor público pode ser coagido a realizar um malfeito por medo de perder seu sustento"
Nasci em Manaus, em 1971. A Zona Franca tinha apenas 14 anos de existência e
começava a produzir seus efeitos benéficos na cidade. Mesmo sendo muito pobre, desde
que me entendo por gente sempre quis ser cientista. Sonhava em estudar na Unicamp. O
sonho tornou-se realidade em 1991. Como não tinha como pagar aluguel, consegui uma
vaga na Moradia Estudantil da Unicamp, na casa H2. Fazia minhas compras em uma
pequena mercearia. Ia e voltava a pé, com as sacolas contendo, basicamente, miojo,
atum enlatado, leite, achocolatado e bolachas recheadas para o café da manhã. Vida
simples. O dinheiro era literalmente contado para o transporte, a alimentação nos finais de
semana (miojo com atum ou cachorro-quente) e os tíquetes do bandejão. Às vezes,
sobravam alguns trocados, que eu gastava comprando livros nas extintas livrarias do
centro de Campinas.
Como cada centavo fazia diferença, eu sempre prestava muita atenção em onde e
como gastava meus cruzeiros. Lembro-me de uma ocasião em que, ao passar os
produtos pelo caixa do supermercado, acabei perdendo a paciência com a funcionária,
pois, pela milésima vez (obviamente uma hipérbole), precisava reclamar do preço errado.
Porém, o que realmente me tirou do sério foi que a diferença era sempre para mais, nunca
para menos. Erros genuínos têm padrão aleatório: uns para mais; outros, para menos.
Aquilo parecia intencional. Num rompante de raiva, perguntei: “Por que o preço sempre
sai mais caro?”. A moça do caixa não me respondeu. Seus olhos, angustiados e tristes,
encontraram os meus e, em silêncio, ela corrigiu o valor do produto.
Na volta para casa, carregando minhas compras, não parava de pensar no absurdo
daquela situação. Errar o preço para mais, consistentemente, era um tipo de roubo. Por
que ela faria aquilo? Eu era tão pobre quanto ela. Certamente, aquele “roubo” não iria
para o seu bolso, pois estava registrado, e uma rápida conferência contábil apontaria a
falta, caso ela se apropriasse da quantia surrupiada. Para mim, aquilo simplesmente não
fazia sentido. Minha raiva só aumentava a cada passo que dava. Já quase chegando à
Moradia, lembrei-me do olhar que trocamos. Um frio percorreu-me a espinha! E se ela
fosse obrigada a proceder assim? Não — pensei —, ninguém me forçaria a fazer aquilo.
Se alguém tentasse, eu pediria demissão na hora. Não trabalharia em um local onde o
padrão moral fosse tão baixo!
Meus pensamentos já iam se dispersando quando me ocorreu outra dúvida, ainda
mais incômoda: e se eu fosse casado e tivesse filhos? Será que a decisão seria tão fácil?
Aquela moça deveria ter uns trinta anos. Provavelmente, era casada. Teria filhos? Não sei.
Porém, se aquela fosse sua única fonte de renda, um pedido do patrão, por mais
indecente que fosse, soaria como uma ordem irrecusável. É, a vida não é simples, não.
Naquela altura, como estudante, minhas responsabilidades eram limitadas. Eu podia fazer
escolhas radicais, e o único afetado seria eu mesmo. Talvez aquela funcionária tivesse
que optar entre o certo e o errado, tendo como pano de fundo a sobrevivência dos
próprios filhos. O que eu faria naquela situação?
Gosto de fantasiar que optaria pelo certo. Ah, o autoengano! Sempre imaginamos
ser melhores do que realmente somos. Foi refletindo sobre esse acontecimento, décadas
depois, que compreendi uma das principais razões para a estabilidade dos servidores
públicos de todas as esferas governamentais. Sei que, para muitos cidadãos, a
estabilidade parece um privilégio injustificável. Entretanto, sem ela, multiplicam-se os
incentivos para que servidores cedam a pressões políticas e econômicas. Nenhum
servidor público pode ser coagido a realizar um malfeito por medo de perder seu sustento.
Na eventualidade de um superior hierárquico (ou qualquer indivíduo) assediá-lo para que
cometa um ato ilícito, ele pode simplesmente se recusar. Obviamente, não sejamos
ingênuos: sofrerá outros tipos de retaliação, mas não perderá o emprego e, portanto, não
exporá a família a privações. A estabilidade permite que o servidor público faça sempre o
certo. Quiçá usassem mais esse “superpoder”! Aquela atendente do caixa poderia
racionalizar seu desvio de conduta e até dormir em paz, mas nenhum servidor público
com estabilidade terá aquele atenuante — não lhe restando alternativa senão encarar a
própria pusilanimidade ou mau-caratismo.
Michel Yamagishi
Disponível em: https://jornal.unicamp.br/artigo/2025/12/01/a-estabilidade/.
No excerto: “Aquela atendente do caixa poderia racionalizar seu desvio de conduta e até dormir em paz, mas nenhum servidor público com estabilidade terá aquele atenuante — não lhe restando alternativa senão encarar a própria pusilanimidade ou mau-caratismo.” (linhas 51 a 54), o termo ”pusilanimidade” assume o sentido de
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